Electronic System é um projeto criado pelo compositor, sintesista e engenheiro de áudio belga Dan Lacksman. Electronic System lançou dois álbuns impressionantes: Tchip Tchip” (1974) and “Disco Machine” (1977). O primeiro se tornou um clássico cult do Space Jazz, ou do Jazz futurista e eletrônico. “Skylab” é uma obra prima de preciosidade infinita, com sonoridades dos modulares Moog (dos quais Dan era grande apreciador), além de timbres de piano e Fender Rhodes. O disco foi “redescoberto” nos anos 2000 e seu preço disparou, atingindo os quatro dígitos, mas há um repress de alto nível, para a nossa sorte:
Da série “como é possível que a versão instrumental não tenha saído”, lembrei outro dia desse marcante Italo-Synthpop “Faces” do Clio (1985), projeto do Roberto Ferrante com a cantora Maria Chiara Perugini. Sempre achei o synth maravilhoso, mas os vocais demasiados cheesy. A versão instrumental jamais saiu oficialmente, ao que parece. Em 2021, com as novas tecnologias, isso foi possível. E a versão ficou sensacional:
Neste sábado 14/03, teremos um evento especial do Electronic Standards na Expo Musica Eletronica na DJ Ban, 16h, na R. Carlos Sampaio, 53, Bela Vista. Haverá participação especial de alguns especialistas na história da Musica Eletronica, entre os quais Paulo Beto (Anvil FX) e Marco Andreol (FONTE). Fica o nosso convite!
Este projeto britânico de Boogie Funk, capitaneado por Larry DeRoy e Roy Simmonds, lançou umas obras impressionantes no início dos 80, entre as quais “Call Of The Heart” e “I Like It”, diferente do projeto homônimo dos EUA (de “Fly Girl” e “Together Forever”). Ouvi “I Like It” pela 1a vez em blogs obscuros dos anos 2000, e um deles mencionou que esta obra de classe fez muito sucesso na cena francesa de Funk (além, é claro, de Inglaterra e EUA). Deixo vocês aqui com a versão instrumental:
Vivi An é uma das mais sensacionais DJs do Brasil. Exímia pesquisadora e host do programa EXP, Vivi An traz brilhantes repertórios musicais que são absurdamente ousados e dedicados a uma ampla gama de gêneros musicais eletrônicos, assim como é a estética sonora do EXP, hospedado mensalmente na rádio Veneno. Seu mergulho constanter em novas sonoridades refletem um trabalho que jamais se limitou em trilhar um único estilo, pelo contrário: sua capacidade singular de transitar por uma diversidade de gêneros musicais dentro uma perspectiva distinta de repertório faz dela uma figura essencial no cenário da musica eletrônica. Seus repertórios são um convite à potência sonora criativa e de grande energia para as pistas de dança, com variações de sofisticadas nuances atmosféricas, construindo sua jornada musical a partir de uma conexão genuína com a música. Queria deixar com vocês o mais recente EXP dela, que está sensacional:
Me lembro de ter achado esta coletânea, se não me falha a memória, na Sonzera, loja interessantíssima localizada na Gal. Nova Barão. Esta coletânea trouxe o que havia de mais interessante em matéria de música eletrônica e de vanguarda no ano de 1964. Curiosamente, aqui é uma das primeiras vezes em que aparece o nome da Wendy Carlos (ainda chamada “Walter Carlos”), com uma obra chamada “Variations for Flute and Electronic Sound”, com seis variações, cuja 3a era inteiramente eletrônica. Outra obra surpreendente é a de Andres Lewin-Richter, “Study No.1”, composiçao totalmente eletrônica que busca sonoridades instrumentais, com momentos de tensão e relaxamento, bem experimental.
Como surge o processo de criatividade sonora? Neste álbum de 2017 pela Leisure System, Dopplereffekt, composto pela dupla Gerald Donald e Michaela To-Nhan Bertel, traz uma estética sonora absurdamente futurista com meticulosa interação de elementos, camadas e sobreposições. Primor timbrístico, em uma obra prima do Sci-Fi interplanetário. Até hoje, há quem discuta o que acontece com o artista durante o processo de composição sonora. Falarei sobre isso em uma das próximas edições do Electronic Standards Psychoacoustics – Uma Viagem Ao Mundo da Psicoacústica…
Andreas Gursky. May Day III (1998), 188 x 222 cm, Sprüth Gallerie, Colônia, Alemanha
Uma reflexão sobre cultura, economia e as escolhas que fazemos no dia a dia
Você já parou para pensar na relação entre a música que ouvimos e aquilo em que acreditamos politicamente? Pode parecer um salto grande, mas essa conexão existe e merece nossa atenção — especialmente num momento em que tantos debates importantes acontecem na sociedade.
Vamos começar com uma cena familiar: você está em casa, talvez preparando o almoço ou cuidando do jardim, e coloca uma playlist para acompanhar o dia. Quem está tocando? Pode ser Beyoncé, Taylor Swift, Bad Bunny ou qualquer outro grande nome da música internacional. São artistas talentosos, que fazem sucesso merecido e nos emocionam. Nada de errado nisso.
Mas e se eu dissesse que existe uma conversa mais profunda por trás desse hábito aparentemente simples?
O que vemos e o que não vemos
Quando o debate público sobre música chega até nós, especialmente nos círculos políticos e progressistas, ele geralmente gira em torno de perguntas como: “Esse artista é progressista?” ou “O que ele disse sobre o governo atual?”. Analisamos declarações, gestos simbólicos, posicionamentos públicos. E isso é importante, claro. Faz parte do nosso papel como cidadãos atentos.
No entanto, essa forma de ver a música deixa de lado algo fundamental: a estrutura econômica que sustenta esses grandes nomes e, principalmente, o que acontece com tudo que está fora desse circuito principal.
Imagine um grande iceberg. O que vemos na superfície são os artistas famosos, os shows gigantescos, as premiações. Mas debaixo d’água existe uma imensa estrutura que mantém tudo isso funcionando — e, paradoxalmente, que vai sufocando alternativas menores e locais.
A economia por trás da música
Nos últimos anos, o modelo da indústria musical mudou radicalmente. Antigamente, tínhamos gravadoras médias e pequenas, lojas de discos de bairro, rádios locais que tocavam artistas da região, festivais comunitários. Existia um ecossistema diverso que permitia que músicos — muitos deles vizinhos nossos — conseguissem viver de seu trabalho, mesmo sem alcançar fama nacional.
Hoje, vivemos na era do streaming. Plataformas como Spotify, Apple Music e Amazon Music concentram quase todo o consumo musical. Elas pertencem a algumas poucas corporações gigantescas. Para você ter uma ideia, cerca de 90% do mercado fonográfico mundial está nas mãos de apenas três grandes grupos.
O que isso significa na prática? Significa que quando você paga sua assinatura mensal de streaming, a maior parte desse dinheiro vai para os cofres dessas corporações e para os artistas mais ouvidos globalmente. Os músicos da sua cidade, os grupos locais, os projetos independentes recebem migalhas — quando recebem algo.
O exemplo do Super Bowl
Talvez você tenha visto recentemente os debates sobre o show do intervalo do Super Bowl. Muita gente discutiu se determinado artista foi bem ou mal, se fez algum gesto político, se deveria ou não ter participado. São discussões válidas.
Mas o Super Bowl é também a vitrine perfeita de um modelo de negócio. É um evento que custa milhões para ser produzido, patrocinado por gigantes corporativos, transmitido para o mundo inteiro. Ele representa a concentração de recursos nas mãos de poucos, a padronização do gosto musical, a transformação da arte em produto homogêneo e vendável globalmente.
O problema não é o artista que aceita participar. Como costumamos dizer, ele está apenas jogando o jogo que existe. A questão é: nós, como público, temos consciência desse jogo?
A contradição silenciosa
Aqui chegamos ao ponto central. Muitos de nós nos consideramos progressistas, preocupados com justiça social, com os direitos dos trabalhadores, com a diversidade cultural. Defendemos políticas públicas que apoiem a cultura local, reclamamos quando um teatro de bairro fecha, lamentamos que os jovens não conheçam mais os ritmos tradicionais da nossa região.
No entanto, no nosso consumo diário, alimentamos o sistema oposto. Colocamos nosso dinheiro — e nosso afeto — nos mesmos monopólios que estão asfixiando exatamente aquilo que dizemos valorizar.
Cada real gasto num grande serviço de streaming é um real que deixa de circular nas pequenas gravadoras, nos selos locais, nos músicos da sua cidade, nos festivais de rua. É uma escolha silenciosa, que fazemos sem pensar, mas com consequências muito concretas.
O afeto individual versus a política coletiva
Talvez a parte mais difícil dessa reflexão seja reconhecer que nossas escolhas musicais são profundamente afetivas. Aquela música da Taylor Swift nos lembra de um momento especial. A voz da Beyoncé nos emociona de uma forma que nenhum artista local consegue. É legítimo, é humano, é bonito.
O problema surge quando esse afeto individual nos cega para o impacto coletivo das nossas escolhas. Quando justificamos a concentração de recursos e a precarização dos músicos locais em nome da nossa conexão pessoal com os grandes ícones.
Não se trata de culpar ninguém. Não é sobre fazer você se sentir mal por ouvir seus artistas favoritos. Trata-se de trazer à consciência algo que normalmente fica invisível: que o consumo cultural também é um ato político, mesmo quando não percebemos.
O que podemos fazer?
Reconhecer essa contradição é o primeiro passo. Depois, podemos começar a pensar em pequenas ações concretas:
· Conhecer e valorizar os músicos da sua cidade ou região · Quando possível, comprar música diretamente dos artistas ou em selos independentes · Frequentar shows locais, feiras culturais, eventos comunitários · Estar atento à concentração econômica no setor cultural · Conversar sobre esses temas com amigos e familiares
Não se trata de abandonar completamente o consumo dos grandes artistas — eles também são trabalhadores, também merecem nosso respeito. Mas podemos buscar um equilíbrio mais consciente, que não sacrifique a diversidade cultural em nome da conveniência.
Conclusão
A música sempre foi muito mais que entretenimento. Ela carrega histórias, identidades, formas de ver o mundo. Num momento em que tanto se discute política, justiça social e direitos, talvez valha a pena olhar com outros olhos para nossa playlist.
Afinal, a forma como consumimos cultura diz muito sobre quem somos — não apenas como indivíduos, mas como sociedade. E se desejamos um mundo mais diverso, mais justo, mais rico culturalmente, precisamos começar a construí-lo também nas escolhas aparentemente simples do dia a dia.
Que tal, da próxima vez que for colocar uma música, pensar não só no que você quer ouvir, mas também no que sua escolha pode significar para o músico da esquina, para a cultura da sua cidade, para a diversidade musical que tanto dizemos valorizar?
Enquanto aguardamos o desdobramento tenso do Oriente Medio e choramos a partida da Deusa Éliane Radigue do nosso plano, vamos dessa obra prima, que também fez parte da célebre col. Ultimate Breaks & Beats, que mudou a história da música. Bless the Funk!
Todo o universo da música eletrônica está de luto. Perdemos uma das nossas grandes Deusas neste plano. Sua persona se transforma naquilo que ela sempre amou: ondas sonoras, cujas frequências reverberão para sempre.