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OS 50 ANOS da REFORMA AGRÁRIA

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Morte no Alentejo, João Hogan, 1990

A Casa do Alentejo está a organizar um programa comemorativo do 50º aniversário da Reforma Agrária para destacar a sua importância na transformação económica e cultural dessa região. Uma determinação que deve ser vivamente saudada para lembrar o que foi essa luta do período mais marcante da história do Alentejo. A relevância desta iniciativa é a de não deixar que a memória se apague sobre esse período, até temporalmente curto, em que os exploradíssimos trabalhadores alentejanos, depois de muitos anos de heróicas lutas, tomaram o seu destino nas suas mãos, assumiram o controle produtivo e económico de um território deprimido, sujeito a uma exploração brutal por uma casta parasitária de latifundiários. Uma região onde, durante o fascismo-salazarista, aconteciam as mais brutais arbitrariedades num mundo de miséria rural, como José Saramago retratou em Levantado do Chão.

Reforma Agrária, que decorreu entre momentos generosos e nobres e outros falhados, foi desde o príncipio atacada em várias frentes que culminaram no pós 25 de Novembro nas actuações miseráveis promovidas por um ministério da Agricultura dirigida por um sicofanta cujas esperanças políticas foram frustadas pela sua enorme ambição que não olhava a meios para atingir os fins, sendo no entanto recompensado com prebendas de vária ordem concedidas pelos poderes económicos que não abandonam os seus mercenários. Foi uma longa luta de resistência, com episódios sangrentos como o que, à 35 anos, vitimou dois trabalhadores da UCP Bento Gonçalves, no concelho de Montemor-o-Novo, Caravela de 54 anos e Casquinha de 17 anos, mortos a tiro pela GNR. Ninguém foi responsabilizado, um acontecimento que foi imortalizado pelo pintor João Hogan.

O Alentejo viveu a sua maior transformação, o que era insuportável para os poderes económicos que manipulam os poderes políticos, numa porta giratória que continua bem oleada. A Reforma Agrária desde sempre enfrentou ventos contrários, alguns até inesperados outros derivados de insuficiências próprias, dificuldades que de modo algum anulam a sua insuperável e decisiva importância. Só foi de facto vencida pela Política Agrícola Comum da festejada Europa Connosco, com todas as nefastas consequências tanto no plano produtivo da agricultura nacional como até no plano ecológico.

Para que memória não se apague, para que a memória não seja degradada, aviltada por todos, não são poucos, os que persistem em falsificar a história esta iniciativa da Casa do Alentejo é de uma importância notável. Inicia-se com uma exposição de artes visuais, fotografia, pinturas e desenhos de Álvaro Rosendo, Manuel Gantes, Manuel San-Payo, Miguel Mira, Teresa Carvalho e Valter Vinagre. Uma mostra representativa dos muitos artistas que apoiaram a Reforma Agrária que, entre outras obras, produziram belíssimos murais que naturalmente as condições meteorológicas apagaram. Uma exposição que é também representativa dos muitos movimentos, nacionais e estrangeiros, de solidariedade que a Reforma Agrária suscitou entre figuras públicas das mais diversas áreas e muitos anónimos numa bela e humaníssima demonstração de apoio áqueles trabalhadores que assumiram os destinos da história nas suas mãos para contribuirem para um Portugal em transformação pelas portas que Abril tinha aberto e que muitos procuraram e continuam a procurar persistentemente fechar nas gavetas para onde atiraram e atiram conquistas e esperanças.

Ir à Casa do Alentejo ver esta exposição, participar em todos os sucessos desta revisitação histórica dos 50 anos da Reforma Agrária é um imperativo democrático contra todas as evidências, um sinal de resistência e esperança.

(publicado em Avante!)

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ROMPER O CERCO

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Botas Camponesas, Van Gogh 1882, Museu Van Gogh Amesterdão

Bunuel pouco depois de chegar aos EUA, confrontando-se directamente com a cultura norte-americana e o sistema de produção cinematográfico, concluiu o que já tinha intuído que «um país para impor a sua cultura tinha que ter canhões e moeda forte». A II Grande Guerra Mundial ainda estava para durar. O seu principal ganhador foi o exército vermelho mas os grandes benficiários foram os EUA. Entrando tardia e calculadamente na guerra imporiam no pós-guerra os tratados de Breton-Woods, que subverteriam de forma unilateral acabando com a convertabilidade do dólar em ouro, o tornou o dólar a moeda fiduciária, a moeda dominante, hoje em derrapagem. No pós-guerra à Europa exaurida os EUA impõem o Plano Marshall. (1) O que tem isto a ver com a cultura? Tem tudo!!! Sem nos deter nas teias da Guerra Fria Cultural (2), nas intimas relações entre o dinheiro e a cultura, em particular as actividades das industrias culturais e criativas, em que os seus produtos culturais se fazem em linhas tayloristas em que praticamente deixa de existir tempo para pensar a criação artística, o que acaba por ser uma forma de censura económica, anote-se que no Plano Marshall os empréstimos e doações eram regulados por rígidos protocolos que na vertente cultural exigiam que muitos dos milhões de dólares fossem aplicados na exibição de filmes produzidos por Holywood, o que impulsionava a indústria cinematográfica norte-americana, mas sobretudo promovia o modo de vida e a cultura dos EUA, combatia os partidos de esquerda. Em poucos anos são dezenas de milhares de filmes holywoodescos exibidos na Europa ocidental o que conjugado com outras acções nas áreas das letras, das artes, das ciências humanas, teve por consequência a actual colonização cultural. Uma americanização que acaba por abranger todos os sectores, dos anglicismos que invadem a linguagem quotidiana, a predominância nas séries cinematográficas, televisivas nas simplificações das redes sociais, dos cultos dos pseudo rebeldes que se integram nas sociedades para as maquilhar subvertendo quaisquer perspectivas revolucionárias, até no estilo das vestimentas e, na melhor das situações, no politicamente correcto das lutas fracturantes em que se tem por objectivo, ainda que dissimulado, asfixiar as lutas de classes. É a vulgaridade da vida contemporânea, os eventos culturais e artísticos visitados nos tempos livres das idas ao ginásio, das refeições dietéticas, cervejas sem álcool, cafés sem cafeína, doces sem açúcares, as excitações das casas dos segredos e big brothers, tudo ao abrigo dos perigos que poderiam contaminar vidas detergentadas, horizontal e obliquamente americanizadas. Uma aculturação generalizada, diariamente verificável nos meios académicos, culturais, artísticos, na vida quotidiana em que se oferecem «aos consumidores o que se adapta ao seu gosto- quer dizer do que eles gostam. São alimentados de consumo como gado com qualquer coisa que acaba sempre por se tornar qualquer coisa» (3). Há excepções, as excepções são a confirmação da regra e a regra é o triunfo imperial do espectáculo que bordelizou a cultura a extrair benefícios máximos do empobrecimento moral e intelectual da sociedade, numa massificação sem democratização nem emancipação.

Há que lutar contra este estado de coisas. Refundar uma cultura política, sindical, artística que se tem diluído e perdido nos últimos decénios em que aos próprios e novos príncipios revolucionários, como Lenine referia, se recupere a cultura burguesa, retirando-lhe os elementos alienantes e recuperando todos os valores universais da humanidade que na sociedade contemporânea tem sido sistematicamente rasurados até pelas esquerdas vacilantes que aceitam a abstracção da lei e se submetem à ordem neoliberal capitalista.

(1) Sève, Lucien, Começar pelos Fins, a Nova Questão Comunista, Campo das Letras, 2001 e Mudar o Futuro, Campo da Comunicação, 2004

(2) Giddens, Anthony, Beyond Left and Right, the Future of Radical Politics, John Wiley and Sons, 1994 e The Third Way, the Renewal of Social Democracy, John Wiley and Sons, 1998

(3) Han, Byung-Chul, A Expulsão do Outro, Relógio d’Água. 2018

(publicado em Avante! 2711, 13/11/2025)

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OS IDIOTAS (IN) ÚTEIS

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FESTIM, gravura Bartolomeu Cid dos Santos , 1958

No universo dos comentadores políticos acotovelam-se os idiotas úteis da banda da direita, alguns, no melhor dos casos, armados em liberalotes de meia tijela. É exercício fastidioso desmontar as manobras canhestras desse povaréu, que diariamente nos assalta tanto na imprensa escrita como televisiva e radiofónica, não poucas vezes a ocuparem múltiplos espaços para nos vender gato por lebre para favorecer a direita, mesmo a extrema direita. Fastidioso pelo tempo perdido a lê-los e desnudá-los, mas de quando em quando há sempre um ponto saliente que merece ser rasourado. A mosca que nos caiu na sopa foi a abertura de um texto no Público de Pedro Norton gestor. Começa o escrito afirmando «Carlos Guimarães Pinto, uma das melhores cabecinhas do Parlamento (concedo que este ranking, só por si, possa não dizer muito) , editou recentemente um livro sem grandes pretensões, mas particularmente bem estruturado (Liberalismo, A ideia que mudou o mundo) que devia ser de leitura obrigatória para todos os que insistem em alimentar a ideia delirante e intelectualmente desonesta, segundo a qual IL e Chega partilham o mesmo ideário político.» A citação é longa, bem reveladora do que move Pedro Norton gestor e de quanto é um vigaristazeco intelectual. A primeira nota deve assinalar que Pedro Norton gestor classifica «Carlos Guimarães Pinto uma das melhores cabecinhas do Parlamento». É evidente que Pedro Norton gestor atribui essa qualificação tendo certamente por termo de comparação a sua cabecinha, pelo que fica à partida muita coisa explicada. Carlos Guimarães Pinto é um dos fundadores da Iniciativa Liberal, foi seu presidente em 2018/2019, é um dos directores da Fundação + Liberdade conhecida pela manipulação de estatísticas, dados económicos etc., etc., o que acaba por evidenciar a trafulhice e os malefícios do liberalismo e do neoliberalismo como economistas sérios, estruturados, irrepreensíveis têm, por todo o mundo denunciado. Pedro Norton gestor baba-se com as falcatruas dessa gente que é liberal até dizer chega, para negar as suas evidências fascistoides, embora vestida pelos melhores costureiros, perfumados com as fragâncias mais raras e na moda e demais apetrechos que não os inibem de fazerem desbragados elogios à economia que a rapaziada de Chicago impôs no Chile de Pinochet, é ler a artigalhada que largaram em jornais económicos, ou mais recentemente delirou com a motosserra de Milei, tanto em declarações públicas como na sua exibição nas suas últimas convenções nacionais. Estas irrefutáveis verdades são incineradas nos infernos de Dante por Pedro Norton gestor, para, com desplante e sem vergonha alguma, afiançar que é «a ideia delirante e intelectualmente desonesta (…) IL e Chega partilharem o mesmo ideário político». Como tipo que se diz informado deve ter lido os programas eleitorais dessa malta ou leu e não percebeu, problemas da cabecinha, ou até declarações do candidato à Presidência Cotrim de Figueiredo, que é apoiado pela IL, propor rever a Conatituição com o apoio do Chega.

Pedro Norton gestor faz uma análise aos resultados eleitorais das últimas autárquicas, assinalando os resultados do Chega, para acabar a lamentar-se com lágrimas de crocodilo: «Não retiro como calculam nenhum prazer desta análise. Tudo isto me preocupa de sobremaneira. Mas a realidade é o que é». Claro que o que o preocupa é ter que partilhar mesas manchadas com tintos rascas, pão recesso e queijos rançosos lascados por ameaçadoras naifas dos fascistoides taberneiros, quando as suas preferências e vocação são as mesas com toalhas de linho, talheres de prata, copos de cristal bem alinhados para emborcar vinhos de colheitas seleccionadas comerciando príncipios fascistas elaborados pelas melhores cabecinhas com o ruído de fundo das motosserras abafado por espessas alcatifas.

Conhecemos de gingeira esta gente tenha o pé leve ou o pé pesado do neoliberalismo, que alimentam os novos rostos do fascismo, e que só se derrota a partir da organização e da mobilização laborais. Sim, a melhor política democrática assenta na força do trabalho.

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O ESTARDALHAÇO DOS ZIGUEZAGES

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O Fantasma do Marquês, Cartoon de João Abel Manta, publicado no Diário de Lisboa 1972

José Gusmão publica um texto no DN « Debate Eleitoral : Voto Útil e Esquerda em Lisboa» que é, a vários títulos, um até inteligente exercício de ginástica para corresponder à vocação original do BE, mais directa ou indirecta, mais sofisticada ou mais primária, que é, sem meias palavras ou em estilo amável, a de demarcar-se e atacar o PCP mostrar a sua utilidade ao centro direita e direita na fragmentação da esquerda. Facto particularmente importante num tempo em que estão acossados pelo partido unipessoal do Rui Tavares, o Livre, que dá a esse centro direita e direita muito mais garantias por estar vacinado com os ataques de acne esquerdistas do BE. A perder protagonismo e os muitos dos favores da comunicação social mercenária ao serviço das oligarquias, o BE iniciou um frenético gesticular para mostrar serviço, o que até merecerá particular atenção.

O texto do José Gusmão inscreve-se nesse marcar do livro do ponto. O que de momento interessa é limitar a análise ao momento presente as autárquicas, nas autárquicas a Lisboa. O que pretende é sublinhar que a possível continuidade de Carlos Moedas, a sua coligação à frente dos destinos de Lisboa, se ficará no deve e haver do PCP por não ter integrado a coligação Viver Lisboa , encabeçada por Alexandra Leitão onde também estão representados o BE, o Livre e o PAN. Começam aqui as dificuldades e as contradições do José Gusmão depois de uma interessante digressão pelas virtudes e vícios do voto útil, que agora em Lisboa é inútil votando-se na CDU, de que João Ferreira é o primeiro nome, reconhecido e quase unanimemente, exclusão do Chega, como o mais preparado e consistente possível presidente de Câmara de Lisboa.

Dá como exemplo o que «em 89, o impossível aconteceu. PCP e PS falaram. O PCP prescindiu da solução natural, que seria a de liderar essa coligação, em função dos resultados das eleições anteriores, e decidiu apoiar Jorge Sampaio. O PCP não escolheu capitular perante o PS, não escolheu ceder perante a pressão do voto útil. Percebeu a necessidade de libertar Lisboa de Abecassis e escolheu vencer. E venceu.

Dir-me-ão que agora é diferente. E é verdade. O contexto é diferente (é pior) e os protagonistas são diferentes. Mas o que realmente mudou foi a leitura feita pelo PCP e a sua política de unidade». Começa com um facto real acaba com uma falsificação se acreditarmos no que Alexandra Leitão contra José Gusmão tem vindo a afirmar.

O acordo de 1989 detalhou toda uma política para Lisboa, só depois se distribuiram pelouros e protagonistas desses pelouros, excepção a presidência que seria de Jorge Sampaio. Um acordo que se começou a degradar quando Jorge Sampaio concorre a Presidente da República, é substituído por João Soares que acabará por ser derrotado por Santana Lopes, até mais pela sua arrogância de pretenso iluminado príncipe herdeiro que nenhum plebeu derrotaria. Apesar dos safanões de João Soares ao acordo original, o PCP levou até ao limite a possibilidade de dar continuidade a um acordo que estava a ser despedaçado. São as leituras de unidade que o PCP sempre fez e continua a fazer, como se assistiu com a “geringonça” a ser socavada pelas cativações até ao momento limite que a tornou impossível. Isto até é incompreensível para o José Gusmão.

Retornando aos dias de hoje e a Lisboa. Escreve José Gusmão: « Pronto, lá está o voto útil outra vez. Não, não está. E por duas razões. Em primeiro lugar, a política de unidade é política. As forças que entraram na coligação Viver Lisboa não se anularam em benefício do Partido que podia ganhar. Integraram uma coligação, negociaram o programa, assumirão responsabilidades. Ao PCP foi proposto o mesmo, mas em lugar privilegiado, não apenas pelos lugares (que também contam), mas pelo peso político que teria na própria definição das escolhas políticas fundamentais. Foi o PCP que não o quis. Em segundo lugar, a política propriamente dita. É tão preguiçoso o discurso que ignora a política para pedir o voto útil, como o que o faz para supostamente o rejeitar. E quem diz que o programa do Viver Lisboa é parecido ou sequer comparável ao de Moedas (ou mesmo o de Medina, antes do acordo à esquerda), ou não o leu, ou não está a ser sério.» Pronto, não está!!! É que não está mesmo!!! Alexandra Leitão já afirmou reiteradamente que Viver Lisboa não é nenhuma frente de esquerda, que ofereceu a vice-presidência a João Ferreira mas que não discutiu nem tinha a intenção de discutir programa nenhum, pelo que não chegou a nenhum acordo com ele que malvadamente não aceitou um cadeiral em troco de sabe lá o quê. Até seria interessante ter sido questionada sobre que pelouros é que ficariam na alçada da prometida vice-presidência, pergunta que ninguém fez nem o José Gusmão agora esclarece, como não esclarece como é que o programa Viver Lisboa se demarca tanto de Medina. A questão nodal em relação a Lisboa continua intocada, a Lisboa que hoje temos é resultante da desenhada no PDM de Manuel Salgado no mandato António Costa, posto em prática por um acordo PS/PSD, que viabilizou um projecto político de mercantilização da cidade, do urbanismo, do espaço público. Projecto a que Medina deu continuidade e que agora Alexandra Leitão diz ir adoçar, afrouxar, amortecer, entricheirando-se em generalidades vazias de sentido, para logo acrescentar que o PS não se arrepende de nada do que fez! Em que ficamos? É nisto que os apoiantes da coligação Viver Lisboa vão votar para derrotar Moedas que tem o projecto de intensificar, exarcebar essas políticas, como o tem feito neste seu mandato o que, anote-se e sublinhe-se, tem merecido generalizado apoio do PS? A grande questão é que no essencial estão de acordo, tem uma visão da cidade semelhante, ainda que a velocidades diversas. A isto o que diz José Gusmão : «Na realidade, há muito mais sobreposição entre o Programa do Viver Lisboa e o da CDU do que João Ferreira tem querido reconhecer, desde o reforço da habitação pública e cooperativa e da oferta de transportes públicos até à requalificação dos espaços verdes, passando pela defesa do comércio local e das lojas históricas. No que divergem, a CDU explicita o fim da devolução do IRS, uma medida altamente regressiva, em que o programa da Coligação é omisso. O programa do Viver Lisboa apresenta medidas concretas e vai muito mais longe que o da CDU na contenção do Alojamento Local, um dos principais fatores que restringe o acesso à habitação na cidade. O programa da coligação não é o que nenhuma das forças que compõem a coligação teria proposto sozinha, PS incluído, mas está sobretudo numa galáxia diferente do de Carlos Moedas e do seu sonho de uma cidade condomínio fechado e militarizado». Vá lá reconhece que há diferença substancial : «o fim da devolução do IRS, uma medida altamente regressiva, em que o programa da Coligação é omisso». Não é coisa de somenos como nos debates João Ferreira e muito bem tem sublinhado e esclarecido. Para logo a seguir delirar em relação ao alojamento local e muito pior não ler o que o tal programa Viver Lisboa, que a acreditar nele foi muito negociado pelas forças integrantes e a acreditar na Alexandra Leitão foi um ver que te avias. Faça-se uma paragem num ponto essencial o Programa Municipal Renda Acessível que afirmam ir reforçar «conferindo-lhe escala e previsibilidade, recorrendo, em solo municipal, ao direito de superfície de longo prazo para cooperativas, IPSS e modelos build-to-rent de arrendamento acessível, com rendas definidas e cláusulas anti-especulação, bem como a promoção pública direta e parcerias com o setor privado, sempre com cadernos de encargos sociais claros e monitorizáveis». Salte-se ao eixo sobre o anglicismo que sempre dá um tom modernaço a qualquer texto embora as traduções facilitem leituras diversas, esqueça-se também aquela medida avançada no debate da CNN por Alexandra Leitão de oferecer aos privados uma majoração na construção de fogos que compensem os fogos que construam para rendas acessíveis, medida nada inovadora mas muito interessante para qualquer agente imobiliário subvertendo quaisquer normas urbanísticas, pergunte-se ao José Gusmão se esta medida não é o repescar da proposta política de Medina/Livre quando em 2021 o Bloco de Esquerda considerava essas parcerias PPP parte da especulação imobiliária que está e estará sempre na base da crise da habitação. Será que a natureza dos agentes privados para o BE, por estar integrado na coligação Viver Lisboa, se alterou? Em que ficamos? Pelas boas intenções não quantificadas nem quantificáveis dos «cadernos de encargos sociais claros e monitorizáveis»? O José Gusmão que se deixe de zigzaguear a alta velocidade, mesmo que de forma assinalavelmente habilidosa, porque acaba sempre por se estampar.

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VIRTUDES PÚBLICAS, VÍCIOS PRIVADOS

A difusão do neofascismo, mais puro e duro ou mais difuso, está a marcar o nosso tempo e com ele a alargar a imparável mancha das banalidades estereotipadas e quotidianas, das falsas notícias instituídas como norma, com o truque de se apresentarem como anti-sistema.

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CréditosMiguel A. Lopes / Agência Lusa

Um personagem do filme de João César Monteiro, Le Bassin, de John Wayne, 1997, tem uma frase premonitória, de uma implacável lucidez:  «hoje, os novos fascistas apresentam-se como democratas». Dispensam os desfiles militarizados dos camisas negras, castanhas, azuis, verdes, mesmo quando exibem motoserras não tiram as gravatas dispensam o arregaçar as mangas, mantêm intactos os seus sinistros objectivos, a tipologia dos seus financiadores destacados capitalistas, muitos deles com negócios obscuros, alguns sob a alçada da justiça, apesar de bem se saber que o direito é sempre o direito dos mais fortes à liberdade, na praça pública, em que a comunicação social cada vez mais nas mãos das oligarquias lhes concede excessivo tempo de antena, continuam seguidores das principais palavras de ordem dos fascismos históricos, reactivadas, assimiladas e actualizadas pelas exigências e modas contemporâneas, com variantes em conformidade com a sua inserção territorial, de que é exemplo a generalizada islamofobia ser ou não associada ao ódio aos ciganos.

A difusão do neofascismo, mais puro e duro ou mais difuso, está a marcar o nosso tempo e com ele a alargar a imparável mancha de óleo do filisteísmo, do farisaísmo, das banalidades estereotipadas e quotidianas, das falsas notícias instituídas como norma, a mais completa submissão aos poderes que se dizem querer subverter, com o truque de se apresentarem como anti-sistema, quando são os mais radicais defensores do sistema para que se torne ainda mais presente e activo em atendimento das especulações do grande capital. Sistema mais ou menos brutal conforme as circunstâncias. 

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Tal como os seus antecessores, os neofascistas dispensam qualquer dimensão teórica consistente, representam um pensamento pobre, mísero, indigente, mas com uma efectuabilidade forte, autoritária contra a liberdade, a democracia e a paz. Consolidam a sua relação com o povo seu votante na base do acriticismo, explorando uma imagem contra o sistema, falando todo o tempo e em primeiro lugar da corrupção. Como sublinha Norberto Bobbio, o nazi-fascismo «fez isso em Itália em 1922, na Alemanha em 1933, no Brasil em 1964. Acusa, insulta, agride como se fosse puro e honesto. Mas o fascista é apenas um sociopata que faz carreira política». Por cá, todos os dias Ventura e os seus sequazes do Chega fazem tiro alvo à corrupção, embora, sem curiosidade, a  imoralidade, a devassidão, a degradação, tanto material como imaterial, grassem naturalmente nas suas fileiras dando razão a Bobbio. 

Esses partidos neofascistas, por cá sobretudo o Chega, a IL é outra louça, tendem a organizar-se como uma seita que se fecha sobre si própria, que combate quem procura impedir que alcancem as suas metas. Partidos tendencialmente unipessoais, são objectivamente variantes da máfia, de agências de protecção privadas que têm por fim consagrar os seus chefes, sustentados por laços, dos ocultos aos visíveis, de uma teia de troca de benefícios em vaivém. 

Na Europa, sobretudo na UE, as economias neoliberais que seguem os catecismos puramente economicistas desprezam os problemas reais das pessoas, abrem auto-estradas para a propagação dos populismos fascistas. Por cá, os seus seguidores de várias cores e em velocidades e com graus diversos, prosseguem o caminho das reformas ditas estruturais, que acabam por encerrar escolas, postos de saúde, maternidades, tribunais, serviços de registo e notariado, postos de correio, agências bancárias, mesmo as da CGD, o banco do Estado. Agravam os problemas da habitação e da mobilidade, dos profissionais dos diversos sectores do cada vez mais depauperado serviço público.

«Esses partidos neofascistas, por cá sobretudo o Chega, a IL é outra louça, tendem a organizar-se como uma seita que se fecha sobre si própria, que combate quem procura impedir que alcancem as suas metas.»

São políticas que adubam os territórios para o crescimento dos partidos de extrema-direita, assumida ou disfarçadamente fascistas. O neoliberalismo é o pantanal em que prosperam as flores carnívoras do fascismo. Esse é o terreno propício aos partidos de extrema-direita, porque as pessoas se sentem abandonadas, desprezadas. Diariamente são encharcadas com notícias que demonstram, a todos níveis, a falência dos serviços públicos de que dependem, que as deviam proteger e estar em seu favor.

Sentem-se esquecidas, desprezadas, maltratadas, acreditam porque assim lhes afirmam ou insinuam que a culpa é do sistema pelo que são empurradas para apoiar e votar nos partidos que se proclamam contra o sistema, que são os mais drásticos defensores do sistema. Que exigem o desmantelamento do Estado, até a um Estado mínimo que favoreça e subsidie os privados. Iludidos, acabam por correr para o abismo das soluções populistas mais ou menos fascistas de que acabarão por ser as suas primeiras e maiores vítimas.

O Chega, com um assombroso crescimento de votos nacional, é o exemplo mais acabado dessa realidade. Apoiado e financiado por grandes capitalistas envolvidos nos negócios mais lucrativos e onzenários, muito deles sob a alçada da justiça, tal como o seu numeroso grupo de deputados nacionais, mais os do poder local e os dignatários de diversos escalões no partido, que mais parece um albergue espanhol de delinquentes, ladrões de alto e baixo coturno de malas a caixas de esmolas, burlas e fraudes ao Estado e a particulares, violências diversas com destaque para a doméstica, crimes de pedófilia e até incendiários, rapaziada e raparigada nem toda, longe disso, por vezes e raras vezes afastada selectivamente do partido por Ventura, ele próprio condenado pelo tribunal em Maio de 2021 por ofensas à honra e bom nome. Ventura que acumulou o cargo de deputado com o de consultor da Finpartner, especializada em planeamento fiscal, vistos gold e fuga de capitais para offshores. Apesar desses sucessos, a cassete Limpar Portugal do Chega continua a vender a sua reiterada vigarice.

«O neoliberalismo é o pantanal em que prosperam as flores carnívoras do fascismo. Esse é o terreno propício aos partidos de extrema-direita, porque as pessoas se sentem abandonadas, desprezadas. Diariamente são encharcadas com notícias que demonstram, a todos níveis, a falência dos serviços públicos de que dependem, que as deviam proteger e estar em seu favor.»

Até com situações inusitadas como a da freguesia de Rabo de Peixe nos Açores onde o Chega é quem tem maior número de votos. Freguesia que em Portugal, com destaque, regista o maior número de beneficiários do Rendimento Social de Inserção, que o Chega pretende reduzir ao mínimo num suposto combate à subsidiodependência,  subsidiodependência que nunca questionou em relação às empresas ávidas de incentivos permanentes do Estado que não existem para melhorar a qualidade e a produtividade, mas para maximizar o retorno dos investimentos feitos, na lógica da acumulação que domina a actuação do sector privado. Privatizar os lucros, socializar os prejuízos, é o que se tem assistido, com o suporte dos partidos de centro-esquerda à extrema-direita, sobretudo desde a intervenção da troika em que os contribuintes têm entregue a fundo perdido a grandes empresas mas sobretudo à banca centenas de milhões de euros, o que não causa qualquer incómodo, nem sequer uma pequena comichão ao Chega, embora Ventura e os seus arautos mais vocais estejam sempre em alta grita a dizer chega à corrupção, ao compadrio, aos tachos. Não é sequer uma falácia. É uma redonda e gorda mentira que só tem um forte eco num Portugalito – em que o Galo de Barcelos substitui as cinco quinas – embalado pelos bigbrothers, casadossegredos, gouchas, cristinas&companhia, o Portugalito da cusquice, das pequenas invejas. Um coquetel molotov quando amalgamado com a quantidade de desamparados, precarizados, maltratados pelo Estado.

O Chega é o mais acabado exemplar das virtudes públicas, vícios privados. Digníssimo seguidor de Al Capone que numa entrevista ao jornalista Cornelius Vanderbilt Jr., publicada a 17 de Outubro de 193, na revista Liberty afirmava convictamente: «Hoje em dia, as pessoas já não respeitam nada. Dantes, punham-se num pedestal a virtude, a honra, a verdade, a lei. A corrupção campeia na vida americana dos nossos dias. Onde não se obedece à lei, a corrupção é a única lei. A corrupção está a minar este país. A virtude, a honra e a lei esfumaram-se das nossas vidas». Um texto que é um manifesto que, quase palavra por palavra, e quase todos os dias é apregoado por André Ventura, que infelizmente Al Capone não conheceu senão tinha-se livrado de uns dias preso por fugas ao Fisco. Ventura não deixaria de colocar os seus saberes de lidar com as leis tributárias para livrar Al Capone desses problemas e poder continuar as suas lucrativas actividades e, com toda a probabilidade, tornar-se um destacado apoiante e doador. É essa a vocação do Chega.

(publicado em ABRILABRIL; https://www.abrilabril.pt/)

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PARA O RUI TAVARES, PIM

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NÃO SE REPRODUZIR, René Magritte, 1937, Museu Boijmans Van Boeningen, Roterdão

Na Assembleia da República têm assento dois partidos unipessoais: o Livre de Rui Tavares e o Chega de André Ventura. Por vias diferentes e estilos bem dissemelhantes, ambos existem para proteger e defender a classe dominante pelo compartimento e diversão dos portugueses. Há que fazer justiça ao Tavares que é incomparávelmente mais intelectualmente dotado que o Ventura. Não frequenta tabernas, sabe usar os talheres, não confunde o copo de vinho branco com o de vinho tinto, nem tropeça no oxímoro quando se predispõe a dialogar com a direita democrática. É surdo ao ruído da motoserra que a Intervenção Liberal comprou a Millei e que, obrigada pelas circunstâncias, só põe intermitentemente a funcionar. É cego ao arreganhar dos dentes da AD pronta a abocanhar direitos sociais, económicos e políticos. Para o Rui Tavares são pormenores ultrapassáveis porque é possível «fazer muita coisa em conjunto que é necessária para melhorar a nossa democracia» pelo que «se a direita ganhar, o Livre será oposição dialogando». O que importa para o Rui Tavares é não perder a possibilidade de ter um lugar à mesa do poder, ainda que seja só para receber umas migalhas.

Controleiro com mão férrea forrada a veludo do Livre, como se viu nas últimas eleições apesar da americanice das primárias, é useiro e vezeiro nos números esquerdistas, até com proclamações a favor da unidade de esquerda em que ele só acredita para obter um cadeiral num governo qualquer, números que protagoniza para encapotar o seu apoio ao capitalismo neoliberal, que não esconde quando proclama «o Estado planificar a economia» é típico dos «regimes autocráticos», defendendo a lógica dos mercados kamalizados, dos trabalhistas thatcherizados em que leiloa o que ainda sobra de soberania nacional num europeísmo onde prevalece a lógica de classe do capital financeiro. Fá-lo com o mesmo relativismo sonso com que vai à embaixada de Israel dar o seu apoio ao genocídio em marcha, condenando o Hamas com um fervor que não tem quando não condena os mais brutais sionistas, para transposta a porta se afirmar a favor dos dois estados, com a indisfarcável esperança que já não reste território para a Palestina se poder instalar.

É um ecologista trampolineiro alinhado com a esquerda dos Verdes alemães de Annalena Baerbock, provávelmente a ministra dos negócios estrangeiros mais estúpida que a história diplomática regista, que, pelas nossas bandas, tem em Rui Tavares a sua versão careca e de barbas. O que o alumbra é a esquerda dos verdes com bombas alemães, pelo que defende um exército europeu e a extensão a toda a UE das armas nucleares francesas. Uma esquerda dos desvairos guerreiros europeístas da gauleiter Ursula, da louca Kallas, do videirinho Costa que defendem o investimento improdutivo em armamento, o desperdício militarista que vai erodir e sacrificar os Estados sociais, degradar violentamente os investimentos socialmente necessários, para os atirar para os bolsos da mais lucrativa e opaca das indústrias capitalistas. Todos eles estão bem alinhados com os interesses capitalistas que lucram com as destruições. Não surpreende que Rui Tavares, de passo firme a marchar com a militarista da europa otanizada, atire para o caixote do lixo das suas histórias todo um passado de lutas pela paz, contra o investimento no esbanjamento militarista.

Rui Tavares faz parte dessa tropa fandanga, dessa falange de intelectuais que da direita a uma suposta esquerda se lixam para as necessidades e urgências sociais e estão prontos para transferir para as indústrias de armamento 800 mil milhões de euros, degradando os Estados sociais, um objectivo de classe inscrito na lógica institucional da União Europeia. Daí o estar em compasso com as narrativas diariamente vendidas pela comunicação social mercenária para conquistar votos com todas as mentirolas que embrulha em papel de estanho a fingir prata, com qualquer bom vendilhão de vigésimos premiados. Etiqueta-se de esquerda virando as costas à esquerda, num jogo de enganos para gaúdio das direitas que estimam com particular desvelo essas esquerdas de máscaras carnavalescas esquerdistas para desfilarem embustes.

 Rui Tavares defende um federalismo da União Europeia, que mais não é que a máxima expressão imperialista, onde a lógica de classe do capital financeiro se articula com a lógica geopolítica das grandes potências, e as esquerdas falaciosas, de que é um excelente e assumido exemplo, são apêndices de um euro-liberalismo onde se afundam em paralelo com as recorrentes crises económicas e sociais que alimentam os populismos de direita.

Como João Rodrigues escreveu nos Ladrões de Bicicletas, «Rui Tavares é pró-NATO, pró intervenções militares “humanitárias”(…) Rui Tavares diz que a UE é uma organização democrática e ataca quem critica, a sério e consequentemente, a UE e Euro; (…) Rui Tavares é favorável a várias propostas liberais, sendo o Rendimento Básico Incondicional uma dessas propostas, propostas que mais não são que esquemas para sustentar um Capitalismo cada vez mais decrépito e perverso

A agenda social e económica do Livre, mas também do PAN e do PS é a transferência de dinheiros públicos para bolsos privados em que a única diferença com os propostos pelo PSD, CDS, Iniciativa Liberal e Chega, são os ritmos mais parcimoniosos.

Rui Tavares é um pantomineiro esquerdalho alinhado com as posições da burguesia, pelo que nada espanta que a comunicação social mercenária ao serviço das oligarquias tanto o acalente e amamente preferindo-o a outras versões esquerdistas de perdido fulgor.

Para o Rui Tavares e para o Livre PIM!Para o Rui Tavares e para o Livre PAM!Para o Rui Tavares e para o Livre PUM!

Para a malta que se diz de esquerda e alinha com o Rui Tavares PIM! PAM! PUM!




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O CHARME DISCRETO DA BURGUESIA

Assinala o dia 24 como o início de uma guerra em que a Rússia começaria pela Ucrânia a invadir toda a Europa até às Berlengas, não se percebendo qual o interesse da Rússia em invadir a Europa, a não ser que tivesse decidido alinhar com Mark Rutte para acabar com os gastos dos fundos europeus dos países do Sul em vinho e mulheres.

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O Filho do Homem, Magritte, 1964

Esta segunda-feira assinala-se o terceiro ano da invasão da Ucrânia pela Federação Russa, um salto qualitativo na guerra que se tinha iniciado em 2014, depois do golpe de Estado de Maidan, em que os bandos armados nazi-fascistas e o exército ucraniano procuravam liquidar as populações russófonas. Na realidade, a guerra era entre a NATO e a Rússia por interposta Ucrânia, com o objectivo de implodir a Federação Russa, dividindo-a em vários estados, devastar a sua economia submetendo-a à voracidade com que os EUA queriam apropriar-se dos seus recursos naturais. Projecto antigo dos neocons, sobretudo democratas mas também republicanos, neocons que têm a curiosidade de terem nas suas fileiras uma quantidade não negligenciável de ex-trotskistas à semelhança da esmagadora maioria dos soixante huitards franceses que agora militam nas direitas e extremas direitas. 

A manipulação da opinião pública pela comunicação social, actualmente controlada universalmente de forma esmagadora pelas oligarquias, e as redes sociais dos magnatas direitinhas tem construído uma sólida narrativa que atira qualquer evidência para as urtigas. Assinala o dia 24 como o início de uma guerra em que a Rússia começaria pela Ucrânia a invadir toda a Europa até às Berlengas, não se percebendo qual o interesse da Rússia em invadir a Europa, a não ser que tivesse decidido alinhar com Mark Rutte para acabar com os gastos dos países do Sul com os fundos europeus em vinho e mulheres, para os trazer para as virtudes dos frugais europeus que por seu turno seriam invadidos para os eslavos se rebolarem nos jardins do Borrell. 

«Na realidade, a guerra era entre a NATO e a Rússia por interposta Ucrânia, com o objectivo de implodir a Federação Russa, dividindo-a em vários estados, devastar a sua economia submetendo-a à voracidade com que os EUA queriam apropriar-se dos seus recursos naturais.»

Aturdidos com as marteladas que Trump está a dar no atlantismo, sem perceberem que ele é o grande vencedor desta guerra a que quer colocar um rápido ponto final para lucrar o mais possível com os seus destroços, a União Europeia (UE) manca e rota envia Dupond e Dupont a Kiev para visitar, aplaudir e acarinhar Zelensky, que, na sua barraca de tiro, dispara sobre tudo o que pode colocar em causa a sua imediata sobrevivência. Nem tudo são passos de dança como o que tentou engraxar os sapatos de Trump comprando os direitos de tradução para ucraniano das Memórias de Melanie Trump, como relatou o New York Times. Os outros lances são bem reveladores dos seus instintos ditatoriais no exercício de poder.  Uma das mais recentes vítimas foi o general Serhii Naiev, comandante das forças conjuntas do exército desde 2020,  afastado por ter criticado e considerar inaceitável um processo contra três comandantes acusados de não terem sabido defender a região de Kharkiv em maio de 2024. Nada de inesperado se for relembrado que outro general, Valerii Zaluzhnyi, comandante em chefe das Forças Armadas foi despachado para Londres como embaixador quando notoriamente a sua popularidade é muito superior à de Zelensky.

O último tiro foi em Petro Poroshenko, presidente depois do golpe de Maidan de 2014 a 2019, possível candidato em futuras eleições, e mais quatro oligarcas com o pretexto de negócios realizados antes de 2020, sancionados como traidores, proibidos pelo Conselho de Defesa e Segurança Nacional, um órgão do Estado directamente dependente de Zelensky, de saírem, de se movimentarem no país, de terem acesso aos seus bens. A situação é tão escandalosa que a advogada Oleksandra Matviichuk, laureada com o prémio Nobel da Paz em 2022, deplora nas redes sociais «A pior coisa a fazer na situação que atravessamos é desencadear uma guerra política interna numa altura em que é importante agir como uma só equipa nacional na cena internacional». Nada ou praticamente nada disto é relatado nos media e não comove a pandilha dos burocratas de Bruxelas que envia Ursula e Costa para as louvaminhas de dia 24. Fingem não perceber que o que interessa a Zelensky e à sua camarilha é safarem-se entre os pingos da forte chuva que está a desabar, protegendo as suas negociatas entre as curvas e contracurvas de uma possível paz que está a ser agenciada entre os EUA e a Federação Russa, os verdadeiros sujeitos no terreno. Toda essa gentalha, políticos, comentadores, jornalistas ainda conseguem encher a boca com a democracia na Ucrânia, a legitimidade democrática de Zelensky, depois de ter proibido todos os partidos da oposição, ter prendido, até mesmo assassinado dirigentes e militantes desses partidos o que toleraram como os três macacos que cobrem os olhos, tapam os ouvidos, fecham a boca mesmo agora quando ataca sem fás nem nefas potenciais rivais que têm estado ao seu lado. Continuam descaradamente a afirmar que se está a defender militar e politicamente uma democracia!  

«Aturdidos com as marteladas que Trump está a dar no atlantismo, sem perceberem que ele é o grande vencedor desta guerra a que quer colocar um rápido ponto final para lucrar o mais possível com os seus destroços, a União Europeia (UE) manca e rota envia Dupond e Dupont a Kiev para visitar, aplaudir e acarinhar Zelensky, que, na sua barraca de tiro, dispara sobre tudo o que pode colocar em causa a sua imediata sobrevivência.»

A UE, dispensada de qualquer participação imediata e significativa, procura ficar na fotografia assistindo a essas facécias zelenskianas. Lá vão Ursula e Costa visitar a barraca de tiro de Zelensky começando por assistir ao documentário Timisoara1  2 filmado em Butcha, para depois entre variados números de beijos e abraços reafirmarem o seu inabalável apoio até à Rússia ser derrotada, ainda que aturdidos com a realidade da frente de batalha. Antes de partirem, a alucinada Alta Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança, Kaja Kallas, tinha-os confortado com as suas certezas: «Vladimir Putin não conseguiu atingir nenhum dos seus objectivos estratégicos (…) A Rússia quer que o mundo acredite que pode manter esta guerra indefinidamente, mas a realidade é diferente. Os limitados ganhos territoriais da Rússia são acompanhados de baixas militares insustentáveis e de uma economia em colapso e o tempo não está do lado da Rússia». Os limitados ganhos territoriais são mais que 20% do território ucraniano e, de facto, a Rússia enfrenta um grave problema com a inflação. Todos os outros dados económicos contrariam Kallas e as suas certezas de pacotilha. Enquanto, em 2024, a UE cresceu 1,1% e a zona euro 0,9%, a Rússia cresceu 4,1%. Se atentarmos na dívida pública e externa, a da Rússia é de 21% e 14,8%, respectivamente, enquanto a das principais economias da UE são: Alemanha 72,8% e 157,70%; França 122,51% e 266,67%; Itália 158,93% e 128,67%; Espanha 123,61% e 171,51%, fora da UE, o Reino Unido 112,5% e 301%. Isto deve-se, sobretudo, à política de sanções, especialmente as dirigidas à energia, entre quatro a cinco vezes superiores ao que custava quando o principal fornecedor era a Federação Russa, o que para alegria de Trump, já agora dos seus antecessores, coloca a Europa na sua dependência com as indústrias a deslocalizarem-se para a China e também para os EUA.

Kaja Kallas, se tivesse uma migalha de senso comum, devia olhar para o seu país, a Estónia, e para os outros estados bálticos, Letónia e Lituânia, que recentemente se desligaram da rede eléctrica controlada pela Rússia, pondo fim a essa dependência energética,  para se integrar no sistema eléctrico da União Europeia, através da ligação à rede da Europa Ocidental. O que foi festejado e aplaudido em festanças com as donas constanças, Ursula e Kallas. O resultado, menos de quinze dias depois, é o avolumar de uma crise económica, porque muitas empresas não podem suportar o aumento de 350% (!!!) dos custos de electricidade. São estas as vitórias do bando de burocratas não eleitos que comandam a UE! São os mesmos que ainda não perceberam porque Trump tanto os despreza e está a acelerar a paz na Ucrânia. É o grande vencedor desta guerra, não quer perder tempo em sacar mais lucros, além dos já obtidos com a venda de armas, são perto de 150 mil milhões de dólares gastos, de que o complexo militar industrial norte-americano é de longe o maior fornecedor. O que está agora a exigir à Ucrânia, a exploração dos seus recursos minerais, a que Zelensky vai ceder com a espada do Starlink sobre a sua cabeça, se o Starlink for desligado, como Trump já ameaçou, terá consequências imediatas fatais na frente de batalha. Adicionam-se as mais de 70% de terras aráveis adquiridas pelas multinacionais Cargill, DuPont e Monsanto/Bayer, que uma alteração do actual governo ucraniano à Constituição permitiu serem transacionáveis com estrangeiros, ao controle das finanças que está a ser exercido pelos fundos BlackRock e Vanguard. A pressa de Trump é a exploração o mais rápido possível dessa sua colónia europeia, que tanto lhe faz seja integrada ou não na UE, o que apesar das promessas de Bruxelas não é assim tão líquido, lembrem-se os boicotes dos agricultores polacos, romenos e húngaros à circulação dos produtos agrícolas ucranianos, isso antes de se conhecer como a França, a grande beneficiária da Política Agrícola Comum, irá reagir. 

«O que está agora a exigir à Ucrânia, a exploração dos seus recursos minerais, a que Zelensky vai ceder com a espada do Starlink sobre a sua cabeça, […] terá consequências imediatas fatais na frente de batalha, adiciona-se as mais de 70% de terras aráveis adquiridas pelas multinacionais Cargill, DuPont e Monsanto/Bayer, que uma alteração do actual governo ucraniano à Constituição permitiu serem transacionáveis com estrangeiros, ao controle das finanças que está a ser exercido pelos fundos BlackRock e Vanguard.»

Bem podem Macron e Starmer ir a Washington bajular Trump, procurando convencê-lo que é do seu interesse continuar a guerra, bem podem Ursula e Costa garantir o que não podem garantir sem o apoio dos EUA que é continuar a guerra, os interesses dos EUA são outros, pelo que o mundo está a mudar e eles aí não têm lugar, como é bem visível nas duas propostas na ONU a pretexto da guerra na Ucrânia, uma dos norte-americanos, outra dos europeístas, em que os norte-americanos ao contrário dos europeístas não classificam os russos de agressores nem referem a reversão dos territórios conquistados pelos russos, apelam ao fim rápido da guerra. Lamentável são muitas esquerdas, que aceitando a abstracção da leis e da ordem neoliberal por terem abandonado o marxismo e negado as lutas de classe, estrebuchem imbecilmente alienando-se das perspectivas de paz independentemente do que se pense e julgue sobre os beligerantes, fazendo análises lúcidas sobre esta guerra.   

O título «Charme discreto da União Europeia» é uma referência ao filme de Bunuel O Charme Discreto da Burguesia, que é uma crítica radical aos costumes burgueses, aos códigos , às convenções que validam e dão consistência à superficialidade e às aparências.

  • 1.Timisoara, Roménia, no final de 1989, é a grande falsificação de um massacre que não existiu, encenado, pago e filmado pela BBC, um exemplo paradigmático da manipulação da opinião pública pela comunicação socia. Agamben, filósofo que faz parte das elites dominantes, apesar de ser seu crítico, escreveu: «Pela primeira vez na história da humanidade, cadáveres acabados de enterrar ou alinhados nas mesas das morgues foram desenterrados à pressa e torturados para, em frente das câmaras, simular o genocídio que devia legitimar o novo regime. O que o mundo inteiro teve debaixo dos olhos em directo nos ecrãs da televisão como sendo verdade era a não verdade absoluta; e, embora a falsificação por vezes fosse evidente, era de qualquer modo autenticada como uma verdade pelo sistema mundial dos meios de comunicação, para que se tornasse claro que a verdade passara a ser apenas um momento do movimento necessário da falsidade.»

(publicado em AbrilAbril AbrilAbril | O outro lado das notícias em 24 fevereiro 2025)

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DEMOCRACIAS EM COLAPSO

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Cidade, Fernand Leger, 1945

Biden no seu último discurso conseguiu evidenciar perante todo o mundo a degradação ética, a miséria farisaica, a corrupção da classe política norte-americana. Com um enorme descaramento veio denunciar os perigos do sistema oligárquico que vigora, domina e controla há dezenas de anos a política dos EUA, que compra os seus políticos à bolina dos seus interesses imediatos, de que ele é um dos melhores exemplos nas dezenas de anos a ocupar cargos no Senado e no governo dos EUA. Foi um momento paradigmático da vigarice intelectual em que se distingue, se distinguem os seus acólitos, todos os seus cães de fila mundo fora. Por cá, latrinários jornalistas, comentadores e supostos especialistas em relações internacionais babaram, como seria expectável, inúmeros elogios à arenga desse sapo que se inchou uma última vez, só não estoira por estar completamente arruinado física e mentalmente.

Ultrapassado esse momento, o mundo assombra-se com a ressurreição de Trump, oligarca apoiado pela oligarquia norte-americana farta do verniz casposo, untuoso dos bidens, clintons, obamas, todos seus fiéis serventuários, que cobardemente ziguezagueavam com maiores ou menores truques diplomáticos para travestirem os desígnios do imperialismo em decadência, a conceder espaço e voz aos seus vassalos para continuarem a ter veleidades de um estatuto de aliados. A mais das vezes tudo era embrulhado em papel de estanho a fingir prata, em subtilezas diplomáticas, enquanto as grandes empresas tecnológicas, os grandes bancos, os fundos abutres consolidavam o poder económico-financeiro das novas plutocracias. Veja-se como o seu capital em bolsa ultrapassa quase todos os países do G7, essa ficção dos países mais poderosos em que só três figuram entre os dez com maior PIB em paridade de poder de compra, pelos insuspeitos números do FMI e BM. 

Agora tudo é dito de forma directa, mesmo brutal pelo seu representante político, afrontando mesmo países supostamente amigos. Amigos, amigos, negócios à parte, mesmo que a série de medidas enunciadas coloquem em causa os equilíbrios geopolíticos actuais, que já estavam a ser fortemente abanados pelos BRICS. O sistema americano é há muito uma plutocracia, de que são culpados e cúmplices tanto republicanos como democratas, duas faces da mesma moeda. O brutalismo de Trump é a sequência nada inesperada da política norte-americana capturada pelos interesses de Wall Street a Silicon Valley, em que democracia formal se apresenta sem disfarces num obsceno striptesase dos interesses que a capturam, de uma minoria de bilionários, brutalmente enriquecidos nos últimos anos em que o salário dos 1,7 milhões de trabalhadores se degradou e 500 empresas da Global Fortune aumentaram os seus lucros de 820 milhões de dólares para 2,100 milhões de milhões, 2,5 vezes nos últimos anos. Em que os 1% mais ricos ganharam 75 vezes mais riqueza que os 50% mais pobres, nos últimos dez anos, em que 1,2% detém quase 50% da riqueza global e 60% detém 1,1%. Que democracia é possível com esta brutal diferença de real poder?

«Ultrapassado esse momento, o mundo assombra-se com a ressurreição de Trump, oligarca apoiado pela oligarquia norte-americana farta do verniz casposo, untuoso dos bidens, clintons, obamas, todos seus fiéis serventuários, que cobardemente ziguezagueavam com maiores ou menores truques diplomáticos para travestirem os desígnios do imperialismo em decadência (…).»

Nesse estado de sítio do direito internacional, as leis são leiloadas no mercado, compradas e vendidas por quem dá mais para obter ainda mais. Ainda antes de Reagan os EUA avançavam velozmente para a plutocracia que o hipócrita Biden enuncia no seu último discurso, depois de ter sido um dos seus mais activos comparsas. Uma actuação que deixaria roxo de inveja Al Capone quando numa das suas últimas entrevistas  delatava que a ética, a moral e as leis se estavam a esfumar nos EUA.(1) Trump mostra ao mundo os seus dentes explorando dentro dos EUA a perda de normas básicas da democracia, muito anterior a ele, mas que encontra agora expressão política com o seu círculo de bilionários, generais, pessoas meio loucas, fascistas religiosos, criminosos, racistas, desviantes morais. A decadência, a devassidão, eram evidentes. Estava disfarçada, mascarada por classes e elites políticas corruptas de alto a baixo, poucas eram as excepções, muitas delas acabavam por se submeter às suas ordens, enquanto as classes baixas e médias se fechavam na raiva surda pela crescente desigualdade social, pela degradação das instituições democráticas, pelo controlo dos meios de comunicação, universidades e tribunais, um caldo de cultura a ser explorado pelos populismos de direita e extrema – direita a abrir caminho a um neo-fascismo representativo da podridão moral desencadeada pelo capitalismo desenfreado, uma consequência do neoliberalismo falido. A caracterização desse sistema foi feita por Sheldon Wolin(2) que a classificou de totalitarismo invertido. Um sistema que mantinha a antiga iconografia, símbolos e linguagem, mas tinha cedido o poder às corporações e aos oligarcas. Agora, com a tomada do poder por Trump e seus sequazes atingiu o apogeu,  dominada por um demagogo e uma ideologia baseada na demonização do outro, no pensamento mágico da MAGA (Make America Great Again).

Trump arrancou de vez a máscara da democracia formal que os seus antecessores utilizavam intermitentemente. Seleccione-se entre um imenso rol a Operação Condor, no cacharolete de democratas e republicanos, Johnson, Nixon, Ford, Carter e Reagan seus patrocinadores e financiadores na América Latina e do Sul em que, por números subestimados, foram assassinados mais de 50 000, desapareceram mais de 30 000 e foram presos e torturados mais de 500 000 militantes de esquerda de várias áreas. O agora incensado Carter, ainda antes do exército soviético ter entrado no Afeganistão a pedido do seu legitímo governo, começou a treinar, armar e financiar os talibãs, então aclamados como combatentes da liberdade; de Bush e a invasão do Iraque com o pretexto das armas de destruição maciça que não existiam; da secretária de Estado do governo Clinton, Madeleine Albright, a afirmar que «valeu a pena ter matado 500 mil crianças iraquianas de até cinco anos com o bloqueio dos EUA ao Iraque»; as guerras e revoluções coloridas de Clinton e Obama nos Balcãs, norte de África, Afeganistão; a simpática e sorridente Hilary Clinton do «viemos, vimos e ele morreu» em relação a Kadaffi, não por ser um ditador mas por ter tido a veleidade de querer criar uma moeda em África que substituísse o dólar; Biden e Blinken e o apoio financeiro e em armas à Ucrânia muito antes da invasão da Federação Russa; a crueldade dos conluios com Israel no genocídio dos palestianos; o inefável Biden a ameaçar um acobardado Sholz com a destruição do NordStream2, o que acabou por realizar. Um pequeno e rapidíssimo respigar num mundo sempre sob as ameaças indirectas, sempre que necessário directas, do imperialismo norte-americano a tripudiar acordos e o direito internacional com a imposição de regras quando os seus instrumentos de dominação FMI, BM e OMC foram considerados insuficientes. Trump é o triunfo da extrema-direita populista, de facto o neo-fascismo que está a varrer as democracias liberais e iliberais, uma classificação taxonómica que é a trincheira onde se conluiam todos os que subvertem as liberdades, seja por manipulações das votações com, entre outros truques, reforçar artificialmente maiorias, ou mesmo transformar minorias em maiorias, desenhar círculos eleitorais a régua e esquadro para retirar poder aos eleitores, ainda que eles acabem por eleger os que no dia seguinte os vão explorar, precavendo-se de surpresas. 

«O agora incensado Carter, ainda antes do exército soviético ter entrado no Afeganistão a pedido do seu legitímo governo, começou a treinar, armar e financiar os talibãs, então aclamados como combatentes da liberdade (…).»

Quando apesar dessas golpadas surgem sobressaltos não consonantes com os seus desejos, os votos são imediatamente atirados para os caixotes de lixo, com recurso aos mais miseráveis argumentos. O imperialismo torna a democracia impossível: se vocês votam como recomendo e quero, as eleições são democráticas e livres, se votam contra o que quero, as eleições são consideradas viciadas, suspeitas de interferências externas, como recentemente aconteceu na Roménia, Moldávia, Geórgia, Croácia, Venezuela. Os casos repetem-se. É esta a democracia que nos é vendida diariamente pelos meios de comunicação social mercenários, pelas redes sociais rigorosamente controladas. Tudo se deve resolver anulando as votações, repetindo-as até cumprirem o que quero a bem ou a mal com revoluções coloridas e golpes de Estado! O princípio é universal, aplicável a todo o país que tenha a veleidade, o desplante de não se sujeitar às regras, mesmo que só a algumas, imperialistas dos EUA que subvertem todo e qualquer direito, em que os seus vassalos do jardim do Borrell, em que Kallas se afadiga para arrancar todas as flores que não sejam carnívoras para que a decadente casta política da União Europeia, a máfia de burocratas não-eleitos e os governos formalmente eleitos, seja mais submissa, cumpra sem qualquer escrúpulo as do demente, corrupto e belicista Joe Biden, se agache perante o estilo desabrido e até imprevisível do seu sucessor que causou alguma e exagerada inquietação. As evidências sucedem-se. Trump exige  com estrondo que a União Europeia (UE) se comprometa a comprar mais petróleo e gás liquefeito (GNL) aos EUA, que custam mais cinco vezes que o GNL russo? Ursula von der Leyen corre logo a agarrar os microfones que lhe estão mais à mão para lhe garantir que assim será, sabendo-se que esse compromisso mais agravará a crise económica europeia bem visível nos países que eram considerados os seus motores económicos, Alemanha, França, por arrasto todos os outros. Trump ordena que os países da NATO passem a contribuir com 5% do seu PIB para os seus gastos militares, sabendo que isso é um grande negócio para o complexo económico-financeiro-tecnológico militar dos EUA? Rutte é o seu arauto em todos os pelourinhos dos países NATO, logo secundado pela tropa fandanga da UE, o que irá ter efeitos devastadores nos orçamentos, degradando os gastos sociais conquistados em anos de luta. A secundá-lo, a desequilibrada Kallas, o oportunista Costa, a corrupta Von der Leyen das negociatas com a Pfizer, para continuar na fila da frente dos vassalos trumpistas sonoriza: «Para mim é importante trabalhar com os pró-europeus, pró-NATO e pró-Ucrânia. Aqueles que defendem a democracia contra os eurocépticos e que defendem os nossos valores contra os amigos de Putin são aqueles com quem quero trabalhar». Trump olha sobranceiramente para esta cáfila de politiqueiros de meia tigela que se comportam como os bobos da sua corte, determina que os EUA estão abertos a receberem toda e qualquer empresa europeia, depois de o seu antecessor ter destruído as suas condições de sobrevivência, tal como tinha sido determinado na doutrina Wolfowitz, em que os EUA seriam a única superpotência no final da Guerra Fria, dominando a Eurásia.

Trump e a sua roda de bilionários configuram uma nova realidade. Se antes estavam nos bastidores a manipular as marionetas políticas, agora surgem na frente do palco assumindo cargos políticos. A explicação mais simplista é serem homens de confiança. Na realidade é colocarem em prática princípios enunciados por Zbigniew Brzezinski em que os bancos internacionais, as corporações multinacionais, os ultra-bilionários seriam a principal força criativa substituindo o «Estado-nação como unidade fundamental da vida organizada do homem». São vários os livros de Brzezinski(3), na origem de Bilderberg e Davos, em que se defende uma esfera identitária cosmopolita gerida pelo grande capital que substituiria os valores nacionais. A riqueza do mundo foi canalizada para as mãos de uma elite oligárquica voraz, alimentando a pior desigualdade económica desde o início do século XX. 

O neoliberalismo rapidamente destruiu regulamentações e esvaziou os sistemas democráticos para transformá-los em monstros empresariais, politicamente a abrir as comportas para o desaguar do neo-fascismo no que simpaticamente é classificado de populismos de direita e extrema-direita, que fazem reviver os fascismos dos anos 30, repetindo lugares comuns e estereótipos a justificar a cupidez, o desejo de poder, mentindo, enganando, manipulando mentiras e meias verdades sem remorsos nem sentimentos de culpa. Há grandes diferenças, os tempos são outros, a história não se repete (Karl Marx), mas rima (Mark Twain). Giorgia Meloni não é Mussolini, Alice Weidel não é Hitler, Le Pen não é o governo de Vichy, mas não deixam de ser herdeiros do fascismo original. Muitos dos seus princípios são recuperados e actualizados.

«O neoliberalismo rapidamente destruiu regulamentações e esvaziou os sistemas democráticos para transformá-los em monstros empresariais, politicamente a abrir as comportas para o desaguar do neo-fascismo no que simpaticamente é classificado de populismos de direita e extrema-direita, que fazem reviver os fascismos dos anos 30 (…).»

As coreografias são outras. Dispensam os desfiles militarizados de camisas monocromáticas, lápis azuis da censura. Têm ao seu dispor um exército de agentes, publicitários, departamentos de marketing, promotores, guionistas, produtores de televisão e cinema, técnicos de vídeo, fotógrafos, jornalistas, comentadores, académicos, pesquisadores,  até ao pormenor de consultores de guarda-roupa, preparadores físicos, guarda-costas, prontos para todo o serviço de inundar os canais de comunicação de mentiras e meias-verdades que transformam a política enquanto prática burlesca.

«A mentira contínua é a apoteose do totalitarismo» escreveu Chris Hedges(.4) Essa é a realidade exasperante ao folhear um jornal, abrir um canal televisivo ou uma rádio, percorrer as redes sociais, em que nunca como hoje as oligarquias dominam os meios de comunicação. Paralelamente explora-se o culto hedonista, que se torna central nos anos 60, em que se procura aniquilar definitivamente um sujeito moderno, crítico e marxista, substituindo-o por um consumidor autista e indiferenciado, sujeito ao molde solipsista dos objectos técnicos de uma subjectiva cultura de massas. É o quase completo triunfo do totalitarismo invertido, do neo-fascismo que conta sempre com a cumplicidade cinzenta dos que negam a existência de direita e esquerda, que encontram pontos de contacto nos extremos que de facto se repelam, para se afundarem no conforto de servir as direitas simulando uma moderação de se situarem ao centro onde todas as virtudes se afundam pantanosamente. 

Há muitos pontos de contacto e muitas diferenças entre os anos 30, os anos de ascensão do fascismo, e os anos que estamos a viver com a escalada dos neo-fascismos. Há um fortíssimo elo comum entre eles que é o grande capital estar sempre na linha da frente a apoiá-los. As outras semelhanças são políticas, a da crise das democracias, das sociais-democracias, dos socialismos em liberdade que ainda resistiam nos anos 30 debatendo-se com o declínio dos centros políticos e que hoje procuram sobreviver despindo-se de ideologias para se transformarem em máquinas de conquistar votos para, chegados ao poder, servirem os interesses económicos que lhes dão apoio variável enquanto fortalecem os populistas de direita e extrema-direita que já estão nos governos ou são fulcrais no apoio a governos por essa Europa fora com o apoio activo da camarilha Trump, a que esses democratas de pacotilha se submetem e apoiam num miserável espectáculo bufo como o protagonizado pela cambada que comanda a Europa a partir de Bruxelas. A grande diferença para os anos 30 é que o núcleo duro da resistência nesses anos, o comunismo, os partidos comunistas, o movimento sindical e o internacionalista é incomparavelmente mais fraco e muitas esquerdas dissolveram-se no folclore urbano e intelectual de inúmeras lutas fracturantes, do politicamente correcto, das políticas woke, a mais das vezes irracionais no seu vanguardismo baralhado que usam para se mostrarem diferentes e  travestirem a sua desistência de desafiarem o poder económico imperial, em lutas, a mais das vezes inconsequentes, em que um mudar de vida superficial, até bem aceite pelos bem pensantes do sistema, é a real desistência por um mudar de vida substancial, uma mudança radical em que essas lutas teriam real substância. Em que opções essenciais não se reduziriam a trocas de embalagens num mesmo supermercado.

«Há muitos pontos de contacto e muitas diferenças entre os anos 30, os anos de ascensão do fascismo, e os anos que estamos a viver com a escalada dos neo-fascismos. Há um fortíssimo elo comum entre eles que é o grande capital estar sempre na linha da frente a apoiá-los.»

Dos anos 30 para os actuais, inquietante é uma certa indiferença democrática, como se essas viragens para a direita e extrema-direita fossem irrelevantes e continuem insistindo em políticas erráticas submetidas aos interesses do grande capital que deles se vão servindo enquanto preparam terreno para os descartar. A ideologia utópica do neoliberalismo e do capitalismo global é a grande fraude, a maior fraude de sempre. A riqueza global, alimenta a maior desigualdade em vez de ser distribuída equitativamente, como a farfalhada dos proponentes do neoliberalismo prometiam e prometem com jacobice. Os demoliberais, os sociais-democratas, os socialistas em liberdade são cúmplices de uma elite oligárquica voraz que se alimenta, ontem como hoje, das mais-valias geradas pelos trabalhadores de todo o mundo, a que retiram direitos e destroem ou procuram destruir as suas ferramentas de classe, sindicatos e partidos políticos de esquerda consequente, que explora as vacilações das esquerdas que perderam horizontes ideológicos, vagueiam pelo deserto das ideias, que dominam a comunicação social que tornaram uma farsa a informação independente e rigorosa   que se dizia garante a liberdade, o que é amplificado nas redes sociais onde as notícias falsas, a pós-verdade são a dominante. 

Contra este estado de sítio há a necessidade, mesmo a urgência, de organizar uma frente contra o controlo tecnocrático que caracteriza os neo-fascismos em que se enraizam os problemas que hoje se manifestam por todo o lado, em todas as frentes globais, contra este desejo de poder, que mente, engana, manipula sem limites nem remorsos, que é a ética promovida pelas oligarquias, a ética do capitalismo irrestrito que Trump e a sua corja tão bem corporizam, que estão a ser mimetizados, com maior ou menor jeito, mundo fora. São enormes mas não insuperáveis as dificuldades em organizar essas frentes que terão que ser muito diversas conforme as circunstâncias e as forças sociais no terreno. Há que haver vontade política para ultrapassar todos impasses sem nunca vacilar nos princípios ideológicos e éticos, ultrapassando os sentimentos de traição, estagnação e desespero, uma mistura tóxica que culmina num ódio incipiente pelas classes dominantes e as instituições que se distorceram para servir exclusivamente os ricos e poderosos, e que são o fermento instrumental dos neo-fascismos.

  • 1. «Hoje em dia, as pessoas já não respeitam nada. Dantes, punham-se num pedestal a virtude, a honra, a verdade e a lei…A corrupção campeia na vida americana dos nossos dias. Onde não se obedece a outra lei, a corrupção é a única lei. A corrupção está a minar este país. A virtude, a honra e a lei esfumaram-se das nossas vidas», Al Capone, entrevista na revista Liberty, 17 de Outubro de 1931, alguns antes de ser preso em que o único crime de que era acusado era fuga ao fisco!!!
  • 2.Sheldon Wolin, Democracy Incorporated: Managed Democracy and the Specter of Inverted Totalitarianism (Princeton University Press, 2008). Ainda sem tradução em português. Pode ser encontrada em espanhol, Democracia S. A., Buenos Aires/Madrid, Katz editores S.A, 2008.
  • 3. Zbigniew Brzeszinski, Os Estados Unidos e a Crise do Poder Mundial, Gradiva, 2014 / The Grand Chessboard: American Primacy and Its Geostrategic Imperatives, New York: Basic Books, 1997.
  • 4.Chris Hedges,  America: The Farewell Tour (e-book) Simon & Schuster, 2018.

(publicado em AbrilAbril AbrilAbril | O outro lado das notícias em 31 de Janeiro)

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RECUPERAR O SENTIR

ESTÉTICO, HUMANO, POLÍTICO

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Apertado pela Fome, Marcelino Vespeira, 1945

No Museu do Neo-Realismo uma exposição de longa duração, com a curadoria de David Santos e Paula Loura Batista, ocupa vasta área expositiva na base do seu acervo e coleçções depositadas, com um extenso e interessante título «A Coragem da Gota de Água é que Ousa Cair no Deserto». São várias as áreas disciplinares das artes visuais, a que foi associada um conjunto de fotografias da Coleção «A Família Humana».

A importância desta exposição é sublinhar a importância artística, humanista e política da produção do movimento neo-realista enfrentando a realidade social imposta pelo regime fascista-salazarista do Estado Novo mas também a dos artistas fechados nas suas torres de marfim que derivam para a arte pela arte que Walter Benjamin denuncia num excelente texto que é uma tomada de posição política, uma declaração sobre o estatuto das artes: «Fiat ars – pereat mundus, diz o fascismo que, como confessou Marinetti, espera da guerra a satisfação artística da percepção transformada pela técnica. Trata-se visivelmente da consumação da arte pela arte. A humanidade, que antigamente, com Homero, foi objecto de contemplação para os deuses olímpicos, tornou-se objecto de contemplação para si própria. A alienação de si própria atingiu o grau que lhe permite viver a sua própria aniquilação como um prazer estético de primeira ordem. É assim a estetização da política praticada pelo fascismo. O comunismo responde-lhe com politização da arte.»(1) Em Portugal são os artistas comunistas e os seus companheiros de estrada que, com o movimento neo-realista, de algum modo colocam em prática o preconizado por Walter Benjamin, sem que subordinem princípios estéticos a mera propaganda política, bem patente na diversidade desta exposição em que estão, entre outros, representados artistas tão plurais como José Dias Coelho, Júlio Pomar, Nuno San-Payo, Maria Barreira, Vasco Pereira da Conceição, Margarida Tengarrinha, Maria Keil, Querubim Lapa, Rogério Ribeiro, Lima de Freitas, Cipriano Dourado, Manuel Ribeiro de Pavia, Alice Jorge, Jorge Vieira, João Hogan, Jorge de Oliveira, Joaquim Namorado, Rui Filipe, Victor Palla, Frederico Pinheiro Chagas. Diversidade afirmada num conhecido texto de Álvaro Cunhal: «a arte deve exprimir a realidade viva e humana de uma época, exprimir uma tendência histórica progressista» acrescentando que se arte fosse só moderna na forma seria incompleta, “formas novas podem conter um significado velho e retrógrado enquanto formas velhas – ainda que excepcionalmente – podem conter um significado moderno e progressista». Nas condições existentes de severa repressão e censura nas entrelinhas estava claro que a tendência histórica progressista era o marxismo-leninismo e que se fazia uma critica aberta ao formalismo. Em 1945, Mário Dionísio escreveria também no Diabo que «os valores estéticos são valores. São elementos sem os quais não existe arte. Simplesmente, pensa-se agora que os valores estéticos não existem em si próprios, que há qualquer coisa de mais vivo e mais profundo para que o artista deve viver». Agrestes polémicas, sobre forma e conteúdo, serão desencadeadas por esses textos programáticos. Hoje parecem-nos quase arqueológicas mas, como dizem os curadores desta exposição, «a arte é como uma gota de água que cai no deserto, pois nunca opera revoluções, nem uma ação imediata ou direta sobre a realidade, interpelando-nos, porém, o suficiente para nos fazer refletir, a partir de uma magia que nos espanta e influencia ao longo da vida». É essa evidência que nos deve sobressaltar quando a criação artística no seu conjunto, desde meados do século XX e XXI, está, no dizer irascível de Thomas Bernhard, condenada a produzir coisas nauseabundas :«isso você sabe tão bem como eu, no que se refere à chamada arte contemporânea ela não vale um caracol, como se costuma dizer»(2). O que é uma realidade desde que Duchamp, que tinha outros alvos e objectivos, abriu a caixa de pandora das caixas registadoras dos supermercados das artes e que esta exposição, mesmo que não seja esse o seu objectivo, coloca em questão.

(1) Walter Benjamin, A Obra de Arte na Época da sua Possibilidade de Reprodução Técnica,p. 241, in A Modernidade, Obras Escolhidas de Walter Benjamin, edição e tradução João Barrento, Assírio&Alvim 2006

(2) Thomas Bernhard, Antigos Mestres, p. 157 e seguintes, tradução José A Palma Caetano, Assírio&Alvim 2003

( publicado no jornal AVANTE!)

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LIVRAI-NOS DELES

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O Triunfo da Morte, Pieter Brueghel, o Velho, 1592, Museu do Prado, Madrid

Em linha com a voz de comando internacional da comunicação social, que só no final teve algumas breves nuances, por cá, a campanha de Trump era apresentada como um repositório de broncas tiradas, vigorosas afirmações machistas e de vingança, insidiosas vulgaridades a disparar com mira, sobretudo virada para os emigrantes, as mulheres, as políticas de género, sem nunca ou só muito superficialmente referirem a adulação que fazia às classes médias, médias baixas, às classes trabalhadoras fustigadas pelo custo de vida, pela inflação, afinal, o prato forte da sua campanha praticamente ignorado nas coberturas noticiosas.

O contraponto era uma Kamala Harris, de sorrisos rasgados prontos a desaguar em estridentes gargalhadas com que festejava as estrelas mediáticas que desfilavam beijos e abraços nos púlpitos dos seus comícios, apostada na defesa dos direitos das mulheres, procurando escapar entre os pingos da chuva das políticas económicas do governo Biden, em que foi uma cinzenta vice-presidente, terreno fértil para ser adubado pelos populismos de direita, destacando-se no apoio à guerra na Ucrânia, que Trump promete, não se sabe como, acabar em 24 horas, concorrendo com ele no apoio aos nazi-sionistas de Israel, no genocídio que Israel está a perpetrar, que por vezes procurou disfarçar farisaicamente, piscando de quando em quando o olho aos apoiantes da causa palestina enquanto os removia dos seus comícios e arredores. Em traços grossos eram esses os ecos das acções de campanha nas televisões, rádios e jornais, tanto de jornalistas, os que se sentavam nas redacções locais, os inúteis enviados especiais, os inúmeros comentadores.

O tom geral, até ao dia das eleições, mesmo os que referiam uma batalha acirrada, era favorável a Kamala Harris, o que era apoiado pelas sondagens e alguns gurus com currículos sustentados em anteriores previsões. A grande preocupação eram as bombas lançadas por Trump sobre a guerra em curso na Ucrânia, esquecendo-se que foi ele quem lançou as primeiras sanções à Federação Russa depois da anexação da Crimeia, incidindo sobre o petróleo e o gás, que foi o primeiro a ameaçar o Nord Stream 2, cuja explosão teve por consequência os EUA passarem a ser os principais fornecedores da Europa com preços superiores em cerca de 40%, o que está a atirar a Europa para uma recessão generalizada, anunciada por mais que anémicos crescimentos. Para um suposto amigo de Putin é obra, amigos, amigos, negócios à parte. Na Europa ficam tremulantes com a exigência de financiarem a sua defesa em 2% do PIB, exigência que nem é dele, foi feita por Obama, a que fará no futuro próximo logo se verá, sem olharem para as despesas dos EUA com armamento que foram no seu primeiro mandato as maiores de sempre, pelos perigos de enfraquecer a NATO, o que é muito relativo desde que esteja garantido que a grande fatia das suas compras seja feita ao outro lado do Atlântico. 

Nenhum, mesmo nenhum figurante dessas brigadas apontou que Biden/Kamala deram continuidade e aprofundaram o crescente proteccionismo industrial da primeira era Trump, com sanções sobretudo direccionadas às empresas chinesas, mas também às europeias, proteccionismo energético e agrícola extensível a outras partes do mundo, pilhagem de recursos naturais, sobretudo os relacionados com as novas indústrias, financiamento sem travões às grandes empresas de todos os calibres, apoios ao dólar para financiar os crescentes e impagáveis défices da dívida que não pára de crescer.       

«A grande preocupação eram as bombas lançadas por Trump sobre a guerra em curso na Ucrânia, esquecendo-se que foi ele quem lançou as primeiras sanções à Federação Russa depois da anexação da Crimeia, incidindo sobre o petróleo e o gás, que foi o primeiro a ameaçar o Nord Stream 2, cuja explosão teve por consequência os EUA passarem a ser os principais fornecedores da Europa com preços superiores em cerca de 40%, o que está a atirar a Europa para uma recessão generalizada (..).»

Nenhum, mesmo nenhum figurante dessas brigadas assinalava que o que estava em disputa era a continuação por vias diversas da imposição ao universo das oficiadas regras que subvertem os direitos políticos e sociais da humanidade sujeitando-as a um império em decadência, em respiração assistida por um poderoso aparelho militar e por um dólar que começa a ver a sua ditadura seriamente ameaçada. Nenhum, mesmo nenhum figurante dessas brigadas assinalava que a disputa era entre as duas direitas, a democrata e a republicana, que repartem o poder, o que é bem demonstrado quando a Forbes reporta que 83 bilionários apoiaram Kamala Harris e 53 Donald Trump. Milhares de milhões de dólares em doações que deixaram de ter qualquer controle por uma lei de Clinton.

Aliás, é de sublinhar que tanto Clinton como Obama são os principais responsáveis pelo desmantelamento de toda a legislação Roosevelt do New Deal contra os monopólios, contra as concentrações de capital, de separação da banca comercial da de investimento, etc., etc., desbravando os caminhos abertos pela reaganomics e a TINA (There Is No Alternative) de Thatcher, do menos Estado mais mercado, descer os impostos aos mais ricos, reduzir os serviços públicos, subverter as leis laborais, acabar com políticas que tendam para o pleno emprego, limitar as protecções sociais, privatizar tudo retirando do sector público as empresas estratégicas para que o grande capital comande a política, destruir o mais possível as organizações de classe, sindicatos e partidos de esquerda que não perderam os princípios enquanto outros se renderam nas propostas da terceira via, em que a justiça social e a igualdade de oportunidades seriam determinadas por uma suposta prosperidade produzida pelos mercados e uma outra se limita a querer mudar a vida sem mudar de vida. Tudo isso adquiria formas diversas em cada uma das nações que internacionalmente se submetiam à desregulação dos mercados, às taxas de câmbio flexíveis, à especulação financeira.

«Nenhum, mesmo nenhum figurante dessas brigadas assinalava que a disputa era entre as duas direitas, a democrata e a republicana, que repartem o poder, o que é bem demonstrado quando a Forbes reporta que 83 bilionários apoiaram Kamala Harris e 53 Donald Trump.»

Nenhum, mesmo nenhum figurante dessas brigadas isso mencionava porque são os novos fiéis e bons cães de guarda do sistema dominante. Não mencionavam isso, nem que o complexo militar-industrial-económico-tecnológico, as três grandes potências financeiras, os gigantes de Wall Street, BlackRock, Vanguard e State Street, que agora dominam as decisões económico-financeiras da Casa Branca, repartiram os seus apoios e estavam, pela voz dos seus máximos dirigentes, «a trabalhar com ambas as administrações e conversando com ambos os candidatos», embora anotassem estar bastante mais esperançadas nas promessas do republicano em relação às criptomoedas e a um fortalecimento do dólar. Nenhum, mesmo nenhum figurante dessas brigadas especificou que as famílias norte-americanas das classes trabalhadoras, mesmo das classes médias, estão a ser asfixiadas sem serviços públicos, sem segurança social, com tremendas dificuldades de acesso à saúde e à educação. Que ambos os candidatos, os seus partidos, continuam políticas favoráveis às grandes empresas, políticas económicas em que um mais que débil crescimento é travestido pelas regulares explosões do mercado bolsista, enquanto a precariedade social e económica da esmagadora maioria da população é crescente. Muito menos relatavam que o grande objectivo de sempre, tanto de republicanos como de democratas, é convencer os explorados a acreditar e defender o sistema que os oprime.  

Quando Trump tem uma retumbante vitória, contra as expectativas dos figurantes dessas brigadas, rapidamente baralharam as cartas para explicar os seus enganos. Era vê-los a dar flip-flops para rasurarem sem autocrítica nem remorsos todos os equívocos plantados, o que nada deve surpreender porque para essa gente a verdade é uma mercadoria que vendem nas feiras das pós-verdades.

Tudo era explicado por Kamala não ter sido validada nos espectáculos das primárias, imposta pelas urgências de um Biden em acelerada e pública degenerescência, por ter colocado a tónica da campanha nas lutas fracturantes, insistindo nas políticas woke, atirando para um plano muito recuado os problemas dos deploráveis de Hillary Clinton, do lixo de Biden que enfrentam no quotidiano a especulação dos preços, o custo de vida, as elevadas taxas de crédito para aquisição de bens de consumo, as pequenas questões económicas que pesam no bolso, cegas às conquistas da macroeconomia, celebradas por nobeis e não nobeis economistas. Chegam mesmo a ressuscitar a luta de classes, conceito (?) que durante dezenas de anos, sobretudo desde a queda do Muro de Berlim, consideravam ultrapassado, obsoleto, anacrónico, definitivamente atropelado pelas lutas identitárias, de género, racializadas e demais ramificações de uma frondosa árvore que as novas esquerdas modernaças fertilizavam nos cemitérios onde julgavam que as esquerdas consequentes, as que se recusam a dar por eterno o princípio da dominação capitalista, iriam estacionar. Esquerdas que bajulavam e bajulam enquanto sistematicamente ocultam a outra, a esquerda verdadeiramente empenhada nas lutas dos trabalhadores, dos pensionistas, do povo, das pequenas e médias empresas industriais, agrícolas, comerciais, emaranhadas como estão na salvação do capitalismo.

«Muito menos relatavam que o grande objectivo de sempre, tanto de republicanos como de democratas, é convencer os explorados a acreditar e defender o sistema que os oprime.»

Não deixa de ser curioso esse movimento de rotação circunstancial, superficial, pequeno interregno nas cabalas anteriores que rapidamente serão recuperadas, bem ilustrativas do cinismo, da jacobice estrutural da gente dessas brigadas. Alguns atreveram-se mesmo a referir Marx, que nunca ou muitíssimo poucos leram ou leram na Wikipédia, nos resumos da inteligência artificial, o que produz idiotices descabeladas como a de que Thomas Piketty é o novo Marx ou que Trump, «economicamente, é a direita do proteccionismo, das tarefas alfandegárias e da desglobalização (o que, por cá, o Partido Comunista Português chamaria de política patriótica e de esquerda)», com a intenção de atingir o PCP, bradou alarvemente um demo-liberal que tem assento semanal num jornal dito de referência que lhe permite exibir a sua indigência mental.

O que não percebem é que Trump, em desespero, considera insuficientes as políticas proteccionistas impostas pelas ferramentas dos EUA, FMI, BM e OMC, pelo que quer ampliá-las, torná-las mais efectivas, mais eficazes para enfrentar as novas realidades do rebentamento da bolha do «Fim da História» de Fukuyama, dos desatinos de Hayek, Friedman & Companhia, quando os EUA se convenceram que o fim da União Soviética representava que nenhum país ou grupo de países teria hipóteses de escapar à submissão das regras impostas pelo império norte-americano e seu braço armado, a NATO.

«Alguns atreveram-se mesmo a referir Marx, que nunca ou muitíssimo poucos leram ou leram na Wikipédia, nos resumos da inteligência artificial, o que produz idiotices descabeladas como a de que Thomas Piketty é o novo Marx (…).»

Os escombros do Muro de Berlim cimentaram nas elites norte-americanas a convicção que nenhum país ou grupo de países jamais ousaria enfrentar o poder dos EUA. Estávamos em 1991, quando nos dez países mais ricos pelo PIB figuravam quase todos os países do G7, EUA, Japão, Alemanha, nos três primeiros lugares, Itália, França, nos sexto e sétimo, Reino Unido, no décimo, hoje, em 2024, só estão quatro com os EUA, em segundo lugar, ultrapassados pela China, o Japão e a Alemanha em quinto e sexto, ultrapassados pela Índia, terceiro e Rússia, quarto, no último lugar a França. Actualmente, aos países do G7 correspondem 29,6% do PIB mundial, enquanto que aos cinco países originais dos BRICS (China, Índia, Rússia, Brasil e África do Sul),  apesar das suas enormes diferenças e até contradições, correspondem 32,7%, número que sobe para 36,7% juntando os cinco países que entraram no ano passado para essa organização (Irão, Egipto, EAU, Etiópia e Arábia Saudita). Em 1991, o dólar era o papel-moeda hegemónico, a incontestável moeda nas trocas comerciais, hoje, nas transacções entre os países dos BRICS, nem chega aos 25%. Percebe-se as angústias, o furor do MAGA (Make America Great Again), com as brutais fissuras no controlo unilateral que os EUA exerciam sem concorrência no sistema financeiro internacional e nas estruturas, militares e civis, que emergiram no pós-II Guerra Mundial. As armas que os EUA usavam para dominação mundial estão progressivamente a enfrentar reveses de vária ordem, em irreversível queda.

Foi neste contexto que se realizaram eleições num país em que o combate pela conquista do voto é praticamente corporizado em exclusivo por dois partidos que, por vias diversas mas não muito distintas, debatem variantes dos projectos do grande capital. Uma campanha de enganos, de jogos pouco limpos, de discursos populistas uns mais reaccionários que outros, mas todos reaccionários, que terminou por ter um incontestado vencedor, para surpresa generalizada dos que apostavam noutro ganhador deste combate de wrestling. A questão final, o importante é, como diria Humpty Dumpty na Alice no País das Maravilhas, saber quem de facto acaba a mandar, porque é isso que interessa.

Quem manda é Trump, com Senado, Congresso, Supremo Tribunal domesticados. Trump é a chave de parafusos que irá apertar toda a sociedade norte-americana aos interesses dos bilionários, com a particularidade de não se saber até onde as suas idiossincrasias coincidem e se sobrepõem aos interesses gerais, até onde irão as suas vinganças pessoais. Mas Trump é um autocrata, uma personagem maior dos neo-fascistas, é muito mais do que isso, como escreve Manuel Loff, configura uma viragem histórica a nível internacional. 

«Foi neste contexto que se realizaram eleições num país em que o combate pela conquista do voto é praticamente corporizado em exclusivo por dois partidos que, por vias diversas mas não muito distintas, debatem variantes dos projectos do grande capital.»

Uma viragem à direita e extrema-direita, um retorno a um fascismo adaptado aos nossos tempos, mesmo que assente sensivelmente nos mesmos pilares do original com as suas variantes. Fascismo que começou por entreabrir portas logo após a derrota na guerra. Portas que depois foram abertas, agora escancaradas pelos que desde sempre não combatem uma transformação real do sistema capitalista. Inquietante foi e é a participação de algumas esquerdas nesse devir, em que as ilusões do século passado renascem com outras vestes. Esquerdas onde se dispersam quadros radicalmente de esquerda e até de valor, enquadrados em partidos e associações em que uns tem a esperança vã de que é possível civilizá-los, só se alarmando quando ao fecharem portas os descobrem a entrar pelas janelas. Outros porque meteram o socialismo nas gavetas fechando-o a sete chaves ou enveredaram pelas assumidas traições das terceiras vias, outros desbussolando-se nos festivais syrizas, podemos & companhia, outros ainda na autofagia de perder os princípios e começar pelos fins, todos desaguando sempre e inevitavelmente em aceitar os pressupostos das políticas neoliberais nos termos de debates das mais sornas mornices às ebulições frustres, no quadro do brutal simulacro de democracia dominante nos últimos decénios, em que quem governa de facto é o mercado e o capital, enquanto os partidos se limitam a ser as máquinas de angariação de votos para acederem ao poder, ao serviço dos grupos económicos que lhes dão apoio variável. A sequência é a conhecida com o ascenso generalizado das direitas e extremas-direitas que estão nos governos ou são suporte de muitos governos, viragem bem manifesta na Comissão Europeia em que até o falcão Borrell é depenado pela falcoa Kallas, tudo debaixo do guarda-chuva eufemístico das direitas iliberais e direitas liberais para nos distrair do primordial, como se direita e democracia não fosse uma oxímoro. 

O mundo muito mudou, mas as similitudes com as crises dos anos 30/40 são bem visíveis, sem se dever esquecer que a Grande Depressão se resolveu com a II Grande Guerra. Hoje, os ventos da guerra são perigosamente soprados em várias fogueiras pelo capitalismo em crise bem visível nas ofensivas do decadente imperialismo dos EUA, que Trump tal como Kamala tão bem corporizam, que é apoiado pela NATO, UE, G7, uma real ameaça ao mundo, aos povos, aos trabalhadores. Para as esquerdas consequentes dois vectores são fundamentais: um é fazer frente ao fascismo nas suas diversas e múltiplas formas, das mais dissimuladas às mais brutais, outro é lutar sem fadiga pela paz, mesmo contra os que, mascarados de pacifistas, a subvertem. Uma luta difícil e complexa enfrentando um sistema corrupto e corrompido, apoiado por uma gigantesca máquina de desinformação. É difícil mas é a condição necessária para se construir uma real alternativa.

(publicado em AbrilAbril https://www.abrilabril.pt )

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A ORIGEM da PAISAGEM

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Na vasta obra de Hogan a paisagem ocupa lugar de destaque. Ao contrário das gravuras onde a narrativa é singular por vezes pontuada por um humor sofisticado, bem conhecido de todos os que com ele tiveram o privilégio de conviver, na pintura os elementos estranhos à estrutura das paisagens vão progressivamente desaparecendo. As presenças humanas e outros sinais da sua presença, de árvores e de árvores de betão que no príncipio, ainda surgiam fugazmente nas pinturas a pincel ou espátula, quando as paisagens se tornaram o tema dominante vão rareando até se ausentarem completamente. A pintura assume-se substantiva debravando paisagens, progredindo lenta e preciosamnte pelo branco da tela para glória dos avatares da terra, uma pintura emocionada a percorrer os seus segredos e estruturas, terra sempre desnuda e silenciosa, sem espaço para retóricas com que o pintor vai preenchendo inúmeras telas com as imperceptíveis transformações das suas morfologias.

Nas paisagens de Hogan o luxo da solidão é o espelho da harmonia do mundo. É um mundo de paisagens expurgada de acessórios, reduzida às suas formas essenciais em que se explora as suas arquitecturas raras vezes interrompidas por uma toalha de água, em que o céu quando surge é superlativo. Pintura de equilíbrios dos poliedros cromáticos denunciando a solidez da ordem invísivel da natureza como se quisessem fazer soar os movimentos de translação do arco ferindo as cordas do violoncelo fazendo voar o sonho nos pentagramas das rochas, desocultando a pulsação da vida na organicidade dessas paisagens que quando as contemplamos são janelas onde aplainamos as nossas iras e as nossas alegrias, as nossas vivências e os nossos falecimentos, os nossos enganos e desenganos, as urgências das nossas paixões.

Hogan, que como ninguém pintou o silêncio da terra, irá uma única vez cortá-lo com um grito brutal. Homem socialmente empenhado, comunista convicto, invetiva bem alto o seu espanto, indignação e raiva em «Morte no Alentejo» com os corpos de Caravela e Casquinha a derramarem na aspereza da terra os anos que não mais viverão.

A terra silente travessando equinócios e solstícios irá retornar às suas telas que, parafraseando Oscar Wilde quando escreveu que o nevoeiro não existia antes de Turner, permitem afirmar que as paisagens não existiam antes de Hogan.

É este Hogan que podemos admirar numa pequena mas significativa exposição no Panteão Nacional até 1 de Dezembro, com 12 obras, produzidas entre 1957 e 1975, em papel e tela, em xilogravura, água-tinta ou óleo, e ver o documentário «Hogan — O Pintor» realizado por Teresa Martha, produzido pela Fundação Calouste Gulbenkian, que lhe dedicou uma exposição antológica em 1992.

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Políticas Públicas de Ordenamento do Território, Urbanismo e Habitação

Acerca dos temas referidos no título deixa-se notícia da edição de um livro onde se tenta ajudar a compreender as questões mais relevantes de uma matéria tão importante e actual.

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EU SOU ISRAEL

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Saturno devorando os seus Filhos, fresco de Goya

Eu sou Israel. Eu vim de um país sem povo para um povo sem terra. As pessoas que estavam aqui deixaram de ter o direito de estar aqui, o meu povo mostrou que tinham para sair ou morrer, apagando 400 aldeias do mapa, apagando a sua história.

Eu sou Israel. Alguns dos meus colegas cometeram massacres, em seguida, tornaram-se primeiro-ministros representando-me. Em 1948, Menachem Begin era o chefe da unidade que massacrou os habitantes de Deir Yassin, incluindo 100 mulheres e crianças. Em 1953, Ariel Sharon o massacrou os habitantes de Qibya. Em 1982 apoiamos os nossos aliados no massacre de 2.000 refugiados nos campos de Sabra e Chatila.

Eu sou Israel. Nação esculpida em 1948, em 78 % da terra palestina, desapropriando os seus habitantes substituíndo-os Judeus da Europa e de outras partes do mundo. Aos nativos, cujas famílias viveram nesta terra por milhares de anos, não é permitido aí continuarem, Judeus de todo o mundo são bem-vindos, obtém instântanea cidadania.

Eu sou Israel. Em 1967, Israel engolia as restantes terras da Palestina, em Jerusalém Oriental, Cisjordânia e Gaza, colocava os seus habitantes sob um regime militar opressor, que controlava e humilhava todos os aspectos de suas vidas diárias. Finalmente, eles devem entender que não são bem-vindos, devem-se juntar aos milhões de refugiados palestinos que vivem nas favelas do Líbano e a Jordânia.

Eu sou Israel. Tenho o poder de controlar a política norte-americana. O meu comité de assuntos públicos americano-israelense pode fazer ou quebrar qualquer político de sua escolha, como pode ver, todos eles competem para me agradar. Todas as forças do mundo são impotentes contra mim, inclusive a ONU, desde que eu tenha o veto dos Estados Unidos para bloquear qualquer condenação de meus crimes de guerra. Como Sharon tão eloquentemente proclamou : “Nós controlamos a América “.

Eu sou Israel.  Influencio os grandes meios de comunicação na América. Vai sempre encontrar informações feitas à medida das minhas preferências.  Investo milhões de dólares em relações públicas, a CNN, New York Times e outros têm feito um excelente trabalho na promoção da minha propaganda. Dê uma olhada noutras fontes de informação internacional, não vai ver diferenças.

Eu sou Israel. Palestinos querem negociar a paz !? Vocês não são tão inteligentes quanto eu. Negocierai, mas só vos vou deixar ter municípios, enquanto verificar as vossas fronteiras, a vossa água, o vosso espaço aéreo, e tudo o que é importante. Vou “negociar” enquanto dominar as vosass colinas e ocupar os vossos territórios por colonatos povoados pelos mais extremistas dos meus extremistas, armados até os dentes. Esses assentamentos serão conectado por estradas que vocês não podem usar, vocês vão ficar presos em pequenos bantustãos dispersos entre eles, rodeado pelos pontos de controlo em todas as direções.

Eu sou Israel. Tenho o quarto exército mais poderoso do mundo, a posse de armas nucleares. Querem que os vossos filhos se atrevam a enfrentar a minha opressão com pedras, sabendo não que os meus soldados não hesitam em rebentar-lhes a cabeça ? Em 17 meses, já matei milhares, feri mais de 17.000, a maioria civis, e tenho mandato para continuar, porque a comunidade internacional permanece em silêncio. Ignorem, como eu, as centenas de oficiais da reserva israelitas, que agora estão se recusando a efectuar o meu controle sobre as vosas terras e o vosso povo ; as vozes das suas consciências não irão protege-los, nunca.

Eu sou Israel. Quer liberdade ? Tenho balas, tanques, mísseis, Apaches e F-16s, para vos aniquilar. Cerco as vossas cidades, confisco as vossas terras, arranco as vossas árvores, destruo as vossas casas. Não entenderam a mensagem ? Nunca vão ter paz ou a liberdade, porque eu sou Israel.

Por favor, leiam ” A Limpeza Étnica da Palestina “, do professor de história e ativista israelista Ilan Pappé.

Somos a mentira do mundo com 73 anos de idade.
O povo palestino está sendo destruído de diante de nossos olhos, e o número de pessoas que estão chorando em voz alta e “nunca mais” para desviar o olhar.

Norman Finkelstein
Fonte UNICEF

Norman Finkelstein, nasceu a 8 de dezembro de 1953, em Brooklyn filho de judeus sobreviventes do gueto de Varsóvia.

É um cientista político americano. Foi sucessivamente professor na Faculdade de Brooklyn, Hunter College, City University of New York, Universidade de DePaul, até setembro de 2007. Perseguido pelo loby judaico nos EUA foi excluido das universidades norte-americanas depois de ter publicado A Indústria do Holocausto, Reflexões sobre a Exploração do Sofrimento dos Judeus, Antígona, Abril 2001

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BOLSÕES de RESISTÊNCIA

A frente de luta é o árduo trabalho de redefinir políticas culturais porque, como afirmou Camus, «tudo o que degrada a cultura encurta o caminho para a servidão». Nesse quadro há a obrigação política, social e cultural de resistir.

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Díptico Marilyn», serigrafia de Andy Warhol, 1962 A arte pop é a mais fiel expressão da arte contemporânea, aceitando o mundo como ele é, tendo percebido que as artes visuais tradicionais não existem a não ser como forma de ganhar dinheiro, de que Warhol é figura paradigmática e coerente.

Parte considerável, praticamente toda a actividade cultural contemporânea não tem outra função social que não seja distrair o público, desviá-lo da situação política divertindo-o, num mundo invadido por rótulos seja na música, na literatura, nas artes visuais, no teatro, no cinema, nas artes performativas, mesmo na filosofia, em que o questionamento do real falece e a cultura torna-se uma poderosa ferramenta de desatenção, simplificação, desresponsabilização, dessocialização catalisando excitações frustes submetidas às retóricas promocionais.

Há uma intensa actividade publicitária que se exibe enquanto actividade cultural mas o que de facto publicita é a dominante neoliberal que contaminou as ideologias sociais-democratas, é a trincheira dos demo-liberais às direitas e extremas-direitas. O mais extraordinário dessa matriz é ser o modelo contestatário de algumas esquerdas que substituíram a dinâmica social da luta de classes pelas lutas identitárias, fracturantes e transgressivas, algumas mesmo de cariz emancipatório, que tornam a sua actividade uma performance mediática, em linha com a cultura prevalecente em que a representação é um fim em si-mesmo, que dispensa ideologias, enredando-se em políticas que propõem mudar de vida sem mudar a vida, em que a vida se confina num jogo de oferta e de procura, o que tende a estilhaçar as lutas contra o sistema, sendo por ele absorvido.

Hoje, o objectivo é o mesmo de ontem, assim desenhado desde que a Revolução de Outubro triunfou. Persiste mesmo com as esquerdas devastadas ainda antes que a queda do Muro de Berlim, que provocou o maremoto das ilusões do fim da história e que as persistentes crises do sistema capitalista, aceleradas pela financeirização da economia, se resolveriam com retoques em que o mais vulgar são as alterações das taxas de juro que deixam intocadas as razões de fundo, pelo que recorrem à irracionalidade das explicações pseudo psicológicas de que as mais comuns são as «crises de confiança, a ansiedade generalizada, as depressões do mercado» que assaltam os investidores. São as narrativas em voga que recorrentemente reclamam reformas estruturais inúteis para resolverem as contradições, essas sim estruturais do sistema capitalista. Narrativas que, contra todas as evidências, presumem a eternidade da dominação capitalista, o que desde sempre é negado e combatido pela esquerda coerente com os princípios marxistas que persistem em não perder actualidade.

A situação presente de grande mal-estar civilizacional e cultural, tanto na sua acepção antropológica como na restrita às práticas artísticas, é caracterizada pelas desesperadas metamorfoses do capitalismo na demanda da sua sobrevivência pela passagem do liberalismo clássico ao neoliberalismo, progressivamente a desaguar nos neo e protofascismos, ainda obrigados a limitações circunstanciais apesar da sua influência crescente na Europa, no continente americano submetido aos EUA, de que o melhor exemplo é a Argentina de Milei.

«Narrativas que, contra todas as evidências, presumem a eternidade da dominação capitalista, o que desde sempre é negado e combatido pela esquerda coerente com os princípios marxistas que persistem em não perder actualidade.»

Depois do Plano Marshall, de Maio de 68, da queda do Muro de Berlim, os ideólogos de sectores nucleares como o audiovisual, a comunicação social, as artes e letras, a moda, os tempos livres promoveram em paralelo, com grande sucesso assinale-se, a concentração dos meios de produção a uma velocidade nunca antes vista e o consumo transgressivo como uma pretensa frente de combate contra o capitalismo neoliberal, em demanda da neutralização da luta de classes em todas as frentes.

Na muito activa Guerra Fria Cultural há que referir a importância do Plano Marshall, que não se limitou à recuperação económica de uma Europa devastada pela guerra. Empréstimos e doações eram regulados por rígidos protocolos que na vertente cultural exigiam que muitos dos milhões de dólares fossem aplicados na exibição de filmes produzidos em Hollywood, o que impulsionava a indústria cinematográfica norte-americana, promovia o modo de vida e a cultura dos EUA, combatia os partidos de esquerda. Em poucos anos são dezenas de milhares os filmes hollywoodescos exibidos pela Europa o que, conjugado com outras acções nas áreas das artes, letras e ciências humanas, teve como resultado a actual colonização cultural. O brilho dessas políticas culturais são bem patentes na secundarização das culturas nacionais que só subsistem se comercialmente interessantes, sendo submetidas a processos de assimilação e aculturação que são disfarçados como cruzadas na sua defesa.

«Depois do Plano Marshall, de Maio de 68, da queda do Muro de Berlim, os ideólogos de sectores nucleares como o audiovisual, a comunicação social, as artes e letras, a moda, os tempos livres promoveram em paralelo, com grande sucesso assinale-se, a concentração dos meios de produção a uma velocidade nunca antes vista (…).»

Mais clara e grave é a reescrita cinematográfica da história de que podem dar muitos exemplos, das inúmeras sagas glorificando e mistificando a conquista do Oeste, a entronização do Dia D como a batalha decisiva no desfecho da II Guerra Mundial, quando de facto, na frente Leste, os êxitos e avanços do Exército Vermelho é que eram determinantes para o curso da guerra, inquietando mesmo os aliados ocidentais que, para atrasarem esse curso, não se coibiram de bombardear desnecessariamente Dresden, como Kurt Vonnegut descreve em Matadouro Cinco ou, ainda mais descarado, quando Roberto Benigni n’A Vida é Bela, para garantir concorrer ao selo comercial de um Óscar, substitui os tanques soviéticos por norte-americanos na libertação do campo de concentração de Auschwitz, o que é bem demonstrativo de como a cultura e as artes facilmente se submetem aos poderes económicos. Todo o esplendor desses desfiles culturais difundiram eficazmente o «sonho americano» pela Europa de tal modo que, actualmente, são cada vez mais as gerações a acertar as suas vidas por um estilo de vida liberal. Nas teorias culturais, nas artes e letras é o tempo do star-system em que as estrelas se tornam candentes nas constelações de famosos que se acotovelam na comunicação social e nas redes sociais.

Na vulgaridade da vida contemporânea, os eventos culturais e artísticos são especialmente visitados nos tempos livres das idas ao ginásio, das refeições dietéticas livres de glúten, das cervejas sem álcool, cafés sem cafeína, doces sem açúcares, ao abrigo dos perigos que poderiam contaminar vidas detergentadas em que as maiores excitações marcam encontro nos festivais de música anglo-saxónica na forma e internacional nos sentimentos.

«Em poucos anos são dezenas de milhares os filmes hollywoodescos exibidos pela Europa o que, conjugado com outras acções nas áreas das artes, letras e ciências humanas, teve como resultado a actual colonização cultural.»

O gosto assim travejado assenta invariavelmente em campanhas promocionais e equívocos estéticos. A rarefação do questionamento dos fundamentos da vida é uma realidade ineludível. A aculturação, diariamente verificável nos meios académicos, culturais e artísticos ainda em estado embrionário, tinha sido intuída por Buñuel, que quando confrontado com a cultura norte-americana afirma que um país, para manter e difundir a sua identidade cultural, tinha que possuir duas ferramentas «canhões e moeda forte».

Não deixa de ser interessante assistir-se à decadência impossível de dissimular do imperialismo norte-americano, a uma progressiva desdolarização das economias mundiais, à deterioração de um poderio, predominante desde o fim da II Guerra Mundial até há poucos anos, cada vez mais incapaz de impor regras e sanções que se sobrepõem ao direito internacional e aos depauperados direitos nacionais, e essa ficção no actual contexto geopolítico continuar a ser sustentada por uma comunicação social estipendiada pelas malhas culturais que teceu, o que só demonstra como esses meios são superlativos para a sustentação de hegemonias, mesmo que em falência.

Cultura e artes desde sempre estabeleceram cumplicidades com os poderes económicos, que, por sua vez, influenciam mesmo, comandam os poderes políticos. Nunca como na actualidade as elites culturais, artísticas e académicas a eles tanto se submeteram, marcando presença em talk-showspodcasts e toda a parafernália informativa pós-moderna em que se fomenta o analfabetismo político, o esquecimento histórico, o brilho efémero e superficial do consumo intelectual instantâneo e medíocre. A normalidade da anormalidade dessa cultura inculta que promove a iliteracia cultural dominante. Byung-Chul Han expõe-o com brutalidade: «Hoje, a própria percepção assume a forma de binge-watching (assistir a algo compulsivamente, descontroladamente) de visionamento bulímico. Oferece-se continuamente aos consumidores o que se adapta por completo ao seu gosto – quer dizer, do que eles gostam. São alimentados de consumo como gado, com qualquer coisa que acaba sempre por se tornar qualquer coisa. O binge-watching pode ser entendido como o modo actual de percepção generalizado.»

Há excepções, mas as excepções são a confirmação da regra e a regra é o triunfo imperial do espectáculo que bordelizou a cultura com o mercado a extrair benefícios máximos do empobrecimento moral e intelectual da sociedade. A produção de produtos ditos culturais pelas indústrias culturais e criativas faz-se em linhas tayloristas que impõem um ritmo em que deixa de existir tempo para pensar a criação artística, o que acaba por ser uma forma de censura económica, pauperizando a cultura até a reduzir a uma sucessão de entretenimentos não significantes, em que tudo é idêntico por mais e melhores artefactos que se lhe colem para maquilhar o seu estado esqueletizado em que a gestão cultural, um instrumento das estruturas de dominação neoliberal, tem o objectivo de impor uma submissão pacífica que pareça espontânea.

«Cultura e artes desde sempre estabeleceram cumplicidades com os poderes económicos, que, por sua vez, influenciam mesmo, comandam os poderes políticos.»

É o fim da cultura na sua relação ideológica e política com a sociedade em que se procura que a alienação global seja voluntária. Uma cultura da ilusão que se apresenta como um pensamento mágico de um sistema que quer reduzir a humanidade a uma mercadoria hipotecária para que os homens deixem de afirmar a sua individualidade e o seu progresso pelo trabalho humano. Em que se procura construir um homem pela aniquilação do sujeito moderno crítico, sobretudo se for marxista, substituindo-o por um indivíduo autista, indiferenciado consumidor que tem por referência a apreciação solipsista dos objectos, artísticos ou técnicos, enquanto mercadorias da cultura de massas. Um típico consumidor parasitário gerado nas linhas de montagem do hedonismo oportunista celebrado maximamente no Anti-Édipo de Deleuze/Guattari.

A propaganda dos gestores culturais impulsionados pelas «máquinas desejantes» deleuzianas e os arroubos libidinais de Marcuse imprimiram a abstracção dos desejos promovendo um corte horizontal e substancial da produção criativa actual que passou a estar sobretudo fragmentariamente centrada nas questões de identidade, de género, ambientais, etc., em que essas lutas, a mais das vezes enredadas em extravagâncias e originalidades, dissimulam os silêncios embaraçados, por mais estridentes que se manifestem, das esquerdas culturais diante do poder político demoliberal, sendo cúmplices do infoentretenimento a descambar na deterioração do discernimento.

Tudo se agudiza quando, numa escala sem precedentes, actividades editoriais da literatura à música, do cinema à comunicação social, todas as actividades culturais e artísticas foram objecto de concentrações económicas que facilitam uma censura que dispensa tesouras e lápis azuis, que formatam a opinião e o gosto públicos, são a arma inquisitorial dos mentalismos imperialistas autocráticos ou mascarados de democracias.

A arte e a cultura, actividade social que caracterizava as sociedades desde as civilizações pré-históricas até aos tempos mais recentes, deixaram de ser significantes, apesar dos subsídios económicos que lhe são concedidos para iludir essa realidade.

Em todo o mundo, nos leilões de arte atingem valores estratosféricos os velhos mestres, mas também alguns contemporâneos, esses impulsionados por criativas manobras bolsistas de retóricas estéticas em que ninguém acredita e que são tão mais «inteligentes» quanto mais indigentes são as obras. O mecenato alcançou valores impensáveis em anos anteriores, com a particularidade de que os «mecenas» modernos só se interessam pela cultura e as artes para consolidar o seu estatuto social. Enormes verbas foram e são investidas na construção de museus, centros culturais, teatros, teatros de ópera, na subvenção a espectáculos, exposições, capitais da cultura, bienais, festivais, etc. A outra face dessa euforia cultural são os mecanismos dos mercados das artes, que esvaziaram as artes e as críticas das artes da sua função autónoma, dissociando-as da vida e das condições reais, materiais e sociais, da sua produção.

O trabalho nas áreas culturais é fundamental para dar uma forte contribuição na luta de resistência a esse estado de sítio imposto pelo capitalismo neoliberal. É urgente definir políticas culturais de esquerda que não se deixem contaminar e subverter pelo pensamento de direita como se a cultura fosse um território neutro em que se encontram os bons espíritos.

O lugar do juízo estético foi ocupado pela fascinação obsessiva no excesso de labirintos que se sucedem e sobrepõem corroendo as grandes unidades ideológicas, sociais, económicas e culturais, marcando o fim da modernidade, em que todos as esperanças se diluem no perdido horizonte e em que a cultura deixa de ser uma presença viva pelo que é sempre de relembrar Blanchot quando afirma uma evidência: «é secretamente dramático saber que a cultura não pode fazer mais do que desdobrar-se gloriosamente no vazio contra o qual nos protege, dissimulando-o». Nesse estado de sítio há uma fusão obscena entre a estética e a realidade. Existem, como é de regra, excepções que cumprem o desígnio expresso por Burckhardt: «talvez hoje existam grandes homens para coisas que não existem». Homens que provam a sua genialidade em obras de afirmação individual o que também é uma contradição central no quadro social globalizado.

«O trabalho nas áreas culturais é fundamental para dar uma forte contribuição na luta de resistência a esse estado de sítio imposto pelo capitalismo neoliberal.»

Hoje acelera-se pelas auto-estradas de um bullying cultural do excesso, excesso de actividade editorial, excesso de exposições, excesso de ruído, excesso de imagens, excesso de informação, excesso de comunicação, excesso de oferta e de consumo, todo um excesso que se sobrepõe e se intercepta contaminado pelas inúmeras formas de idiotização desta época obrigada à vertigem da velocidade que passam ao lado de qualquer análise sustentada, profunda, em favor da moda e do kitsch que «é a tradução da estupidez e dos lugares comuns na linguagem da emoção» (Milan Kundera).

É nesse território que a cultura floresce numa terra de ninguém e a arte, essa utilidade do inútil, perde o sentido de ser a utilidade da vida, da criação, do amor, do desejo que transforma a vida. Terá de ser a arte a encontrar aquilo que quer fazer com os seus materiais e instrumentos, porque ela não se pode entregar pura e simplesmente na mãos da política e dar à política o comando colonizando a poética, nem se submeter aos ditames do mercado em que tudo depende das perspectivas de venda que promove o impacto máximo de obsolescência imediata.

A frente de luta é o árduo trabalho de redefinir políticas culturais porque, como afirmou Camus, «tudo o que degrada a cultura encurta o caminho para a servidão». Nesse quadro, com os instrumentos que existem de que não se pode abdicar, com os constrangimentos impostos pelo capitalismo neoliberal enquanto for dominante, há a obrigação política, social e cultural de resistir projectando políticas culturais em que a democratização cultural não se esgote na democratização da fruição cultural, se estenda ao acesso à criação, o que implica a democratização das actividades e do uso dos seus meios e instrumentos, enquanto se luta sem qualquer desfalecimento por uma sociedade outra mas que obriga a que, sem qualquer cedência de princípios, se reformulem e actualizem linguagens.

Bibliografia

Blanchot, Maurice, O Livro a Vir, Relógio d’Água, 1984

Bunuel, Luís, O Meu Último Suspiro, Fenda, 1985

Burckhardt, Jacob, Considerations sur L’Histoire, Allia, 2001

Camus, Albert, Actuelles, Folio 1997

Clouscard, Michel, Le Capitalisme de la Seduction, Critique de la Social-Democratie Libertaire, Éditions Delga, 2009

Debord, Guy, A Sociedade do Espectáculo, Antígona, 2012

Deleuze, Giles/ Guattari, Felix, O Anti-Édipo, Capitalismo e Esquizofrenia I, Assírio & Alvim, 2004

Engels, Friedrich, Sobre O Capital de Karl Marx, Edições Avante!, 2004

Han, Byung-Chul, A Expulsão do Outro, Relógio d’Água, 2018

Kundera, Milan, A Insustentável Beleza do Ser, Edições Dom Quixote, 1972

Lacroix-Riz, Annie, Les Origines du Plan Marshall: Le Mythe de “L’Aide” Américaine, Armand Collin, 2013

Marcuse, Herbert, Eros et Civilisation, Points, 1971

Marx, Karl / Engels, Friedich, Manifesto do Partido Comunista, Edições Avante!, 1997

Marx, Karl, Trabalho Assalariado e Capital, Edições Avante!, 2001

Saunders, Frances Stonor, Who Paid the Piper? The CIA and the Cultural Cold War, Granta, 2001

Vonnegut, Kurt, Matadouro Cinco ou a Cruzada das Crianças, Editorial Caminho , 1990

Walker, Martin,The Cold War and the Making of Modern World, Fourth State, 1993

(Publicado em AbrilAbril https://www.abrilabril.pt/ 28 Setembro2024)

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ESTADO DE SÍTIO

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Eclipse de Sol, George Grosz, óleo sobre tela, 1926, Museu de Arte de Hectsher

O João Vasconcelos-Costa, num dos seus últimos e como sempre excelentes “post” a propósito das eleições em Brandeburgo em que a generalidade dos jornalistas(?) classificam o partido de Sahra Wagenknecht (BSW)”de «uma nova aliança populista de esquerda» que «colocar rótulos, em geral depreciativos, nas personalidades e organizações políticas foi coisa que sempre se fez mas agora talvez com maior insistência er certamente com menor preocupação de credibilização da atribuição. Chamar comunista a largos setores da oposição antifascista até se compreendia, mas hoje, por exemplo, meter no mesmo saco de populismo seja o que for que tiver algum grama de oposição ou crítica à UE é desavergonhada utilização do que se julga ser a incapacidade de muitos leitores para se aperceberem do abuso semântico»

Coloquei o seguinte comentário a esse “post” que reproduzo aqui, com algumas pequenas alterações e aditamentos:

Quem se opuser às políticas neoliberais e de vassalagem às oligarquias que comandam os EUA nas variantes Kamala/Trump, quem for de esquerda consequente e defender políticas económicas e sociais contra a submissão do público ao privado é populista de esquerda como propugnam os ultra-liberais, os liberais cada cor seu paladar, os demoliberais, os sociais-democratas das terceiras via. Mais carregadamente populistas se por acréscimo se opuserem às ditaduras dos mercados, uma grossa mentira quando as políticas proteccionistas dos interesses das grandes empresas capitalistas estão na ordem do dia. De igual modo quem se oponha à guerra na Ucrânia e defenda a paz é pró-Putin, quem critique o genocídio que Israel está a perpetrar na Palestina é antisemita, quem se manifeste contra o mundo unipolar gerido por regras que violam sistematicamente os direitos universais e humanos é contra os valores da civilização ocidental, etc.,etc..

Qualquer partido de esquerda que seja coerente e não vacile na luta pela paz, pelo estado social, contra o neoliberalismo é imediatamente rotulado de populista de esquerda com o propósito de os colocar no extremo em que falsamente se toca com o populismo de direita, uma velha e relha falácia que continuam a semear despudoradamente, porque pudor e ética estão completamente banidas por aquelas bandas. Em contraponto desapareceram os fascistas dos envernizados aos taberneiros, são radicais de direita ou da extrema direita, como se o fascismo não existisse, sobretudo como se o fascismo não tivesse as suas raízes mergulhadas e adubadas pelo capitalismo. São essas a novas normas editoriais internacionais para contaminar, manipular e submeter a opinião pública, bem visíveis em todos os meios de comunicação social a que os jornalistas mercenários se submetem em matilha. Outra norma é censurar rigorosamente que tudo o que contraria as narrativas dos EUA/UE e suas extensões NATO/BCE/FMI/BM, censurada, imediatamente rotulada de contra-informação, quando o que essa gente pratica é a mais despudorada propaganda, contara todas as evidências. Nada escapa a essa fina rede de repressão atlantista, em que a única rotulagem por ser tão escandalosa ainda por vezes passa por essas malhas é, dos que ainda conseguem ter uma fraca réstea de dignidade, não classificar indiscriminadamente de antissemita quem se opõe ao fascismo sionista, mesmo que depois apoiem as suas acções com o argumento que Israel tem direito a se defender de quem se defende das monstruosidades praticadas pelos sionistas desde a formação desse estado logo etiquetado de terrorista.

É o estrondoso triunfo do Al Capone quando, numa entrevista na revista Liberty poucos dias antes de ser preso por fuga ao fisco, declarava: «hoje em dia as pessoas já não respeitam nada. Dantes punham-se num pedestal a virtude, a honra, a verdade é a lei. (…) A virtude, a honra é a lei esfumaram-se das nossas vidas». Lendo isto percebe-se com clareza que actualmente quem está nos comandos da defesa dos valores da chamada civilização ocidental e seus ecos na ditadura da comunicação social são a tropa fandanga dos pequenos aos grandes alcapones que buzina com a mesma convicção desse grande cidadão do mundo os mesmos príncipios de virtudes públicas vícios privados.

É o farisaismo, o cinismo e a hipocrisia do mundo contemporâneo de pernas para o ar em que nos querem obrigar a viver e a que devemos resistir. Grave é vermos como esquerdas vacilantes se deixam enredar nessas redes. Erro nosso é darmos margem para benefícios da dúvida a essa gente. Eles sabem bem o que fazem e porque o fazem. Já nem sequer se ouve um qualquer Príncipe de Salinas, no Leopardo de Giuseppe Lampedusa, quando proclamava: «Se quisermos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude». Estão dispostos a fazer tudo, mesmo tudo sem mudar nada, correndo os riscos de uma guerra nuclear, para que nada mude. São os indisfarcáveis sinais de um mundo em decadência sem qualquer horizonte de salvação.

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LEMBRAR ALICE JORGE

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Os anos redondos são utilizados para se fazerem comemorações. Em anos em que várias celebrações coincidem as menos sonoras por vezes quase passam despercebidas. É o caso de 2024 em que os 500 anos de Camões , os 50 da Revolução de Abril, os 100 anos de Carlos Paredes secundarizam o centenário de Alice Jorge, noutro contexto, em terras gaulesas o centenário do 1º Manifesto Surrealista de André Breton é atropelado pela vida moderna vitaminada pelos Jogos Olímpicos.

O centenário de Alice Jorge deve recordar uma das primeiras pintoras portuguesas que deram visibilidade às mulheres na frente das artes visuais. Antes dela outras, em Portugal e no estrangeiro, tinham tido algum detaque mas sem a visibilidade que estavam e haveriam de conquistar. Até essas primeiras gerações as mulheres, como Maria Keil com fina e cortante ironia assinalava, «estão muito representadas na pintura…nuas».

Alice Jorge frequentou a Escola de Artes Aplicadas António Arroio, transitando para Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa e depois para a sua congénere no Porto, onde finalizou os eus estudos de pintura e desenho arquitectónico.

No início do seu percurso artístico aderiu ao neo-realismo, tendo participado nas Exposições Gerais de Artes e no ano de 1953, integrou com Júlio Pomar, António Alfredo, Lima de Freitas, Rogério Ribeiro e Cipriano Dourado o grupo de artistas que, impulsionados por Alves Redol, foi ao arrozais do Ribatejo registar o trabalho que, em duras condições, aí era executado, trabalhos que ficariam conhecidos na História da Arte como o Ciclo do Arroz.

O que distingue e sobressai na poética de Alice Jorge é a tónica que coloca na representação das mulheres, resgatando-as do segundo plano a que a sociedade na altura as remetia. É uma atitude de artista e mulher que, sem grandes alardes, abre uma frente feminista. É uma mulher que mostra outras mulheres nos seus quotidianos de forma directa, com grande mas poderosa simplificação formal, explorando as suas identidades, com grande acento lírico em contextos depurados.

Alice Jorge evolui formalmente para o abstraccionismo, com formas signos que não renegam o seu trabalho anterior. A artista começou a expor os seus trabalhos em mostras colectivas no início dos anos 50 mas o que a torna determinante nas artes portuguesas é o seu empenho e trabalho na Gravura, Cooperativa de Gravadores Portugueses, de que foi , em 1956, uma das suas fundadoras, tendo um papel central na democratização da arte pela gravura, no movimento de renovação da gravura em Portugal, na determinação, com que até finais dos anos 60, enfrentou as crises que atravessaram a cooperativa, lutando diariamente pela sua sobrevivência. Notável gravadora, a par de toda a sua outra actividade artística, dirigiu cursos de gravura e, nos anos 80, publicou, com Maria Gabriel, um livro fundamental: Técnicas da Gravura Artística. Igualmente relevante são os seus trabalhos de ilustradora de livros, nomeadamente Aquilino Ribeiro, David Mourão-Ferreira ou Matilde Rosa Araújo, sendo de referir as edições portuguesas do Decameron, da Divina Comédia, das Novelas Exemplares de Cervantes, das Mil e Uma Noites.

Alice Jorge, embora de perfil discreto, era uma mulher de altos méritos artísticos e pedagógicos que, sempre com coerência e dignidade, se envolveu nas grandes causas humanas e políticas, defendendo os valores da liberdade e da democracia, pelo foi impedida pela ditadura fascista- salazarista de ensinar em escolas públicas, embora tivesse o cuso de Pedagogia na Faculdade de Letras de Lisboa.

É esta artista e mulher de que se deve celebrar o centenário com uma bem merecida exposição retrospectiva da sua extensa obra de pintura, gravura, desenho, cerâmica.

(publicado no Avante! 2646, de 14/08/2024)

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Nenhum Sítio é Deserto

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«Nenhum sítio é deserto» terá um dia Álvaro Siza dito para explicar as opções que assumiu num dos seus projectos de arquitectura referindo-se à variedade e diversidade das referências, materiais e imateriais, naturais, topográficas, construídas, humanas, sociais, que explora e a que recorre para dar forma à obra de que irá resultar um dos seus projectos. Entre esse momento inicial e o final há sempre uma enorme série de desenhos em que se muitos são o trabalho directo do projectista outros são derivas aparentemnte sem qualquer relação com o objecto de trabalho, mas todos mostrando que para o arquiteto é importante pensar a construção dos edifícios desenhando absolutamente tudo, das envolvências geográficas aos contextos humanos, dos espaços arquitectónicos ao mobiliário: cadeiras, bancos, poltronas, móveis, mesas, candeeiros. O mesmo cuidado e rigor com que intervém no espaço urbano de que deve referir a Alameda de Hércules em Sevilha, em que transformou um espaço público periférico e desinteressante num pátio vibrante, animado com cafés e restaurantes, espaços verdes e iluminação estudada para criar uma atmosfera apelativa. Um espaço que tornou a acessível a pessoas com mobilidade reduzida.

Todo o seu trabalho tem o impulso imparável de pensar desenhando. Em que riscar uma folha de papel branco é tão compulsivo como fumar, suas imagens indissociáveis nos registos fotográficos, filmados, nas aparições públicas. Uma bulimia muito particular que se vai acumulando em milhares de desenhos das mais variadas dimensões, muitas vezes temperados por um inesperado e requintado humor, das de maior formato aos dos pequenos papéis colados em maços de tabaco, reveladoras de uma capacidade de trabalho de uma imaginação que não conhece fronteiras, com uma produção criativa que é ímpar na história da arquitectura mundial.

Álvaro Siza é universalmente conhecido e reconhecido pela sua obra de arquitectura. Esta exposição com centenas de desenhos, fotografias, maquetes tem duas partes: uma, na galeria principal da sede da Fundação Calouste Gulbenkian, versando a sua arquitectura, em que se mostram mesmo alguns projectos que nunca saíram do papel, a outra, na galeria de exposições temporárias do Museu Gulbenkian, dedicada ao que poderá classificar de obra plástica. Uma exposição com base num trabalho realizado, pelo curador Carlos Quintáns Eiras, arquicteto e crítico, que com a arquitecta Zaida García-Requejo, curadora assistente, se confrontaram com mais de meio milhão de documentos, em vários arquivos, do Canadian Centre for Architecture, em Montreal no Canadá, à da Fundação de Serralves, da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian, do centro britânico Drawing Matters ao atelier do próprio arquitecto, que dá a conhecer um Siza como muito raramente ou mesmo nunca tinha sido visto com esta extensão e diversidade.

Álvaro Siza Vieira, que em 1992 venceu o Prémio Pritzker, o equivalente em arquitectura aos prémios Nobel, em 1988 o prémio Mies van der Rohe e a Medalha de Ouro do Colégio dos Arquitectos Espanhóis, sendo o único arquitecto não espanhol a ser distinguido com esse prémio, tem obra notável em vários cantos do mundo. Desde o seu primeiro projecto, as Piscinas de Leça de Palmeira a muitos outros, sejam os de habitação social no Porto e em Berlim, os da fundações de Serralves e Iberé Camargo, a Faculdade de Arquitectura do Porto, o Pavilhão de Portugal na Expo 98, o Edifício sobre a Água na China, na cidade de Huai’na, o Teatro-Auditório de Llinars del Valles em Barcelona, são muitas as suas obras que fazem parte da História da Arquitectura Contemporânea.

Esta exposição, na Fundação Gulbenkian que pode ser visitada até dia 26 de Agosto, com dispositivos expositivos bem desenhados e concretizados, sublinham sinalizam e revelam um Álvaro Siza arquitecto, designer, artista e homem de uma dimensão universal invulgar a que se deveria acrescentar a sua continuada intervenção cívica, apoiante desde a primeira hora da esquerda consequente.

(publicado em Avante! 2644, 1/08/2024)

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NA PRIMEIRA CURVA MAIS ACENTUADA, MOSTRAR A VERDADEIRA FACE

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Deux Fois du Noir , Yves Tanguy

O Público fazia essas reportagens ( sobre o crescente poder dos nazis no Estado ucraniano e sobre os campos militares de treino de nazi-fascistas na Ucrânia) que também apareciam, por exemplo, no Guardian, no The Independent, no New York Times e noutros medias alinhados com o pensamento ocidental dominante, bem como a constatação de que a Ucrânia era dos países mais corruptos do mundo. Entre os corruptos figurava Zelensky, seus patrocinadores e pares nos poderes públicos. A guerra no Donbass e Lugansk começou de facto em 2014 e vários crimes cometidos pelas milícias fascistas ainda chegaram a ser denunciados nos médias ocidentais. Com a invasão russa tudo foi silenciado. Mais chocante é a posição de algumas esquerdas mundo fora. A ministra das Relações Exteriores da Alemanha, Annalena Bärbock. dos Verdes alemães, que no PE está nos Verdes que tanto excitam o Livre, teve recentemente o desplante de dizer que a Ucrânia tinha recuperado a suástica como símbolo da luta para liberdade! como símbolo da luta pela independência!|! sublinhando que «hoje não há razão para uma atitude negativa em relação a estes símbolos». Está a avalizar todos os crimes dos nazis banderistas e dos seus seguidores actuais no regime de Kiev!!! Um caminho em que acaba por também recuperar o nazismo alemão, os seus crimes, entre eles o Holocausto. Uma declaração bem mais grave que o da extrema-direita da Alemanha que isentava alguns SS, dizendo que nem todos eram criminosos. Declaração claro que silenciada pela comunicação social mercenária e sem merecer reparo dos seus colegas sociais-democratas e liberais no governo.

É penoso, para usar uma adjectivação simpática, ver esta esquerda sem coluna vertebral, do Livre, BE e seus congéneres europeus, dos outros nada é inesperado, irem a Kiev prestar vassalagem, lamber as botas de Zelensky & Companhia como se fossem grandes democratas, quando essa gente nomeia e condecora manifestos e assumidos nazis para altos cargos governamentais, quando transformam criminosos nazis do calibre de Bandera e seus pares em heróis nacionais. Zelensky & Companhia que proibiram 11 partidos, todos os que não alinham, ainda que minimamente, com as derivas fascistas dessa camarilha. Os oposicionistas dos mais moderados aos mais extremistas, ou estão presos ou, os mais sortudos, no exílio. Zelensky & Companhia que perseguem , prendem, torturam, assassinam os “bloquistas” ucranianos, depois dos comunistas, esses foram logo a seguir ao golpe de estado de Maidan, mas esses não podiam esperar qualquer espécie de solidariedade por parte dos variegados BE’s , mas os outros que lhes são politicamente próximos…não lhes merecem uma palavra de apoio em vez de irem ao beija mão de Kiev? Isso não os envergonha? O BE com um oportunismo execrável, – ouviram as várias diatribes da Catarina Martins nos debates para as europeias quando se falava na Ucrânia cavalgando as mais miseráveis derivas do jardim do Borrell ? – cala esses crimes mesmo quando são feitos contra os seus companheiros ucranianos. A direita, as direitas bem podem dormir descansadas com essas esquerdas onzeneiras que se vendem a pataco para conquistarem espaço, sobretudo espaço mediático que , na ausência de horizontes ideológicos e príncipios, é o seu oxigénio, nas democracias de fachada da chamada civilização ocidental. Estes sucessos não são um acaso, configuram uma postura e uma actuação continuada com os mais diversos matizes. Acabam por directa e indirectamente alinhar com os que por cá são serventuários e defensores dos oligarcas tão acarinhados como os que uma personagem não frequentável como Putin acarinha os seus.

(Texto recuperado, com algumas alterações, a um comentário meu a um post de João Vasconcelos-Costa no FB recordando uma reportagem de Ricardo Cabral Fernandes no Público sobre os campos de treino de nazi-fascistas europeus e americanos dois anos antes da invasão da Rússia)

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PRIMEIRO MURAL DO 25 DE ABRIL

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O dia 10 de Junho era dia particularmente assinalado pelo fascismo salazarista que o tornou conhecido como Dia de Camões, de Portugal e da Raça, uma claríssima exaltação colonialista fundada num racismo estrutural. Depois da Revolução do 25 de Abril, do vento de liberdade que varreu o país, de um extraordinário 1 de Maio, o 10 de Junho tinha de ser expurgado desse seu aparato nacionalista fascista em linha com os princípios do Movimento das Forças Armadas que propugnavam a descolonização, a independência das colónias contra o que o tinha sido assumido por Spinola na primeira comunicação da Junta de Salvação Nacional em que afirmou a «sobrevivência da nossa Nação como pátria soberana no seu todo pluricontinental». Uma declaração contrarevolucionária indiciadora do seu percurso futuro com vários violentos golpes contra o Portugal livre e democrático. A não esquecer que Spinola foi reabilitado, condecorado, promovido a marechal entre outras benesses por Mário Soares que sabia muitíssimo bem porque o fazia e em que embrulhos se tinha mexerufado com tão sinistra personagem.

A Revolução dos Cravos tinha que recuperar o 10 de Junho limpando toda a sua carga ideológica.

Organizou-se uma grande festa para celebrar o renascimento desse novo 10 de Junho em Belém, no Mercado da Primavera pintando-se um gigantesco mural de 25 por três metros, dividido em 48 secções simbolizando os 48 anos de ditadura fascista salazarista. Os artistas foram escolhidos por um efémero mas na altura pujante Movimento Democrático dos Artistas Plásticos. A cada um foi sorteada uma secção ficando uma vazia a assinalar «aqui devia estar José Dias Coelho» o jovem artista assassinado pela PIDE em Dezembro de 1961. Foi uma vibrante jornada festiva e artística que a televisão transmitiu em directo e Manuel Costa e Silva registou num filme que se pode ver no You Tube https://youtu.be/XPAK818tPZw?feature=shared . Os artistas plásticos estavam por inteiro com Abril, com a liberdade, a democracia, com o povo. Este é o primeiro mural dos muitos que iriam assinalar a revolução e os sucessos que transformavam o país. Murais que foram desaparecendo, agora recuperados num excelente ensaio de Cristina Pratas Cruzeiro (1) .

Não foi completamente pacífica essa festa. A emissão televisiva foi interrompida por ordem do I Governo Provisório, ordenada por Raul Rego, o ministro socialista que tutelava a comunicação social, quando o Teatro da Comuna satirizava os dirigentes do regime anterior, em particular a igreja católica na sua esmagadora maioria conivente com o antigo regime. Foi o primeiro ato de censura depois do 25 de Abril, o que provocou uma viva e generalizada revolta de todos os que, no Mercado da Primavera e em suas casas seguiam o desenrolar da festa. Júlio Pomar pegou nos seus pincéis, amarrou-os à sua pintura, pintou por cima: «a censura existe».

O mural, uma grande jornada de solidariedade com o Movimento das Forças Armadas, intitulava-se Liberdade, Arte, Revolução e tinha como subtítulo
«flor liberdade fogo imaginação força unidade arte revolução». Foi uma acção irrepetível por isso indigitado para representar Portugal na Bienal de Veneza, onde não estávamos desde 1960. Também não chegou a ir para o Salão político artistico de Paris, o Salon de la Jeune Peinture. Por desleixo da Direcção Geral das Artes um incêndio na galeria de Arte Moderna, por motivos nunca completamente esclarecidos, destruiu-o. Fica aqui, 50 anos depois, a memória dessa primeira grande pintura colectiva no pós Revolução de Abril.

(1) Cristina Pratas Cruzeiro, Atitude 74, Pichagem e Pintura Mural na Revolução de Abril, Página a Página, 2024.

(publicado em Avante! 2638 de 20 Junho 2024)

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Ken Loach , a Arte e a Revolução

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No Porto, no Batalha Centro de Cinema, até dia 20 de Novembro vai acontecer a extraordinária oportunidade de visitar a obra cinematográfica de Ken Loach. São duas dezenas de filmes de um cineasta política e socialmente empenhado que sem uma falha nem uma rasura denúncia a brutalidade da exploração capitalista, dos seus fios mais visíveis aos mais invisíveis, das suas formas mais directas neoliberais às mais sornas e indirectas dos socialistas e sociais democratas que, como ele afirma, são «os inimigos da revolução», todos conluiados para que o estado de sítio que se vive favorecendo as oligarquias se mantenha inalterado.

O outro lado do cinema de Ken Loach é o mais evidente desmentido que a arte comprometida com os valores sociais é estética e criativamente menor, por ser ele quem abriu os caminhos para a renovação do cinema inglês, rasgando novos horizontes para os jovens realizadores. Em Inglaterra há um cinema antes e outro depois de Ken Loach, o que diz tudo sobre ele como artista.

Todos os seus filmes mergulham com coerência numa cultura política marxista. Toda a sua extensa obra, sem nenhuma concessão, está centrada na descrição das condições de vida da classe operária, nos dramas pessoais e familiares provocados pela destruição das políticas públicas de bem-estar social, nas tragédias dos emigrantes clandestinos. Filmes e documentários para a televisão que fazem um retrato real e feroz do lado sombrio da Grã-Bretanha, retrato que se torna universal neste nosso tempo em que numa extensão sem precedentes, cada vez mais habitantes do planeta perdem a esperança e são atirados para a exclusão, a riqueza global vai-se concentrando num número cada vez menor de mãos. Em que em nome da racionalização e da modernização da produção, se regressa ao barbarismo dos primórdios da revolução industrial. Tempos de uma nova ordem económica fanática e totalitária. Uma nova ordem onde impera a hipocrisia e o cinismo das proclamações altissonantes das liberdades e dos direitos humanos enquanto se destroem direitos sociais, económicos e políticos alcançados em anos de duríssimas lutas.

Ken Loach lutou e luta sempre contra esse estado de coisas. Provocou e provoca imensa controvérsia entre os bem pensantes de direita e esquerda que consideravam e consideram insuportável o que classificam de radicalismo marxista e que é a luta pela conquista da dignidade humana numa sociedade que não tem nenhuma dignidade. Uma luta que todos as mulheres e homens de esquerda consideram necessária, urgente. Ken Loach é um coerente e obstinado lutador contra esse estado do mundo. A sua arma é a camera de filmar que usa com um saber raro, com uma qualidade artística que o coloca entre os maiores realizadores de cinema de sempre. Os seus filmes, ao longo de cinquenta anos de trabalho, olham com uma impar lúcidez crítica política a devastação que as políticas neoliberais produzem nas paisagens sociais. Os seus protagonistas, sejam os anónimos mineiros e ferroviários que enfrentaram as políticas de Thacther e dos seus seguidores trabalhistas da terceira via, sejam os Eus, Daniel Blake são humanamente frágeis, que o seu olhar delicadamente indignado contra a opressão e o abandono a que o Estado os sujeita torna impressionantes, enormes, mesmo épicos.

Impõe-se a obra de Ken Loach num panorama artístico em que a classe operária, os trabalhadores, os que desde sempre foram e são oprimidos e explorados, foram quase completamente rasurados, o também explica que a sua obra, apesar de duas Palmas de Ouro conquistadas em Cannes, seja marginal nos circuitos comerciais, pelo que agora no Porto Ken Loach: Planos de Resistência é uma oportunidade rara de a revisitar depois de em Lisboa ter estado, no primeiro decénio do séc. XXI, na Cinemateca Nacional, o que acaba por ser restritivo pelo que se espera que este ciclo se repita noutras cidades.

(publicado em Avante ! 2634, 23 maio 2024)

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