Yassine Bounou é o goleiro marroquino e essa foi a defesa dele no pênalti cobrado por Crysencio Summerville, da Holanda, que deu a vitória de Marrocos por 3 a 2. No tempo normal, o jogo terminou empatado em 1 a 1.
Claro que o fato de ele ter feito a defesa com uma mão só viralizou e teve gente tão louca quanto eu para associar imediatamente ao Genzo Wakabayashi.
Benji Price é o nome que Wakabayashi ficou conhecido na dublagem portuguesa. Ou “dobragem”, como chamam lá em Portugal.
Jogo sofrido, primeiro tempo perdendo com erro de um jogador e virada no último minuto? Se alguém me descrevesse, eu juraria que estaria falando de um episódio de Captain Tsubasa 😅 Sim, eu consegui fazer um paralelo entre o gol sofrido pelo Brasil e um episódio de Super Campeões. Lembram de Ishizaki contra o Hanawa? Se não, um dia eu falo sobre isso.
Agora, com o resultado final, posso dizer que fiquei muito feliz. A Seleção venceu e o Japão vendeu caro a derrota, jogou bem na medida do possível e fez um belíssimo papel. É uma pena que tenha saído tão cedo. Mas isso também vem da tabela que, pra mim, ficou muito mal desenhada. Pô, 16-avos de final para uma seleção que ficou em segundo no seu grupo empatando com a Holanda? Talvez fosse melhor para o Japão ter ficado em terceiro! 😐
Mas, bom, agora não tem mais o que fazer.
E para comemorar essa vitória sofrida, eu havia planejado mais um post sobre o Brasil, como eu fiz no último post. Desta vez, sobre nosso primeiro vislumbre do país e da Seleção em Captain Tsubasa — nosso, brasileiros, quero dizer. Claro, foi em Captain Tsubasa J ou, como ficou famoso por aqui, Super Campeões.
É o seguinte… Super Campeões estreou em 15 de setembro de 1997. Naquela ocasião, na maioria das vezes, sempre que um anime estreava, nós, do público, o encarávamos quase como um unboxing de uma mystery box. Dificilmente sabíamos alguma coisa a respeito. A Internet ainda engatinhava, a conexão era absurdamente lenta e a informação era escassa. As únicas fontes de informação eram as revistas, que se proliferaram depois do sucesso de Cavaleiros do Zodíaco. Mas elas se concentravam em obras de maior apelo. Ou naquilo que fazia sucesso ou no que eles acreditavam que faria sucesso.
Então anime novo na TV brasileira, para a gente do público, era quase sempre um território desconhecido que a gente ia descobrindo ao assistir. Algumas obras, cercadas de grande espectativa, recebiam atenção das revistas antes mesmo do lançamento. Foi o caso de Yu Yu Hakusho. Quem era ligado nesse circuito, quando o anime estreou, já sabia quem eram Yusuke, Kuwabara, Hiei, Kurama, Keiko e Botan.
Mas na maioria das vezes isso não acontecia. Captain Tsubasa, por exemplo, não recebeu nenhuma atenção antes do lançamento. Basicamente, uma notinha na finada Herói Gold dizendo “em setembro estreia Super Campeões.” Depois disso, somente a chamada da própria Manchete anunciando a estreia. No futuro, falarei mais sobre como a mídia tratava Super Campeões.
Então se em Dragon Ball, antes mesmo da estreia, sabíamos que o herói do anime era um garoto chamado Goku, se em Yu Yu Hakusho, sabíamos que o herói era um deliquente juvenil chamado Yasuke, em Super Campeões não sabíamos nada! Não sabíamos nem quem era o Tsubasa Ozora (ou Oliver Tsubasa), imagine o Roberto Hongo?
Super Campeões, então, caiu no exemplo genérico: começamos a acompanhar sem saber de nada e íamos conhecendo os personagens e a trama à medida que o anime avançava.
Roberto “Maravilha”
A abertura brasileira era muito curiosa: ela apresentava os personagens. Anime nenhum no Brasil fazia isso. Então logo de cara, vimos um cara chamado “Roberto Maravilha.” Já faz 29 anos, mas eu lembro que achei curioso aquele nome. Como falei, não sabia o que esperar, embora, logo de cara, claro, me tenha vindo à memória figuras do futebol brasileiro como Dadá Maravilha, Fio Maravilha e Túlio Maravilha, que àquela altura não estava mais no auge, mas ainda era muito famoso e reconhecido.
E o mais legal é que Roberto aparece logo nos primeiros minutos do anime, embora isso passe bem despercebido pra gente. O primeiro episódio, “‘O Grande Sonho de Oliver Tsubasa”, começa com Tsubasa chegando a Nankatsu, com o caminhão de mudança descarregando a mobília na sua casa. A Sra. Ozora (ou, na época, Sra. Tsubasa) orienta o pessoal da transportadora e Tsubasa sai correndo de casa, para ir à escola, que ainda estava de férias, tentar uma vaga no time de futebol.
Nesse momento, a Sra. Ozora recebe uma carta de seu marido, o Capitão Ozora (“Capitão Tsubasa”), que avisa que “seu amigo Roberto Hongo” estava indo ao Japão fazer exames e ficaria hospedado na casa deles. Nesa hora, a Sra. Ozora se toca de quem é “Roberto Hongo”, abre um jornal e o vê.
Foi o nosso primeiro vislumbre de Brasil. Mas ali naquele momento, possivelmente ninguém ou quase ninguém. Afinal de contas, não lemos japonês e a dublagem não traduziu o texto.
Uma manchete de jornal foi o primeiro vislumbre de Roberto para o público brasileiro.
A notícia mostra Roberto com a camisa azul da Seleção Brasileira. A manchete principal, o texto amarelo no box azul diz: “Lesão no olho coloca a carreira do jogador em risco?” enquanto o texto vermelho, na vertical, diz o nome do jogador e antecipa o trágico destino da sua carreira, algo como “Fim da linha para Roberto Hongo?” e o texto à esquerda diz “Craque da Seleção Brasileira continua quebrando recordes.”
Curioso: a dublagem da Gota Mágica, que, já disse várias vezes, é muito problemática, o chama de “Roberto Hongo.” Até onde sei, foi a única vez que isso aconteceu. Depois, foi só “Roberto Maravilha” mesmo. Importante notar, “Hongo” é um sobrenome japonês. Roberto, portanto, é um nikkei, algo que essa primeira série, devido à dublagem, acaba não revelando à gente.
Ainda no primeiro episódio, Roberto segue como um personagem misterioso. É só um andarilho bêbado que senta ao lado do campinho do bairro para ver a criançada jogando bola. Ao ficar impressionado com a habilidade de Tsubasa, ele cruza a bola para que ele marque um gol e Tatsuo Mikami, o treinador de goleiros que cuida da carreira de Wakabayashi o reconhece, mas não fala o seu nome. Ele pensa “Ei, esse aí não é o…?”
Roberto só é devidamente apresentado no segundo episódio, “A chance de Benji, um goleiro genial.” Curiosamente, isso acontece, novamente, através de uma notícia jornalística. Wakabayashi está treinando em casa e o Sr. Mikami chega e entrega a ele uma revista, mostrando que “o bêbado de ontem” era o Roberto Maravilha, um ídolo da Seleção Brasileira.
Revista japonesa com matéria sobre Roberto, usando a camisa azul número 10 da Seleção Brasileira.
Mais pra frente vamos Roberto, ainda perambulando pelas ruas de Nankatsu, já depois de receber o diagnóstico sobre seu olho e devidamente desenganado sobre as condições de sua visão, o que fatalmente encerraria a sua carreira. Nesse momento, temos acesso a flashbacks onde ele recorda seus momentos de glória na Seleção Brasileira.
Ele também lembra do incidente que descolou sua retina e comprometeu sua visão e pondera a respeito do seu destino, pensando sobre o que deve dizer ao Capitão Ozora, já conformado com o fim da sua carreira. É quando ele vê o time do Nankatsu treinando e aí vem toda aquela história que conhecemos. Ele vê Tsubasa dizer que sonha em ser campeão do mundo, percebe que eles têm o mesmo sonho, ajuda Tsubasa a fazer um gol de bicicleta, resolve treinar o Nankatsu para a partida contra o Shutetsu e, enfim, se apresenta como Roberto Maravilha.
Uma coisa muito curiosa dessas primeiras participações de Roberto, em todas as matérias e flashbacks dele com a Seleção Brasileira, é ele estar de uniforme azul. Sim, não há dúvidas de que é a Seleção Brasileira. Veja o escudo, semelhante ao da CBF, e a torcida com bandeiras do Brasil.
Roberto com a camisa azul número 10: a alegria da torcida brasileira
Essa escolha é muito curiosa, já que a Seleção Brasileira é conhecida mundialmente pela camisa amarela. Sim, a camisa azul é famosa também. É a camisa do primeiro título mundial. Mas o grande símbolo é a amarelinha e os títulos na era da TV a cores, 1970 e 1994 — o Brasil já era tetra quando Captain Tsubasa J foi lançado.
Além do mais, o mangá que inspira a produção, World Youth Hen, é bem calcado na Seleção Brasileira que usa a camisa amarela, inclusive o modelo de 1994 aparece diversas vezes.
Então é engraçado essa produção. Ainda mais considerando que… quando o Brasil joga de azul? Geralmente quando enfrentava uma seleção de camisa amarela ou de camisa branca — essa segunda prática tá mais em desuso atualmente, em 2006, quando foi eliminado, o Brasil jogou de amarelo e a França de branco e hoje mesmo o Brasil jogou de amarelo e o Japão de branco.
Nos flashbacks de Roberto, realmente, o Brasil aparece enfrentando uma Seleção de camisa amarela. A combinação de uniforme, camisa amarela, calção verde e meias brancas, até lembra a Austrália, que usa esse mesmo padrão — teve uma época que usou meiões amarelos, mas de uns tempos para cá, voltou para as meias brancas.
Mas no segundo jogo, a partida em que ele lesionou o olho, o Brasil enfrenta uma seleção de camisa roxa, lilás ou cor-de-rosa. Não tinha por que estar de azul.
Talvez neste segundo jogo tenham optado por azul para evitar confusão? Já mostraram Roberto de azul antes, não queriam mudar a camisa. Beleza, mas… por que mostrá-lo de azul antes? Por que não colocar o Brasil com sua camisa principal?
Curioso e nem consigo especular por quê. Mas eu gostei. Acho a camisa azul muito bonita. Minha preferida é a amarelinha, mas sempre curti a azul.
Que eu lembre, Roberto não aparece com a camisa amarela em nenhum momento no J. Mas na série clássica, de 1983, no Road to 2002 e na série de 2018, é sempre com a amarelinha.
E por hoje é isso.
Viva, Tsubasa! Viva, Roberto! Valeu, Japão, fica para a próxima. Saiu cedo, mas não foi feio. Valeu, Brasil! Vamos pra mais uma!
Enfim, aconteceu: Brasil e Japão em uma fase eliminatória de Copa do Mundo, nesta segunda feira. Evidentemente, esse jogo é um ensejo quase obrigatório para se falar em Captain Tsubasa.
O Brasil é, depois do Japão, o país mais importante em Captain Tsubasa e a Seleção mais importante em Captain Tsubasa. A Seleção Brasileira e o Brasil são os nortes desde o começo da série e são utilizados quase como um McGuffin para Tsubasa.
Seguindo a lógica battle shonen: Roberto “Maravilha” Hongo, um ex-jogador brasileiro, é praticamente deuteragonista da primeira fase e se torna o mestre de Tsubasa. Nesse período, a Seleção Brasileira é quase uma lenda, constantemente mencionada como a melhor do mundo. Vir para o Brasil é a principal meta de Tsubasa. Mais tarde, enfrentar a Seleção Brasileira se torna uma questão de tempo e jogadores como Carlos Santana e Natureza são os rivais que Tsubasa precisa superar.
Assim, a Seleção Brasileira estrela o mangá e inúmeras adaptações, de OVAs e episódios do anime a games. Tinha muita coisa para falar aqui. É material pra muitas postagens, por isso não posso desperdiçar em uma só ou abordar de forma abreviada e corrida. Eu poderia, por exemplo, falar sobre o Brasil x Japão mais clássico do mangá, o encontro entre os dois países no World Youth Hen. Esse jogo é muito celebrado, entre outros motivos, pela estreia do personagem Natureza.
Brazil e Japão no World Youth Hen: à esquerda, Carlos Santana e Tsubasa. À direita, o imponente Natureza.
Em vez disso, resolvi comentar uma das cenas mais emblemáticas da franquia, o final de Captain Tsubasa: Road to 2002, com Tsubasa e seus colegas encarando o Brasil. Digo, de antemão: este post será longo e pura especulação. Encare como jogo + prorrogação e disputa de pênaltis daquelas longas, que não param nos 5 pênaltis, todo mundo do time cobra e dá a volta para repetir as cobranças.
Eu já pretendia falar sobre isso, mas a decisão ganhou reforço quando vi o quanto essa cena tem viralizado devido ao jogo vindouro entre as duas seleções. Ela vale uma análise, porque acredito que há muito mais do que os olhos podem ver, além de ser permeada por um entendimento, muitas vezes, equivocado quanto aos rumos do anime.
Final inconclusivo?
Primeiramente, é importante salientar: essa série de 2001 de Captain Tsubasa, no Japão, é chamada apenas de Captain Tsubasa. O subtítulo Road to 2002, que, originalmente, é apenas do mangá, só foi colocado no ocidente. Mas o anime foi financiado justamente com esse fim: uma das estratégias de promoção para a Copa do Mundo no Japão.
A cena em questão, Tsubasa emocionado por enfrentar o Brasil, encarando Rivaul e Santana, é a última da adaptação e, antes que o jogo comece, o anime acaba. O episódio é o 52º de Captain Tsubasa: Road to 2002 e se chama “Fīrudo no senshi-tachi” ou, em português, “Guerreiros em Campo.” O título foi traduzido precisamente pela dublagem brasileira. O roteiro da série é atribuído a Kaoru Kurosaki, mas é possível que os episódios tenham tido equipes de roteiristas.
Eu lembro que eu curti demais quando assisti. Achei um encerramento com chave de ouro. Eu entendi, ou pelo menos acho que entendi, o que aquela cena significava e por que acabava ali.
Mas com o passar dos tempos, vi muita gente reclamando daquele final que pareceu “abrupto” e vi várias teorias a respeito de por que terminou daquele jeito. A mais comum é que a série foi cancelada.
Não foi. A série era planejada, desde o princípio, para ter 52 episódios semanais, pois a ideia era que fosse exibida até junho de 2002, coincidindo com as primeiras semanas de Copa do Mundo na Coreia e no Japão. No fim das contas, a produção acabou atrasando e o último episódio foi exibido em 6 de outubro de 2002, quase exatamente um ano após a estreia — 7 de outubro de 2001. Mas seguiu o planejamento: 52 episódios. Era, portanto, o último episódio.
Tem uma boa maneira de identificar que, sim, aquele era o final desejado pela produção: o último episódio como um todo. Ele mostra Tsubasa se firmando no Cataluna (Barcelona), para enfrentar o San Jose (Valencia) de Carlos Santana. Depois, vemos rapidinho Kojiro Hyuga ganhando seu espaço no Piemonte (Juventus) e Genzo Wakabayashi como titular do Grunwald (Hamburgo). Depois, os jogadores se encontram no Japão, atendendo a uma convocação da Seleção, dão uma coletiva e corta para um estádio lotado, onde eles estão prontos para enfrentar o Brasil. Fim.
Tsubasa entra em campo pelo Cataluna e Hyuga ganha seu lugar no time do Piemonte.
Os jogos do Cataluna, do Piemonte e afins são durante a temporada europeia. Ou seja, entre o começo do episódio tem um salto temporal considerável dos campeonatos europeus para a Copa do Mundo. Captain Tsubasa não pularia direto do meio da temporada europeia para a Copa do Mundo.
Claro, saltos temporais são comuns na franquia, mas eles ocorrem depois de um arco encerrado. Temos um grande salto temporal entre a primeira e a segunda fase do Captain Tsubasa J. Mas a primeira fase fecha um arco: Tsubasa e o Nankatsu vencendo o Campeonato Nacional. Aí pulamos direto para Tsubasa, já jovem adulto, no Brasil.
Se a ideia de Road to 2002 fosse, realmente, continuar após o episódio 52, é muito provável que víssemos a conclusão da temporada europeia, inclusive o grande ápice do mangá: El Clásico, a partida entre o Barcelona e o Real Madrid, que não acontece no anime. Captain Tsubasa trabalha com arcos. É impensável imaginar um pulo direto para a Copa do Mundo, que seria um novo arco, sem que o arco anterior tivesse uma conclusão.
Não é final inconclusivo. Mais que isso, é um epílogo.
Brasil e Japão: que jogo é esse?
Um outro ponto que é comum apontarem: o anime acaba na final da Copa entre Brasil e Japão. Só que aquele jogo, provavelmente, não é a final. Muito pelo contrário. É bem possível que seja a abertura da Copa do Mundo, que o anime, por uma questão de direitos, chama de Copa Internacional — “Copa do Mundo” é uma marca registrada da FIFA e, para fins comerciais, só pode ser usado pela FIFA ou por seus patrocinadores e por quem pagar os direitos de uso.
Por que eu digo que é a abertura? Durante a apresentação dos jogadores, a empresária de Kojiro Hyuga, Kaori Matsumoto, está na plateia e diz que seu pupilo “agora vai enfrentar as melhores seleções.” A cena tem outros monólogos e pensamentos, mas são todos mais ambíguos. A fala da Kaori é a mais ilustrativa.
À esquerda: Hyuga e Tsubasa em coletiva. À direita: a fala de Kaori é o melhor indício sobre o jogo entre Brasil e Japão
Ora, se ele vai enfrentar “as melhores seleções”, aquele não pode ser o jogo final, já que fica implícito que, depois do Brasil, ele enfrentaria outras. Nem um jogo eliminatório é. Nem quartas de final, semifinal, nada disso. E o “agora” também deixa implícito que aquele é o primeiro jogo. Se só agora ele vai enfrentar “as melhores seleções”, até então não enfrentou nenhuma.
Assim, na melhor das hipóteses, aquele Brasil e Japão é a segunda ou terceira partida da fase de grupos. Antes disso, o Japão só enfrentou seleções ruins. E pensar dessa forma não faz muito o feitio da franquia, que sempre foi respeitosa e colocou até Tailândia e Taipé Chinês como seleções fortes. Isso reforça: é o primeiro jogo.
Mas quer saber? Diante do cenário que temos, é irrelevante se aquela cena retrata primeiro jogo, final ou qualquer outro. O importante mesmo é a mensagem que a cena passa.
O jogo dos sonhos
Essa é a minha interpretação: a ideia do epílogo é mostrar que os japoneses se formaram enquanto jogadores de futebol e agora iriam realizar um grande sonho, enfrentar o Brasil na Copa do Mundo. Essa é a conquista.
É importante notar que Captain Tsubasa surgiu em 1981, em um contexto em que o Japão não disputava Copas do Mundo. A primeira classificação só veio em 1998. Então, desde o começo, Tsubasa sempre falou muito do sonho de ir à Copa do Mundo, de levar o Japão à Copa do Mundo e afins. Não necessariamente ganhá-la — isso é, sim, mais um sonho. Mas não o único nem o primeiro.
E é o que o episódio entrega.
Mas por que parou bem nesse momento? “Ah, porque a série só tem 52 episódios.” Não porra, claro que não é isso. Se fosse, era só construir a série inteira em torno da Copa do Mundo.
Acho que há três boas explicações.
Eu sei que esse ponto de vista é ir numa linha de “a verdadeira Copa do Mundo são os amigos que fazemos pelo caminho” e essa é uma piada que já nasceu cansada, mas a série adapta um mangá chamado Road to 2002, literalmente “A estrada para 2002”, “O caminho para 2002” etc. Ela, portanto, é muito mais focada em contar este caminho. Tsubasa e Hyuga se desenvolvendo como jogadores, de juvenis a profissionais.
O objetivo, de qualquer forma, era mostrar aonde os jogadores chegaram e como chegaram. E isso foi bem retratado.
Uma outra possibilidade, que não anula a anterior, podem se complementar, é… qualquer que fosse o resultado do jogo, seria batido. Àquela altura, já tínhamos dezenas ou centenas de histórias de esportes nas mais diversas mídias e, possivelmente, todas as alternativas já foram exploradas. O mais comum é o protagonista vencer, claro. Mas… protagonista perder? Já foi feito. Empate? Já foi feito. De modo que qualquer resultado seria cair no óbvio, algo que, diga-se de passagem, Captain Tsubasa sempre fez sem culpa nenhuma.
Saúdo a todos no círculo central.À esquerda: Tsubasa e Hyuga prontos para o pontapé inicial. À direita: Roberto “Maravilha” Hongo no banco do Brasil emocionou Tsubasa.
Autores estão sempre trabalhando formas alternativas de apresentar esses resultados. Em Slam Dunk, o Shohoku vence o melhor time de basquete do Japão, na partida que é o grande arco do mangá. Depois, é eliminado do Campeonato Nacional já na rodada seguinte. Em Jamaica Abaixo de Zero, o bobsleight quebra e a Seleção Jamaicana nem chega a disputar a prova. Em Rocky III, a luta final, o tira-teima entre Rocky e Apollo, o filme termina na hora que os dois iam dar o primeiro soco.
Porque qualquer que seja o resultado, seria manjado. A gente está muito habituado a ver o protagonista, ou o time do protagonista, jogar a decisão. Na maioria das vezes, vencer. Em outras, perder. Para fugir disso, autores muitas vezes precisam reinventar a conclusão.
Por isso acredito que aquele é o fechamento ideal pra Road to 2002. Nenhum resultado seria maior que aquela espectativa, a sensação de dever cumprido ao chegar até ali.
E a terceira é, talvez, a mais precisa: o anime, como eu comentei acima, foi financiado como mais um produto para ajudar a promover a Copa do Mundo. Ele, a princípio, foi planejado para encerrar durante as primeiras rodadas da Copa. Não faria sentido, então, o anime mostrar o “fim” da Copa do Mundo quando ele era uma das peças de “abertura” do torneio.
Brasil x Japão na vida real
Shunsuke Nakamura marca Ronaldinho. Copa de 2006, vitória brasileira por 4 a 1. The Japan Times/Reuters/Paulo Whitaker
O jogo desta segunda-feira será o segundo entre Brasil e Japão em Copas, o primeiro em uma fase decisiva. Como já comentei, isso poderia ter acontecido em 2018 e em 2022. Em ambas, o Japão começou na frente, mas acabou eliminado para, respectivamente, Bélgica e Croácia, os times que acabariam tirando o Brasil nas quartas-de-final.
O único confronto, até agora, foi há 20 anos, na Copa de 2006, na Alemanha, pela última rodada do Grupo F. Tomamos um sustinho, com o Japão abrindo o placar, mas o Brasil virou e terminou vencendo por 4 a 1, com dois gols de Ronaldo Nazário. O Japão acabou eliminado da Copa.
E o técnico japonês era alguém muito especial: o Zico, um dos patronos do futebol local e que já inspirou e foi homenageado no mangá de Captain Tsubasa. Apesar da campanha ruim, dois anos antes Zico levou o Japão ao terceiro título da Copa da Ásia.
Depois desse jogo, o Brasil enfrentou o Japão mais seis vezes, cinco delas em amistosos e uma na finada Copa das Confederações. O Brasil venceu cinco vezes e perdeu a última, um amistoso no ano passado, já com Ancelotti como técnico. A Seleção abriu 2 a 0, mas os japoneses buscaram a virada Foi a primeira vitória do Japão no confronto.
E amanhã? Seja o que Deus quiser!
Ayase Ueda marca de cabeça e vira para o Japão. Amistoso em 2025, vitória japonesa por 3×2. A primeira na história.Foto: ESPN
O Japão enfrentou a Suécia na última rodada do Grupo F, em jogo que valia a classificação de ambas para a fase 16-avos de final. Deu empate, em um joguinho morno onde as duas seleções não pareciam muito a fim de arriscar, já que ambas avançariam com o resultado. Pelo menos foi 1×1 com um belo gol para cada lado, nada de um 0x0 sem graça. Em Captain Tsubasa, Japão e Suécia se enfrentaram no Mundial Juvenil, no mangá World Youth Hen. Assim como na vida real, a partida no mangá foi decisiva. Diferentemente da vida real, foi muito emocionante.
Seguindo a tendência da época, Takahashi fez a Seleção Sueca muito baseada na Suécia de 1994, possivelmente a segunda melhor Suécia de todos os tempos, terceiro lugar na Copa do Mundo, que enfrentou o Brasil duas vezes — empatou em 1×1 na fase de grupos e perdeu por 1×0 na semifinal.
Dessa forma, os uniformes e os jogadores suecos do mangá World Youth são claramente inspirados nos da seleção de 94. E aí é que entra aquelas coisas engraçadas do Takahashi-sensei.
A Seleção Sueca
À esquerda, Suécia Sub20. À direita, o técnico Hansen.
O técnico da Suécia Sub20 é um personagem no mínimo curioso: com um bigodão emendado com as costeletas, o véio se deste de pirata, com direito a bandana e um tapa-olho. O principal jogador da seleção é Stefan Levin, capitão, meio-campo e camisa 12 do time. Destacam-se também o meia Larson, camisa 7, o ponta Fredericks, camisa 8, e o zagueiro Brolin, camisa 4.
Os jogadores, como se tornou padrão na obra de Takahashi, são inspirados em jogadores reais e aí é que fica pitoresco. Levin é claramente inspirado em Tomas Brolin, principal atacante da Suécia ali no começo dos anos 90. E isso é engraçado porque Takahashi o chamou de Levin, mas pegou o sobrenome Brolin e colocou no zagueiro, zagueiro este que lembra bastante o sueco Patrik Andersson! Pô, Takahashi! Custava inventar outro nome?
De quebra, o camisa 7 Larson tem o mesmo número e praticamente o mesmo nome do meia sueco Henrik Larsson, que se tornou um dos maiores jogadores da história do país. A única diferença é o S dobrado, que é comum nos sobrenomes escandinavos e por alguma razão o Takahashi preferiu não manter. Não, não é coincidência: de ascendência cabo-verdiana, Larsson tinha longos cabelos loiros com dreads, exatamente igual ao Larson do mangá. Pô, Takahashi! Custava inventar outro nome?²
Parecidos? À esqueda, no mangá: Larson (7), Brolin (4) e Levin (capitão). À direita, vida real: Larsson (Larson), Andersson (Brolin) e Brolin (Levin)
Outra escolha ainda mais inusitada: o goleiro da Suécia se chamava Thomas Ravelli. E no mangá, tem um atacante sueco chamado Ravelli, que nem papel definitivo tem, só compõe ali o elenco. Mas o engraçado é que Ravelli é um sobrenome italiano, não sueco. O goleiro é sueco, mas de ascendência italiana. Ou seja, Takahashi poderia ter pego qualquer nome aleatório, já que é só um figurante. Pô, Takahashi! Custava inventar outro nome?³ 😂
Embora neste caso, eu entenda como uma brincadeira: pra mim, Takahashi estaria deixando ali, implícito, que talvez o rapaz fosse um parente do goleiro da seleção adulta, como se fosse um easter egg e entendedores entenderão.
Mas, apesar das semelhanças com o mundo real e da pouca criatividade de Takahashi na hora de bolar alguns nomes (para outros ele foi bem criativo), Levin, Brolin e Larson, no mangá, são personagens originais com histórias próprias.
Outra semelhança com a Suécia real são os uniformes. Como o mangá foi publicado entre 1994 e 1997, então Takahashi estava com a Copa de 94 no radar. Então os suecos usam uniformes rigorosamente iguais ao time de 94 — no caso, o uniforme reserva, branco com detalhes em azuis e amarelos.
Ficaram muito bonitos!
À esquerda: a Suécia em 1994 (foto: DAZN/Fifa+). À direita: os uniformes reproduzidos no mangá
Um jogo para Matsuyama
Uma coisa comum aos mangá battle shonen e que Takahashi fazia muito bem em Captain Tsubasa era dar capítulos de destaque a determinados personagens. Você tinha o protagonista, o Tsubasa Ozora, em quem a história se concentrava, e tinha os personagens secudários como Taro Misaki, Kojiro Hyuga, Genzo Wakabayashi e Shingo Aoi, cujas histórias eram diluídas paralelamente ao longo das séries.
Por trás deles, havia uma série de personagens muito legais que recebiam pouca atenção, mas vez por outra ganhavam seus arcos e jogos de destaque. Hikaru Matsuyama, Ryu Ishizaki, Yuzo Morisaki, Ken Wakashimazu, Jun Misugi e até Takeshi Sawada, todos tiveram seus momentos de brilho, contando um pouco de suas histórias, suas aspirações e afins.
O arco da Suécia dá um destaque especial a Hikaru Matsuyama. Não darei spoilers, mas o volante tem uma breve história de superação ao longo dos capítulos e seu papel é definitivo e muito importante.
Justiça seja feita, Matsuyama é um dos personagens mais bacanas de Captain Tsubasa, desde quando apareceu pela primeira vez, com a escola Furano. É um cara determinado e de personalidade aguerrida. Ele começa como meia e na seleção passa para volante e começa a usar uma faixinha amarrada na testa. Depois de Tsubasa, Hyuga e Misaki, é Matsuyama quem costuma assumir o papel de capitão em momentos muito específicos.
Não é o caso da partida contra Suécia. Nela, Matsuyama também mostra sua capacidade de liderança, mas de outra forma.
Esse breve arco de Matsuyama também dá espaço para outro personagem aparecer: Tomeya Akai, volante que, assim como Aoi, surgiu no mangá World Youth Hen.
Uma verdadeira batalha do início ao fim, a partida entre Japão e Suécia é um dos épicos do arco do Mundial Juvenil.
Hikaru Matsuyama e Tomeya Akai na partida contra a Suécia.
O podcast Supersoda soltou, na madrugada de segunda para terça, um episódio sobre Captain Tsubasa. Além de Caio Hansen, dono e apresentador do podcast, o episódio tem a participação dos caras de outro podcast de animes, o Animes Overdrive. Você pode ir para o Supersoda neste link.
O episódio é muito legal. Tem umas pisadinhas na bola, umas bolinhas fora, mas isso é o de menos. O pessoal não é exatamente fanático pelo mangá e pelo anime como são por outras obras e deu pra perceber que algumas coisas foram faladas de cabeça, então equívocos acontecem. Faz parte.
No geral, foi um golaço! Caio Hansen é um ótimo host, conduz muito bem a conversa, faz comentários excelentes e é perceptível que pesquisou muita bem para comentar. Por exemplo, lembrou do Kazu Miura e do Musashi Mizushima. Falou direitinho sobre datas, sobre as diferentes séries e afins e mostrou muito respeito pela obra e por sua importância para o meio e para o Japão.
Valeu mesmo, Caio!
Não sei se todo mundo que me lê ou que vai ler isso aqui já é ouvinte do Super Soda. Caso não seja, recomendo demais. O Super Soda trata de entretenimento em geral: games antigos, games atuais, anime, mangá e desenhos animados, filmes, séries, franquias, até sobre música tem episódio. Só tá faltando alguma coisa dedicada a gibis!
E esta não foi a primeira vez que Caio Hansen falou sobre Captain Tsubasa.
Antes de se dedicar exclusivamente ao Supersoda, Caio era apresentador do Jogo Véio, outro podcast que sou muito fã. Esse é mais dedicado a games antigos, mas tem um quadro chamado TV de Tubo onde falam de filmes, séries, anime e afins. E foi nesse quadro que, em 2019, eles falaram de Captain Tsubasa, o Caio, o Eidy Tasaka, que é o dono do Jogo Véio, a Sora, do canal de Youtube Central Pandora, e o convidado Filipe Pereira, do podcast Vortex Cultural.
Os comentários que faço são basicamente os mesmos do episódio do Supersoda: deram umas pisadinhas na bola, mas no geral foram muito bem, abordaram o anime e o mangá, o Filipe acrescentou muito com informação e, no fim das contas, marcaram outro golaço.
Você pode ouvir o episódio do Jogo Véio neste link.
Ouça o Supersoda, ouça o Jogo Véio e vida longa a Captain Tsubasa!
Aconteceu: o Japão escreveu seu nome história na Copa do Mundo, em definitivo. Não foi bem do jeito que mais gostaríamos: uma eliminação de uma seleção poderosa no mata-mata, uma medalha de bronze ou um título. Longe disso. Mas não deixa de ser algo importante para este que, logo abaixo das Olimpíadas, é o torneio esportivo mais relevante e acompanhado do mundo.
Na noite deste sábado, 20 de junho, o Japão encarou a Tunísia pela segunda rodada do Grupo F, na partida que marcou o milésimo jogo na história da Copa do Mundo. A partida até ganhou artigo na Wikipedia anglofônica, coisa que só acontece com as finais e com jogos que merecem destaque. Por exemplo, o Argentina e Inglaterra de 86, o Hungria e El Salvador de 82, que foi a maior goleada da história, o Áustria e Alemanha Ocidental de 78, que é considerado um jogo infame porque as duas seleções evitaram se atacar, já que o resultado favorecia as duas, e o nosso triste 7×1 de 2014.
São os chamados jogos notáveis e o Japão escreveu sua página neste livro.
Não vou me estender muito, afinal, não é um post que tem exatamente a ver com Captain Tsubasa. A Tunísia nunca foi mencionada na obra, acredito que nem assim, de passagem.
Mas a Samurai Blue deu show e venceu por 4 a 0, fora o baile.
Só que, claro, eu não posso deixar de fazer alguma ligação entre as duas coisas. O grande nome da partida, escolhido como Craque do Jogo, foi Ayase Ueda. Ele marcou 2 gols.
E a relação disso com Captain Tsubasa é uma miscelânea: ao contrário do comum, Ueda não usa seu sobrenome na camisa, mas sim seu nome próprio AYASE. Isso é algo corriqueiro em Brasil, Portugal, alguns outros países lusófonos e Espanha. Mas a maioria das seleções seguem o padrão de usar sobrenome e o Japão é assim.
Vida real: acima, Hiroshi Nanami e Daichi Kamada usam o sobrenome enquanto Kazu Miura e Ayase Ueda preferem o primeiro nome. Ficção: abaixo, Taro Misaki e Kojiro Hyuga usam sobrenome, Tsubasa Ozora prefere seu nome.
Aliás, um jogador que fazia isso no passado era o Kazuyoshi Miura, que usava KAZU, seu apelido, diminutivo do seu nome. E, dizem, ele foi uma das referências para Tsubasa (mas não a principal, já expliquei aqui).
No mangá, essa escolha pelo nome em vez do sobrenome é exatamente o que acontece com Tsubasa Ozora. Todos os jogadores usam o sobrenome, como de costume, menos Ozora que opta pelo primeiro nome, TSUBASA, semelhante aos nossos queridos Ayase Ueda e Kazu Miura.
Enfim, uma pequena referência, até forçada, mas que ilustra esse breve momento de glória da Samurai Blue e a conecta com Captain Tsubasa.
Ah… e chamou atenção também o quanto a torcida mexicana apoiou o Japão e, claro, isso tem muito a ver com Captain Tsubasa, que é muito popular por lá. Duvida? Posso provar! A partida aconteceu em Guadalupe, na região metropolitana de Monterrey, no México, e os torcedores locais que foram apoiar a Samurai Blue levaram uns cartazes muito interessantes.
Vou começar deixando estabelecido: chamarei o país de Holanda. Sei que há uma diretiva para chamar de Países Baixos e vi muita gente aderindo, e tecnicamente é o mais correto mesmo, mas por ora vou manter como estamos habituados. E o próprio mangá de Captain Tsubasa, a princípio, chamava Holland, como era mais comum em inglês na época.
Isto posto, bola pra frente.
Começou a Copa do Mundo (duh!) e, finalmente, estou fazendo postagens em uma Copa do Mundo. O blog já existia em 2018, mas perdi a chance de postar durante essa copa e durante a de 2022 também.
A Seleção Japonesa, nossa querida Samurai Blue, estreou contra a Holanda no último dia 14 e fez um jogo muito digno, buscou o empate heróico em 2×2 no finalzinho e, mesmo em uma chave difícil, que ainda inclui Suécia e Tunísia, alimentou a esperança de passar de fase. Quem sabe tenha até um confronto contra a Seleção Brasileira logo na fase de 16 avos, concretizando, finalmente, um encontro que escapou por pouco em 2018 e em 2022. Vamos lá, Samurai Blue!
O herói Daichi Kamada marca o gol de empate contra a Holanda. Foto: NBC/Stacy Revere/Getty Images
Logo os otaku fizeram a ligação entre este jogo e Japão em Holanda em Road to 2002, inclusive com a brincadeira de que Captain Tsubasa previu o futuro, algo que já fiz aqui no escopo do nosso futebol. No anime, a partida é um amistoso entre as seleções adultas, em preparação para a Copa de 2002, e termina empatada em 1×1, com o gol japonês também no finalzinho. Ou seja de fato dá para fazer um ligeiro paralelo entre a partida recente e a do anime, de 25 anos atrás.
Esse jogo do Road to 2002 que, no contexto da publicação da época (o mangá Road to 2002), é considerado um filler. Não muda o fato de ser bem legal, com várias referências a personagens reais, ou seja, o espírito de Captain Tsubasa está todo ali. Mas a Holanda, nas mídias de Captain Tsubasa, vai muito além dessa partida em questão.
Na verdade, esse breve arco de seis episódios, conhecido simplesmente como “arco da Holanda”, é, muito provavelmente, baseado no primeiro confronto entre Japão e Holanda da franquia Captain Tsubasa, lá nos anos 90. Um clássico que acabou perdido por não ter sido lançado nos países ocidentais para onde o anime e o mangá foram exportados. Depois disso, a Holanda se tornou uma das seleções mais tradicionais nos mangá, anime e jogos da série.
A Holanda no anime Road to 2002
Não é pra menos, desde os anos 70, a Seleção Holandesa caiu no imaginário do futebol e, desde então, sempre se renova com grandes jogadores. Mesmo ficando fora de algumas Copas (2002, 2014) e mesmo nunca tendo sido campeã, costuma fazer boas campanhas. Vice em 1974, 78 e 10, semifinalista em 98 e 14, quartas-de-final em 94 e 22… e em muitas dessas ocasiões, teve confrontos épicos com o Brasil.
Certamente, as boas campanhas e as boas gerações de jogadores chamaram a atenção de Yoichi Takahashi e os holandeses passaram a ser representados em Captain Tsubasa.
E eu vou falar aqui daquela que considero mais importante e que, a meu ver, inspirou os episódios de Road to 2002, que ficaram tão famosos no Brasil e no mundo.
Holanda Juvenil
A forte Seleção Holandesa juvenil no especial Holland Youth
A primeira participação da Holanda foi relevante e impactante não apenas na história, mas na franquia em si: o mangá Captain Tsubasa Tokubetsu Hen, que pode ser traduzido como Capitão Tsubasa, Edição Especial. Foi o primeiro mangá do Captain Tsubasa a ser publicado após a série original, serializado na Shonen Jump em 1993. O sucesso desse mangá curtinho abriu o jogo para a segunda série do personagem, a famosa Captain Tsubasa: World Youth Hen, que viria a ser publicado em 1994.
Ainda em 1994, Tokubetsu Hen ganhou uma adaptação em anime, chamada Captain Tsubasa: Saikyo no Teki! Holanda Youth ou, em português, Capitão Tsubasa: o Adversário Mais Forte! Holanda Juvenil. É um filme animado de 45 minutos que poderia ter sido lançado como OVA ou um especial para a TV, mas consta que é um filme mesmo — isto é, passou no cinema.
Saikyo no Teki! Holanda Youth foi lançado em novembro de 1994, logo após o terceiro episódio de Captain Tsubasa J (“Sawayaka deai Misaki Taro”, “Grande Encontro com Carlos Misaki” na dublagem da Gota Mágica). Apesar de ser uma produção à parte, o filme envolveu a mesma equipe criativa e está dentro da continuidade de Captain Tsubasa J: não vou dar spoilers, mas adianto que, em dado momento, Tsubasa menciona que tem que voltar para o Brasil para jogar contra o Flamengo.
À esquerda: uma cena misteriosa que arrepia quem assistiu ao anime. À direita: Tsubasa enfrenta Keizer.
Em 1996, Tokubetsu Hen foi encadernado em um único tankohon, que ganhou um título atualizado: Captain Tsubasa: World Youth Tokubetsu Hen – Saikyo no Teki! Holanda Youth ou Capitão Tsubasa, Edição Especial do Mundial Juvenil: o Adversário Mais Forte! Holanda Juvenil. Juntaram, portanto, o título do mangá com o do filme. A história que era um arco à parte, virou, em retrocontinuidade, uma introdução ao arco do Mundial Juvenil. World Youth Tokubetsu Hen – Saikyo no Teki! Holanda Youth e o World Youth Hen formam, juntos, o arco conhecido como Battle of World Youth, “a Batalha do Mundial Juvenil.”
Como o Tokubetsu Hen, por si só, é curtinho, menos de 100 páginas, o tankohonWorld Youth Tokubetsu Hen – Saikyo no Teki! Holanda Youth ainda inclui dois one-shots de Takahashi-sensei para completar o volume: Chibi, uma história de boxe que, além do one-shot, teve mangá publicado na Shonen Jump e rendeu seis volumes, e Hokuheki Downhiller!!, uma história sobre esqui alpino. Pois é, apesar de boa parte da produção de Takahashi ser sobre futebol, ele tem material sobre outros assuntos.
A Holanda juvenil no mangá
A principal diferença do mangá Holland Youth para o anime é que o primeiro capítulo do mangá dá uma breve introdução sobre os protagonistas da série, Tsubasa, Misaki, Hyuga entre outros. O que eles andavam fazendo desde o fim da série original? Daí, pula-se para a convocação do Japão, uma rápida explicação de quem são os holandeses, incluindo seus resultados recentes na Europa, e os jogos com a Holanda, apenas mostrando rapidamente os dois primeiros amistosos e partindo para o último deles.
O anime não dá o panorama sobre a gurizada. Vai direto para os jogos do Japão com a Holanda, novamente falando brevemente dos dois primeiros amistosos e focando no terceiro. Até aí, um ritmo muito parecido com o mangá. Mas mesmo nesse cenário há outra diferença muito relevante no roteiro, mas ela está dentro do contexto dos jogos e não posso comentá-la sem dar spoilers, então deixa quieto.
O que eu posso dizer é que, ao contrário do que acontece normalmente com produções japonesas, esse foi um acontecimento que o anime conseguiu trabalhar bem melhor que o mangá.
Estrelas holandesas: acima, Krisman assume o papel de capitão contra o Japão e o zagueirão Leon Dick marca Hyuga. Abaixo, Keizer e Cruyfford.
A Seleção e as referências ao mundo real
Para a Seleção Holandesa destes especiais, Takahashi passou a fazer algo que se tornou recorrente: espelhar seus personagens em figuras reais. Acho que foi a primeira vez que fez isso. Por exemplo, o capitão holandês, camisa 14, se chama Brian Cruyfford, uma clara referência a Johann Cruyff, maior jogador holandês de todos os tempos. O camisa 10 é Ruud Krisman, que parece ser referência a Ruud Krol, e o camisa 12 é Johan Rensenbrink, referência direta ao ex-jogador Rob Rensenbrink, todos contemporâneos de Cruyff.
Por motivos de roteiro que não vou comentar, Cruyfford não entra em campo nas partidas da Holanda contra a Seleção Japonesa. Ele é o capitão do time e jogou nos amistosos europeus, mas no Japão, só aparece assistindo ao jogo da arquibancada. Isso, inclusive, tem a ver com o destino de um personagem muito popular da saga. Krisman assume o papel de capitão e usa também a sua camisa 14. Quem passa a usar a 10 é Gert Keizer, que lembra muito o Ruud Gullit da vida real e também usava a 10.
Eu desconfio que o 12 também é uma referência a Marco van Basten, grande ídolo holandês entre o fim dos 80 e começo dos 90, parceiro de Gullit.
No mangá, Cruyfford retorna ao time para o Mundial Juvenil, já na série World Youth Hen, e é capitão da equipe olímpica no arco Rising Sun. Ele também é a estrela holandesa no jogo de PlayStation Captain Tsubasa J: Get in the Tomorrow, que foi lançado exclusivamente no Japão e tem um modo história que é considerado parte da continuidade do anime.
Johann Cruyff, o verdadeiro, mencionado em Captain Tsubasa.
Minha opinião sobre a construção dos personagens: acho esse tipo de prática do Takahashi bem ruim. Primeiro, porque tira toda a originalidade do personagem. Ele pode fazer essas referências mais sutis. Por exemplo, todo mundo sabe que Juan Díaz é Diego Maradona enquanto Roberto Hongo é um mistério. Dizem que ele misturou vários jogadores brasileiros: Tostão, Zico, Sócrates… talvez isso tenha sido desenvolvido, inclusive, à medida que a série avançava e o personagem ganhava mais espaço.
E o outro motivo é… Captain Tsubasa se passa no mundo real onde os jogadores reais existem. Gullit aparece durante o World Youth Hen e o próprio Cruyff chega a ser mencionado no mangá. Diferentemente de Gullit, ele não é personagem, mas é evocado como exemplo, coisa que acontece com outros jogadores como Zico, Pelé e Maradona.
Mas enfim, foi assim que Takahashi seguiu. Alguns personagens eram totalmente originais, onde poderíamos tentar pescar as referências, como o Natureza. Alguns, claras contrapartes de personalidades reais, como o Rivaul.
Cenas raras: o bravo Taro Misaki, capitão do Japão
Holland Youth no mundo? Ainda não…
Apesar de ter sido o primeiro mangá de Captain Tsubasa após a série clássica, World Youth Tokubetsu Hen – Saikyo no Teki! Holanda Youth não foi o primeiro lançamento avulso da franquia. Pretendo falar sobre os outros mais pra frente.
O mangá foi lançado apenas no Japão.
O filme tem completinho no Youtube, com legendas em inglês. Por se tratar de material não-oficial, não vou linkar aqui, mas não é difícil de encontrar: basta procurar por Captain Tsubasa Holland Youth.
A história é muito legal. Já disse que não daria spoilers, então o que posso adiantar é que boa parte dela serve para vermos o protagonismo de outros personagens, como Taro Misaki e Kojiro Hyuga.
Quem sabe, com a chegada do mangá Captain Tsubasa no Brasil, outros lançamentos da série não pintam por aqui e aí podemos ler World Youth Tokubetsu Hen – Saikyo no Teki! Holanda Youth? Acho difícil, mas eu também achava difícil que o mangá principal saísse e está saindo. Como diz Carlo Ancelotti, “está liberado acreditar.”
Está liberado acreditar? VHS do anime e tankohon do mangá Holland Youth, inéditos no Brasil (fotos: e genk no Yahoo! Market e 3939 no site Buyee)
Bom, pela pré-venda no site da Panini, já está bem evidente que o mangá vai se chamar, sim Capitão Tsubasa, com o título original adaptado para o português. Nenhum subtítulo, nada que remeta a Super Campeões, mas com esse pequeno toque de brasilidade ao traduzir o “Captain.”
Eu gostei. Acho legal manter o título original, apesar da memória afetiva com Super Campeões, e acho legal que o termo “capitão” seja traduzido, muito embora, em japonês, o título já era em inglês. Isso é curioso porque há uma política recente de, quando, em um país, um título original não usar a língua daquele país, ele não ser traduzido nas publicações locais.
Ficou confuso? Explicando com um exemplo: o Pipoca & Nanquim lançou Undertaker, um quadrinho francês. O título pode ser traduzido como Coveiro ou, mais precisamente, Agente funerário. Ao anunciar o lançamento, Bruno Zago explicou que, como o título na França já era Undertaker, em inglês, eles não quiseram traduzir. Se fosse um título francês mesmo, Funébre ou Fossoyeur, sei lá, eles teriam traduzido.
Seguindo esse padrão, Captain Tsubasa seria Captain Tsubasa mesmo, afinal, a obra não se chama Shusho Tsubasa no Japão. Mas curti a opção de traduzir o Captain, embora ela não seja tão comum assim.
Na França e na Argentina, tenho os mangás e já postei aqui, são chamados Captain Tsubasa mesmo. Na Alemanha, saiu como Captain Tsubasa: Die tollen Fußballstars, subtítulo que pode ser traduzico como As Grandes Estrelas do Futebol e era o nome do anime por lá. Ou seja, mantiveram o título original, mas com um subtítulo que conversava diretamente com o velho espectador.
A Espanha e Itália foram países que traduziram o título. Na Espanha, o anime era conhecido como Campeones: Oliver y Benji. Quando o mangá foi lançado pela Glénat espanhola, saiu como Capitán Tsubasa: Las aventuras de Oliver y Benji, ou seja, fez um bem-bolado ali. Nem colocou o subtítulo com o nome do anime, como os alemães fizeram, mas deram um jeito de fazer referência ao título que o público espanhol já conhecia.
Recentemente, a Planeta lançou o mangá como Capitán Tsubasa. Assim como o nosso, uma tradução simples e direta.
A Itália é um caso que precisa de explicação. “Capitão” em italiano é “capitano”, quando se usa a palavra solta. No entanto, quando colocada como título de alguém, eles usam “Capitan.” Então, por exemplo, Capitão America fica Capitan América. Mas quando vão se referir ao Capitão América de maneira mais informal e dizem “o capitão”, eles usam “il capitano.”
A princípio, o mangá italiano foi lançado como Capitan Tsubasa, com o subtítulo Holly e Benji, nome do anime por lá, igual aos alemães fizeram. Depois, relançaram só como Capitan Tsubasa mesmo.
Acho que Espanha e Itália são os únicos exemplos além do nosso.
E aí, temos a capa. A Panini foi pelo mesmo caminho que a maioria dos países: utilizou a imagem já clássica do Tsubasa pulando enquanto domina a pelota. É a mesma imagem do Tsubasa na capa do #1 japonês, que postei na imagem destacada junto com a brasileira e a argentina. O que muda de país para país é como essa capa é trabalhada.
No original, por trás de Tsubasa tem a imagem de uma trave, mais precisamente da rede do gol, e de um alambrado de estádio. A edição espanhola da Glénat manteve o mesmo design e a mexicana, da Panini, também. Uma edição em árabe, traduzida por um sírio e distribuída pela própria Shueisha em países árabes, também conservou a capa original.
A francesa, também da Glénat, mudou um pouco as proporções e adicionou umas linhas de ação, mas é o mesmo desenho da rede e do alambrado. A Itália também chegou a usar um modelo parecido em uma de suas reedições.
Edição francesa da Glénat
A edição espanhola mais recente, da Planeta, seguiu por um caminho um pouco diferente. Colocou o Tsubasa recortado sobre um fundo branco, com um gramado na barra de baixo, um visual que lembra um pouco uma edição japonesa de 1997. A nova da Star italiana utilizou exatamente a capa japonesa de 97.
Capa japonesa de 1997 e das edições mais novas da Itália e da Espanha.
A brasileira, o Tsubasa recortado no fundo branco, foi utilizada pela Itália na época da primeira publicação, Captain Tsubasa: Holly e Benji, enquanto a Argentina foi um pouco mais além. Tirou até a bola do pé do Tsubasa e, em vez de fundo branco chapado, colocou imagens da série em azul claro, como podem ver na imagem destacada.
Primeira edição italiana, da própria Star.
A mais diferentona é a edição alemã. Meteram uma textura de bola de futebol clássica e dentro dessa textura, um quadro com a capa da edição. E para imagem de capa, em vez de utilizarem as imagens de capa japonesas, pegaram uma cena do volume e colorizaram. Na edição 1, a cena é de quando Tsubasa chega a Nankatsu e vai com Ishizaki desafiar os caras do Shutetsu, que não querem deixá-lo usar o campinho do bairro.
Capa alemã.
E ficou bonitona. Mas nesse aspecto eu sou radical, prefiro capas mais próximas às originais japonesas.
Agora é esperar a nossa para ver como a edição, em si, ficou. Chega logo, agosto, pelo amor de Deus!
Enfim, o mangá de Captain Tsubasa será lançado no Brasil! 😱
Sim, sim… estou atrasadaço. Lógico, faz 12 dias do anúncio, mas eu não estava com tempo para escrever — e ainda não estou, tô matando serviço pra fazer isso aqui.
Mas não podia deixar de comentar. Até porque precisava reativar o blog e, além disso, é algo que vivia dizendo que sonhava que acontecesse, inclusive no meu último post, há quase dois anos.
Claro que é a notícia mais importante do ano. Talvez, enquanto leitor de mangá, a notícia mais importante da minha vida. Mais até que quando, em 1999, foi anunciado que os mangás de Cavaleiros do Zodíaco e Dragon Ball seriam lançados, dando início a esse mercado de maneira consolidada no Brasil. Sim, eu estava lá, sou véio.
Seguindo uma tendência que tem sido bem recente, a própria Panini anunciou o lançamento em um evento, no último dia 16. Assim, não ficamos sabendo com uma certa antecedência, como acontecia antigamente. Porque Dragon Quest: Dai no Daiboken, nosso querido As Aventuras de Fly, outro mangá do qual sou tão fã quanto Saint Seiya e Captain Tsubasa, foi anunciado pela JBC há alguns anos, embora só tenha sido lançado esse ano. Akira também foi anunciado com bastante antecedência e Ghost in the Shell, idem. Captain Tsubasa só foi divulgado já com a pré-venda no ar.
A publicação será no mesmo formato da edição argentina, que já comentei aqui e já marquei neste mesmo post. Ou seja, será concluído em 21 edições, são quase dois anos de muito Captain Tsubasa. A #1 chega no começo de agosto. O pessoal comentou que o timing da Panini foi ótimo, já que estamos em ritmo de Copa, e foi mesmo… mas bem que poderia sair durante a Copa, né? Fim de julho, a Copa já terminou… mas enfim, tá ótimo!
Uma coisa que não ficou muito evidente para mim: o título. A Panini está divulgando como Capitão Tsubasa: Super Campeões. Na pré-venda da Amazon, também consta como Capitão Tsubasa. Ou seja, o título original adaptado para o português. Mas na maioria dos locais onde encontrei a notícia, como o JBox ou O Vício não mencionaram a adaptação do título. A Biblioteca Brasileira de Mangás noticou como Captain Tsubasa, mas em textos posteriores, noticiando a pré-venda e no artigo do mangá na biblioteca, já tratou como “capitão” mesmo.
Acredito que essa vá ser a versão oficial, mas isso me surpreende. Eu achava que seriam obrigados a manter Captain Tsubasa mesmo, até porque a obra nunca foi lançada por aqui como Capitão, então nem a justificativa de “ser conhecido pelo título traduzido” tem — como, por exemplo, o Pipoca & Nanquim tinha para usar Tartarugas Ninja em vez de Teenage Mutant Ninja Turtles. E como a tendência hoje é manter o texto original…
Mas claro que isso não vai nem vem. Capitão Tsubasa tá entrando em campo, é isso que importa!
Ao noticiar o lançamento, site JBox levantou uma ótima bola para explicar o porquê da publicação brasileira ter demorado tanto:
Mas o principal motivo seria o fato de que a obra conta com desenhos de várias marcas ligadas ao futebol, o que poderia atrapalhar seu licenciamento. Essa ideia porém não parece se sustentar tanto, visto que o mangá já foi publicado em vários países há tempos e, agora, finalmente no Brasil.
Mas, como eles mesmos ponderaram, essa explicação não me convence muito…
Bom, agora o motivo não faz diferença. Demorou, mas saiu. Enfim, teremos Captain Tsubasa para ler.
E esse vídeo aqui do Mundo Mangás merece a menção honrosa:
Olha… vou te contar, se eu estivesse em campo, eu tomaria um cartão amarelo pela minha reação quando li essa notícia, porque com certeza tiraria a camisa e sairia a rodando no ar.
O elenco cresceu! Reforço de peso para meu time de mangás de Captain Tsubasa — e desta vez eu consigo ler, embora esteja longe do ideal. Recebi agora, no fim de agosto, a edição argentina #1 de Captain Tsubasa, lançada por lá pela editora Ivréa.
Dei sorte de um parente estar por lá em julho, pedi para que passasse na livraria SBS, que aparentemente é a maior rede da Argentina (e, se não me engano, tem lojas no Brasil) e comprasse o mangá para mim. Se não me falha a memória, custou por volta de $10.500,00 pesos, que dá uns R$61,00.
Pelo que entendi, a edição argentina segue o formato kanzenban: contém o primeiro volume tanko completo e 3/4 do segundo volume. Ou seja, os quatro capítulos da primeira edição japonesa e três dos quatro capítulos da segunda edição.
Não sei se esse é o tamanho do kanzenban de fato, já vi edições kanzenban japonesas que parecem ser mais parrudas. Mas já vi edições de outros países, comercializadas como kanzenban, que seguem esse formato.
Nos tankobon, o primeiro volume vai da chegada de Tsubasa a Nankatsu ao pré-jogo entre as escolas Nankatsu e Shutetsu e o segundo volume pega todo o jogo entre as duas escolas, do começo da partida ao fim da prorrogação e termina com Tsubasa e Genzo recebendo a bandeira de campeão, dividindo o título.
O kanzenban publicado pela Ivréa vai da chegada de Tsubasa a Nankatsu ao primeiro tempo da prorrogação entre Nankatsu e Shutetsu, quando Genzo faz 2 a 1 para o Shutetsu e Tsubasa e Taro animam o time para buscar o empate.
A sobrecapa argentina apenas recortou o Tsubasa da capa clássica japonesa, que é replicada em vários países, e o colocou em um fundo vazio. Nem bola de futebol colocou. Por baixo da sobrecapa, a capa tem apenas o título, o número do volume grandão e os créditos.
Novamente, não sei se essa costuma ser a formatação do kanzenban. O kanzenban da edição espanhola, que foi lançado pela Planeta Cómic, tem uma capa ligeiramente diferente: a mesma imagem clássica do Tsubasa saltando, mas mantendo a bola de futebol junto ao pé dele e com um gramado por trás.
O mangá é um pouquinho mais alto que o original japonês, do mesmo tamanho da edição francesa da Glénat.
A edição da Glénat é um tanko normal. Pelo que entendi, não saiu kanzenban por lá.
A Ivréa lançou com o título original, Captain Tsubasa, e não Supercampeones, como é conhecido por lá. Os nomes também são originais, então temos Tsubasa Ozora. Sim, lá na Argentina, nas dublagens, o personagem também é Oliver Tsubasa. A própria Ivréa esclareceu em seu site oficial que seria assim. Não sei se isso foi decisão editorial ou imposição da Shueisha.
De acordo com a Ivréa, em texto no próprio volume, serão 21 edições, que é a duração normal do kanzenban de Tsubasa, e a editora já garantiu que não vai interromper a publicação, independentemente de vendagens. A edição 1 é de 2020 e já foram publicados 17 volumes, além de reimpressões. Pelos créditos, o meu volume é uma reimpressão de 2023.
Em um FAQ no site oficial, a Ivréa deu alguns detalhes da adaptação e explicou que licenciar outras séries de Captain Tsubasa está nos planos, mas está tendo dificuldades com o licenciamento porque, as fases de Tsubasa juvenil e adulto envolvem muitas marcas, como escudos de clubes famosos e fornecedores de material esportivo, já que uma galera sai do Japão para jogar pelo mundo. Então a própria Shueisha tem tido dificuldade de negociar com editoras de fora.
O FAQ ainda brinca com aquela creepy pasta de que toda a história não passou de um sonho de Tsubasa que teve enquanto estava em coma após ser atropelado — e desmente o boato 😅
A Ivréa é uma multinacional argentina que também opera no Chile, na Espanha e na Finlândia (!)
Na Argentina, a Ivréa parece ser a maior editora de mangás e publicou ou publica vários dos clássicos de sucesso no mundo: Dragon Ball, Saint Seiya, One Piece, Yu Yu Hakusho, Fullmetal Alchemist, My Hero Academia, JoJo’s Bizarre Adventure, Bleach, Chainsaw Man, Demon Slayer, Haikyu!, Slam Dunk, Inuyasha, Sakamoto Days, Sailor Moon, Nana, Rayearth, Hunter x Hunter, Rooster Fighter, 20th Century Boys, Gantz… enfim. Só para citar alguns muitos que saem por aqui também.
Porque a Ivréa tem muita coisa que não chegou no Brasil.
Pelo que entendi, tudo que a Ivréa lança na Argentina, lança também no Chile. Algumas obras são lançadas também na Espanha e na Finlândia, mas a maioria, não. Captain Tsubasa, por exemplo, não foi. Como falei, o lançamento mais recente de Captain Tsubasa na Espanha foi pela Planeta Cómic — antes, chegou a ser lançado completo pela Glénat espanhola.
A Ivréa publicou, também, outra série do mestre Yoichi Takahashi, Hungry Heart. Essa já foi completada e o anime já passou por aqui. O mangá, infelizmente, não chegou. Assim como… Captain Tsubasa. 😡
E isso nos traz ao choro de sempre: POR QUÊ? 😭
Editoras brasileiras, se vocês fossem um time de futebol, já estaríamos tomando 7 a 1! Eu entenderia se o argumento fosse “mangá de futebol não vende.” Mas já tivemos vários mangás de futebol publicados no Brasil, inclusive um do próprio Takahashi. Pretendo falar sobre isso depois…
Mas, mesmo assim, nada de Captain Tsubasa? O anime é lembrado com nostalgia pelos fãs brasileiros, a série sempre é traziada à tona até fora da mídia especializada. Muito longo? Já tivemos mangás tão longos quanto publicados, inclusive de esportes. E mesmo assim, a Ivréa deu um jeito de reduzir a tiragem optando pelo kanzenban.
Captain Tsubasa é sucesso no mundo inteiro! Enquanto as editoras brasucas não entram no jogo, vou lendo com o que dá. Pelo menos espanhol é compreensível.