A GOLEADA NÃO PARA

Conheci o Paulo Grimm quando fui presidente da Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo. Um jovem engenheiro, sério, correto e muito determinado. Há quase três anos resolveu aproveitar a ascendência germânica e foi morar em Munique com a família.

Conservamos a amizade e nos falamos com alguma regularidade. Além da corrida de rua, dos estudos e de um novo trabalho, o Paulo também abraçou outra atividade na Baviera, e não pude deixar de compartilhar o último relato que ele me enviou, um exemplo claro de que estamos muito atrasados, não só no futebol, mas como país, como cidadãos.

Ao dividir este relato não proponho que tenhamos um modelo idêntico ao da Alemanha em nosso país, mesmo porque temos características próprias e até uma cultura enraizada na captação de jovens da base, mas o interessante aqui é o conceito, seriedade e obstinação em busca de um objetivo.

Costumo dizer que o nosso futebol é o reflexo daquilo que é praticado no Brasil. Para mudarmos o principal esporte nacional, vamos ter que mudar a sociedade também. Esse é o primeiro passo para que a goleada cesse e o jogo volte a ser equilibrado.

Boa leitura e boa reflexão.

“Eu e meu filho jogamos futebol no clube do nosso bairro. Tenho um vizinho que é treinador do time principal do clube e conseguiu uma vaga para mim e para o meu filho. Todo bairro aqui tem um clube de futebol, que é disputado à tapa pelas crianças, e que inclusive possui listas de espera. Acontece às vezes de uma criança ter que esperar alguns anos para conseguir a tão desejada vaga.

Enfim, tivemos uma sorte enorme. Como não temos carro e o clube fica a quase 4 quilômetros da minha casa, tenho que levar meu filho de bicicleta. O treino dura 90 minutos e não vale a pena voltar para casa. Já no primeiro dia me coloquei a disposição do treinador para ajudar no que fosse necessário. Pegar bolas, ser goleiro, enfim…

Logo de cara me dei bem com ele. O co-treinador na ocasião era o filho dele de 15 anos. Que pela idade, já não estava curtindo muito a rotina de tocar treinos. Aos poucos comecei a me soltar durante os treinos e percebi que as crianças estavam curtindo o meu jeito de incentivar e ajudá-las nos treinos. Descobri que os clubes de bairro recebem ajuda da ‘Federação Bávara de Futebol’.

E que o futebol é tratado de forma séria aqui. As crianças fazem treinos de verdade, com exercícios de coordenação, habilidade, etc… Em novembro recebi um telefonema do treinador pedindo que eu fosse ao clube no dia seguinte à noite. Não entendi direito, mas disse que iria. Quando cheguei lá, ele tinha me inscrito junto com outros treinadores, inclusive ele próprio, em uma espécie de curso técnico para treinadores. Este tipo de curso aqui se chama Ausbildung.

É o curso técnico que qualquer profissional tem que fazer para exercer uma profissão. Ou se frequenta uma faculdade ou se faz Ausbildung (padeiro, cabeleireiro, pedreiro, pintor, etc.). Não se consegue trabalhar nem de pedreiro sem um Ausbildung. Exceções para atendente de supermercado, faxineira, etc. Bom, descobri que o curso custa quase 2 mil euros, e que o clube iria pagar para mim. Claro que para o clube não custa isso, mas de qualquer forma, assumiu todos os custos. São três módulos. Eu já terminei dois. No domingo passado, fiquei no clube das 9h00 às 16h00. Tive aula até 13h00 e depois fui fazer a prova prática, que inclui necessariamente ter intimidade com a bola, fazer embaixadas, fazer cruzamentos, cabecear, chutar com os dois pés, driblar, e por aí vai.

Tenho ainda, prova escrita, prova oral, uma coisa que se chama Lehrprobe (tenho que ir à Federação e na frente de uma comissão tocar um treino de 20 minutos, com 12 crianças, sobre um tema previamente conhecido, entregar um formulário com a construção tática do treino, e preencher todos os requisitos como elevar a dificuldade, treinar os dois lados do corpo, falar claramente, demonstrar ser objetivo, corrigir, etc.). Além disso, tenho que fazer 10 horas de hospitação, que significa ir à Federação e assistir a quatro treinos, preencher um monte de formulários sobre estes treinos, colher a assinatura do treinador e entregar.

Após o curso de 8 horas de primeiros socorros, estarei capacitado para ir para o terceiro modulo, e se não faltar em nenhuma aula, recebo uma licença para treinar times amadores, com jovens de até 17 anos. A licença dura 3 anos e após isso terei que fazer uma reciclagem para conseguir a próxima licença de 5 anos.

Durante o curso tive aula de pedagogia, anatomia, como funciona a construção muscular, desgaste, tipos de treino, postura do técnico dentro e fora de campo, preparação para dias de jogo, segurança dentro e fora de campo, e por ai vai.

Ricardo, é impressionante o profissionalismo e a seriedade. Por várias vezes foi dito no curso que a Alemanha não se tornou campeã do mundo à toa. Que foi um trabalho que esta sendo feito faz tempo, e que cabe a nós treinadores amadores, continuar este trabalho.

As crianças são divididas por ano de nascimento.

Eu treino o time dos nascidos em 2008. No nosso clube são dois treinos de 90 minutos por semana e um jogo oficial (pela Federação) no final de semana.

Queria muito dividir isso tudo com você que, além de jornalista, é um amante do esporte como eu. Tivemos várias conversas sobre o rumo que o futebol brasileiro está tomando e vejo claramente que infelizmente como outras coisas, neste ponto o Brasil está regredindo.”

CORRIDA DE RUA CONTRA A IMPUNIDADE

Sábado, 16 de agosto, foi um dia trágico na história da corrida de rua de São Paulo: um motorista bêbado atropelou quatro atletas que treinavam no campus da Cidade Universitária, matando o corredor Álvaro Teno, de 67 anos. A atleta Eloisa Pires do Prado teve ferimentos graves e precisou passar por uma cirurgia que se estendeu pela tarde de sábado.

Para homenagear esses atletas e protestar contra mais um ato de imprudência, nós (jornalistas e blogueiros corredores) abaixo assinados convidamos todos os atletas, treinadores e simpatizantes da corrida de rua de São Paulo para um manifesto.  Apoiamos o Black Run (acompanhe as informações na página do evento –http://goo.gl/a9eQhR), que nasceu da livre iniciativa de corredores, marcado para sábado, dia 23 de agosto, 9h, na USP.

Defendemos uma manifestação pacífica, em prol da justiça, contra a impunidade, chamando a atenção da sociedade para mais um assassinato, resultante da mistura álcool e direção. Nosso objetivo é manifestar esse sentimento de fragilidade que acompanha todos nós, cidadãos, quando utilizamos avenidas, praças, canteiros e faixas exclusivas para andar, correr ou pedalar e somos vítimas potenciais permanentes desses motoristas criminosos que insistem em dirigir depois de beber.

Reiteramos que neste momento de luto, nosso objetivo é por justiça, contra a impunidade em casos como o ocorrido na USP. Qualquer outra manifestação ou situação vivenciada por nós corredores nos locais de treinamento, poderão ser discutidas num outro momento, em fórum adequado.

Nossa indignação é contra a impunidade. Nossa manifestação é a favor da vida.

Vamos participar do Black Run, no próximo dia 23 de agosto, às 9h, Praça do Relógio, na Cidade Universitária. Vestidos de preto e de forma pacífica,  cobraremos punição para o assassino de Álvaro Teno e alertaremos para o risco que milhares de pessoas sofrem todos os dias nas ruas do Brasil.

E você que é corredor, mas não mora em São Paulo, participe pelas mídias sociais com posts no sábado usando as hastags #queremospaz #naofoiacidente #corridaderua #alvaroteno

Ana Paula Alfano – jornalista
Alessandra Alves – jornalista (Rádio Bandeirantes)
Alexandre Koda – jornalista (Webrun)
Bruno Vicari – jornalista (SBT)
Carla Gomes – jornalista (Eu Atleta/Globoesporte)
Cassio Politi – jornalista
Eduardo Elias – jornalista (Fox Sports)
Iuri Totti – jornalista (O Globo)
Karine César – jornalista (Corpo a Corpo)
Nelson Evêncio (ATC – Associação dos Treinadores de Corrida)
Sergio Xavier – jornalista (Runner’s World)
Ricardo Capriotti – jornalista (Rádio Bandeirantes)
Roberta Palma – jornalista (Jornal Corrida)

 

 

ALÍVIO

Um erro cometido na maratona de Buenos Aires vinha me incomodando desde o final da prova. O Cláudio Castilho me alertou na véspera para que eu largasse de maneira conservadora, poupando bem para poder chegar com fôlego na parte final da prova. Colocar em prática o famoso split negativo.

Como disse no post anterior, saí forte e acabei pagando a conta lá na frente. A minha estratégia de correr mais rápido a primera metade e administrar a segunda parte mostrou-se ineficiente e isso havia me deixado frustrado.

Porém, ao receber o novo livro do Sérgio Xavier, “Correria”, que será lançado no próximo dia 12 de novembro, na Livraria da Vila, aqui em São Paulo, senti um alívio e a sensaçao de que não sou o único a fazer tal “bobagem”.

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Era tudo o que eu precisava ler!

O Serginho, que é craque em contar histórias, está lançando mais um blockbuster literário. Depois de “Operação Portuga” – clássico no meio da corrida -, o “Correria” promete ser sucesso. É difícil parar de ler. É o tipo da publicação que te prende da primeira à última linha. E é fácil entender o motivo: nos enxergamos, como corredores, em cada página do livro.

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Coma bem, corra bem, viva bem!

SOFRIDO NÃO É MELHOR

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De cara afirmo que desafiar uma maratona pode custar caro. Muito caro. E não que o meu objetivo fosse afrontar a rainha das provas. Como disse no post anterior, fui a Argentina apenas para completar os 42 quilômetros por causa da minha preparação precária nas quatro semanas anteriores por conta de uma lesão bem chata no pé.

No jantar da sexta-feira, já na capital argentina, o Cláudio Castilho foi muito claro: “Saia devagar, economizando, para poder chegar inteiro no quarto final da prova”.

Na hora da largada a temperatura era de 18 graus, confrontando a previsão da semana que afirmava que às 7h30 da manhã do domingo teríamos em torno de 15 graus e temperatura máxima de 22. Mas aquilo não chegava a assustar porque o céu estava bem encoberto, era possível sentir gotículas de uma garoa portenha.

Nove mil pessoas alinhadas para a maratona mais importante da América do Sul. E ali, percebendo o semblante de cada um, me lembrei de uma conversa que tive com o Sérgio Xavier em um longo que fizemos na USP e concordei com ele. O Serginho disse que acordar em um domingo para fechar uma prova de 10K é algo relativamente normal na vida de muita gente. Quantos casos não conhecemos de pessoas que simplesmente levantaram numa manhã de domingo e disseram “Vou correr essa prova de 10K”. E fizeram.

Com a maratona é diferente. Ali não tem aventureiro. Ali há estórias de superação, dedicação, comprometimento. Histórias de vida. Ali se enxerga o que a corrida faz na vida das pessoas.

A largada foi dada às 7h34. Demorei dois minutos e meio para passar pelo tapete. Os primeiros quilômetros, mesmo com as largas avenidas de Buenos Aires, ficam um pouco cheios. Mas dá para ouvir o Elvis Presley portenho, os Beatles latinos, tudo isso no primeiro quarto da prova. Mais a frente ainda tem casal dançando tango, Michael Jackson albino, escola de samba argentina(!) e pouca animação nas ruas. Essa era uma das promessas da prova argentina, mas talvez por ser feriado no país e a cidade estar com menos gente, faltou incentivo do povo, que estava basicamente concentrado no centro da cidade.

Logo de cara encaixei um ritmo de 4m50s por quilômetro. Sabia que aquilo não era bom porque estava há um mês sem correr, mas me sentia muito bem, correndo solto. Ao contrário do que pregam os treinadores, costumo fazer o inverso. Saio mais forte na primeira parte e administro na segunda. Como estava bem, acreditei que a estratégia estava pronta para ser repetida mais uma vez.

Passei a Meia para 1h44m, e tirando uma pedra em que pisei exatamente no ponto da lesão do meu pé e que trouxe uma dor insuportável, a ponto de eu cogitar parar ali mesmo, o resto caminhava muito bem. No quilômetro 19 a dor já havia diminuído.

Mas foi a partir da metade da prova que a cenário começou a mudar. Timidamente o sol resolveu se mostrar e aos poucos deixou a vergonha de lado e escancarou os raios pelo percurso árido da região do porto. Aliás, a primeira parte da prova é muito boa, mas a segunda metade é um pouco enfadonha, com aquelas retas longas, visual não tão belo e pouca gente nas ruas.

Consegui segurar o ritmo até o 30º quilômetro, e então comecei a sentir fome, algo que raramente acontece comigo. Tinha gel sobrando e resolvi antecipar o uso e ainda comer as frutas oferecidas pela organização. Isotônico é outra coisa que não gosto de tomar, mas já estava sentindo necessidade, apesar das cápsulas de sal terem sido devidamente ingeridas.

Nos postos de água – diga-se de passagem, servidas a vontade por voluntários atenciosos – uma garrafa já não me satisfazia. Agarrava logo duas, tomava uma e a outra usava para baixar a temperatura do corpo.

A condição do tempo em Buenos Aires foi totalmente atípica do que havia sido previsto. Ao meio-dia a temperatura chegou aos 29 graus com umidade relativa do ar de 85%, conforme o Cláudio Castilho apurou no serviço meteorológico local. Uma verdadeira bomba relógio.

Por volta das 10h30 já era possível ver muita gente caminhando. Eu diminuí o ritmo e comecei a rodar a 5m10s, 5m15s, 5m30s e aquela sensação de que o combustível está desaparecendo rapidamente. Procurei me concentrar, manter o foco, pensar nas coisas positivas. A perna vai pesando e a cabeça precisa trabalhar muito mais. No quilômetro 40 um número incrível: 7m34s de pace.

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Puxei as últimas reservas disponíveis no corpo, respirei fundo, mentalizei dois quilômetros dentro da USP e segui. A imagem do pórtico de chegada é a última lembrança que tenho na mente e logo depois a ajuda do staff da prova. Apaguei, voltei, me levaram para a tenda, fui hidratado, estabilizado e liberado para comemorar a minha primeira maratona. que não gostaria que tivesse terminado dessa maneira, mas que serviu de lição e aprendizado.

Ao final de toda essa aventura, o Garmin apontou *3h52s09. Para uma estreia está bom. Mas se tivesse seguido com meus treinos p último mês e tivesse mudado a estratégia da prova, como alertou o Cláudio Castilho na véspera, certamente teria feito um tempo melhor.

Para um projeto como esse muita gente tem importância fundamental. A começar pela família. Ter a esposa treinando junto faz uma baita diferença para poder entender e compreender tudo o que envolve o processo para cumprir os 42K. À Larissa e ao Murilo, meus filhos, um agradecimento especial por terem “perdido” os pais nos últimos meses mas que compreenderam, ajudaram, incentivaram, foram filhos e parceiros do projeto. Aos meus pais, que ajudam a cuidar dos meus filhos na minha ausência e muito mais.

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Ao Mário Mello que me iniciou nos treinos de corrida 10 anos atrás e ao meu atual treinador, o Cláudio Castilho. Dois profissionais exemplares, dignos da profissão que abraçaram. O Cláudio esteve semre presente, sempre disposto a orientar e corrigir, seja por telefone, email, sinal de fumaça… Valeu, Claudião! E a toda equipe S&P, Leandro, Nath, Balbino. Time espetacular.

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O Dr. Gustavo Maglioca, que esteve a todo instante pronto para ouvir meus relatos de incômodo e que foi extremamente ágil ao determinar a lesão que eu tinha e iniciar o tratamento. O Doc sabe muito e tem cabeça de corredor, isso faz diferença!

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Sem poder correr, fui para a piscina com a Roberta Rosas. Apesar das poucas aulas de deep running, a mulher do Marcos Paulo não deixou a lesão me desanimar.

À Tânia Rodrigues que cuidou da nutrição e conseguiu a proeza de trocar minha massa gorda(?) por massa magra.

À Joelma Silva, que sabe tudo e mais um pouco de massagem desportiva. As mãos dela salvam qualquer um dos incômodos que o treinamento sempre provoca.

Ao meu companheiro de rádio Bandeirantes, Sérgio Patrick, pelos ajustes de escalas (rs) e bate-papos sobre os treinos. Ter um companheiro de trabalho que também corre ajuda muito a entender as nossas necessidades. Valeu, Serginho!

Aos ouvintes do Fôlego, leitores do blog, amigos reais, virtuais, sinceros, parceiros, obrigado pelas mensagens de incentivo e apoio.

Antes de correr minha primeira maratona em Buenos Aires, já havia decidido que voltaria para a distância por uma razão simples: a lesão no pé me impediu de fazer o treino direito, me atrapalhou no final e por causa disso vou encarar outra treinando como se deve e sem lesão.

Em breve tem outra maratona.

O desafio está lançado. Lance o seu também.

Coma bem, corra bem, viva bem!

* Corrigido pelo tempo oficial da organização.

CHEGOU

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Estou há algumas horas do embarque para a maratona de Buenos Aires e apenas hoje recebi autorização para participar. O Dr. Gustavo Maglioca acabou de me liberar para a prova. Corri o risco de não poder alinhar até poucos instantes atrás. Que sufoco!

O motivo é um edema de diáfise do 3º metatarso, a definição que os médicos dão para uma baita dor no pé. Isso surgiu há quatro semanas, logo após um longão, e me tirou dos treinos nos últimos 21 dias. No princípio nada de sobrecarga no pé, na quinta-feira passada voltei a trotar na esteira e essa semana fiz dois “testes” no asfalto da USP sob a supervisão do Cláudio Castilho.

Nesse período de inatividade “corri” um pouco na piscina com a craque Roberta Rosas, pedalei mais um pouco e “transportei” outro tanto, mas nada que se compare aos ótimos treinos que vinha fazendo. Paciência. Estou muito feliz em poder correr e ficarei mais feliz ainda se completar em condições dignas. Se antes já estava dando pouca importância para o tempo da minha primeira maratona, agora estou me importando em cruzar a linha de chegada e celebrar com todos que passaram de alguma maneira pelos meus treinos dos últimos meses e que foram fundamentais nisso tudo. Mas os agradeciementos e a os detalhes da preparação e da prova virão no próximo post, pós-maratona.

Como estamos em constante aprendizado, nesse período de pouco exercício a cabeça foi treinada à exaustão. Fortaleci o psicológico, principalmente se fosse impedido de correr.

E a minha fé em Deus, sempre inabalável, também foi estreitada. Foram muitas conversas com Ele. Como sempre, não pedi, apenas deixei que fizesse o melhor, como sempre faz. E sei que continuará fazendo.

Conto com a força e o incentivo de todos, para mim e para a Bete. É a primeira maratona dela também, e ter treinado junto com a esposa faz uma baita diferença na preparação. A ela todo o meu carinho e admiração pelo companheirismo e parceria no projeto.

E até domingo!

Coma bem, corra bem, viva bem!

A EDUCAÇÃO DO CORREDOR

O treino estava só começando no último sábado, ainda me aquecia no segundo quilômetro, descendo em direção à Praça da Reitoria. Escuto um grupo se aproximando e encosto próximo ao meio-fio para dar passagem.

Era um trio. A moça me passou e se plantou a poucos centímetros na minha frente. Um dos rapazes colocou-se ao lado dela e o último veio ao meu lado. Achei aquilo incomum, mas tudo bem. Terminada a descida, viramos à esquerda na fonte para ingressar na praça. Percebi que, no piso plano, os três estavam mais lentos do que eu e resolvi me “desencaixotar”.

O gesto parece ter sido uma ofensa para os meninos. Comecei a ouvir gracejos, risinhos e piadinhas na entrada da “Bolinha”. Mas como não estava disposto à confusão logo cedo, acelerei e deixei os mal educados para trás. Mas eles queriam graça e os dois garotões me alcançaram e se posicionaram ao meu lado, no mesmo ritmo.

O objetivo era provocar. Mais atrás a mocinha gritava: “Vão embora, podem ir!” E a dupla cochichando e caçoando. Aumentei a velocidade e os dois também. Estávamos na metade da praça.

Depois de 200 metros o gordinho parou, ou resolveu esperar a companheira. O outro optou por “sprintar”. Sabia que a estratégia do fanfarrão iria durar um quilômetro e fiz questão de colar na bunda dele, a centímetros de distância. Fui até o fim pondo pressão, provocando mesmo. O moleque não escapou e fechamos a brincadeira a 3’40” os 1000 metros. O sujeito atravessou a Avenida da Raia, ficou para trás e eu segui em frente para rodar o restante do meu treino. Não disse uma palavra aos três, não os provoquei em momento algum.  

E por que estou contando esse fato, dividindo essa experiência incomum com os leitores do blog? Porque a corrida tem recebido milhares de novos praticantes todos os anos e infelizmente nem todos sabem se comportar ou tem educação suficiente para conviver em grupo.

Os veteranos sabem que na corrida de rua o grande adversário é o seu cronômetro, no máximo elegemos um coelho em uma prova ou treino e buscamos motivação para chegar ao fim junto, ou antes dele. Mas menosprezar, humilhar, zombar, não são os princípios que regem o corredor de rua, que é um sujeito solidário, camarada, companheiro, amigo.

Esses garotões ainda tem muito a crescer, talvez vão apanhar da vida e aprender pelo caminho mais duro.

Outro motivo que me fez refletir sobre o episódio: estamos em um momento crucial na relação dos corredores e ciclistas com os administradores do espaço público. Há um processo em andamento entre a prefeitura da USP e a Associação dos Treinadores de Corrida tentando organizar e melhorar a relação entre comunidade acadêmica, sociedade e esportistas. Episódios como este servem apenas para mostrar que nós, usuários do espaço público, precisamos repensar muitas atitudes e tomar um banho de cidadania e educação. Só assim teremos uma convivência melhor. Sá assim seremos um país melhor.

Coma bem, corra bem, viva bem!

AJUDA OLÍMPICA

O time de colaboradores do Fôlego, programa de corrida de rua que apresento na Rádio Bandeirantes, é um dos meus orgulhos. Só tem craque e gente disposta a levar orientação de qualidade aos ouvintes.

Uma das colaboradoras é a professora Kátia Rúbio, psicóloga do esporte e pesquisadora do assunto.

Recentemente estivemos juntos em uma palestra no Sesc-Santana e temos uma visão muito parecida sobre a política esportiva brasileira. Ou a falta dessa política.

Agora a Kátia está precisando de ajuda para finalizar um trabalho brilhante que está produzindo. Coisa que deveria ser abraçada pelos dirigentes e políticos brasileiros se eles estivessem realmente preocupados com a história e o legado do esporte no país. Mas para essa gente os interesses são outros.

Abaixo reproduzo o e-mail que recebi da professora e peço que ajudem da maneira que puderem, divulgando inclusive.

 

Prezados colegas

 
Há 13 anos trabalho na pesquisa Memórias Olímpicas por atletas olímpicos brasileiros. Nesse período já são mais de mil entrevistas com atletas que representaram o Brasil em Jogos Olímpicos de inverno desde 1920. Ao longo desse período essa pesquisa contou com apoio da Fapesp e CNPq, porém esses recursos acabaram e ainda faltam 700 entrevistas para o projeto terminar.
 
Por isso, estamos iniciando hoje uma campanha junto ao http://www.salvesport.com  uma plataforma de financiamento coletivo para conseguir os recursos necessários para finalizar o projeto e escrever a Enciclopédia Olímpica Brasileira, onde todas essas histórias serão contadas.
 
Espero contar com a sua colaboração na divulgação desse projeto.
 
Um abraço 
Profa. Dra. Katia Rubio
Profesora Associada
Escola de Educação Física e Esporte
Universidade de São Paulo

SOM NA CAIXA

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Um assunto polêmico na corrida de rua é o uso da música em treinos e provas.

Conheço gente importante que defende e outros que atacam os  fones durante a atividade.

Eu já fui mais fã, utilizei bem a música nos meus treinos. Principalmente aqueles na esteira da academia ou os longos solitários.

A rodagem fica mais confortável com algumas guitarras e batidas vigorosas, mas nos treinos intensos é praticamente impossível curtir o som. Nessas horas é preciso atenção total no gesto esportivo. Para mim é assim.

Atualmente uso o tocador apenas na musculação. E mesmo assim vivo me controlando para não perder a concentração na hora da força.

A ciência já comprovou que ouvir música na hora do exercício pode aumentar em até vinte por cento o rendimento da prática, por isso algumas provas ao redor do planeta proíbem o uso do estímulo sonoro.

E música é parte importante e fundamental do Fôlego, o programa de corrida de rua que comando na Rádio Bandeirantes todos os domingos às 8h30 da manhã.

Meu companheiro de apresentação é o Sérgio Patrick, que além de corredor tem ótimo gosto musical. Juntamos minha paixão por jazz e blues com a adoração dele por rock and roll e mais algumas pitadas de pop do nosso time de produção. O resultado disso é um acervo musical rico e estimulante para quem gosta de bons sons.

No link abaixo você pode conferir o playlist do Fôlego dos últimos cinco anos, relações feitas por mim e pelo Patrick e com muita colaboração dos ouvintes também.

Para quem gosta de correr ouvindo música é diversão garantida!

E você, se mexe com fone no ouvido? Qual é o som que te motiva?

http://radiobandeirantes.band.uol.com.br/sobre.asp?PDT=15&ID=49

Coma bem, corra bem, viva bem!

Nota

Um dos meus prazeres na corrida é testar coisas novas. E os tênis se incluem nessa categoria. Colocar nos pés uma marca nunca antes experimentada é algo que me motiva. Tenho as minhas preferências com marcas e modelos, mas estou sempre atento às novidades.

Na olimpíada de Londres no ano passado o volume de trabalho não me permitiu desbravar muitas lojas de esportes, o máximo que conseguia era ir da base do Grupo Bandeirantes de Comunicação até o shopping Westfield Stratford City, ao lado da Vila Olímpica. No gigantesco centro de compras, o melhor lugar para se comprar tênis era uma local que não oferecia grande variedade de marcas e numeração, mas tinha preços ótimos porque funcionava como uma espécie de outlet.

Eu me sinto mais seguro com os modelos mais estruturados, com bom nível de amortecimento, por isso procurei o modelo 1080 da New Balance, que foi muito bem avaliado pela Runner’s americana,  mas nos 30 dias de Londres não consegui encontrar o meu número.

Então optei por esse New Balance 780 v2, uma marca que nunca havia usado. Esse modelo, mais leve e com menos amortecimento, não é comercializado no Brasil e a fabricação é no Reino Unido mesmo, nada de Taiwan, Malásia e afins.tenisEstou usando este NB desde setembro do ano passado e gostando bastante. O 780 v2 é para ser usado em treinos curtos ou rápidos e em provas, e também por quem está com o peso correto, isso se você não é adepto da corrida descalça ou dos tênis minimalistas.

O 780 v2 me surpreendeu positivamente pela entrega honesta e bom desempenho para quem tem pisada neutra.

A única mudança que fiz foi sacar esses cadarços na cor laranja – de gosto duvidoso – e colocar um par azul, combinação bem melhor e mais discreta.

Como a tarefa de ir à terra da rainha ao encontro do 780 v2 não é acessível a todos, vale a pena procurar por um modelo similar da marca aqui mesmo no Brasil.

Preço do produto em Londres, um dos lugares mais caros do planeta: 55 libras, ou algo em torno de R$ 170,00.

Coma bem, corra bem, viva bem!

 

 

Nota

Saindo de casa para correr a Meia da Corpore no último domingo ouvi o conselho da minha mulher: “Pega leve porque a maratona de outubro é o objetivo”.

A preocupação dela tinha procedência. Seis dias antes, durante um treino na USP, a panturrilha da perna direita me fez interromper a corrida. O trabalho com gelo foi tão intenso que até uma queimadura, com direito a bolha e tudo o mais surgiu no local.

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Mas uma frase do Cláudio Castilho, meu treinador, também martelava lá no fundo: “Senta a botina na Meia, Capri!” O Cláudio sabia que eu vinha de uma boa sequência de treinos, mas não havia dito a ele do meu desconforto muscular porque ele estava em algum lugar do planeta com os atletas da seleção. E se dissesse, certamente o discurso mudaria. Tudo o que eu não queria ouvir…

Há uns bons anos não corria essa prova, mas a Corpore capricha na organização, a largada em ondas é ótima, o percurso é plano e o clima estava perfeito, 16 graus e uma típica garoa paulistana. Não consegui largar na frente e peguei muita gente mais lenta no início, estava rodando a 5′ por quilômetro.

No quarto quilômetro acertei o ritmo e baixei para 4’30”. Porém, no quilômetro seis senti uma fisgada e uma bola do tamanho de um limão surgir no músculo posterior da coxa esquerda. Travei. Um pouco mais à frente o amigo Bruno Vicari passou por mim e eu já cogitava a chance de abandonar pela primeira vez na vida uma prova. A dor ia aumentando e então comecei a negociar com a mente. Havia acabado de cruzar a Praça Panamericana, estava longe da largada e voltei para a marca de 5′ por quilômetro para tentar recuperar o músculo.

Seguia concentrado e trabalhando a cabeça para não desisitir. Lembrava das frases da Bete e do Cláudio; razão e emoção. Ouço alguém me chamar. Era o Daniel Carvalho da agência Rent a Tour, com quem viajei para os Estados Unidos no início de 2013. Um papo rápido é sempre bom para tirar a cabeça do problema. Um ouvinte do Fôlego se aproxima, se apresenta, faz festa, cita o Palmeiras e volto a me concentrar na prova. Passo os 10K em 47 minutos, cumprimento mais um amigo, o Adriano Carvalho, da Open, e a dor na coxa começa a sumir. Incrível! Valeu a pena insistir.

Retomei o ritmo de 4´30″ por quilômetro e comecei a fazer contas para baixar meu recorde pessoal na distância obtido na Meia da Disney em janeiro (1h38m50s). Soma daqui, tira dali e o eventual recorde viria apertado, justo.

Na volta ao campus da USP, passo pelo quilômetro 13 com 1h01m no GPS e a cabeça nas contas. Apesar de não sentir dor o músculo da coxa dava sinais de que estava ali, prestes a ressucitar se fosse preciso. Tinha que administrar o tempo e a dor e resolvi segurar um pouco a intensidade e a rodar a 4’45” o quilômetro.

Já na Avenida Politécnica,  aumentei o ritmo. Faltavam menos de 6000 metros e a luta contra o relógio seguia firme, quebrar o recorde pessoal seria uma questão de segundos, poucos segundos. A Politécnica é um ponto crítico das provas paulistanas, especialmente nos dias de sol, por causa da aridez do local. Mas com a garoa, aquele retão passou a ter um papel importante na obtenção da marca.

Retorno à USP e restando menos de dois quilômetros vou para o último esforço, um sprint final. Tiro os olhos do GPS para não perder a concentração, acelero o máximo que posso e busco os últimos litros de oxigênio nos pulmões. O pórtico de chegada se aproxima, as tendas das assessorias chegam, muita gente incentivando e finalmente toco o tapete.
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Por 22 segundos o recorde não veio. Fechei com 1h39m12s. Tempo suficiente para me deixar satisfeito por causa dos problemas enfrentados, mas certo de que poderia ter diminuído em pelo menos dois minutos se tivesse largado na frente e se não fosse obrigado a segurar o ritmo para não agravar a dor no músculo da coxa.

Mas o que mais me deixou feliz foi terminar a Meia e sentir pela primeira vez a sensação de que se precisasse encarar mais 21K não seria tão assustador assim. Nas outras vezes sempre terminava com a impressão de que dar mais uma volta seria quase impossível.

Domingo que vem tem mais, nas 10 milhas da Mizuno.

Coma bem, corra bem, viva bem!