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        <title><![CDATA[Stories by Carolina Elis on Medium]]></title>
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            <title>Stories by Carolina Elis on Medium</title>
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            <title><![CDATA[O cedro-do-buçaco e a construção do tempo]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[Carolina Elis]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 19 Sep 2025 13:55:47 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-09-19T13:57:54.864Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>“O presente precisa subir nas costas do passado para ver o futuro”</p><p>– Provérbio africano</p><h3>A arquitetura do tempo e o estado do mundo</h3><p>Para compreender o estado atual do mundo, é necessário abordar a questão temporal. Esta não é entendida como uma força natural que rege o universo, mas sim como um construto social que assenta e molda a realidade que vivemos e percecionamos coletivamente. Este tempo é, portanto, estruturante na medida em que tem a capacidade de moldar o imaginário social, cultural e político a partir de eventos vivenciados por uma determinada sociedade. Por ser estruturante, o tempo social torna-se, muitas vezes, indissociável das estruturas de poder, isto é, uma ferramenta de dominação e controlo das massas. O exemplo mais global desta realidade é a forma como a organização do quotidiano se encontra estruturada e segmentada em função das atividades laborais e da produção. Os progressos tecnológicos das últimas décadas, por exemplo, emergiram de uma demanda de velocidade na produção, motivada pela necessidade de otimizar o tempo nas atividades profissionais e de lazer.</p><p>Em termos mais específicos, quando o tempo social é associado a narrativas coloniais, torna-se uma ferramenta política e social com repercussões temporais profundas. Em Portugal, durante o período do Estado Novo (1933–1974), a propaganda colonial transformou o histórico e violento processo de colonização numa narrativa heroica, civilizatória e espiritual. Esta imagem, meticulosamente elaborada, tornou-se parte integrante da identidade nacional e perdura até aos dias de hoje, mesmo após a Revolução dos Cravos (25 de Abril de 1974). Após a queda do regime fascista e a subsequente instauração da democracia, a narrativa colonial salazarista manteve-se como um elemento indissociável da identidade nacional e cultural portuguesa. No entanto, a insustentabilidade da guerra colonial, caracterizada pela sua brutalidade e impopularidade interna, constituiu uma das principais razões para a queda do regime. Foi, portanto, brevemente reconhecido pela sociedade que a colonização consistia numa prática brutal e não numa missão civilizatória e espiritual de um povo detentor de uma moralidade superior.</p><p>Contudo, esta reinterpretação da identidade nacional foi realizada de forma notavelmente eficaz, com o Padrão dos Descobrimentos (1940 e 1960) a constituir um dos mais notáveis exemplos deste feito. Trata-se de um monumento erigido durante o período da ditadura, no contexto de uma exposição que visava legitimar a brutalidade da expansão imperialista, ao mesmo tempo que normalizava o colonialismo, atribuindo-lhe uma função ideológica e identitária. A análise da existência de tal memorabilia de um regime fascista é frequentemente interpretada como um ataque à identidade nacional, dificultando a revisão do colonialismo como precursor das atuais falhas sociais, económicas e políticas.</p><p>Deste modo, compreende-se que o tempo social não é neutro. A presente realidade mundial não se teria materializado sem a instrumentalização do tempo pelas estruturas de poder, com o intuito de perpetuar a sua própria existência. Trata-se de uma problemática arquitetónica temporal que dá sustentação à narrativa colonial e que nos mantém aprisionados nesse ciclo temporal.</p><h3>O tempo nos atravessa mas nós também o atravessamos</h3><p>O Jardim do Príncipe Real, como é conhecido o Jardim França Borges, é um ponto verde no coração cosmopolita de Lisboa. Sua área verde oferece descanso, lazer e um pedaço de história. A praça que já passou por diversas mudanças, tanto de nome, de função e de estrutura arquitetônica faz parte do quotidiano de quem vive, trabalha ou visita o Bairro Alto. Mesmo com o aspecto debilitado do Reservatório da Patriarcal, o lugar é amplamente frequentado por pessoas de diferentes origens.</p><p>No centro, é impossível não reparar numa residente de dimensões monumentais que curiosamente está trancada atrás de um cerco. À primeira vista, parece apenas uma árvore antiga, uma espécie de relíquia botânica protegida pelo zelo institucional. Mas quem se permite parar e observar – não apenas com os olhos, mas com tempo – percebe que o Cedro do Buçaco é mais do que uma presença natural: é uma testemunha silenciosa da passagem das eras, dos ciclos políticos, das transformações urbanas e, sobretudo, da constante tentativa de apagar e reescrever o passado. Plantado em 1870, esta árvore centenária atravessou regimes, revoluções e reformas urbanísticas. Sobreviveu ao Estado Novo, viu o 25 de Abril ser celebrado nas suas imediações, presenciou o boom turístico da viragem do milénio e agora assiste, impotente mas resiliente, ao processo galopante de gentrificação que assola a freguesia da Misericórdia.</p><p>Ao contrário dos habitantes expulsos pelas lógicas do capital imobiliário, o cedro permanece enraizado – ainda que cercado – como uma metáfora viva daquilo que Lisboa foi e já não é. Neste sentido, o cedro representa uma cronologia não oficial. Uma árvore que, tal como os corpos que outrora habitavam os bairros agora “renovados”, não se move com a velocidade dos fluxos turísticos nem responde à lógica do lucro por metro quadrado. Ele existe fora do tempo produtivo: cresce num tempo lento, quase ancestral, e por isso mesmo, torna-se um empecilho à voracidade do progresso neoliberal. Está vivo, mas foi isolado, vigiado, como se a sua presença perturbasse a harmonia ilusória do espaço “moderno”. A sua cerca é simbólica. Isola-o, mas não o silencia. Quem se permite escutar o tempo do cedro percebe que ele carrega consigo as camadas invisíveis da história. Suas raízes penetram o solo urbano, atravessando as fundações de um bairro que se reconfigura ao sabor dos interesses externos. As suas folhas, que sussurram ao vento, contam histórias de deslocamentos, de cafés que fecharam, de rendas que dispararam, de vizinhanças que se esvaziaram. O seu tronco carrega as marcas do tempo, um tempo que não se mede em trimestres económicos, mas em estações, chuvas, secas, silêncios. Assim, o Cedro do Buçaco é também uma forma de resistência. Um corpo vegetal que nos recorda que o tempo pode ser vivido de outra forma – que nem tudo precisa ser acelerado, capitalizado, consumido. Ele interpela-nos com a sua presença calma, desobedecendo às lógicas do esquecimento e da substituição que a gentrificação impõe. É um habitante antigo que viu tudo mudar ao seu redor, mas que insiste em permanecer. E, ao permanecer, testemunha.</p><p>O tempo do cedro é um tempo outro. Um tempo que nos convida a olhar para a cidade com olhos mais lentos, mais atentos. A rever o que consideramos progresso, a escutar as vozes que foram silenciadas, a questionar quem tem o direito de permanecer. Nesse sentido, o cedro não é apenas testemunha. É também resistência, arquivo e possibilidade. O cedro solitário, representa, por si só, uma fratura na arquitetura do próprio tempo.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*Xpz51PXA6H3LmLo71_8ZfQ@2x.jpeg" /></figure><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=ecfb9ae49e30" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Black bodies, white practices]]></title>
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            <category><![CDATA[chronic-illness]]></category>
            <category><![CDATA[personal-essay]]></category>
            <category><![CDATA[racism]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Carolina Elis]]></dc:creator>
            <pubDate>Sat, 06 Apr 2024 19:47:42 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2024-04-06T19:47:42.223Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/744/1*WFc1aOE6U3a1es2Rb_Q9dg@2x.jpeg" /></figure><p>Photo: Luan Okun</p><p>I’m sitting in the waiting room, this white and sterilized room. The other patients look at me as ifI ’ m in the wrong place, but undoubtedly this is the place I needed to be. It is one of the few places. that makes me feel uncomfortable through displacement rather than pain. Although this strange, but. all too familiar feeling weighs heavily on my thoughts I ’m more concerned about how I ’ll be. perceived by the nice medical staff. Am I sitting right? Do I look like someone who deserves. medical attention? Will the doctor believe me this time if I smile enough? If I talk about this skin. rash throughout my body that makes my clothes feel like a robe of needles, will the root cause of. my appointment be overclouded? While I’m spiralling down into this rather absurd stream of. thoughts, the nurse calls my name. I get up from my chair as my heart sinks to my throbbing feet. Will the nurse try to touch my hair again? Will she see that I didn ’ t follow any of her hair. recommendations? Will she comment on my piercings again? And what about me? Will I have the. will to refuse this intrusive behavior this time? Suddenly I find myself exhausted, unwilling to fight. The appointment will begin shortly.</p><p>I grew up in a country where, from a racial, cultural, social and economic point of view, colonialism left a deep scar on the collective imaginary. Its roots are embedded in every section of society and holds an entire nation hostage. As a black child, I didn’t understand what this entailed or it’s ramifications in my life, either through ignorance or the conception of a racially biased education system. However, all these factors contributed to my numbness in important issues while I was growing up. I never questioned why my large and loving family cultivated a culture of “ anti-medical care ” or. “medical care as a last resort ” . I simply accepted it as normal because it was widely and completely normalized, not only among my family but in brazilian society too. The myth of the strong black women, the thicker black skin, the machinelike black body had made its way into our family, our house, our community, even in our understanding of ourselves. Although my needs were never neglected, this veiled racial prejudice in relation to medical and self care would leave lasting psychological scars.</p><p>Several years later, while living in a different country, with a different lifestyle as an immigrant, I became seriously ill. I was in my early twenties when my chronic illness manifested itself (and I say. “manifested” as if it were a genetic time bomb waiting for the. “right” conditions to explode). It was a dangerous situation in which a potentially fatal illness went undiagnosed for far too long. This life changing experience almost took my life, but the psychological journey I was about to embark on was almost as painful. The diagnosis for the root cause of my unexplainable and extremely aggressive deep vein thrombosis came two years later, after several discharges from specialists and emergency hospitalisations. At first, I did not realise that I was being denied life saving treatment in a dehumanizing way. I lacked both the experience and tools to advocate for myself, giving space to a huge power imbalance to enter the room: in that white office, the authority on the pain and changes my body was going through was never myself and I didn’t have the energy to fight against this situation.</p><p>The treatment for my first deep vein thrombosis was violent. My body changed radically, my hair fell out, my skin turned pale, I was constantly bruised, I needed assistance to walk and the pain was (and still is) excruciating. But in the white offices or hospital beds this never seemed to matter. In fact, I was constantly encouraged to ditch the crutches, get criticized for my “low resistance to pain” and to “ live my life normally ” , as if we were talking about an already past event. As I navigated this violently dehumanizing stream of events, I kept remembering my childhood. This familiar pain denialism, the unauthorization for vulnerability, the patronizing way of providing care – I knew it all too well. As I unlearned the racial and colonial biases in myself, I could remember my childhood more and more clearly. I could no longer separate my upbringing from my current situation, every time my reality collapsed in the present, my reality in the past also collapsed. Neusa Santos Souza, a black brazilian writer and psychoanalyst who dared to delve into the psychological aspects of the loss of black identity in a racist society, wrote in her book. “Tornar-se negro” (“Becoming black” in a free translation), that “one of the ways to exercise autonomy, is to have a discourse about oneself” . As a chronically ill black woman slowly losing her agency through illness and dehumanization in healthcare, this revisionist exercise of my own history has become a survival technology. Gaining a narrative about myself allowed me to reclaim a small part of my sovereignty, it empowered me. As this thin veil was tearing away, a better understanding of my own family also emerged. This dangerous “ anti medical care ” behaviour was nothing more than a symptom of colonial legacy. Furthermore, technological advances, together with the efforts of the longstanding global black struggle for liberation, have made the horrific history of medical science easily accessible. Unbeknownst to us, this generational trauma had repercurssions in time and space, distorting our perception of ourselves and the world we lived in. Unfortunately, this bloody past of exploitation of the black body would also distort perceptions of black bodies from outside, leaving marks on the medical profession itself. A study (<em>1</em>) carried out in 2016 in the US on healthcare and its racial bias revealed that “ a substantial number of white laypeople, medical students and residents” not only have false beliefs about biological differences between races and ethnicities, but that these false beliefs would shape their pain assessment and treatment of black and brown people. A scientific article (<em>2)</em>, written in 2023 in Brazil, establishes how racial disparities in healthcare and structural racism permeate healthcare and health related issues and determines the health of the population. These studies further substantiate my lived experience when I was just made to believe I was alone, playing the victim.</p><p>I sit before the doctors table, this gray, lifeless table. My thoughts traveling faster than I am, I can’t seem to reach them. The good doctor opens their mouth, in a movement slower than the passage of time. The thoughts stopped in their tracks, a train wreck of a mind. “So what did you come here for?”, says the doctor. I’m already so tired. Why did I came here? In the midst of the confusion, I seem to catch one thought, a specific entry on Audre Lorde ’s. “The Cancer Journals ” that haunts my very soul:</p><p>“<em>11/19/79</em></p><p><em>I want to write rage but all that comes is sadness. We have been sad long enough to make this earth either weep or growfertile. I am an anachronism, a sport, like the bee that was never meant to fly. Science said so. I am not supposed to exist. I carry death around in my body like a condemnation. But I do live. The bee flies. There must be some way to integrate death into living, neither ignoring it nor giving in to it.</em>”</p><p>Words written before I was even born, speaking to me through time, soothing my racing heart. I remember that generational trauma is not our culture, multigenerational care is. I take a deep breath, and start with the words I ’ve said a thousand times before: “I came here because I ’m in pain, doctor.”</p><p>It ’ s been a little over seven years since I was diagnosed with thrombophilia. I had three more thrombotic episodes, my hair has grown beyond my physical ability to care for it, I have become a loving auntie, my skin still feels awful against my clothes, my art has evolved together with my body dysmorphia and I’m still in pain, more than ever. I am proudly vulnerable and vocal about my pain, as my silence won’t save me and my voice brings back my humanity and liberates my body. This is my little act of defiance, because, just like a bee, I was never meant to fly.</p><p>1. Hoffman KM, Trawalter S, Axt JR, Oliver MN. Racial bias in pain assessment and treatment. recommendations, and false beliefs about biological differences between blacks and whites. Proc. Natl Acad Sci U SA. 2016Apr 19;113( 16):4296–301. doi: 10.1073/pnas.1516047113. Epub 2016Apr 4. PMID: 27044069; PMCID: PMC4843483.</p><p>2 Dantas-Silva A, Santiago SM, Surita FG. Racism as a Social Determinant of Health in Brazil in the COVID- 19 Pandemic and Beyond. Rev Bras Ginecol Obstet. 2023 May;45(5):221–224. doi: 10.1055/s-0043- 1770135. Epub 2023Jun 20. PMID: 37339640; PMCID: PMC10281767.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=0ac81be13eeb" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Fufotropicalismo]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[Carolina Elis]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 05 May 2023 20:06:10 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2023-05-05T20:06:10.560Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Portugal iniciou uma guerra de narrativa no decorrer dos seus longos anos de existência e, ao que tudo indica, tornou-se refém dos seus próprios artifícios. Não é só questão de uma resistência tacanha na discussão do colonialismo e seus muitos flagelos de uma forma objetiva, livre de romantizações ou um medo infundado de que toda a história do país seria destruída caso isso acontecesse.</p><p>Hoje em dia assisto, confesso que um pouco assustada, a facilidade com que pautas político-sociais vêm sendo sequestradas por oportunistas neoliberais que visam essencialmente a ascensão na cadeia capitalista em que temos o infortúnio de estarmos presos. E isso não se trata de nenhuma coincidência. Assim como sua própria existência, a pouca ou nenhuma resistência que esses movimentos neoliberais encontram estão profundamente ligados á essa guerra de narrativa. A rede de mentiras românticas se tornou tão complexa e emaranhada que roubou de uma nação inteira a habilidade de pensamento crítico, a capacidade de debate e rebate ás essas incursões. É assim que acabamos com um partido como o Chega no parlamento, é assim que assistimos o sistema judicial português ser utilizado contra aqueles que lutam por um mínimo de justiça, é assim que temos um <a href="https://sol.sapo.pt/artigo/779624/exposicao-em-lisboa-afirma-descobrimento-do-brasil-foi-matanca">historiador renomado</a> (que inclusive dá aula na Universidade Nova de Lisboa) a defender a teoria mirabolante de que Brasil e Portugal se “descobriram mutualmente” usando uma carta de Pero Vaz de Caminha, um colonizador que chegou ao Brasil com Pedro Álvares Cabral. Mas não só. Também é assim que acabamos com uma escola que se intitula feminista, que sai nos jornais e revistas de grande circulação a nível nacional, mas não tem a capacidade de rebater discurso transfóbico. Muito pelo contrário, reconhece nesse discurso uma função plural que cada vertente do feminismo exerce. Em contraste, temos vários movimentos também de cariz educacional criados por pessoas plurais, nascidos nos bairros ou nas lacunas da precariedade profissional portuguesa que nunca receberam atenção nem dos media, nem dos mecanismos que distribuem fundos para projetos desse tipo. A diferença entre um e outro, é que um utiliza táticas de marketing aplicadas a um negócio que visa sobretudo o lucro, enquanto o outro está focado no compromisso educacional, político e social como tática de libertação. Ou seja, um é um negócio o outro é radicalmente antissistema. Um é mais aprazível para os media, o outro é um perigo.</p><p>Tudo que escrevi até aqui parece óbvio, e realmente é depois que atentamos aos factos, mas infelizmente, é apenas o início de uma fossa muito profunda. E essa fossa começa a ficar muito mais assustadora quando começamos a falar do infiltramento de tais práticas nas comunidades a que chamamos minorias hegemónicas. <a href="https://www.instagram.com/hil.da.de.pau.lo/">Hilda de Paulo</a>, artista/pesquisadora/curadora independente, nos alerta ao <a href="https://interruptor.pt/artigos/pode-a-artista-hilda-de-paulo-tomar-palavra"><em>homonacionalismo</em> no caso da memória de Gisberta Salce</a>. Gisberta Salce, trans e brasileira, foi assassinada barbaramente no Porto em 2006. Em 2021, seu nome foi perpetuado numa rua do Porto numa tentativa de homenageá-la. Friso bastante a parte da “tentativa”, porque para além de não ser bem sucedida, levantou várias questões. Como nos elucida Hilda, usaram por ignorância ou (muito provavelmente) má fé uma parte do nome morto de Gisberta. O projeto e a proposta de projeto que incluíram tal nome foram encabeçados por pessoas cis, brancas e portuguesas. Quer queiram, quer não, estas pessoas não só estão a definir como e quem pode criar e replicar memórias de corpos dissidentes quando estes não podem estar presentes, violando seu direito a memória e autodeterminação, como também estão a reproduzir em perpetuidade modelos de opressão que é infligida contra elas numa outra instância hegemónica (apesar de serem cis, brancos e portugueses, trata-se de uma mulher e um homem gay). Essa violência CIScolonial, como define Hilda, é fruto direto da tal guerra de narrativa porque replica fielmente os seus modelos em menor escala e sequestra a capacidade de pensamento crítico de pessoas pertencentes a comunidades e movimentos minoritários que lutam (ou deveriam lutar) contra essa opressão de raiz colonial.</p><p>Mas a fossa colonial ainda continua. A comunidade lésbica portuguesa não só reproduz essa violência transfóbica e racista, ela amplia a novos patamares. Se aliam muito facilmente a narrativas e movimentos feministas neoliberais e até mesmo radical, enquanto negam a subjetividade dos corpos que esse tipo de feminismo fere. Se apegam facilmente ao essencialismo genital e ao binarismo, sem entender que ambas as práticas estão enraizadas no racismo, no colonialismo e portanto precisam ser combatidas e entendidas como um problema.</p><p>E é aqui que eu quero chegar, lembrando sempre á pessoa que leu até aqui, que isso tudo é a partir do ponto de vista e vivência de uma mulher cis negra e lésbica. Entre cartazes de Marielle Franco e a máxima “ninguém solta a mão de ninguém”, continuamos a ser arrastadas por essa comunidade sem conseguir pautar as interseccionalidades que a atravessam mas são invisibilizadas pelo fundamentalismo colonial inerente á cultura portuguesa. O racismo é um não assunto. A xenofobia é um não assunto. A transfobia é um não assunto. Porque somos mulheres, porque somos lésbicas e, portanto, não poderíamos, como grupo minoritário, reproduzir tais modelos.</p><p>Nesse dia da visibilidade lésbica quero lembrar, sempre, dos corpos invisíveis da nossa comunidade.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=5eede47f23ee" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[An open letter to my illness]]></title>
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            <category><![CDATA[open-letter]]></category>
            <category><![CDATA[chronic-inflammation]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Carolina Elis]]></dc:creator>
            <pubDate>Sat, 31 Dec 2022 19:22:01 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2022-12-31T19:22:01.899Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>I never thought I would be writing these words that echoes between us in the middle of the night. But in order to let go, I am taking these painful, hurtful words and turning them into this gentle letter.</p><p>I have to say that I’m not mad anymore. I cannot deny the lessons you brutally taught me.</p><p>Only when you bent my knees to the ground I could experience the roar of the earth, to learn what it takes to walk on and trough it.</p><p>Only by stealing my time, transforming it in an excruciatingly long and slow spiraling chaos, and yet, not enough, you showed me that the world moves regardless of me. That time is an entity that operates in another plane. Time is not to possess or control. The only thing I’m left to do is to cherish it when possible.</p><p>Only by taking everything from me, my plans, my dreams and my future, you taught me that everything began at nothing. When I was left with nothing, I realized I could be anything. I discovered power in weakness, the liberating feeling of existing without the burden of the flesh tearing strength.</p><p>And every time I tried to punish myself, hate myself, hurt myself, you forced me to take care of myself instead. To be as kind as I learned to be with anybody else. I’ve taken your violence and turned it into a silky hammock where I can swing to the rhythm of my lonely nights.</p><p>When you turned my body into a dysmorphic nightmare, to the point where I couldn’t even understand the changes it went through, the shock made me understand that the body is nothing but a vessel in a journey we have no idea what is about. I’m only human. I’ll be here as long as I’m here and when I’m not, I only hope to be a memory.</p><p>I know we have a long way to go, and that you will become dangerously present as the years go by, sweeping me into the ground in the process. That’s fine. I am not afraid of pain, I am not afraid of failing, of falling or crying because I finally learned to be kind to myself. Because through all the horrors I’ve experienced, the end is just a passage through, a relief. And remembering this makes me happy.</p><p>Although I’m not grateful, I accept you’ll be here as long as I’m here and there’s nothing I can do about it. I’ll be moving forward with my newfound powerful weakness, self-kindness, human dysmorphic timeless body and grounded knees, towards a future I cannot envision. But the future nonetheless.</p><p>Yours truly,</p><p>Carolina Elis.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=cebcc40c2e05" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Meu posicionamento não é barganha para minha humanidade.]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[Carolina Elis]]></dc:creator>
            <pubDate>Thu, 08 Jul 2021 18:14:46 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2021-07-08T18:14:46.630Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Em agosto de 2020, quando ainda fazia parte do coletivo Estrela Decadente, fui convidada a fazer uma exposição pop-up no evento “Calypso Eclipse” do coletivo nos Anjos70. O trabalho preparado para essa exposição foi de teor anti-racista, anti-fascista e anti-colonial, com recortes de uma narrativa pessoal: como pessoa preta que assistiu aos eventos, nacionais e internacionais, bárbaros daquele ano (dos assassinatos de corpos pretos aos ataques de fascistas com tochas na mão). Trata-se portanto, de um conjunto de ilustrações que não só se integra como voz de protesto de corpos pretos pelo mundo todo, era também fruto de trabalho que considero urgente (e escasso em uma pluralidade de campos e espaços), em complementaridade com a minha expressão artística ainda em construção. Sem esquecer também, feito em precariedade económica e de saúde, que juntamente com a crise político-social, foram agravadas pela pandemia mundial.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*7p7M2mzz1S47CuN0HaP3hQ.png" /><figcaption>Ilustração “Portugal é Racista” de Carolina Elis</figcaption></figure><p>Durante as articulações do protesto contra as atitudes tomadas pela Feira Gráfica de Lisboa no ano passado, fiquei a saber, através de congratulações e fotos enviadas por amigxs, que esse mesmo trabalho se encontrava exposto na Feira, no Pavilhão Branco das Galerias Municipais, sem meu consentimento ou conhecimento. Em choque, contactei a Feira Gráfica através de seu instagram, na procura de perceber quem foi o responsável por isso, ao qual permaneço até o dia de hoje sem resposta. Entretanto, consegui (não graças á organização) a informação de que o meu trabalho foi posto em exposição por Xavier Almeida. Por email, recebi a confirmação do próprio, e passo a citar “coloquei lá a série que fizeste para a Estrela Decadente. E estava bem em destaque, numa vitrine”. Assisti, incrédula, á tática tão adorada pela branquitude quando colocam em moção a prática ancestral de apropriação epistemológica, revestida pela máscara da visibilidade que para corpos pretos representa subversão do centro cisheteronormativo e eurocêntrico mas para a branquitude significa territorialização e manutenção de poderes hegemónicos através da performatividade.</p><p>Neste momento, comuniquei por motivos óbvios, que não desejava mais fazer parte do coletivo Estrela Decadente e fui respondida com uma tentativa de gaslight, onde é alegado que mesmo que tenha sido em conversa informal, fui sim informada sobre a tal exposição. Ainda não satisfeito, o ex-curador cobra de mim o dever de buscar responsabilidades a outros indivíduos da equipa curatorial da Feira Gráfica de Lisboa 2020 enquanto se coloca na posição de aliado citando a sua “não-apresentação” no espaço dedicado á Estrela Decadente, citando o seu esforço sobre-humano para incluir corpos dissidentes na sua responsabilidade curatorial.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*Svt-DGD2PU7J4orNvdLHjg.png" /></figure><p>Assisti, mais uma vez incrédula, o comportamento messiânico de um homem cis branco que pensa estar acima da crítica porque tentou fazer seu trabalho como aliado. Que pensou ser adequado, depois de ter se apropriado do meu trabalho e durante o exaustivo processo de ação contra os absurdos perpetrados pela Feira Gráfica, me impingir a responsabilidade de procurar culpados individualmente como se o caso não se tratasse de uma prática comum da hegemonia branca, especialmente nos setores da produção de conhecimento e cultura. Uma prática que testemunho em primeira pessoa desde sempre e em que estão centrados minha crítica e meu trabalho. Uma prática que, quem é realmente aliado, visa destruir.</p><p>Aproveito aqui, para questionar o que é um aliado. Porque a aliança se tornou algo que gera esse complexo de salvador branco ao invés de agregar força na destruição dos poderes hegemónicos cisheteronormativos e eurocêntricos? A resposta é simples: Porque a branquitude subverteu, mais uma vez, o centro da luta para si. Transferindo o poder que já possui dentro de um cis-tema que herdou. Não é só sobre a protagonização, é sobre a veia colonial que vive através desse cis-tema e da noção contemporânea do que é a branquitude, é sobre o lugar de subalternização que se espera do corpo negro até dentro dessa tal aliança. A empatia acaba quando o preto fala por si.</p><p>Na época, sofri várias tentativas de branqueamento do comportamento grave do ex-curador. Em conversa pelo facebook, me disseram que se tratou de um acidente, que o indivíduo em questão é realmente uma pessoa ótima e que por isso, não poderia se tratar de racismo. Devemos lembrar que racismo não é questão de bondade. O racismo é um sistema complexo que funciona estruturalmente e institucionalmente e ocorre, embora com a manutenção individual e de grupo, independentemente da bondade de um indivíduo que tem acesso a privilégios desse mesmo sistema.</p><p>Estamos agora em 2021 e ainda hoje assistimos os remanescentes do desastre que chamamos de Feira Gráfica. Por motivos de exaustão e saúde, na época priorizei a ação que já estava em moção e me removi dos mesmo espaços que essas pessoas e dei o assunto como terminado. Entre a falta de ação da Feira Gráfica e as suas consequências assisto, pela terceira vez, incrédula, a tentativa triste da Estrela Decadente de centrar a ação em si e no Xavier. Mais uma vez a aliança vem servir, não de arma contra a instituição, mas de capital social para indivíduos cis-brancos. Não podemos negar que a Estrela Decadente fez uma ação-protesto na edição de 2020. Mas quando lemos a carta, escrita em conjunto por pessoas racializadas, e assinada por centenas de pessoas, poucos são os nomes de indivíduos que pertencem á Estrela Decadente. É de ressaltar que, quando o assunto é solidariedade e o apoio ás causas anti-racistas, a aliança desaparece quando a narrativa é contada e recontada com vozes pretas. Afinal, não se pode fazer performance artística e gerar capital social com palavras que não foram suas, com produções que não foram suas. Mas a revolta diz-se ser a mesma.</p><p>Devemos lembrar, que nesse momento crucial, onde podemos em comunidade fazer a diferença, não devemos aceitar oportunismos e tentativas de apropriação que mantêm o cis-tema colonialista em plenos poderes. Embora seja dito que Xavier Almeida tenha sido despedido em represália das suas respostas á comoção causada á cerca do caso, existem outras pessoas que fizeram o mesmo ou até mais e continuam empregadas. Cecil Silveira, por exemplo, foi um dos primeiros a aderir á ação e cancelar a sua participação na edição de 2020, inclusive assinou a carta e no ano seguinte, não hesitou em se demitir do cargo de curador que lhe foi oferecido quando não conseguiu entrar em acordo quanto as mudanças que tentou implementar na Feira Gráfica. Não duvido, entretanto, que Xavier tenha sofrido represália pelo seu comportamento. Acredito, porém, que a ação coletiva desse ano, não é e não deve se tratar da vendeta pessoal de um homem cis-branco que perdeu o emprego, porém não vive na mesma precariedade que muitos de nós porque se beneficia do círculo vicioso eurocêntrico e excludente que se encontra a produção de cultura em Portugal.</p><p>Em resposta á minha discordância com o comunicado da Estrela Decadente, mais uma vez, tive a humanidade e existência negociada. Onde pessoas, que possuem privilégios financeiros e estruturais e me ajudaram em situações de vulnerabilidade, tomaram como ofensa o meu posicionamento. A branquitude, mais uma vez, se coloca no lugar de messias onde não pode haver discordância. A empatia e a aliança mais uma vez acabam quando o subalterno emite suas próprias palavras. O meu posicionamento, independente de qual seja, não é e não será barganha para a minha humanidade.</p><p>Carolina Elis</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=2ca71bd65e34" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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