GEOCRUSOE
impressões de um geólogo amante de livros e música erudita que vive numa ilha vulcânica bela e cosmopolita
segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
"Junto ao Mar" de Abdulrazak Gurnah
domingo, 4 de janeiro de 2026
"Os Informadores" de Juan Gabriel Vásquez
Citação
"Porque as falhas herdam-se; e herda-se a culpa; cada um paga pelo que fizeram os seus antepassados, isso toda a gente sabe."
Estreei-me na leitura do escritor colombiano: Juan Gabriel Vásquez, com o presente romance "Os Informadores", país que conheço muito mal e de quem lera apenas obras do famoso Gabriel García Marquez.
Gabriel Santoro publica um livro baseado nas memórias que gravou de uma amiga de família sobre a vida na Colômbia da comunidade alemã refugiada ou imigrada naquele país que depois se tornou alvo de discriminação durante a II grande guerra, mas estava longe de prever que o principal detrator público da obra seria o seu homónimo pai, uma personalidade influente que chega ao corte de relações, até ao dia em que a doença deste o obriga a aproximar-se do filho, mas a sua morte inesperada é seguida de um escândalo sobre a ética do seu passado, começa então a buscar o que causou incómodo a partir da sua amiga, descobre então que a sua obra recordou traições e erros de cuja mancha se sente herdeiro.
O livro está dividido em várias partes, na primeira descobrimos o conteúdo da obra que Gabriel publicara e o que era a sociedade colombiana nas décadas de 1930/40, acompanhado da busca em compreender a aversão do pai ao seu conteúdo, a aproximação familiar com a doença e o renascer do progenitor. Após a morte de Santoro sénior, ele descobre o que não lhe fora comunicado antes pela sua fonte, o incómodo e a vergonha que o livro trazia à memória do pai, uma referência pública de ética, o que origina um segundo livro. Por fim, fruto dos livros, dá-se o encontro com as vítimas e a análise das feridas que ainda persistiam.
O texto divide-se entre o tom de memórias, com relatos do passado, reflexões das personagens sobre o essa época e a realidade social da Colômbia durante a guerra e hoje, bem como o evoluir da situação no presente em resultado do livro, é uma narrativa exposta de uma forma original, que intercala factos históricos, com personagens fictícias e reais, entusiasmei-me menos do que a obra merece, talvez por a ter lido no período natalício, pois reconheço a grande qualidade do romance e deixou-me curiosidade suficiente para querer voltar ao escritor que me parece ser uma alguém emergente e original na literatura latinoamericana atual.
sábado, 13 de dezembro de 2025
"O Tempo Envelhece Depressa" de Antonio Tabucchi
terça-feira, 9 de dezembro de 2025
"A Matéria das Estrelas" de Isabel Rio Novo
quarta-feira, 3 de dezembro de 2025
Herscht 07769 de László Krasznahorkai
"...porque as pessoas não têm medo do que deviam ter, mas do que não deviam ter"
Há certos autores que, antes de se tornarem amplamente conhecidos, eu fui informado do seu valor, mas tive medo de ler. O húngaro László Krasznahorkai, vencedor do prémio Nobel da literatura de 2025, foi um desses casos, logo depois de galardoado procurei a obra antes recomendada, mas já estava esgotada, entretanto, acabara de sair um dos seus romances mais recentes Herscht 07769 e aventurei-me.
Fabian Herscht é um simplório, um órfão que foi acolhido por Boss, este é um fanático por Bach, lidera um grupo de neonazis, criou uma orquestra dedicada ao seu compositor e tem uma empresa de limpeza de grafitis em Kana, na Turíngia. De dia Fabian elimina grafitis nas cidades com o patrão, que utiliza para com ele violência, mas a quem Fabian dispensa uma subserviência por o ter tirado do orfanato, nos tempos livres ensaia Bach e convive com os vizinhos que se afeiçoam a ele, apesar de detestarem o patrão. Köhler, um meteorologista, explica a Fabian que o universo se gerou de um defeito de simetria pelo excesso de uma partícula de matéria face às de antimatéria, este deduz que um novo acidente de partículas pode destruir o universo e começa a escrever compulsivamente, como Herscht 07769, à chanceler Angela Merkel para ela agir, mas surgem grafitis de lobos nos imóveis associados a Bach, exasperando Boss, até que lobos reais atacam na cidade, o pânico instala-se, atentados bombistas surgem e o bom Fabian cruza-se com provas que o levam a agir fria e metodicamente.
À semelhança de Énard, Krasznahorkai escreve este romance num único parágrafo, as frases surgem como pinceladas sucessivas e montam o dia a dia de Herscht, de Boss, dos amigos e da cidade, bem como as ideias de cada um, de Kana, da Turíngia e da Alemanha. Boss é um grande utilizador de calão que é sempre abreviado por consoantes que permitem deduzir o vernáculo usado e a trama evolui lentamente, com ações repetitivas, mas o tom satírico alivia o marasmo da primeira metade do livro que desalenta a leitura, na segunda, surgem momentos de grande vivacidade, perseguições como cenas policiais que mostram a versatilidade desta escrita.
A obra parece uma sátira dos medos da sociedade contemporânea europeia, habituada às conveniências de delegar a estabilidade social e o bem-estar no poder político, quando os verdadeiros males estão ao lado e nos passam despercebidos, até que estes despertam e tudo se desfaz. Não é um livro fácil de ler, sobretudo até atingir um ritmo vertiginoso que o tornam num thriller com uma escrita emaranhada que flui para um final surpreendente.
sábado, 15 de novembro de 2025
"Solitária" de Eliane Alves Cruz
terça-feira, 11 de novembro de 2025
"O último Avô" de Afonso Reis Cabral
Há já algum tempo que tinha curiosidade em descobrir os dotes de escrita deste descendente direto de Eça de Queirós, tive interesse nalgumas obras dele mas não cheguei a comprar, talvez por serem obras baseadas em personagens reais e temia serem deprimentes, mas desta vez fiquei desperto mal este romance saiu: "O último avô" de Afonso Reis Cabral.
Augusto Campelo é um escritor idoso reconhecido, mas de grande prepotência em família. Este decide queimar o manuscrito do que talvez fosse a sua obra magistral sobre o seu passado longínquo na guerra de Angola, o seu neto Augusto, seu grande admirador e que lhe segue as pisadas, é chamado, mas pouco depois o avô morre e deixa-o testamenteiro do seu legado. Começa a busca da provável existência de um original escondido em casa, vêm-lhe à memória o que o velho lhe contara sobre África, as recordações sobre sua mãe há muito morta que fugira para se libertar da força do pai que admirara e conhecera as narrativas da guerra. Recorda-se do papel da avó de equilibrar a força do marido, o peso social do sucesso e as tensões familiares . A morte do autor leva a novas pressões do mundo literário, da amante do avô e dos familiares sobre o que estaria no manuscrito e a necessidade de o publicar. Será que África teria assistido a um herói ou um carrasco que destruiria o bom nome que ao neto cabe proteger.
Afonso Reis Cabral não é uma réplica do seu trisavô, aliás a necessidade de alguém ser igual a si próprio e não uma cópia de um génio familiar é magnificamente trabalhada no romance. Escrito e narrado num estilo atual, o autor escreve bem, o romance cativa logo no início, depois entra-se num labirinto de memórias que cruzam três gerações, lugares diferentes e realidades distantes que no fim se entroncam num final surpreendente, cheio de revelações que mostram a distância que pode existir entre a imagem de um génio e a sua personalidade.
Fácil de ler, gostei e recomendo a qualquer tipo de leitor.
sábado, 1 de novembro de 2025
"Sensibilidade e Bom Senso" de Jane Austen
Acabei de ler "Sensibilidade e Bom Senso" da escritora inglesa do início do século XIX Jane Austen, apesar de se situar entre os escritores mais importantes daquele século, esta foi a minha obra de estreia na autora.
Eliane e Marianne são duas irmãs de comportamento distinto, a primeira racional ou sensata e a segunda romântica ou sensível, vivem com os pais, só que por morte do progenitor a casa e o dinheiro passam a pertencer maioritariamente ao meio irmão mais velho como primogénito. Este encontra-se casado com uma mulher ciosa da herança do sogro, o que leva a madrasta e suas filhas a terem de partir para outro condado para uma casa mais em conta e a uma gestão apertada dos rendimentos. Eliane tem uma paixão mal disfarçada pelo cunhado do irmão que também não assume o seu amor por ela, mas ambos mantêm o relacionamento num estado de letargia escondido dos olhos sociais. Marianne conhece Edward por quem se apaixona perdidamente e este também exibe a sua paixão, ambos de forma descuidada, enquanto outro vizinho mais velho nutre um amor por esta de forma discreta. Entre gestão de interesses de riquezas por casamento, traições, confusões e gestão racional ou irracional de paixões, a situação complica-se, sobretudo para Marianne, enquanto Eliane traz o bom-senso e cuida da irmã, mas quando tudo parece perdido a razão mostra-se superior para um inesperado final da obra.
A obra faz um retrato da época e da vida dos estratos sociais médio-alto a alto, em que a racionalismo e o romantismo estão em confronto, quando as mulheres estão fortemente dependentes dos maridos, numa classe onde os casamentos eram frequentemente por interesse e o amor pouco contava na família para este tipo de união.
Uma escrita lúcida, elegante, mais descritiva do que criativa e fortemente temperada pelo ângulo feminino, numa época em que ser mulher e escritora era praticamente impossível e só concretizada por alguém que pela sua qualidade narrativa e tato conseguiu se impor no panorama cultural, pela sua genialidade de retratar tensões de conveniência social, sensibilidade e de moralidade, bem como a arte de sobrevivência em sociedade. Gostei, apesar de ser uma obra datada, centrada no feminino e apenas nos estratos sociais mais altos.
segunda-feira, 13 de outubro de 2025
"Aventuras de Sherlock Holmes" de Arthur Conan Doyle
Neste caso, confesso, que o título induziu-me em erro, pois pretendia comprar as histórias curtas mais antigas com este detetive, pois estas foram sendo publicadas avulso na revista "The Strand Magazine" e depois reunidas, cronologicamente, em conjuntos de livros, onde os primeiros ficaram numa coletânea com o título "The Adventures of Sherlock Holmes". Apesar da semelhança no título, este livro seleciona 7 dos 13 contos do terceiro volume que possui o título original "The Return of Sherlock Holmes" que possuo com o nome de "O retorno de Sherlock Holmes", que ainda não li, duma diferente editora e tradução distinta.
Apesar desta confusão, os sete contos são todos eles cativantes, sendo que neste se encontra "A aventura da casa vazia", onde se narra como Sherlock Holmes sobreviveu ao conto anterior "O Problema Final" no qua se deduzia da morte do detetive e fechava a coletânea com o nome "As memórias de Sherlock" Holmes" que consta do livro aqui falado no neste blogue.
Histórias fáceis de ler, bem construídas, com mistérios e crimes desvendados pela argúcia do poder de observação de Sherlock Holmes", faltam-me ler agora os restantes contos contidos em "O retorno de Sherlock Holmes".
sexta-feira, 26 de setembro de 2025
"Não se pode morar nos olhos de um gato" de Ana Margarida de Carvalho
Citações
"E quem só dá conta de pequenos males, enche-se tanto deles que acaba por não sobejar espaço para o mal grande."
"não é Deus que dorme, nós é que o sonhamos."
Há livros que, inicialmente, me custa prosseguir a leitura "Não se pode morar nos olhos de um gato", da portuguesa Ana Margarida de Carvalho, foi uma dessas obras. Há uns anos atrás desisti mesmo na primeira meia dúzia de páginas e agora quase que repetia o ato, venci esta rejeição do começo e depois deparei-me com um romance magnífico com prémios literários plenamente justificados. Que grande e magistral livro. Tinha-me sido recomendado por este blogue do Brasil com que troco opiniões literárias, estranhei os elogios de então dados por Pedrita, agora, rendido ao romance, dou-lhe toda a razão. Valeu a pena!
Após o fim da escravatura no Brasil, um navio negreiro clandestino naufraga na costa daquele País, os escassos sobreviventes: um capataz, um criado deste, a mulher e a filha do negreiro, um padre, um bebé negro, um jovem rejeitado, um antigo escravo e a imagem de uma santa cabocla, que os parece censurar; atingem uma pequena praia isolada que duas vezes por dia é galgada pela maré e situada sob uma falésia com uma pequena gruta que lhes permite evitar o afogamento. Entre eles, os preconceitos individuais e a necessidade de cooperação para sobreviver, a que se juntam as memórias e os remorsos de passados sombrios e não recomendáveis de cada um que perturbam o presente, mas todos terão de ultrapassar tudo isso para almejar uma escapatória da situação, enquanto novos sentimentos de ódio e paixão se desenvolvem entre eles.
No primeiro capítulo vemos a vida no navio pelos olhos da santa de pau com cabelo índio: a violência do comandante sobre a tripulação, do capataz sobre os escravos clandestinos, o comportamento dos passageiros, bem como a escassez de água e comida e reações extremas que justificam o castigo do naufrágio. Depois, temos as vivências dos náufragos na praia isolada e em cada capítulo recuamos ao passado de um dos vários sobreviventes. Assim percebemos as tensões e vícios que lhes vão na alma, frequentemente intercaladas com ditos justificativos da autora sobre as reações observadas.
Uma escrita criativa que amplia as tensões psicológicas e cujas máximas que culminam esses momentos fornecem imensas frases para sublinhar e refletir, mas que no início me custou a digerir e depois admirei. O vocabulário junta termos de uso mais comum no Brasil com outros de Portugal, evidenciando a riqueza da lusofonia que, efetivamente, fala uma grande língua comum.
Gostei mesmo deste romance, um livro muito bom, uma grande obra literária de partilha lusófona, nem sempre fácil, mas capaz de agarrar o leitor pela tensão, suspense e drama psicológico. Recomendo.
sexta-feira, 12 de setembro de 2025
"O Signo dos Quatro" por Conan Doyle
Li mais um livro policial com Sherlock Holmes, "O Signo dos Quatro", escrito pelo inglês Conan Doyle. Das muitas investigações deste detetive, só 4 têm dimensão de romance, sendo este o segundo por ordem cronológica, já que importa referir que, por vezes, nos casos relatados, tanto em obras maiores, como nos contos, existem referências a obras anteriores.
Neste Sherlock começa por dizer a Watson que está deprimido por falta de enigmas por resolver, quando uma jovem lhe vem bater à porta e contar a situação do desaparecimento do seu pai, há já vários anos, sem deixar rasto, mas que nos anos mais recentes passou a ser presenteada por uma pérola como justificação pelo facto de ter sido prejudicada no que teria direito de seu pai e, nesse mesmo dia, fora convocada para um encontro para se fazer essa justiça. Para tal deveria levar dois amigos como testemunhas, pelo que os vinha convidar para o efeito. A situação vai levá-los a deparar-se com outro assassinato e à resolução do caso pela perícia de Sherlock, numa aventura que tem um momento de grande suspense numa perseguição em barcos pelo rio Tamisa.
Este é o romance em que Watson se apaixona, precisamente pela jovem que os convidou a acompanhar e a tentar resolver o caso, decide casar pelo que nas obras cronologicamente posteriores, a dupla deixa de viver no mesmo apartamento e separam-se e só se reúnem temporariamente para resolver casos a pedido de Sherlock.
Livro fácil de ler, numa narrativa lúdica, agradável e com suspense que recomendo a quem gosta de obras policiais clássicas, pouco violentas apesar de crime, mistério e solução.
quinta-feira, 4 de setembro de 2025
"MaddAddam" de Margaret Atwood
segunda-feira, 25 de agosto de 2025
"O Ano do Dilúvio" de Margaret Atwood
quinta-feira, 14 de agosto de 2025
"Órix e Crex (O último homem)" de Margaret Atwood
Passado cerca de 20 anos, reli, agora em português, o romance "Órix e Crex" que encontrei na biblioteca pública da Horta. Um livro da canadiana Margaret Atwood, que na tradução lusa tem o subtítulo "O Último Homem", no original só "Oryx and Crake". Este é o primeiro livro de uma trilogia que já li integralmente em inglês, contudo, apenas falei neste blogue do último volume, já que as leituras dos anteriores decorreram antes da existência de Geocrusoe ou deste se ter tornado um espaço para falar de livros.
O romance decorre num futuro próximo, distópico, com o descontrolo da investigação tecnológica, sobretudo, da genética; num ambiente de catástrofe das alterações climáticas, no niilismo das pessoas e da dominância dos interesses económicos e capitalistas dos empórios industriais e comerciais. O que gerou uma sociedade de desigualdades na vidas do génios, acolhidos pelas empresas, face à dos cidadãos comuns, uma realidade geradora de uma violência intensa, novas religiões ecologistas e separação entre os espaços paradisíacos para os protegidos e os infernais para os restantes, as plebelândias. Um sistema mantido à custa de uma polícia de segurança altamente poderosa com uns serviços de informação que espiam tudo e prontos a agir para a preservação da situação sem qualquer respeito pelos direitos dos cidadãos.
No livro vemos o mundo pelos olhos de Jimmy, de inteligência mediana, criado no mundo dos privilegiados, que estabeleceu amizade com o seu colega de escola Glenn, um génio nas ciências de ponta. Este adota o nome de Crex como guru na maratona entre os animais extintos e as novas criações genéticas, ambos viram as suas famílias dilaceradas por questões de segurança e no passatempo de pornografia da internet descobrem outra criança por quem se apaixonam, em adultos, esta será chamada a viver no seu mundo como Órix, só que a desilusão de Crex com a humanidade leva-o a criar um ser perfeito e a destruir a espécie humana, deixando Jimmy a tarefa de cuidar da sua criação no pós-humanidade, quando este adota o nome de Homem das Neves.
A narrativa passa-se no período pós-humanidade, onde vemos a vida quotidiana do Homem das Neves, o sobrevivente da calamidade premeditada por Crex que protegeu apenas Jimmy, vamos então percebendo o seu papel de cuidador dos crexianos criados por Crex e a descrição destes seres perfeitos na ideia daquele, este presente é intercalado com as memórias da sua vida anterior dentro dos grandes espaços dos privilegiados, descrição dos produtos destas empresas: géneros alimentares altamente processados e geneticamente modificados, drogas para sensações de bem-estar além do natural e animais e plantas híbridos para os fins mais diversos. Neste mundo, os dois amigos têm como passatempo a internet, com jogos e onde se percebe a vida miserável e violenta nas plebelândias.
É um romance ao mesmo nível dos de ficção distópica do futuro da humanidade na Terra como "1984" e o "Admirável Mundo Novo", Órix e Crex mostra o caminho arriscado atual da humanidade com a combinação da evolução tecnológica, o capitalismo desigual e o niilismo da sociedade, além do perigo de alguém genial se revoltar contra este mesmo mundo e intencionalmente o destruir e ainda como pode ser uma aberração querer criar algo perfeito com base em critérios humanos.
sexta-feira, 1 de agosto de 2025
"Less" de Andrew Sean Greer
Li "Less", a minha estreia absoluta no escritor norte americano Arthur Sean Greer. Um romance que venceu o prémio literário Pulitzer e Northern California Book Award, que a juntar ao facto de parecer um livro cómico, me conduziu à minha escolha de leitura na visita à biblioteca pública João José da Graça, na Horta.
Arthur Less é um escritor inseguro da sua qualidade literária, um pouco desenquadrado da realidade e homossexual. Ao aproximar-se da data do seu aniversário dos 50 anos, teme a velhice e recebe um convite para o casamento do seu anterior parceiro. Para fugir às bodas, decide então participar num conjunto de eventos e torno do mundo: México, Itália, Alemanha, França, Marrocos, Índia e Japão. Neste périplo tropeçará na sua insegurança e medos, estes criarão situações complicadas, por vezes hilariantes e fá-lo-ão recordar a relação que teve com um poeta, bem mais velho e famoso, que se separou da mulher para viver com ele, mas que a ela voltou e são os três amigos, as memórias do seu último namorado, bem mais novo que ele, que está em vias de casar. Na viagem quase se apaixonará de novo, cometerá várias gagues de traduções, será homenageado e terá estranhas experiências em culturas diferentes. Ocorrências por vezes cheias de humor, outras sentimentais e até tristes... ao voltar de novo a casa, estranhamente, o seu o amor espera por ele.
Fácil de ler, com várias referências artistas de renome é uma obra sobre os medos do envelhecimento e o receio que este seja uma fase sem amor, de solidão e exclusão. Não sei se a orientação sexual do protagonista pesou mais nos prémios se o conteúdo da história. Uma obra simpática e sem preconceitos.
terça-feira, 22 de julho de 2025
"Os cus de Judas" de António Lobo Antunes
Citação
"... é a nossa própria morte que tememos na vivência da alheia e é em face dela e por ela que nos tornamos submissamente cobardes."
Não sei há quanto tempo, nem onde comprei "Os cus de Judas" um dos primeiros romances deste escritor português considerado por muitos como merecedor do prémio Nobel da literatura.
Numa noite de solidão do narrador, num bar noturno em Lisboa, este, perante uma mulher que deve então ter conhecido, expõe-lhe as suas memórias de criança até à ida para a guerra em Angola como médico. Ali prestou serviço perto de dois anos junto às frentes de combate, em lugares distantes e ermos (popularmente "cus de Judas") do leste daquele território. Ficamos a conhecer o menino mimado olhado pela sua família aristocrática que via no serviço militar o modo de alguém se tornar "homem"... recém-casado parte para a guerra numa viagem de gente infeliz, vê a Luanda da década de setenta, parte para o interior onde assiste à inutilidade da guerra para manter um regime na Capital e o bem-estar de umas poucas famílias, exploradoras da população africana, indiferentes à dor, morte, desilusão e desespero daqueles jovens, vigiados pela PIDE e que se distraíam no uso de mulheres locais. Anos depois não consegue ultrapassar os traumas, o arrependimento da sua cobardia, o que o leva ao fim da sua relação matrimonial, sustenta as lembranças da filha e ao encontro com mulheres que depois traz para o seu apartamento à noite como esta após muito álcool.
Uma narrativa que terá muito de autobiográfico, talvez também, para exorcizar a revolta silenciada do autor por medo do regime em vigor em Portugal durante a guerra colonial e publicado pouco a seguir à época revolucionária de desforra do passado. Um texto com muitas metáforas sucessivas com longos parágrafos e a uma única voz, já que as personagens brotam do testemunhado do narrador. As descrições possuem numerosas referências a grandes obras e artistas do mundo da pintura, da literatura, da música, etc., mas sem citações, apenas referências, comparações.
Apesar de ser um obra de sofrimento, com momentos muito duros de violência psicológica e humana, não existem relatos de batalhas, tudo se passa na retaguarda das frentes de combate nos cus de Judas, onde o médico está a receber e a tentar salvar as vítimas físicas e os derrotados psicologicamente por tudo o que ali se assiste e ele socorre.
Um pequeno grande livro de guerra, duro e onde se mostram as feridas que ficam na alma depois das batalhas por muitos e muitos anos.
quarta-feira, 16 de julho de 2025
"As memórias de Sherlock Holmes" de Arthur Conan Doyle
Pela primeira vez li contos protagonizados por este famoso detetive da literatura policial e escritos pelo profícuo autor inglês: Arthur Conan Doyle, apesar de as narrativas curtas serem independentes, existem, por vezes, referências a histórias publicadas anteriormente, pelo que, em parte a narrativa é sequencial, mas um erro meu no momento da compra, levou-me a adquirir inicialmente o segundo livro destas histórias, precisamente "As memórias de Sherlock Holmes".
Neste volume são narradas 11 aventuras pelo seu permanente companheiro de investigação, o médico Watson, dimensões semelhantes e na ordem e duas a três dezenas de páginas cada. Todas são como memórias, não do protagonista, mas do doutor que o acompanhou, algumas são charadas, outras crimes e a última um confronto épico de inteligência com o seu inimigo figadal: o Professor Moriarty por Sherlock lhe destruir a sua quadrilha de malfeitores.
São contos muito fáceis de ler e de puro entretenimento, mas muito diferentes do estilo de Agatha Christie de quem tanto tenho lido, nesta autora é, sobretudo, a análise psicológica que leva à descoberta do criminoso, em Conan Doyle, são pistas físicas que cuja análise e interpretação conduzem à descoberta, mas onde os conhecimentos do detetive vão mais longe que os dados postos na narrativa e dificilmente o leitor se sente na posse de tudo. Sendo histórias da transição do século XIX para XX, muitas das tradicionais pesquisas forenses dos policiais mais recentes estão ausentes aqui, não se fala de impressões digitais, ADN, tipos e pesquisas de sangue oculto, etc.
Gostei e penso explorar mais este personagem que de facto só mais recentemente comecei a ler e recomendo a qualquer leitor que goste do género policial.
















