Na escola, como na vida em geral, há uma diferença decisiva entre os que constroem e os que comentam a construção. É uma das verdades mais antigas da convivência humana. Uns entram em campo. Outros ficam na bancada. E, como quase sempre acontece, quem está sentado vê muito erro em quem está a correr.
Os que fazem são fáceis de reconhecer. Não porque sejam perfeitos, mas porque deixam rasto. São os diretores que não se limitam a gerir incêndios e burocracias, mas criam cultura de escola. São aqueles que decidem, por exemplo, lançar um projeto de leitura quando seria mais cómodo dizer que “os miúdos já não gostam de ler”. São os que organizam semanas temáticas sobre bem-estar, cidadania ou ciência, mesmo sabendo que isso dá trabalho, exige articulação e nunca agrada a toda a gente.
São também as professoras com iniciativa. Aquelas que não ficam à espera que alguém lhes diga tudo. As que montam uma feira do livro, criam um mural de elogios entre alunos, organizam uma campanha solidária, preparam uma sessão com pais sobre limites e ecrãs, ou inventam maneiras novas de ensinar quando o manual, sozinho, já não chega. São as que percebem que educar não é apenas cumprir um programa. É mexer no ambiente. É elevar o contexto. É puxar a escola um pouco mais para cima do que ela estava ontem.
Há ainda os pais que lidam com a escola pela positiva. Não são pais submissos, nem ingénuos. São pais colaborativos. Pais que, quando há um problema, procuram perceber antes de atacar. Pais que dizem “como podemos resolver isto em conjunto?” em vez de começarem logo com o tribunal da indignação. Pais que reconhecem o esforço dos docentes, que aparecem quando são chamados, que educam os filhos para respeitar regras e pessoas. Esses pais não fazem barulho desnecessário, mas fazem uma diferença imensa. São uma espécie de cimento invisível da comunidade educativa.
E há os técnicos atualizados. Psicólogos, mediadores, animadores, terapeutas, formadores, assistentes, profissionais que estudam, que se revêm criticamente, que não ficaram parados em ideias gastas como se o mundo tivesse congelado em 2004. São pessoas que percebem que a realidade mudou, que os alunos mudaram, que as famílias mudaram, e que responder aos desafios atuais exige mais ciência, mais lucidez e menos frases feitas. Esses profissionais ajudam a escola a não envelhecer.
São estas pessoas que levam o mundo para a frente. Não porque sejam heróis de filme, mas porque aceitam a parte menos glamorosa da responsabilidade. Fazer implica expor-se. Implica decidir. Implica ouvir críticas. Implica, às vezes, falhar. Quem cria um projeto pode ver pouca adesão. Quem organiza uma atividade pode esquecer um detalhe. Quem tenta inovar pode não acertar logo. Mas há aqui uma diferença moral importante: falhar a fazer não é o mesmo que nunca fazer nada. O erro de quem tenta tem dignidade. O conforto de quem nunca arrisca costuma vir disfarçado de superioridade.
Depois há os que não fazem. E dentro desses, felizmente, há muita gente decente. Pessoas que não lideram projetos, não puxam processos, não têm perfil para organizar, mas também não atrapalham. Cumprem, respeitam, ajudam quando podem, não vão a palco nem aguentam. Essas pessoas merecem todo o respeito. Nem todos nasceram para abrir caminho, mas o mundo também precisa de quem saiba não destruir a estrada.
O problema não está nesses.
O problema está naquela minoria ruidosa que nada constrói, mas quer sempre parecer árbitro universal do esforço alheio. São os eternos comentadores da bancada. Os tais “velhos do Restelo” em versão contemporânea, agora com internet, perfil sem rosto e convicção a mais para obra a menos. Nunca lançaram um projeto. Nunca mobilizaram uma equipa. Nunca seguraram o peso real de decidir por outros. Mas aparecem sempre prontos para dizer mal de quem fez, de quem tentou, de quem ousou.
Vê-se isso muito nas escolas e nas redes sociais. Uma diretora cria uma iniciativa para aproximar famílias da escola e logo aparece alguém a dizer que “isto é só para aparecer”. Um professor organiza um encontro intergeracional e há logo quem desvalorize com um comentário azedo. Um técnico propõe uma abordagem nova e surge logo a crítica fácil de quem confunde cinismo com inteligência. É curioso como tantas vezes os mais ferozes na acusação são os mais estéreis na ação. Há pessoas que nunca plantaram nada, mas tornaram-se especialistas em avaliar colheitas.
Também é verdade que alguns desses perfis vivem presos a uma visão amarga da autoridade, da mudança e do mérito dos outros. Nem sempre por maldade pura. Por vezes por frustração, ressentimento, rigidez mental, hábito crónico de suspeitar de tudo, ou incapacidade de suportar ver alguém fazer o que eles próprios nunca tiveram coragem de tentar. O ser humano é assim, uma máquina estranha: aplaude o discurso da mudança, mas muitas vezes ataca quem mexe realmente nas peças.
E há outro dado da realidade que quase toda a gente reconhece, mesmo que nem sempre o diga: alunos, colegas e comunidades tendem a confiar mais em quem é genuinamente útil do que em quem é sistematicamente corrosivo. Pode haver medo momentâneo do crítico barulhento, mas raramente há admiração profunda. As pessoas podem ouvir o ruidoso, mas seguem o confiável. No fim, quem marca uma escola não é quem comenta mais. É quem melhora o ambiente, resolve problemas, cria pontes e inspira trabalho sério.
Convém, por isso, fazer uma distinção justa. Nem toda a crítica é má. Uma escola saudável precisa de contraditório, precisa de perguntas difíceis, precisa de gente que chame a atenção para erros reais. Mas crítica séria é diferente de ruído. Crítica séria ajuda a corrigir. Ruído tenta humilhar. Crítica séria assume responsabilidade. Ruído refugia-se no sarcasmo e na distância. Crítica séria quer melhorar a realidade. Ruído quer apenas parecer mais esperto do que quem está a trabalhar.
A conclusão nobre é esta: o mundo avança por causa dos que fazem. Dos que arriscam, propõem, organizam, corrigem, caem e voltam a levantar-se. São eles que mantêm viva a escola, a comunidade e a esperança prática. Merecem respeito, proteção e coragem renovada. Não precisam de ser perfeitos. Precisam de continuar.
Mas também merece reconhecimento quem, não sendo da linha da frente, sabe estar com dignidade. Quem não lidera, mas não sabota. Quem não cria projetos, mas não apaga a chama dos outros. Quem percebe uma verdade simples e rara: já é uma forma de grandeza humana não atrapalhar quem está a tentar construir.
Numa escola madura, como na sociedade, há lugar para os que lideram e para os que apoiam.
O que mais prejudica crianças e jovens é a pequena tirania dos que nada fazem e ainda se sentem autorizados a tentar enfraquecer quem faz.
Alfredo Leite