A conclusão do mercado para a teoria marxista

“O Brasil perdeu a chance do crescimento e não investiu em infraestrutura” é um mantra repetido por economistas que não gostam do governo petista. Já ouvi tanto que antipatizo com a frase. Mas saiu uma pesquisa publicada pelo FMI que mostra que o Brasil perdeu a chance do crescimento e não investiu em infraestrutura.

O estudo, na verdade, é uma investigação de uma hipótese de dois economistas da esquerda, Raúl Prebisch (que fundou a Cepal com o Celso Furtado) e Hans Singer.

A teoria deles diz, basicamente, que países que produzem bens primários (commodities) perdem poder de barganha ao longo do tempo. Para não ficar cada vez mais para trás, seria preciso diversificar a produção. Parece óbvio, mas não é. Por anos ouvimos dizer que a força do Brasil é o campo.

Mas, bem, aparentemente, os esquerdistas estavam certos. Um estudo recente do FMI analisou relações de troca de commodities notou uma progressiva desvalorização –claro que ela não foi constante, houve momentos em que o valor relativo de produtos como minério de ferro foram muito altos. O que importa: “Na maioria dos casos, a hipótese de Prebisch e Singer não foi rejeitada”, concluiu o estudo do FMI.

Para escapar dessa armadilha, aponta a The Economist, seria preciso diversificar a produção. Claro que isso é difícil. E seria uma boa ideia aproveitar momentos de alta das commodities. Mas a América Latina não fez isso. 

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Curta metragem é tamanho ideal para o terror

Se você estiver em São Paulo sem nada para fazer na quinta-feira (30) às 22h, vá até a Cinemateca ver a sessão de curtas do Dark Side.

Há anos o Festival de Curtas tem esse programa. Fui três vezes e não me arrependi em nenhuma delas –e, acredite, já me arrependi de várias sessões de curtas.

Não sou fã do gênero de terror. Achei os poucos que vi tontos ou arrastados. Ou tontos e arrastados, como aquele Blair Witch Project.

O legal dos curtas de terror é que eles não se levam a sério. Na minha primeira sessão de Dark Side, vi um filme de zumbi português sensacional –não me lembro o nome, mas nenhuma história pós-apocaliptica que li ou vi chega perto daquela.

A maioria dos filmes são resultados de TCCs de faculdade. Claro que isso implica em alguns problemas (principalmente de roteiro, já que o intuito dos filmes é mostrar a capacidade técnica da equipe), mas ao mesmo tempo é legal ver cinema sendo feito com muita vontade.

Neste ano, tem um curta brasileiro chamado “Você Já Cortou Seu Cabelo Com Maquininha?” pelo qual eu até pagaria um ingresso (o festival é gratuito). O filme tem 23 minutos. Poderia ter 18, tranquilamente. Mas é uma ideia original e bem executada.

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Festival do documentário de guerra no Youtube

Já havia lido muitos textos sobre O Triunfo da Vontade, mas nunca tinha visto o filme. Ele está na íntegra, com legendas, no Youtube.

O filme é plasticamente bonito, com tomadas grandiosas das pessoas, das multidões, das nuvens, da cidade onde o partido nazista fazia seu encontro, das marchas etc. É claro que é tudo encenado, mas não deixa de ser impressionante e um pouco amedrontador.

PS: O melhor texto sobre a Leni Riefenstahl é o da Susan Sontag, Fascinating Fascism. Está aqui: http://www.history.ucsb.edu/faculty/marcuse/classes/33d/33dTexts/SontagFascinFascism75.htm

Falando da Susan Sontag, um filme que ela gostava era esse Listen to Britain, de 19 minutos, que está na íntega no YouTube

O diretor chama-se Humphrey Jennings. Ele gravou vários documentários mostrando o esforço de guerra dos ingleses. Esse é o mais famoso. São apenas sons e imagens de pessoas indo trabalhar, se divertindo como podem e tocando a vida.

A guerra está presente o tempo inteiro (o filme é de 42): os agricultores olham os aviões de binóculos, os soldados canadenses cantam e conversam enquanto esperam ser chamados, os trabalhadores carregam seus capacetes.

Mas também vemos as pessoas indo dançar, paquerar, frequentam shows. A mensagem aqui é óbvia, a ideia é incentivar os ingleses a tocar a vida, apesar dos bombardeios e das privações da guerra. Mas é muito bem feito.

O último de guerra, A Batalha de San Pietro foi dirigido pelo John Houston.

A abertura é sensacional. Ele narra, em off, que a região de San Pietro, na Itália, tem uma vegetação verde, um passado arquitetônico relevante e que os filhos da região têm um futuro brilhante. E as imagens mostram os campos arrasados, igrejas destruídas (ele ainda diz: note que interessante esse portal) e uma jovem morta na terra. Daí ele concluí: mas não nesses anos. É de arrepiar.

Depois ele mostra a infantaria americana tomando San Pietro. Também vi algo inédito. Eu nunca tinha visto um exército de verdade avançando. Essa foi uma batalha muito sangranta, o exército americano perdeu muita gente. E o filme mostra os soldados morrendo em campo, é bastante perturbador.

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Festival do documentário mudo parte II

Nanook of the North é uma lenda dos documentários. Acho bem chato, para ser sincero. O filme fez muito sucesso nos anos 20 e influenciou muita gente –o Grass, aí embaixo, é uma cópia de Nanook.

O grande mérito do cineasta Robert Flaherty foi ter mostrado uma luta por sobrevivência em um ambiente super hostil, e o foco do filme é o povo esquimó.

O personagem título, o Nanook, morreu de fome pouco tempo depois do filme.

Las Hurdes é uma região paupérrima da Espanha. Em 1932, o Luis Buñuel ganhou uma grana de um amigo dele para fazer um documentário sobre a região. O patrocinador do projeto chamava-se Ramón Acín, e era um anarquista que ganhou na loteria! Em 1936, os franquistas fizeram a esposa desse Acín prisioneira e disseram a ele que, caso ele não se entregasse, iriam matá-la. Ele se entregou e ambos foram assassinados.

O filme é curto e muito impressionante.  Eu já vi pobreza, mas acho que não desse jeito.

Aqui um trecho de uma entrevista do Buñuel:

How did the project for Las Hurdes came about?

Buñuel: It came about because I had read the doctoral thesis of Legendre, director of the French Institute of Madrid. An admirable book, I still have it in my library. For 20 years Legendre spent every summer in Las Hurdes to conduct a complete study of the region: botanical, zooligical, climatological, social etc. A marvel! Later, I read some articles abou the place that the Madrid magazine Estampa published when the king visited there.

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Festival dos documentários mudos

Hoje acabou a jornada do cinema mudo em São Paulo. Não fui em nenhuma sessão, e já me arrependi antes mesmo de ter faltado. Mas aproveitando o gancho, vou colocar aqui nesse espaço alguns documentários mudos que estão na íntegra no YouTube.

The Fall of the Romanov Dinasty é o primeiro filme dirigido pela russa Esther Shub. Essa diretora é, essencialmente, uma montadora. Ela foi a primeira pessoa do mundo a fazer um documentário (esse aí de cima) de material de arquivo. Antes dela, ninguém tinha apostado nisso. Depois de analisar 60 mil metros de filmes, deu certo.

Esse filme trata dos últimos anos do czar e do comecinho da revolução russa. Ela é explícita em relação à intenção dela o tempo todo –mostrar como czar, nobres e burguesia viviam em um mundo paralelo e irreal e, ao mesmo tempo, levantar a bola da revolução.

Um exemplo: em uma cena, se vê uns nobres dançando em um navio super chique. Eles dançam, dançam, e daí o letreiro até brinca com uma mulher que limpa o suor do rosto. As cenas seguintes mostram trabalhadores braçais fazendo serviços ingratos e exaustivos.

A trilha sonora é sensacional, não sei se é original. Palpite: não é.

E esse é Grass. Trata-se de um filme “antropológico” (muitas aspas aqui, ok?). Mostra uma migração de um povo de 50 mil pessoas. A ideia é que o grupo retratado é de “primitivos”, que vivem como nossos ancestrais viviam.

Podemos deixar essas bobagens para trás porque o filme é muito bom. A viagem dos 50 mil é desesperadora. Eles demoram seis dias para atravessar um rio, precisam subir uma montanha super íngreme, enfrentam a neve descalços e quase morrem de fome no caminho. Isso tudo para deixar uma área que está improdutiva e ir para uma outra que tem pasto (a grama do título).

A equipe que fez o documentário é sensacional. Foram três pessoas. Uma era uma jornalista, cineasta e tradutora chamada Marguerite Harrison. Além de ser essas três coisas, era uma espiã americana no começo da Revolução Russa. Ela foi presa durante três anos pelos bolsheviques.

Os outros dois cineastas, mais tarde, produziram um filme de um gorila gigante, King Kong. Um dos dois, Merian Cooper,  tornou-se um dos maiores produtores do mundo, com The Searchers nas costas (no Brasil, The Searchers virou Rastros de Ódio, e para mim é o melhor bang bang de todos).

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19 agosto, 2012 · 11:41 pm

Assalto de bicicleta

Bicicleta é o melhor veículo para furtar e fugir. Dá para entrar na contramão, na calçada, em garagens etc. Esse é um tipo de roubo sobre o qual já tinha lido. Ontem presenciei acontecendo.

Eu ia pela Paulista, no sentido Paraíso Consolação e vi um ciclista tomando um celular da mão de um pedestre que se preparava para atravessar a avenida.

No momento, pensei que a vítima e as testemunhas iriam achar que eu, por também estar de bicicleta, estava participando do roubo.

O cara que teve o telefone roubado começou a seguir o assaltante. Ele correu bastante. Ele ia pelo asfalto (estranhamente, eram poucos carros naquele trecho). Até que se cansou. Quando desistiu de correr, berrou  “polícia, polícia”. Também berrei. Eu não queria que achassem que pertencia à gangue. Mas de nada adiantaram os berros do assaltado.

Continuei pedalando atrás do ciclista. Pensei que seria uma boa tática esperar passar perto de algum policial –tem muitos na Paulista– e berrar. Por isso, não deixava o ladrão se distanciar muito. Eu também não queria chegar super perto (ele tinha me visto berrando e podia ter uma arma, uma faca, sei lá, achei melhor não encostar). A minha bicicleta é mais rápida que a dele –a roda é aro 27, de corrida, e ele pedalava uma mountain bike– tive que desacelerar várias vezes.

E ao mesmo tempo comecei a achar que não era uma boa ideia caguetar o cara para a polícia. Por causa de um telefone ele pode ser preso (se já tiver passagem). E isso é uma bosta. Mas também, putz, por que o cara foi roubar o celular? Que merda, a taxa de desemprego tá baixa, é só andar na rua que se vê cartaz “estamos contratando”.

Fiquei com raiva dele por me colocar nesse dilema entre ser filho da puta por caguetar ou ser filho da puta por deixar passar. O fato do cara estar de bicicleta, para mim, é agravante. Sou ciclista e prezo pela imagem dos ciclistas dessa cidade. Acho uma bosta que exista gente que usa a bicicleta para roubar.

Quando estava chegando em frente ao Masp, vi, do outro lado da avenida, dois policiais. Não fui até eles. Eu teria que esperar um momento para o semáforo ficar vermelho e atravessar a Paulista para falar com eles. O ladrão já estaria lonte e eu quis continuar na cola dele.

O cara girava a cabeça para trás para ver aonde eu ia. Ele passou por um semáforo fechado perigoso, subiu na calçada e ficou perto da parede para que os pedestres ficassem entre eu e ele. Mas não adiantou, ainda assim tive que desacelerar para não chegar muito perto.

Quando cheguei na rua Augusta tive que decidir se continuaria ou não. Eu tinha combinado de ir no cinema, já estava em cima da hora e a sessão era na sala 5 do Unibanco, que é muito pequena e, por isso, lota rapidinho.

Desisti. Tenho zilhões de desculpas –deveria ter mais policiamento, não dava para continuar seguindo o cara até passar um policial, a PM tinha que usar mais bicicletas para patrulhar as ruas, eu não sou justiceiro, não tenho nada com a história etc– mas nenhuma me convence plenamente.

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Uma âncora de 4,5 milhões

Em uma negociação numa feira, um vendedor coloca um preço no produto que quer vender. Ele sabe que o cliente não vai pagar aquele preço, mas joga para o alto. Esse valor chutado tem um nome: âncora. A âncora é um número usado para marcar uma referência. Vira um parâmetro. A grosso modo*, quanto mais alta a âncora inicial, mais alto vai ser o preço final que o consumidor vai pagar. Por exemplo, se o preço inicial de uma maça é R$ 10, o cliente sai satisfeito pagando R$ 2. Se pedem R$ 5, R$ 2 não vão agradar o comprador.

Mesmo se a âncora for completamente aleatória e gratuita, ela influencia as pessoas.

No livro Thinkg, Fast and Slow, o prêmio Nobel Daniel Kahneman dedica um capítulo à âncora. Foi lá que eu soube da existência desse conceito. Ele dá vários exemplos de como o mecanismo funciona.

A Parada Gay já existe há 16 anos. Estamos acostumados a ouvir que ela quebra recordes sucessivos de público –1 milhão de pessoas, 2 milhões e, em 2011, chegou a 4 milhões. Foi quando começaram a achar estranho.

Neste ano o Datafolha foi medir a população da Parada de uma maneira mais detalhada. Chegou a um número 16 vezes menor do que o divulgado pela organização: 270 mil, em comparação aos 4,5 milhões oficiais. Os organizadores ficaram revoltados com os 270 mil. Acham que isso é desabonador (o que é uma bobagem: 270 mil são 3,3 Maracanãs entupidos de gente).

A revolta com o dado pode ser por que a âncora para esse valor girava em torno dos milhões, e é difícil acreditar que ela era aleatória e gratuita. Mas era. Quem estima a população desses eventos é a organização, que bate o olho e solta um número de uma forma impulsiva. Ou a PM (se você tivesse um cálculo difícil para fazer, consultaria um policial para fazê-lo?).

* Me disseram que “A grosso modo” está errado. Eu ia só trocar para “Grosso modo” na frase, mas depois resolvi deixar errado e remetar para uma correção.

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Lançamentos nacionais

Nem são tão novos assim, mas os li agora então aí vai:

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Se no filme homônimo o enredo é o mais interessante, o legal de Cidade de Deus, o livro, são os diálogos. Não me interesso muito por linguagem. Mas, neste caso específico, a maneira como os personagens falam valem mais do que a história (ou as histórias). Em Desde que o Samba é Samba é mais do mesmo.

Não tenho muita certeza, mas acho que o Paulo Lins estudou a maneira como os cariocas falam para depois, meio que sem querer, virar escritor. Fez certo.

O pano de fundo do novo livro (que ainda não terminei) é a invenção do samba moderno e da umbanda. Os personagens que ele descreve não foram inventados por ele –a maioria é de figuras históricas como o Ismael Silva e o sambista Brancura. O pano de fundo do novo livro não importa. Se o que acontece com essas figuras corresponde à verdade factual muito menos. Tampouco as intrigas e as soluções de enredo. O legal, de novo, é a escolha de palavras.

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Talvez a única coisa que seja comum a todas as minhas ideias é que elas sejam minhas, diz um dos vários narradores de A Vida Obscena de Anton Blau.

Quando li essa frase achei que referia-se ao próprio livro. Talvez a única coisa que dê unidade a ele seja que tudo foi escrito pela mesma autora, de nome Maria Cecília Gomes dos Reis, pensei num primeiro momento.

Mas não. Há a narrativa da trajetória do tal Anton Blau. Não é o mais importante, mas está lá. Os outros trechos, a mistura de filosofia, de religião e autodepreciação fazem sentido juntos.

Apesar do livro ter sido descrito como “pós-moderno” (não tenho ideia do que seja isso), acho que dá para notar uma herança de histórias como Memórias de Um Sargento de Milícias e até mesmo Memórias Póstumas de Brás Cubas no volume.

Enquanto eu ia lendo, ia pensando que o tal Anton Blau levou uma vida besta, cheia de miudezas e apoquentações pequenas, mais ou menos como os protagonistas desses dois outros livros.

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Turista de favela

Nesse domingo conheci o Morro Dona Marta, em Botafogo. Foi uma visita rápida e, portanto, minhas ideias sobre o lugar são superficiais.

Tenho um pouco de vergonha de dizer, mas fiquei com medo de levar o celular para fotografar. Bobagem minha. Ainda mais para uma manhã chuvosa de domingo, quase sem pessoas nas escadas e vielas.

Fiquei impressionado com a organização da favela. Logo de cara, na primeira ladeira, vi um mega estacionamento de bicicletas acorrentadas nelas mesmas (ou seja, com a roda travada). Na minha cabeça, bicicleta é indício de civilidade.

Um morador me viu andando no pé do morro e, sem que eu dissesse nada, me indicou onde era a entrada do bonde (que eu realmente pretendia tomar).

Quando o elevador chegou vi que aquilo faz uma diferença enorme para o lugar. O lixo desce do alto para a base da favela de bonde. E isso faz toda a diferença do mundo. Claro que tem lixo nas escadas e nas vielas, mas não mais do que nas ruas do Rio, bem mais sujas do que as de São Paulo (toma essa, Eduardo Paes).

O bonde tem quatro paradas. Saí na primeira, fui andando até a segunda, depois saí de novo e fiquei perambulando por lá. Chovia e estava nublado, então não vi a cidade do alto. E nem gente nas escadas.

Andei um bom tempo. As casas, claro, são todas de alvenaria, algumas têm três andares, e há até mini-edifícios no meio da favela. O segundo andar costuma ser mais largo do que o primeiro, principalmente nas casas que ficam perto das escadas.

O Dona Marta deve ser uma das favelas mais ricas do Brasil, e é evidente que trabalhadores especializados construíram as casas.

Depois de um tempo me enchi de bater perna e fui pegar o bonde para descer.

Em todas as vezes em que esperava o bonde fui abordado por moradores que queriam puxar conversa. Na subida, dois deles começaram falando sobre cachorros, já que tinham três lá. Um dos caras me explicou que cachorros são como gente –as cadelas só deixam os maiores montarem nelas, mesmo que os pequenos se esforcem para agradá-la.

Depois ele me contou como consegue, todos os dias, o mesmo bônus da operadora de celular (eu não entendi).

Na volta, um catador de latas me relatou minuciosamente como encontrou, num desses cestos de plástico na rua, uma sacola com cinco latas de cerveja cheias e geladas. Ele imagina que eram de alguém que queria muquiar as latas momentaneamente para pegar depois. Provavelmente um motorista que se aproximava de uma blitz. Como o bonde demorava a chegar, o morador também fez comentários sobre uma cena que havia visto na TV, um avião caindo e pegando fogo. Eu não sei do que se trata.

Chamou minha atenção o fato de tantas pessoas terem conversado comigo. Nunca conversei com os vizinhos do prédio onde moro há três anos, e nem tenho vontade. Mas gostei de falar com os moradores do Dona Marta.

É evidente que eles sabiam que eu não era de lá. E talvez por isso quisessem que eu me sentisse confortável. Ou então eles são conversadores, mesmo. Ou então trata-se de um motivo econômico: quando saí vi, já em Botafogo, um totem com explicações turísticas sobre o morro -ou seja, turistas de favela, como eu, já são esperados, e turista, claro, é sinônimo de dinheiro. Eu mesmo deixei lá um pouco que gastei com miudezas.

Depois, seguindo o meu programa de turista, fui tomar um banho de mar.

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Ciclista chato reclamando (eu)

Pra mim, Big Me, do Foo Fighters, é um dos melhores clipes dos anos 90. É uma sátira aos anúncios televisivos imbecis na qual a banda, em diversas situações estranhas, é “anistiada” de suas pequenas contravenções (todas justificadas) ao mostrar que consomem uma bala. É como se na cidade houvesse um acordo tácito pelo qual quem gosta da tal “Footos” pode fazer tudo.

Bem, agora meu ponto de babiker ciclista charo: às vezes sinto que todos os motoristas de carros têm um arranjo parecido.

A tolerância dos motoristas com ciclistas é quase nula. Sou fechado inúmeras vezes a cada percurso que faço. Quando um carro quer me ultrapassar, fica buzinando incessantemente atrás de mim. Já cansei de ouvir gente burra dizer que eu deveria estar na calçada (taxistas, principalmente).

Mas motoristas são compreensíveis e tolerantes com os maiores absurdos que carros fazem. O maior exemplo são carros parados em fila dupla sem ninguém reclamar. Mas tem outros. Carros que querem atravessar a outra pista para entrar em outra rua e seguram o trânsito. Imagina se um ciclista faz isso. Se ele segurar um carro que seja vai ser pressionado até. Mas tudo é permitido a um outro carro. Eles gostam de “Footos”.

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