17.1.26
Palmiers descobertos
5.1.26
A vida dupla de Senhor João
Senhor João do Restaurante, quando não me está a recomendar o peixe mais fresco da ementa, que ele bem sabe que eu não sou de comer carnes de animais de quatro patas e de duas, só quando não pode deixar de ser -- valham-me os de guelras para me ir mantendo à tona de água --, Senhor João, digo, descobri-o agora: quando não está a dançar por entre as mesas como um Carlos Gardel da arte de bem-servir, é agente imobiliário. Satisfeitos os clientes do almoço, arrumadas as mesas com destreza de prestidigitador, eis que Senhor João afivela o seu sorriso mais engravatado e vai por aí fora mostrar moradias, apartamentos, alinhavar contratos-promessa, acertar comissões e até fazer-se à estrada para aquelas convenções das gentes lá do imobiliário, que imagino estarem a meio caminho entre celebração litúrgica e concerto de André Rieu. Foi assim que fiquei a saber: daqui a dias, não há peixe escolhido; aliás, não há restaurante de Senhor João aberto, porque o dito vai de convenção. Não havendo como o convencer a não ir, resta-me autoconvencer-me a almoçar noutras paragens. Vita nuova, diria Dante, ainda que por meia semana. Vencido, mesmo que não convencido: eis o que um Nostradamus míope preveria para este ano, leitora.
4.12.25
Fiapos de História
26.10.25
Um epicurista
19.10.25
O mandato
Ao motorizado entregador de comida, de uma daquelas inúmeras plataformas com nomes como Uber Eats ou Glovo ou Bolt, que vinha em contramão numa rua estreita algures entre o Largo de Camões e São Bento, numa povoada tarde de sábado, condutor esse que pareceu pedir desculpas por via de alvíssimo e contrito sorriso, face ao meu olhar que deve ter aparecido, do outro lado do pára-brisas, como de surpresa combinada com pânico, a esse entregador, digo, não vociferei as palavras inspiradas pela situação, em colorido vernáculo de Bocage, porque aprender a conduzir em Lisboa é tarefa para uma vida e não se cumpre em dois ou três anos, porque as escolas de condução em Karachi têm decerto padrões diversos dos das congéneres em Lisboa e, em especial, porque às quatro da tarde já o almoço ia fora de tempo, um portador de nutrição tem praticamente o mandato de um bombeiro, e em tais circunstâncias, o que é que não é justificável aos olhos de qualquer divindade, seja das de cá ou das de lá?