A carinha e o jeito são de menina: veio com os cabelos presos num coque, com tiara azul-céu, e vestido branco e preto de alcinhas para aguentar o calor úmido de 35 graus, que fez hoje em Washington. Enfeitou-se com argolas nas orelhas e uma gargantilha discreta. Yolanda Renee King só tem 12 anos, mas já faz parte da História de luta dos negros americanos. Hoje, ela emocionou e surpreendeu milhares de pessoas, reunidas na Marcha de Washington.
“Minha geração já tomou as ruas– pacificamente, com máscaras e distanciamento social – para protestar contra o racismo” – ela disse. “E quero que os jovens aqui se juntem a mim, prometendo que apenas começamos essa luta – e que nós seremos a geração que vai mudar do eu para o nós.”
Yolanda faz parte da chamada geração Z – aqueles nascidos depois do ano 2000, da qual também faz parte a adolescente sueca Greta Thunberg, que se tornou conhecida no mundo inteiro, brigando com gente grande contra o aquecimento global e a devastação do meio-ambiente. Greta foi a personalidade do ano de 2019 da revista Times.
“Grandes desafios produzem grandes líderes” – disse Yolanda, com a convicção de quem conhece de perto a equação.
Yolanda é neta do pastor e líder do movimento dos direitos civis, nos Estados Unidos dos anos 50 e 60, Martin Luther King. Num 28 de agosto de 1963, há 57 anos, reuniu milhares de pessoas, no mesmo cenário, para pedir o fim do racismo e das injustiças contra os negros americanos. O discurso do reverendo King ficou famoso: “Eu tenho um sonho”. Mais de meio século depois, a mensagem dele ainda está viva em movimentos como “Black Lives Matter”. E é inspiração para a única neta.
“Menos de um ano antes de ser assassinado, meu avô previu esse momento que estamos vivendo agora” – disse Yolanda à multidão. “Ele falou que estávamos entrando numa nova fase de luta. A primeira fase foi a dos direitos civis, e a nova fase seria a luta pela igualdade genuína.”
Yolanda mora com os pais – Martin Luther King III e Andrea Waters King – em Atlanta, cidade natal do avô. Ela já foi personagem de um programa da rede de TV NBC – que mostra crianças e jovens com potencial pra mudar o mundo. Em 2018, Yolanda teve uma participação memorável na Marcha por Nossas Vidas, que reuniu jovens americanos contra a violência das armas, logo após o tiroteio na Escola Marjory Stoneman Douglas, em Parkland, na Florida. Saiu consagrada
Nesta sexta-feira, no Memorial de Lincoln, Yolanda foi apresentada à multidão pelo pai, Martin Luther King III, que antes de discursar, pediu que ouvissem a filha. Engraçado ver como a menina quase tímida, tentou ajustar o microfone à sua altura, e de repente, cresceu e se transformou em um leão, rugindo contra as injustiças, fazendo os milhares que a assistiam se emocionar. Cada vez que era aplaudida, dava aquele sorriso de criança, às vezes desconcertada, às vezes reconfortada pela calorosa recepção. Ela mesma escreveu seu discurso, que durou pouco mais de 3 minutos e meio.
No final, Yolanda fez a multidão cantar com ela:
“Mostrem-me como é a Democracia!”- repetia.
“Isso aqui é a Democracia!” – bradavam todos, empunhando cartazes e faixas.
Eu sou suspeita. Criança que briga pelo que acredita, me empolga demais. Mas tem muita gente como eu. Fui conferir as reações ao discurso nas redes sociais. Esperava ver muitos comentários positivos, é claro, mas também aqueles agressivos e antipáticos. Surpresa: a esmagadora maioria aplaudiu, chorou, se empolgou, e se encheu de esperança com Yolanda. E não foram poucos os que já lançaram a candidatura dela à presidência dos EUA, em 2030.
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