A grande derrota da esquerda radical nestes últimos dias?

Não, não estou a falar das eleições presidenciais de ontem; também não estou a falar da captura de Maduro pelos EUA e da transformação da Venezuela num estado tributário dos EUA (há muito que nenhum radical de esquerda digno desse nome apoiava o regime venezuelano, sobretudo desde que o Partido Comunista da Venezuela e o Pátria Para Todos se passaram para a oposição em 2020).

Estou a falar do regime (ou para-regime) que muitos achávamos, se não “o verdadeiro socialismo”, pelo menos “a verdadeira democracia participativa, multiétnica e feminista” estar a cair como um castelo de cartas face à ofensiva do exército sírio; e sobretudo as manifestações populares de alegria nalguns sítios face à retiradas das Forças Democráticas Sírias e à entrada do exército leal ao regime de Damasco indiciam que o regime de “Rojava” não seria tão paradisíaco como davam a entender os artigos e videos do youtube que muitos (incluindo eu) viam e partilhavam. É possível que essa alegria seja só dos árabes sunitas, mas mesmo isso é um indicativo que a tal democracia participativa multiétnica (supostamente assente no autogoverno das comunidades locais e dos vários grupos étnicos) não funcionava tão bem como tudo isso (se funcionasse, os árabes sunitas, ainda mais nas regiões onde eram maioritários, não teriam grandes razões para se sentirem descontentes).

De qualquer maneira, como penso que já escrevi aqui, toda a ideia de um movimento inicialmente marxista-leninista se converter a um quase-anarquismo porque o líder, a partir da prisão, assim o decidiu sempre me pareceu algo peculiar…

A Groenlândia teria mais ou menos poder dentro dos EUA ou na Dinamarca?

Uma Groenlândia ligada aos EUA teria mais ou menos soberania do que ligada à Dinamarca? Em termos tanto de soberania “negativa” (autonomia face à potência “imperial”) como positiva (influência nas politicas da potência “imperial”)?

Se fosse para a frente a proposta de os EUA anexarem a Groenlândia como estado, a ilha iria ter 1 congressista na Câmara dos Representantes (pela regra que cada estado, por menor que seja a sua população, tem pelo menos um representante), num total de 435 (o numero total de membros da Câmara é fixado por lei) e 2 senadores (como todos os outros estados) num total de (agora) 102. E no colégio eleitoral teria 3 votos em 540 (o colégio atualmente tem 538 votos, mas com mais um estado passariam a 540 – o total de membros do colégio é igual à soma dos membros da Câmara dos Representantes e do Senado e mais 3 votos para o Distrito de Columbia).

Atualmente no parlamento dinamarquês a Groenlândia tem 2 deputados em 179; portanto uma Groenlândia nos EUA teria mais força no Senado no que tem na Dinamarca, mas menos na Câmara dos Representantes e no colégio eleitoral. Claro que há outro ângulo – o que vale mais? Um poder de 2/179 (1,12%) na Dinamarca ou um poder de 3/540 (0,56%) nos EUA?

Mas há ainda outra maneira de ver a coisa – atualmente a Groenlândia só faz parte da Dinamarca enquanto quiser, tendo a opção de proclamar a independência quando bem entender; já como um estado dos EUA, isso significaria que perderia (pelo entendimento consagrada durante a Guerra de Secessão e depois na sentença do Supremo em Texas v. White) o direito unilateral de secessão. Um caso diferente seria se a Groenlândia, em vez de entrar nos EUA como um estado da união, tivesse um acordo de livre associação, como os Estados Federados da Micronésia (no fundo, um aluguer temporário, sujeito a renovações periódicas, de parte da sobernaia), mas então aí não teria votos no congresso nem na eleição do presidente.

Quem são os eleitores da IL?

Uma coisa que penso que ninguém estudou mas eu teria alguma curiosidade era saber quem são os eleitores da Iniciativa Liberal; é que eu imagino dois tipos diferentes de pessoas (ainda que com alguma sobreposição) a votar na IL – por um lado pessoas que só fosse só pela economia até poderiam votar no PSD/CDS mas que os acham demasiado conservadores nos costumes, e por outro pessoas que se fosse pelos “costumes” e assuntos adjacentes até poderiam votar PSD/CDS ou até Chega, mas acham-nos quase socialistas na economia.

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[quadro tirado daqui]

É claro que, como eu disse, há uma sobreposição (os tais “liberais em toda a linha”, ou lá como eles se chamam) mas provavelmente haverá mais eleitores (reais e potenciais) fora do quadradinho “mais progressista que o PSD e mais de direita na economia que o PSD”

As hesitações na segunda-feira de manhã, quando isso ainda era o principal problema da campanha de Cotrim de Figueiredo é provavelmente o resultado de ainda não saberem bem quem querem ter como público-alvo.

De qualquer maneira, de há uns tempos para cá, a IL parece ter apostado num posicionamento mais conservador (nomeadamente naqueles assuntos em que é possível imaginar tanto uma posição liberal-progressista como uma liberal-conservadora, optando pela conservadora, seja na imigração, na nacionalidade ou mesmo nas referências retóricas ao “wokismo”) – até suspeito que a ideia é disputarem aquele eleitorado de direita tipico que nos EUA seria chamado “fusionista” (militarista na politica externa, liberal na economia, conservador nos costumes) que imaginarão estarem descontentes com a colagem do Chega ao protecionista e por vezes anti-intervencionista Trump. No entanto, pela maneira como na ultima convenção da IL foram aprovadas propostas contrárias à linha do partido na imigração, também suspeito que haverá uma divisão interna entre uma direção (nalguns casos literalmente) “Insurgente” e militantes “Cato/Reason” (de qual estarão mais próximos os eleitores?).

O Xá do Irão e o “socialismo árabe”

Agora que o Irão volta a estar em convulsão, lembro-me de um assunto curioso que li em tempos (creio que li na conta do twitter de um especialista em história económica; como ele tinha a conta limitada a seguidores escolhidos, nem o pseudónimo dele vou revelar, mesmo que isto me pareça perfeitamente inofensivo) – apesar do alinhamento geopolitico oposto, o regime do Xá do Irão acabava por ser parecido com os do “socialismo árabe” (como a do Egito de Nasser).

Desenvolvendo o tema (e agora já sou eu; o twitterador que eu seguia acho que não aprofundou tanto), eram todos ditaduras brutais, relativamente seculares, com uma política de reforma agrária e de promoção da industrialização sob a direção do estado.

Mesmo o que à primeira vista parece a maior diferença – uma monarquia versus repúblicas – não se torna uma diferença tão grande quando nos lembramos que, em primeiro lugar, a monarquia iraniana derrubada em 1979 já não era uma dinastia “histórica” mas o resultado de um general golpista ter em 1925 deposto o Xá e ter sido convencido (depois de inicialmente ter pensado em implantar uma república) a proclamar-se a si próprio Xá (ou seja, quem caiu em 1979 foram os Bonaparte, não os Bourbon), sendo mais tarde substituido pelo filho (quando falamos do “Xá do Irão” sem mais explicações, é desse filho que falamos), e em segundo, alguns ditadores “socialistas árabes” tentaram também passar o poder aos filhos (Saddam Hussein, Kaddafy) ou passaram-no mesmo (Hafez al-Assad).Ou seja, nem o Irão dos Pahalavi era bem uma monarquia a sério, nem os tais regimes árabes eram bem repúblicas a sério. Tendo isto em perspetiva, um Bachar al-Assad e um Mohahmed Reza Pahlavi não eram assim tão diferentes – ambos filhos e sucessores de um general que subiu ao poder num golpe de estado; o tempo que os Phalavi e os Assad estiveram no poder foi até quase o mesmo: 58 anos (de 1921 a 1979) e 54 (de 1970 a 2024).

O “Direito Internacional”

Pegando neste post de Rui Albuquerque,Eu diria que, mesmo sem um mecanismo formal para o fazer cumprir, o “direito internacional” acaba por existir à mesma, mesmo que apenas como uma espécie de equilíbrio de referência (ou um “ponto de Schelling”) num conjunto de jogos tit-for-tat.
P.ex., numa guerra entre dois países, que tenham ambos armas químicas (ou capacidade de as arranjarem facilmente), podemos imaginar uma situação em que ambos os países sigam a política “uso as armas se o outro usar ou suspeitar que as vai usar”, o que pode acabar em dois equilíbrios possíveis – ou ambos usam as armas, ou nenhum as usa; a existência de tratados, convenções, etc proibindo o uso de armas químicas tem o efeito de aumentar a probabilidade do desfecho ser “ninguém as usa”, se ambos os lados seguirem a regra de “na dúvida, cumprir o direito internacional e assumir que o outro lado também o vai fazer”; isso não exclui que algum lado possa efetivamente usar armas químicas (como o Iraque nos anos 80), se achar que o beneficio ultrapassa os riscos, mas diminui essa probabilidade.

Outra maneira de ver isso (ou, no fundo, a mesma, mas assumindo um cenário multilateral com vários países em vez de bilateral com apenas dois) é que a principal ferramenta da manutenção do direito internacional é a reputação (e aqui o eu há uns 20 e tal anos ter sido fã do jogo “Seven Kingdoms” é capaz de me estar a influenciar – quem conheça o jogo perceberá o que quero dizer) – países que violam muito o direito internacional perdem reputação, têm mais dificuldade em fazer alianças e tratados com outros países (porque os outros acham que eles não são de confiança) e acabam por ser punidos por isso (p.ex., de certeza que a baixa reputação que o Iraque tinha – derivada de ter pelo menos duas vezes invadido países vizinhos- contribuiu para a facilidade com que os EUA o decidiram invadir em 2003).

É verdade que nisto da “reputação” há uma complicação, porque (quer estejamos a falar de países, ou de crianças ou adolescentes no recreio da escola…) esta tem duas dimensões diferentes – por um lado a de ser “mau/bom” (a que incentiva os países a respeitarem o direito internacional), e por outro a de ser “mole/durão” (os países também preferirão ter boas relações com um país visto como “durão”), e por vezes estas duas dimensões podem entrar em conflito.

Problemas adicionais de proibir as redes sociais a adolescentes e pré-adolescentes

Ainda sobre esta mania de querer proibir pessoas abaixo de uma certa idade de ter redes sociais, outro forte argumento que vejo contra isso é que imaginando-me nos meus 15 anos com a tecnologia atual, de certeza que não seria capaz de pedir à J. ou à L. o numero do telemóvel, mas imagino-me mais facilmente a pedir-lhes amizade no Facebook ou para as seguir no Instagram.

Já agora, para elas também seria mais confortável para me despacharem – se eu lhes pedisse o nº do telemóvel, elas teriam que estar a inventar uma desculpa para não o darem; nas redes sociais, só teriam que fingir não terem visto o pedido.

[Imagino que alguns defensores da proibição das redes sociais a menores dirão algo como “parte da ideia é exatamente fazer um certo tipo de adolescentes ganharem genica; a longo prazo é melhor para eles”]

Problemas de exigir que as redes sociais confirmem a idade dos seus usuários

The Fundamental Problems with Social Media Age-Verification Legislation e The technology to verify your age without violating your privacy does not exist, por Shoshana Weissmann (R Street Institute).

Diversidade de géneros nos documentários sobre a natureza

Algo que tenho notado é a falta de diversidade de géneros nos documentários sobre a natureza – não, não me refiro aos programas sobre abelhas, formigas ou tamboris raramente mostrarem os machos, ou raramente haver documentários sobre o ciclo de vida da filoxera da videira (que eu acho que tem pelo menos 3 sexos, mas ninguém parece concordar).

Refiro-me a grande parte dos programas serem sobre meia dúzia de espécies; uma vez, ia começar o BBC Vida Selvagem e até perguntei à minha gata se este episódio iria ser com primos meus ou dela (já que frequentemente os episódios eram ou sobre macacos ou sobre felinos).

A titulo de exemplos de como meia dúzia de espécies tendem a ser o centro das atenções, vou pegar nos vários géneros das famílias terrestres (isto é, excluindo focas, otárias e morsas) da ordem dos Carnívoros (ao usar o género – que agrupa várias espécies – em vez da espécie como unidade de análise, até estou provavelmente a reduzir o impacto do fenómeno).

A negrito, estão os animais que aparecem quase todos os dias nalgum documentário; a verde, aqueles que ainda aparecem com alguma regularidade

Nandinia

Prionodon

Panthera (leão, tigre, leopardo, jaguar)
Neofelis
Pardofelis
Catopuma
Caracal
Leopardus
Lynx (linces)
Puma (puma, jaguarundi)
Acinonyx (chita)
Prionailurus
Otocolobus
Felis

Chrotogale
Cynogale
Diplogale
Hemigalus
Arctictis
Arctogalidia
Macrogalidia
Paguma
Paradoxuros
Prionodon
Civettictis
Genetta
Poiana
Viverra
Viverricula

Crocuta (hiena-malhada)
Hyaena
Proteles

Cryptoprocta
Eupleres
Fossa
Galidia
Galidictis
Mungotictis
Salanoia

Atilax
Bdeogale
Galerella
Herpestes
Ichneumia
Rhynchogale
Crossarchus
Cynictis
Dologale
Helogale
Liberiictis
Mungos
Paracynictis
Suricata (suricata)*

Canis (cão, lobo, chacal, coiote)
Cuon
Lycaon (mabeco)
Atelocynus
Cerdocyon
Lycalopex
Chrysocyon
Speothos
Vulpes (raposas)
Urocyon
Otocyon
Nyctereutes

Ailuropoda (panda-gigante)
Tremarctos
Melursus
Helarctos
Ursus (urso-polar, urso-grizzly, etc.)

Ailurus

Conepatus
Mydaus
Mephitis
Spilogale

Arctonyx
Eira
Galictis
Gulo
Ictonyx
Lyncodon
Martes
Meles
Mellivora (ratel)
Melogale
Mustela
Neovison
Poecilogale
Taxidea
Vormela
Aonyx
Enhydra
Lontra (lontras norte-americanas)
Lutra
Hydrictis
Lutrogale
Pteronura

Procyon (guaxinim)
Nasua
Nasuella
Bassariscus
Potos
Bassaricyon

Diga-se que, a respeito dos animais que aparecem de vez em quando, frequentemente há razões específicas para isso: os linces surgem por causa do ocasional e praticamente obrigatório documentário sobre a conservação do lince-ibérico; o ratel frequentemente é um subproduto dos documentários sobre leões (em que por vezes aparece o leão – normalmente jovem – a enfrentar um ratel, mostrado como um animal agressivo que não tem medo nem dos leões); as lontras aparecem nos documentários sobre o parque de Yellowstone.

De qualquer forma, olhando para o peso de leões, leopardos, chitas, hienas-malhadas, suricatas e mabecos nos documentários, talvez o que haja seja sobretudo uma hiper-representação do bioma “savana africana”? Será uma combinação de grandes espaços, fáceis de filmar (ao contrário das florestas), com grande abundância de grandes animais (ao contrário dos desertos),  e com a oportunidade de ocasionalmente filmar um grande plano de um por-do-sol (e quiçá patrocínios das empresas organizadores de “safaris turísticos”), que torna essa região apetecível para fazer documentários sobre a natureza? Ou será um desejo recalcado de regresso às nossas origens evolutivas?

Também poderá ser que o que há seja simplesmente uma preferência por animais grandes (e eventualmente perigosos), o que explicará também os ursos e lobos (e o suricata vai quase só por acréscimo – como vive numa região cheia de grande predadores, frequentemente visitada pelas equipas de filmagem, e o seu comportamento social e talvez sobretudo o porem-se de pé torna-os “fofos”, o público e/ou os canais “vida selvagem” acabaram por engraçar com eles; e o “Rei Leão” é capaz de ter dado também uma ajuda).

* antes que alguém pense sarcasticamente “a suricata é Suricata? Quem diria?”, noto que a fossa (Cryptoprocta ferox) não é Fossa, e a hiena mais conhecida (a malhada) não é Hyena.

A guerra às “Boas Festas”

Procurando no Ngram a evolução do uso das expressões “Boas Festas” e “Feliz Natal”.

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Sim, estou usando o Ngram em inglês para procurar expressões portuguesas, porque não há a opção de em português, e para comparar a evolução relativa das expressões não deve fazer grande diferença (o gráfico acaba por apanhar duas categorias – livros em inglês em que há alguma razão para usar frases portuguesas; e livros em português que o Google por qualquer razão acha que estão em inglês; exemplos).

Este post foi inspirado por uma tia minha ter-me telefonado pelo Natal e dito “Então, Feliz Natal; ou Boas Festas, como se dizia antigamente”.

Revisitando “Os Goonies”

Há tempos revi esse clássico dos anos 80 que é “Os Goonies“. Algumas coisas que me ocorreram:

A tentativa da novelização (publicada em Portugal pela Europa-América) de apresentar os protagonistas como sendo de uma classe desfavorecida não me parece fazer grande sentido; é claro pelo filme que os personagens principais são pelo menos classe média (a única exceção talvez seja a “Stef”). Aliás, mesmo que a titulo temporário, a família do personagem principal tem uma empregada doméstica (em Portugal aparentemente isso já foi estabelecido como o critério que define a classe média, e acho que não será abusivo generalizar para os EUA).

A ver o filme a dada altura pus-me a pensar qual seria a natureza do contrato que faria os moradores de Goon Docks irem perder as suas casas para construir um campo de golfe, a menos que descobrirem um tesouro evitasse isso; e depois vendo no TV Tropes vejo que alguém pensou a mesma coisa (secção “Artistic License – Economics”: “The foreclosure framework the plot is based around is really confusing. The kids are going to lose their childhood homes due to them being foreclosed upon by a banker who’s planning on demolishing the development to build an expansion to a local private golf course, which appears to be a weird muddling of foreclosure and eminent domain“). Após pensar no assunto, acho que a explicação mais provável é que eles vivessem nas casas num regime de aluguer com opção de compra, em que se tivessem dinheiro pudessem comprar as casas, mas enquanto não as comprassem o senhorio os pudessem despejar. Assim faz sentido que a empresa proprietária tenha decidido correr com eles (porque surgiu o projeto do campo de golfe) e o possa à partida fazer, mas que a descoberta de uma dúzia de pedras preciosas tenha dado aos moradores do bairro a possibilidade de ativaram a cláusula da opção de compra

As outros hipóteses não fazem grande sentido – uma hipoteca que fosse vencer em breve (o motivo mais comum nos filmes com enredo tipo “salvar a quinta / o orfanato“) é pouco provável, já que implicaria que todos os moradores do bairro estivessem em incumprimento, uma coincidência bastante improvável. Poderíamos imaginar um cenário em que as casas pertencessem todas a uma cooperativa de habitação, e fosse a cooperativa que estivesse em incumprimento – e bateria certo com o protagonista “Michael Walsh” dizer que o pai ia arranjar uma solução para o bairro não ser destruído (o que parece indicar ser um problema a nível de bairro e não uma soma de problemas individuais – talvez o pai fosse também o presidente da cooperativa?), mas tenho a ideia que o papel que o rico local quer que o pai Walsh assine se refere especificamente à sua casa, não ao bairro todo (ele parece ter sido o último a assinar).

Outra alternativa era a família Walsh serem os donos do bairro todo, e terem eles uma dívida ao banco (de novo, bate certo com a esperança de Michael em que o pai salvasse o bairro); mas de novo não bate certo com a parte de todos ou quase todos os outros moradores do bairro já terem assinado e faltar só o pai Walsh. Além disso não há nada na interação entre os miúdos que indicie que os Walsh estivessem numa posição social superior aos outros.

Há a possibilidade de as outras famílias terem de livre vontade vendido as suas casas, e o pai Walsh seja o típico chato que impede o projeto de avançar mesmo assim, mas a dinâmica dos personagens não parece bater muito certo com esse cenário de uma venda por livre vontade (e pelos vistos terem mudado de ideias por causa da descoberta do tesouro…).

Quando ao cenário de ser a câmara a ter expropriado (ou ir expropriar – o tal documento que o pai Walsh não quer assinar nesse cenário seria uma ultima oferta de compra a bem antes da câmara avançar com a expropriação) as casas para fazer o campo de golfe (neste caso considerado um projeto de interesse público) não explica como é que terem descoberto o tesouro iria impedir a expropriação de seguir em frente.

No tal página do TV Tropes analisam algumas destes possibilidades (mas não a do aluguer com opção de compra) e concluem “At the end, it can all be chalked up to being an 80s kids movie“).

Finalmente, por vezes há quem na brincadeira diga que a crise da habitação em certas cidades dos EUA é o resultado de uma política urbanística tiradas de filmes infantis dos anos 80, em que qualquer projeto para construir alguma coisa leva a protestos da “comunidade”; mas pelo menos neste filme infantil dos anos 80 a construção de novas coisas é que iria causar falta de habitação – já que o projeto era demolir um bairro residencial para alargar um campo de golfe e um country club (ok, imagino que se possa argumentar que nesses filmes o projeto quase nunca ser habitação mas sim campos de golfe, centros comerciais, etc., se alguma coisa, contribui para propagandear mais insidiosamente a mensagem anti-construção).

[Depois de escrever o post, ocorreu-me fazer uma pesquisa no Overthinking It para ver se alguém já tinha lá abordado a questão do bairro dos Goonies, mas parece que não; mas, de qualquer forma, indo ao google encontram-se muitos fóruns onde a questão é discutida]