19.1.26

Esperanças e temores

 Há muitos, muitos anos, nem votava eu ainda, dividiu-se o país entre esquerda e direita, entre Soares e Freitas. No secundário vivíamos intensamente a contenda. Contra Freitas vota Soares! O slogan do PCP que vi repetido até à exaustão. 1986, ano louco em Portugal.


Ontem foi a primeira volta das presidenciais de 2026. A divisão agora é entre uma esquerda soft e a extrema direita. Tenho Esperanças. Mas ao mesmo tempo temo que, mesmo que escapemos desta, um dia destes voltaremos a enfrentar os mesmos erros do passado, porque ninguém aprendeu nada e o Homem é teimoso e gosta de se sabotar.


Daqui a três semanas falamos.

11.1.26

O surreal presente

 Quando criança, quando adolescente, vivi com receio que, um dia, a estupidez humana culminasse com a destruição da Terra, da Humanidade, da nossa milagrosa existência.

Eram os maravilhosos anos 80 e nem depois de uma calamidade desumana como foi a Segunda Guerra Mundial o mundo aprendeu a viver em paz. Seguiram-se guerras, constantes guerras, onde milhares de pessoas morreram, milhões sofreram e os países poderosos jogar ao Risco com as vidas de todos nós.

Cresci a pensar que o fim seria inevitável às mãos de um louco qualquer, de alguém indisponível para a razão, que cedesse à tentação megalómana de escolher entre si e o nada.

Depois veio um quarteirão de esperança. Durante vinte e cinco anos, mais ou menos, foi-nos permitido acreditar que a Humanidade aprendera alguma coisa. Aprendera que a lei do mais forte não valia, que a união faz a força e que os países e pessoas de bem conseguiam organizar-se para, abnegadamente, espalhar a paz e a concórdia, enfrentando os arautos da desgraça e o fazedores do caos, cada vez mais limitados nos seus meios quando comparados com os recursos daqueles que procuravam a estabilidade e o crescimento da espécie, ao mesmo tempo que promoviam a salvação do planeta.

E agora estamos nisto.

Cada um por si e o mais forte contra todos parece ser a palavra de ordem para o futuro próximo. Assim a modos que como no 1984 do Orwell, três grandes a controlar os pequenos...

A história do século XX mostrou o resultado de tamanhos desmandos. O Homem não sabe resolver as coisas a bem, gosta de subjugar aqueles que mais fracos são. Regra geral, os mais fracos têm sempre um trunfo a seu favor: os números. E quando o indivíduo se perde na massa informe dos subjugados e começa a ser empurrado para os seus limites, é como uma chaleira na qual a pressão aumenta, aumenta, até que o vapor irrompe numa explosão, numa expansão imparável. Por vezes catastrófica.

A ilusão dos 25 anos de esperança parece agora tão pequena. A sério... onde tivemos nós paz que permitisse ser optimista?

Segunda Guerra Mundial, Coreia, Vietname, Médio Oriente em diversas frentes numa disputa sem fim até hoje, Afeganistão, vários conflitos sem fim em África, Jugoslávia, Al-Qaeda, Iraque, ISIS, Ucrânia...

Droga, escravidão, pandemias, migrações, êxodos...

Há sempre gente a morrer. Sempre gente a matar. Sempre a mesma merda!

O surreal presente só evidencia como foi extraordinária a esperança vivida nos últimos anos.

3.1.26

 Que faço eu aqui?


Não estou com "as mãos manchadas de sangue" como na canção dos Mão Morta [BERLIM (morreu a nove)], mas a pergunta é esta.

Que faço eu aqui?

Há muito que este blog morreu, como morreram quase todos os blogs, consumidos pela voragem imediata das redes sociais. Para ler um blog é preciso "ir lá", mas as redes trazem aquilo que queremos ler e ver. Ou, pelo menos, disso nos convencemos. 

Em tempos aqui punha, diariamente, os meus pensamentos e tinha um conjunto de pessoas que me liam, muitos sem sequer saberem quem sou. Tinha cuidado naquilo que escrevia por razões profissionais, mas abordava os mais diversos temas, como cinema, televisão, literatura, história, descobertas curiosas no mundo da internet que ainda não era um universo sem fim, mas apenas uma galáxia que cada qual explorava aos poucos.

Hoje, se escrever alguma coisa no FB, outra rede condenada a sucumbir porque só os "velhos" como eu ainda a usam, várias centenas de pessoas poderão ler o que escrevo. Mas eu não quero que leiam (curioso, não é?), e por isso não escrevo. Ando por lá, observador, crítico, curioso, mas nada ganho com isso.

Curiosamente, já estive mais perto de fechar a conta do FB do que este blog. 

Acho que prefiro escrever para o "nada" do que ler o "tudo" que me é servido por um algoritmo que apenas me quer preso em constante deslizar para baixo, para baixo, sendo alimentado por lixo, mentiras e conteúdos repetidos apenas para encontrar vídeos que me entretenham mas que, ao fim de algum tempo, são sempre mais do mesmo porque os seus autores descobriram a fórmula que lhes garante as vistas, que lhes garantem o relevo, que lhes garantem a publicidade, que lhes garante  o rendimento.

Por isso, o que faço eu aqui?

O WhatsApp! veio por necessidade de comunicação em grupo. Aos poucos muitos há que só mandam mensagens ou fazem chamadas por ali. Os dados em vez das unidades de comunicação são mais baratos quando se tem wi-fi por todo o lado. O certo é que os grupos reproduzem-se e ninguém tem etiqueta nenhuma.

No grupo de celebração dos 30 anos de curso, com mais de trezentas pessoas, surgiram quase quinhentas mensagens de boas festas, pois muitos deram-se ao trabalho de vir postar um Feliz Natal e depois um Bom Ano, muitas das vezes colado a um clip feito por IA. Outra praga! Agora todos se julgam cineastas, ou roubam o tempo que alguém perdeu (milésimos de segundo) a gastar recurso informáticos, energia, dinheiro, para gerar mais uma peça de lixo que vai ser passada milhões de vezes entusiasmando o algoritmo.

E a história repetiu-se noutros grupos com dezenas e dezenas de comunicantes que, se se encontrassem na rua, nem se conheciam, quanto mais desejariam boas festas uns aos outros.

Por isso, que faço eu aqui?

Há um ano que não passava pelo blog, há vários anos que nada de relevo aqui escrevo.

Foram várias as vezes que estive para deitar isto abaixo e apagá-lo da net (como se acreditasse que isso fosse possível). Hoje foi outro desses dias.

Mas não consegui.

Este blog é o meu muro histórico no qual fui pendurando dezenas, centenas de notas, textos imagens, comentários. Os links de muitos já se perderam e não fazem sentido os posts que acompanham esse vazio. Mas eu recordo o tempo em que os fiz.

Recordo como estava a descobrir a internet, como durante anos contactei pelos blogs com uma pessoa em Macau, irmã de um conhecido da Faculdade, e com ela partilhei uma realidade apenas possível por essa coisa nova que era a internet ao alcance de um clique, de um texto, de um post. Nunca a conheci pessoalmente, e não passámos sequer a ser contactos nas redes sociais. Apenas partilhávamos realidades diferentes, entre um Portugal convencido que chegara à liga dos campeões e que iria ser mesmo um dos grandes, e um Macau recém entregue à China a tentar descobrir como é que as coisas iam passar a ser, entre a esperança do progresso de um gigante e o medo da repressão desse mesmo gigante.

Que faço eu aqui?

Porque escrevo eu isto?

Porque sim. Porque são notas que enquanto isto durar ficarão por aqui a pairar para o único leitor: o seu autor.

Qualquer um aqui pode chegar e ler este post e todos os outros que antecedem. Mas ninguém o fará. Tempos houve em que o algoritmo do Google ainda apontava para este blog. Agora, é tão irrelevante que nada o tornará visível. 

A não ser que fosse o testemunho de uma atrocidade, de um crime horrendo, de um atentado à sociedade tal como a conhecemos. E isso não vai acontecer.

O que vai acontecer é que, sossegadamente, de vez em quando, vou tentar guardar aqui alguns pensamentos. E tomei a resolução de, a partir de hoje, reduzir para meia-hora (ainda assim, um exagero de vacuidade) o meu tempo de FB e YouTube scroll. Deve corresponder à idas à casa de banho, não? E porque não levar antes um livro como antigamente?

O iPhone vai ter que repousar mais. O voyeurismo vai ter que ceder. E eu vou ter que mudar, pois sinto-me agastado, desgastado, consumido e pouco produtivo. Produtivo naquilo que gosto de fazer: ler, escrever e ver cinema e televisão de qualidade.

Que faço eu aqui?

Bom Ano!



19.1.25

Lisboa, 1971


Lisboa, no ano em que nasci.
Sinto-me velho, ao perceber que eram mesmo outros tempos. Tempos distantes em que tanta coisa era diferente.
Se a qualquer das pessoas retratadas nestas imagens perguntassem como seria o mundo dali a cinquenta anos, duvido que alguém se aproximasse daquilo que hoje vivemos.
A roupa, o trabalho, o trânsito, o tempo, as aspirações, a própria noção daquilo que é ser alguém no seu tempo... nem uma coincidência com os dias de hoje.
Estamos melhor?
Sim. Claro que estamos.
Estamos como devíamos? Não. 
A utopia evade-se por entre as portas que se abrem e deixam entrar os tempos distópicos que hoje vivemos.
A alienação. A disparidade. O discurso radical. A sociedade cada vez mais entrincheirada em discursos onde tudo tem que ser preto ou branco. A ameaça de guerra. A guerra que se prolonga, eterniza e ameaça espalhar-se e agravar-se.
A alienação.
Hoje deu-me para isto.

11.11.24

Morreu um Homem bom

Morreu um Homem bom.

Estou triste.

Estou...

não sei bem onde estou, mas é um lugar triste e sombrio.

Não estou preparado para lhe dizer adeus.

Não estou.

Filhadaputasortedumcabrãoohquecaralho!

2.11.23

Nudez


 

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Ontem, numa conversa com amigos, recordei o exacto momento no qual vi, pela primeira vez, esta capa de disco. A obra, diga-se, é excelente, com o génio criativo de Waters em alta, acabado de sair dos Pink Floyd, acompanhado por Clapton na guitarra.
Mas, na altura, não sabia nada disso. 
Estava na escola secundária, junto aos campos de volleyball, e o ano era 1986. Estava sol. Era dia 15 de Abril.
Esperávamos as aulas da tarde, já tínhamos almoçado, e vivíamos a doce ignorância da adolescência num mundo sem telemóveis, sem internet, sem a urgência do imediato que hoje está sempre presente. As coisas aconteciam e nós só sabíamos delas mais tarde, quando víamos as notícias. Ainda imperava o paradigma de que a rádio anunciava, a televisão mostrava e os jornais explicavam.
Se houvesse uma verdadeira catástrofe, certamente alguém nos avisaria.
Na noite que deu início àquele dia, os EUA bombardearam a Líbia de Khadafi. Um susto que a minha mente de 14 anos rapidamente processou como podendo ser um passo na direcção do holocausto nuclear. Mas, só naquela hora soubemos nós do que estava a acontecer.
Uma colega, que fora almoçar a casa, trazia a nova. "Já ouviram? A América bombardeou a Líbia! Aviões, de noite, mataram não sei quantas pessoas."
Mas a colega aproveitara para vestir uma roupa mais fresca, que o sol de Abril já tornava as tardes agradáveis. E vestira a t-shirt nova que o irmão, mais velho, arranjara.
A t-shirt branca tinha estampada a imagem do "The Pros and Cons of Hitch Hicking".
E eu, enquanto ouvia as notícias do que poderia ser o começo do fim com o qual vivíamos constantemente alertados, uma terceira guerra mundial, apenas conseguia pensar, sem tirar os olhos da t-shirt: "Ela tem uma mulher nua na camisola!".

21.12.21

Cartinha para o Pai Natal

 Será que ainda vou a tempo?

De qualquer forma, cá ficam os cinco pedidos do ano.

1.

Acaba lá com a treta do COVID e desta obrigação de andar com máscara. Quero voltar a ver a cara das pessoas, os sorrisos, os esgares, os embaraços. Quero voltar a respirar livremente. E quero voltar a viver com naturalidade, sem estar, todos os dias, a escutar quantos mais infectados há, quantos internados, quantos em UCI, quantos morreram.

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2.

Arranja-me lá um empreiteiro que responda aos meus pedidos de orçamento e me faça as obras lá em casa. Já agora, que faça um trabalho bom, bonito, e barato. E rápido, que não estou para viver fora de casa muito tempo.

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3.

Não é que precise de mudar de carro... mas se me deres um destes, mudo de hábitos e contribuo para um planeta melhor. Assim o dizem.

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4.

Que tal voltar a viajar? Talvez seja melhor resolver o primeiro pedido, não?

Depois... Açores, Madeira, Paris, Noruega, Veneza, Islândia... sei lá. De avião e com línguas diferentes, pessoas diferentes, locais espantosamente diferentes.

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5.

Em vez de deixares um presente, não queres levar este 10 kilos que tenho por aqui a mais?  Ajudava!

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Boas Festas!