Há tempos revi esse clássico dos anos 80 que é “Os Goonies“. Algumas coisas que me ocorreram:
A tentativa da novelização (publicada em Portugal pela Europa-América) de apresentar os protagonistas como sendo de uma classe desfavorecida não me parece fazer grande sentido; é claro pelo filme que os personagens principais são pelo menos classe média (a única exceção talvez seja a “Stef”). Aliás, mesmo que a titulo temporário, a família do personagem principal tem uma empregada doméstica (em Portugal aparentemente isso já foi estabelecido como o critério que define a classe média, e acho que não será abusivo generalizar para os EUA).
A ver o filme a dada altura pus-me a pensar qual seria a natureza do contrato que faria os moradores de Goon Docks irem perder as suas casas para construir um campo de golfe, a menos que descobrirem um tesouro evitasse isso; e depois vendo no TV Tropes vejo que alguém pensou a mesma coisa (secção “Artistic License – Economics”: “The foreclosure framework the plot is based around is really confusing. The kids are going to lose their childhood homes due to them being foreclosed upon by a banker who’s planning on demolishing the development to build an expansion to a local private golf course, which appears to be a weird muddling of foreclosure and eminent domain“). Após pensar no assunto, acho que a explicação mais provável é que eles vivessem nas casas num regime de aluguer com opção de compra, em que se tivessem dinheiro pudessem comprar as casas, mas enquanto não as comprassem o senhorio os pudessem despejar. Assim faz sentido que a empresa proprietária tenha decidido correr com eles (porque surgiu o projeto do campo de golfe) e o possa à partida fazer, mas que a descoberta de uma dúzia de pedras preciosas tenha dado aos moradores do bairro a possibilidade de ativaram a cláusula da opção de compra
As outros hipóteses não fazem grande sentido – uma hipoteca que fosse vencer em breve (o motivo mais comum nos filmes com enredo tipo “salvar a quinta / o orfanato“) é pouco provável, já que implicaria que todos os moradores do bairro estivessem em incumprimento, uma coincidência bastante improvável. Poderíamos imaginar um cenário em que as casas pertencessem todas a uma cooperativa de habitação, e fosse a cooperativa que estivesse em incumprimento – e bateria certo com o protagonista “Michael Walsh” dizer que o pai ia arranjar uma solução para o bairro não ser destruído (o que parece indicar ser um problema a nível de bairro e não uma soma de problemas individuais – talvez o pai fosse também o presidente da cooperativa?), mas tenho a ideia que o papel que o rico local quer que o pai Walsh assine se refere especificamente à sua casa, não ao bairro todo (ele parece ter sido o último a assinar).
Outra alternativa era a família Walsh serem os donos do bairro todo, e terem eles uma dívida ao banco (de novo, bate certo com a esperança de Michael em que o pai salvasse o bairro); mas de novo não bate certo com a parte de todos ou quase todos os outros moradores do bairro já terem assinado e faltar só o pai Walsh. Além disso não há nada na interação entre os miúdos que indicie que os Walsh estivessem numa posição social superior aos outros.
Há a possibilidade de as outras famílias terem de livre vontade vendido as suas casas, e o pai Walsh seja o típico chato que impede o projeto de avançar mesmo assim, mas a dinâmica dos personagens não parece bater muito certo com esse cenário de uma venda por livre vontade (e pelos vistos terem mudado de ideias por causa da descoberta do tesouro…).
Quando ao cenário de ser a câmara a ter expropriado (ou ir expropriar – o tal documento que o pai Walsh não quer assinar nesse cenário seria uma ultima oferta de compra a bem antes da câmara avançar com a expropriação) as casas para fazer o campo de golfe (neste caso considerado um projeto de interesse público) não explica como é que terem descoberto o tesouro iria impedir a expropriação de seguir em frente.
No tal página do TV Tropes analisam algumas destes possibilidades (mas não a do aluguer com opção de compra) e concluem “At the end, it can all be chalked up to being an 80s kids movie“).
Finalmente, por vezes há quem na brincadeira diga que a crise da habitação em certas cidades dos EUA é o resultado de uma política urbanística tiradas de filmes infantis dos anos 80, em que qualquer projeto para construir alguma coisa leva a protestos da “comunidade”; mas pelo menos neste filme infantil dos anos 80 a construção de novas coisas é que iria causar falta de habitação – já que o projeto era demolir um bairro residencial para alargar um campo de golfe e um country club (ok, imagino que se possa argumentar que nesses filmes o projeto quase nunca ser habitação mas sim campos de golfe, centros comerciais, etc., se alguma coisa, contribui para propagandear mais insidiosamente a mensagem anti-construção).
[Depois de escrever o post, ocorreu-me fazer uma pesquisa no Overthinking It para ver se alguém já tinha lá abordado a questão do bairro dos Goonies, mas parece que não; mas, de qualquer forma, indo ao google encontram-se muitos fóruns onde a questão é discutida]