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        <title><![CDATA[Stories by Duda Moro on Medium]]></title>
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            <title>Stories by Duda Moro on Medium</title>
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            <title><![CDATA[Rita, mulher e corinthiana]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[Duda Moro]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 09 May 2025 19:08:10 GMT</pubDate>
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            <content:encoded><![CDATA[<p>“Alguma coisa acontece no meu coração” sempre me tocou de um jeito bem particular. Quase todo dia escuto João Gilberto cantando no meu ouvido. Existe composição que se conecta com o mais profundo da gente e eu nem acredito na profundidade das coisas. Hoje não foi no modo aleatório que encontrei a música, procurei por ela porque queria entender o que é essa coisa que acontece no meu coração mesmo que aconteça a quilômetros de distância da avenida São João.</p><p>Sabe aquilo que a gente pergunta, no esforço de lembrar, o que fazia quando algo grandioso aconteceu? Eu nunca lembro. Não sei o que fazia quando as torres gêmeas foram atingidas, ou quando a mtv saiu do ar. Mas eu sei exatamente o que estava fazendo quando Rita Lee morreu:</p><p>um tratamento de canal.</p><p>Meu dente ainda doía quando fui atingida por um sentimento estranho ao saber de sua morte, que era notícia na televisão do consultório do dentista. Fui atingida por um desejo súbito de caminhar, mesmo com metade da cara anestesiada. Tirei a câmera da mochila. Gravei meus olhos — na tentativa de entender o que se passava lá dentro –, enquanto sentia alguma coisa acontecendo no meu coração. Era como um buraco aberto. E não era o do meu canal. Coloquei João Gilberto, encontrei com ela na letra.</p><p>Já pensei muito sobre muita coisa.</p><p>Só que tem coisa que mesmo sendo obsessivamente pensada, não se faz entender. Tem coisa que continua não fazendo sentido.</p><p>O buraco que sinto.</p><p>O vazio que acompanha a confusão de pensados e sentidos, que chegam quando alguém que a gente nem conhece morre</p><p>- se é que a gente conhece alguém, de verdade –,</p><p>concretizam a perda de uma presença, que sequer se fez presente.</p><p>Continuei retratando meus olhos, pensando em todas as coisas que ela ainda tinha para mostrar e dizer. Pra me fazer ver com os pares de olhos dela, que parecia ter visto tanto quanto havia sentido e pensado.</p><p>Mais do que ouvir Rita cantando, tenho apreço por ouvi-la narrando “Democracia em preto e branco”. É espaço no qual sinto que nos encontramos, mulheres e corinthianas.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/450/1*3JSmUZyf2tYj2fZHr_Wrzw.jpeg" /></figure><p>Como todo o amor que se preze, Corinthians fez Rita Lee sofrer:</p><p>“Meu amor branco e preto</p><p>Às vezes me deixou na mão.</p><p>Mas eu gosto de você</p><p>Já não me importa a sua ingratidão</p><p>Sofro, mas continuo a te adorar</p><p>Corinthians, meu amor”</p><p>A faixa “amor branco e preto” faz parte do álbum “Hoje é o primeiro dia do resto da sua vida”. Gosto de pensar que ela sabia o impacto que isso causaria em todo corintiano que escutou a música no dia de sua morte. Faz doer duplamente essa dor que ainda não entendo enquanto escrevo.</p><p>Existem poucas coisas que são tão sagradas quanto o futebol é no Brasil. Do outro lado, existem as coisas que deveriam ser sagradas e celebradas, mas que a vida deixa cair no lugar do esquecimento. Ainda pior que isso, são as coisas que só lembramos e celebramos quando a morte vem, forçando lembrar.</p><p>De todas essas coisas e de todas as possíveis coisas que são possíveis de escrever sobre Rita Lee, gostaria de rememorar, por intermédio das palavras que conheço, o tanto que ouvir as palavras dela me fizeram saber e confiar nas minhas próprias. Ser pesquisadora no futebol masculino não é tarefa fácil, mas é como um afago no peito ouvi-la narrando uma revolução que foi feita com sua presença e com sua voz.</p><p>É quase nunca que uma mulher tem voz no futebol que é dos homens. Rita Lee teve ainda mais, teve gol com seu nome. Não qualquer gol.. um gol de outra ovelha negra, Walter Casagrande, na final do campeonato paulista de 1982. Os dois somaram vozes com outros desajustados que se preocupavam com o futuro do país e do Corinthians.</p><p>No documentário uma cena em especial chama a atenção: Vladimir, Sócrates e Casão contam do dia que foram assistir ao show da cantora e decidiram presenteá-la com uma camiseta do timão, mesmo não tendo levado uma. Foi assim que Casagrande pediu a um torcedor, que assistia ao show da cantora com o manto sagrado, que entregasse sua camiseta do Corinthians. Urgia a necessidade de juntar as melhores coisas que o Brasil tinha: o futebol, a democracia, Rita Lee e o desejo de um país livre.</p><p>Num trecho chamado de “profecia” que consta em sua autobiografia, escreveu:</p><p>“[…] estarei eu de alma presente no céu tocando minha autoharp e cantando para Deus”. E conclui com o epitáfio: “ela nunca foi um bom exemplo, mas era gente boa”. Muito mais do que gente boa, Rita foi mulher corintiana durante a ditadura militar e por isso só merecia o melhor lugar do céu.</p><p>Dois anos de sua morte, um ou outro buraco ainda aqui.</p><p>Não há mais Rita Lee de carne e osso, mas tem uma coisa que acontece no meu coração… Depois de hoje, quando ouvir João Gilberto cantando “sampa”, vou imaginá-la vestindo o manto sagrado ao lado do Magrão.</p><p>Não sei de Deus, mas sei que Sócrates deve ter recebido Rita Lee em festa, com a voz aquecida para celebrar sua morte, sua vida e a certeza de que toda revolução deveria ser narrada por uma mulher.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=d313d2af9fec" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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