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Não tenho nada contra o trabalho silencioso, diligente e realizado por outras pessoas.
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terça-feira, julho 22, 2008
sexta-feira, agosto 19, 2005
Uma vez que me encontro num desemprego dos mais sentimentais, considero de bom tom vir a público informar aos desinteressados leitores que, não tendo mais escrotório onde realizar gestões utilíssimas ao povo todo e também a seus adjacentes, acabou-se por ora o impulso juvenil de aqui publicar reminiscências quaisquer. Obrigado por, a princípio, não retornar. terça-feira, julho 19, 2005
AY, MI DIOS, ENGORDÉ Nesta Data Querida vai fazer três apresentações no Chile com texto traduzido para o espanhol. Parabéns a toda a equipe. Para quem foi - ou não foi - um trechinho. "Erre – Pero nosotros vinimos, Antonieta. ¡y la fiesta está buenísima! Vamos a hacer lo siguiente: ¿por qué no conversamos un poco sobre nosotros? Apenas nos conocemos. Rosa – Pero yo ya estoy conversando, Erre... Erre – Por ejemplo, tengo un amigo que se llama Ache. Rosa (parando de llorar) – ¿Cómo? Erre – Ache. Él trabaja aquí cerca, en un club nocturno de travesti. Rosa – ¿De travesti? Erre – En un club nocturno de travesti. Ache tiene un novio, un moreno grandote, de esos enormes, que se acuestan encima tuyo y sientes el peso. (Se entusiasma y se sienta en una silla, demostrando) Bueno, un día, mi amigo estaba atendiendo a un japonesito que trabaja en el Mercado Central, cuando llegó el negro. Cuando vio a la novia con otro, el tipo saco un cuchillo y atacó al japonesito. ¡Veinte puñaladas! Salió sangre para todos lados. Y el pobre japonesito... murió. Rosa – ¿Murió? Erre – (Ríe, nervioso) Murió, Antonieta, ¡murió! Entonces, yo pienso: uno no conoce a las personas para nada. ...para nada. Rosa – No conoce, no conoce..." quarta-feira, julho 06, 2005
Caso não esteja suficientemente divulgado. FESTA De: Lessa, Joana, Pedro Meyer, Lola, Mary, Marina. Onde: Blackmail (Pernambuco com Gonçalves Dias) Com: Show imperdível de Zackaa Zoo. Quando: 16 de julho, sábado, a partir das 22hs. Todos convidados. sexta-feira, junho 10, 2005
LORD OF THE MEATS (Parte 3) E o Gordo é o Rei A gordura traumatiza as pessoas. É uma pena. Eu, se gordo fosse, seria feliz. Sentiria menos frio. Dormiria confortavelmente no chão. E transaria com mulheres magras sem o receio de quebrar a bacia. Sempre fui um entusiasta da gordura. Gordura, pra mim, é sinal de fartura material. E de nenhum esforço físico. Todo gordo me parece um bon vivant. E quanto maior a sua barriga, melhor ele vive. O gordo enxerga o mundo de uma maneira particular. De uma maneira gorda. Onde a maioria das pessoas só vê um pedaço de pau, o gordo se pergunta se era picolé, pirulito ou churrasquinho. E eu não poderia deixar de discorrer, ainda que brevemente, sobre a especialidade mais célebre do gordo: a simpatia. Lembro-me da vez em que fui transferido para um colégio diferente. Tinha lá meus onze anos. Demorei muito pra me entrosar com o pessoal. Ficava todo sozinho num banco, até que certo dia um gordo me abordou. Batemos um papo excelente e eu finalmente me senti acolhido. Durante duas semanas, conversamos sobre as nossas vidas. Eu falava pra ele sobre a solidão e ele me dizia do sofrimento de ser gordo. Chegou a confidenciar-me eventos ridículos de sua vida obesa: ficava preso em frestas de toda sorte. E desde então eu me condôo dos gordos. Quando conheci outras pessoas no colégio novo, abandonei o gordo, é claro. Passei a fingir que nem o conhecia, tenho que dizer. Porque o destino natural do gordo é falhar. Mesmo quando se dá bem profissionalmente, o gordo acaba saindo das festas da empresa todo sujo de comida. Nos aniversários infantis, é sempre ele a pelejar com as crianças pelos brigadeiros. Coloca-se ao lado da mesa e fica dando barrigadas nos menores, afastando-os do local. Sem falar nas decepções amorosas dos gordos, acumuladas às toneladas. O gordo sempre acha que a menina que lhe é simpática tem necessidades afetivas. E sempre se engana. Eis o problema essencial do gordo: tudo pode, potencialmente, traumatizá-lo. Amontoam-se os casos de gordos que quebraram cadeiras, enguiçaram elevadores, afundaram canoas. Mas o pior, o pior mesmo, é ser rejeitado por prostitutas. Sei que este é um assunto delicado. Estou consciente de que falar sobre prostituição em rodas que não sejam exclusivamente masculinas é suicídio social. Mas eu sou um suicida incorrigível. Costumo afirmar em qualquer ocasião que a falta de comprometimento afetivo e espiritual na cópula é a pedra filosofal peniana. E tenhamos bom senso, prezada leitora. Você também usufrui os serviços prestados pelas prostitutas! Se todo homem solteiro os utilizasse, você nunca mais teria que dizer “ele só queria sexo comigo”. Fosse o caso de o homem solteiro só querer sexo e ele teria ido a um prostíbulo. Numa sociedade ideal, os homens que chegassem até você para pedir beijos estariam automaticamente oferecendo amor, carinho, afeto, cumplicidade (e outras coisas estranhas de que vocês carecem). Ditinho, por ser gordo, não conseguia resolver seus problemas mais íntimos porque as prostitutas o rejeitavam. Ou assim eu presumia. Se o destino de todo gordo é falhar, por que seria diferente com ele? Voltei à mesa, tomei meu lugar e pus-me a observá-lo. Seus brações largos não se continham no perímetro da cadeira e incomodavam ambas as pessoas que se sentavam a seu lado. Fracassara em tudo na vida, menos na questão financeira. Tinha muito dinheiro e seus hábitos refletiam isso. Migalhas no entorno de sua boca; manchas de gordura em sua camisa – Ditinho só fazia duas coisas na vida: comer e trabalhar. Eu me sentia orgulhoso. Mais uma vez tinha contribuído com as leis universais que animam o fracasso das pessoas obesas. Eduarda, eu tinha certeza, não iria querer envolver-se com um gordo que tivesse por hábito o alívio dos gases em público. Quando ela voltou, Ditinho percebeu e jogou um olhar ligeiro. Logo percebi o pânico no rosto de Eduarda, que tomou assento na cadeira diametralmente oposta. Pouco depois, Joana sentou-se ao meu lado com a emblemática expressão de chacota. A festa tinha, finalmente, voltado ao normal. “E aí, Lessa? Gostou da carninha?” A voz era do anfitrião, que me falava pelas costas. “Ótima.” “Então você vai experimentar essa aqui. É a minha predileta.” Quando me virei e vi que ele trazia outra panela de alumínio nas mãos, o pânico se apoderou da minha pessoa. “Mas a sua predileta não era a outra?”, perguntei desesperado. “Eu estava mentindo. Essa é a melhor.” “Eu... Eu...” “Tá afim, Ditinho?” “Claro! Manda pra cá um pedaço”, e fincou um cubinho de carne, levando-o à boca. “E aí? Tá gostosa ou não tá?”, perguntou o anfitrião ansioso. Meu futuro residia no veredicto de um gordo. Era óbvio que ele ia dizer que estava excelente. Mas Ditinho não respondeu. Mastigou, mastigou, mastigou, e nada. Todos tinham os olhos nele. Mastigou mais um pouco e, num rompante de fúria, tirou com a mão a carne da boca. “Isso aqui é muxiba pura!”, e isolou o pedaço na grama. O anfitrião, preocupado, abocanhou um pedaço para verificar. “É. Não tá boa mesmo.” O alívio era singular. “Vou dar pros cachorros.” Olhei pra Joana. “Você não disse que aqui não tinha cachorro?” “Achei que não tivesse.” E assim, caros amigos, a noite seguiu seu rumo até o raiar do sol. Depois que os cachorros se saciaram com a carninha predileta do anfitrião, eu concluí que o destino me fizera justiça. E também ao gordo, que, outrora ridicularizado, agora apertava Eduarda contra si, fazendo-a praticamente desaparecer no meio de seus braços moles. Ditinho havia sido o herói da noite e, como naquela ocasião se fizera o único gordo triunfante do mundo, colhia saborosamente os louros da vitória. Lambia Eduarda de todas as formas que existem para lamber alguém. E por um breve momento esquecia-se completamente da existência dos alimentos. Ps.: Dedico esta trilogia a todas as namoradas gordas ou gordinhas que já tive, tenho e terei. sexta-feira, maio 20, 2005
LORD OF THE MEATS (Parte 2) As Duas Cores Não sou contra a carne. Não sou e nem nunca fui. Jamais parei – ou pararei – de comer carne. Vermelha ou branca. Aliás, não entendo a distinção entre carne vermelha e carne branca. Suponho que, um dia, alguém acordou e disse: “Acho que vou dividir todas as carnes do mundo em dois grupos. Em duas cores. As carnes vermelhas e as carnes brancas. Como sou genial!” É uma bela idéia, certamente. Mas vamos por partes. O que é carne vermelha? “Porco e boi” – todo mundo responde. Parece-me uma classificação um tanto simplista. Num grupo, temos o porco, o boi e alguns outros quadrúpedes com casco, como o carneiro, o bode, o cabrito e o cavalo. No outro grupo, temos todos os animais restantes. Por conseguinte, a carne da borboleta é do grupo das brancas, assim como a do caramujo, a da minhoca e a do percevejo. Quando uma pessoa diz que não come carne vermelha, costumo perguntar: “E coelho? Você come?” Geralmente, o rasga-alface fica pensando se leva em consideração a cor da carne do coelho ou o fato de que o coelho é um mamífero. Sem deixar que ele responda, emendo logo outros questionamentos. “E pato? Come pato? A carne do pato é bem escurinha, você não acha?” E antes ainda que ele abra a boca: “E capivara? Avestruz? Jabuti? Javali? Ovo de ornitorrinco? Sapo-boi?” Diante da confusão do acareado, encerro a conversa e concluo que ninguém sabe exatamente o que é carne vermelha. E digo mais. Acho difícil acreditar que comer uma galinha com peitos de Pamela Anderson seja mais saudável do que degustar um leitão à pururuca no natal. Ao passo que o leitão fica muito fofo com aquele bronzeado e a irrepreensível maçãzinha na boca, a galinha Pamela Anderson corre na praia com um maiô vermelho fazendo respiração boca-a-bico nos afogados. Poucas dúvidas me restam, portanto, sobre qual dos dois pratos faz mal à saúde. Mas eu não me importo com a saúde. Eu como qualquer coisa, desde que gostosa. Qualquer coisa menos churrasco. O motivo? Dos mais óbvios: todo mundo (acha que) sabe fazer churrasco. Até meu pai, que mal consegue abrir o pão ao meio pra passar manteiga, diz que sabe fazer churrasco. Saber fazer churrasco, aparentemente, é uma coisa viril, uma coisa de macho. É importante que todo homem tenha o “carimbo-churrasco” de masculinidade. “Olha aqui como eu manuseio esse lombo, meu bem. Olha como eu pego firme nessa coxinha, querida. Vem me ver furar esse coraçãozinho, amor da minha vida.” Analisemos o churrasco com imparcialidade. Por que a carninha preta é sempre a predileta da turba? Não sei. Só sei que a carninha preta, aceitemos ou não, é o quitute nacional. Preta, seca, dura, fibrosa, muitíssimo bem passada. Se o brasileiro come uma casca de árvore torrada, elogia como se fosse miolo de alcatra. Pra ser sincero, prefiro nem conversar com quem gosta de carne bem passada. Gostar de carne bem passada é como gostar de batata frita encharcada de óleo. “Uma porção de batata frita.” “Sequinha, senhor?” “Não, molhadinha. E vê se traz numa cuia, se possível.” Se me permite o leitor, proferirei uma última palavra sobre o churrasco. Nunca tem acompanhamento. “Quer lingüiça?” “Tem mandioca pra acompanhar?” “Não, tem picanha.” Lembro que meu primo tinha uma cozinheira em Ipatinga, de nome Laurilene. Indignado com o fato de que ela cozinhava sempre a mesma coisa para o almoço, ele a pediu que variasse. “Faz umas massas, Laurilene.” Certa feita, quando chegou em casa pra almoçar, viu em cima da mesa uma panela de macarrão, uma lasanha e uma bandeja de ravioli. É exatamente esta a sensação que tenho em churrascos. Tenho várias opções: a carne, a outra carne, a carne diferente, a carne especial e a carne preferida do churrasqueiro. Quando dou sorte, consigo um arroz e uma farofa no fim do evento – só que ambos frios e revoltantemente revirados. Está, portanto, explicado por que não gosto de churrasco. Decidi ir ao sítio do amigo da Joana porque ela havia sido enfática na questão dos petiscos. “Vamos ao sítio de um amigo meu?” “O quê que vai ter pra comer?” “Petiscos.” “Que petiscos?” “Castanha de caju, azeitona, salaminho, essas coisas.” “Vamos, claro.” Só que eu não conseguira ficar só nos petiscos. A insistência do anfitrião me constrangera a tal ponto que fui obrigado a enfiar na boca um pedaço de carne tenebroso, que eu não conseguia engolir. Coloquei-o na mão direita, depois na esquerda, e estava agora esperando que a Joana entrasse no banheiro para me passar o papel higiênico. Com o papel higiênico eu enrolaria o cubinho esponjoso do mal, e o repassaria pra ela, tudo pelo pequeno basculante. Enfim, ela jogaria o embrulho na lixeira e estaria tudo acabado. Quando ouvi a sua voz depois que o nojentão da mão suja saiu, entendi que era o momento certo e enfiei a mão no basculante para pegar o papel. “Não, Eduarda, eu preciso ir sozinha.” “Mas eu tenho que te falar uma coisa, Joana.” “Não, Eduarda, quero usar o banheiro sozinha.” “Quê isso, Joana? Eu PRECISO te contar uma coisa.” “Não!” “É babado dos bons!” E nenhuma mulher resiste a um babado dos bons. Joana deixou a amiga entrar e eu tirei a mão do basculante, apressado. Agora eu estava decidido a ouvir o babado. Sempre quis saber que tipo de babado as mulheres confiam às outras nos banheiros mundo afora. Estiquei as orelhas. “Sabe aquele menino que está sentado do lado da Raquel?” Sim, era o que eu sempre havia desconfiado. “O Ditinho?” “É.” “Sei.” “Tá me olhando esquisito.” “Esquisito como?” “Esquisito, Joana! Esquisito!” “Sei. E aí?” “Será que...?” “Será que o quê, Eduarda?” Dava pra perceber que a Joana estava sendo grossa com a amiga – ela sabia que o pedaço de carne malévolo tinha que ser dispensado. “Será que eu dou bola?” “Sei lá, Eduarda! Você está a fim?” “Não sei.” “E eu vou saber?” “Uai...” “Então tá. Eu acho que você deve dar bola, esperar que ele chegue pra conversar com você e só então dizer que não, que tem planos melhores para a vida.” “Credo, Joana!” “Está decidido, Eduarda. Decidi por você.” “Mas você não acha que ele é bonitinho?” E aí eu perdi a paciência. Não, o Ditinho não era bonitinho. Era um monstro gordo que vendia produtos químicos para lustrar pneus ou algo parecido. Era metido e não era engraçado. Sobretudo, tinha muito mais dinheiro que eu. Em resumo: o Ditinho era péssimo. Andei para longe da janela, no intuito de fingir que não estava ali há muito tempo, e gritei: “Joana!!! Joana!!!!” E lá de dentro: “Oi?” “Onde você tá?” “No banheiro!” “Preciso de um papel higiênico! Meu nariz está sangrando!” “Vou te passar pelo basculante!” Enfiei de novo a mão no basculante e recebi o papel higiênico. Reservei-me, contudo, um pequeno comentário final. “Joana?” “Oi.” “Sabe o Ditinho?” “Sei.” “Pois é, soltou um punzão muito fedorento na mesa.” “Que nojo!” “E barulhento! Todo mundo ouviu.” “Credo!” “Foi vergonhoso, Joana. Vergonhoso. Valeu pelo papel.” Embrulhei a carne e, sabendo que não podia devolvê-la pelo basculante sem que a Eduarda percebesse a falta de vermelhidão no papel, voltei à mesa. Coloquei o pacotinho no bolso e dei um gole na minha cerveja, que a esta altura já estava terrivelmente quente. (Continua) segunda-feira, maio 16, 2005
LORD OF THE MEATS (Parte 1) A Sociedade da Carne Escondido na sombra de uma meia árvore, eu procurava algum lugar para atiçar aquele maldito pedaço carne que tinha na bochecha esquerda. Estava na minha boca havia mais de dez minutos. Tinha sido preparado pelo anfitrião, o próprio dono do sítio. Com uma panela de alumínio na mão e a expressão de cozinheiro realizado, ele oferecera: “Essa é a minha predileta. Aceita, Lessa?” E eu, apontando a castanha de caju, “gosto de tira-gosto.” “Essa carninha é tira-gosto, porra! Come aí.” Sem jeito e sem vontade, alcancei um palito. Ignorante do que a minha vida se tornaria daquele momento em diante, finquei o pedaço menos antipático da panela e o levei à boca. Mastiguei-o durante meio minuto, sorrindo. Não estava ruim. Mas o pedaço não cedeu, e fui obrigado a forçar mais os dentes. Por volta do terceiro minuto de mastigação, minha mandíbula começou a doer. A carne já tinha perdido o gosto, o suco, a textura. Pensei comigo: “tentarei engolir esta merda inteira, seja o que Deus quiser”. Fiz um glupt induzido e engasguei. Quase vomitei. O naco jamais passaria pela minha garganta. Levantei afobado. O anfitrião tinha os olhos em mim. Ergui o dedão como se dissesse “muito saboroso o seu petisco”, e ele sorriu. O problema não era um fiapo de nervo. A carne não partia pela metade, não esfarelava, não derretia. Era um bloco compacto e uno – um agente do mal. Era a “um-carne”. Tinha tomado uma consistência esponjosa e perdia umidade progressivamente, de tal forma que a secura da coisa apoderava-se mais e mais do meu espírito. De vez em quando meus olhos ficavam foscos, e eu repetia pra mim mesmo: “É um fardo. Um fardo muito pesado.” Procurei uma lixeira. Os banheiros estavam ocupados e a cozinha, cheia de gente. Voltei à mesa e olhei nos olhos de cada uma das pessoas, procurando expressão de solidariedade qualquer. Para a minha surpresa, estavam todos elogiando a comida. “Que tempero.” “Que sabores exóticos.” “É coisa de gourmet!” Indignado, decidi que o melhor a fazer era oferecer o pedaço sinistro a um cão faminto. Todo sítio tem cão. E cão come qualquer coisa. Cão é bicho feliz. “Cão achará uma delícia essa merda aqui.” Assobiei e nenhum cão apareceu. Meus olhos reviraram mais uma vez e meu estômago gritou “burrrrden”. Pensei em jogar o pedaço de carne no chão. Livrar-me dele, simplesmente. Mas o lugar era todo gramado e havia o risco de alguém achar aquilo no dia seguinte. Ou de pisar enquanto estivesse jogando peteca. Cogitei esconder o pedaço de carne debaixo de algum móvel. Nisso eu tinha experiência. Quantas vezes jogara fora a maçã que mamãe colocava diariamente na minha merendeira. No telhado, no armário, na gaveta, no vaso sanitário. Mamãe conseguiu, dizendo “come tudo, Guilherme”, povoar o mundo de maçãs rejeitadas. O ponto é que o pedaço de carne era uma espécie de césio 137. Eu não podia escondê-lo em algum lugar sem que chamasse atenção ou matasse uma garotinha de doze anos. Parei num canto da casa, debaixo de uma meia árvore. Cuspi a carne na palma da mão. Era nojenta. Acendi um cigarro pra relaxar. “Estava te procurando.” “Quase me mata do coração, Joana.” “Quê que você está fazendo aqui?” “Nada. Só pensando.” “Pensando em quê?” “Na vida, na vida. Não tem cachorro aqui?” “Não.” “Tem certeza?” “Tenho. E desde quando você pensa na vida?” “Desde agora.” “Chegou a alguma conclusão?” “Não. Só que a vida é engraçada. Você mastiga, mastiga, mastiga e nunca consegue engolir.” “Quê que deu em você?” “Sei lá. Acho que virei baiano. Já viu como baiano adora metáfora?” “Já.” “Aquele cara que ganhou o Big Brother, lembra do tanto de metáfora que ele falava?” “O problema é que ele não era só baiano.” “É verdade.” “Ele era baiano ‘barra’ professor de literatura.” “Baiano ‘barra’ professor de literatura ‘barra’ outras coisas de âmbito metafórico.” “Pois é.” “Sabe onde tem um lixo?” “Na cozinha.” “Fora o da cozinha.” “Nos banheiros.” “Fora o dos banheiros.” “Pra quê você quer o lixo?” “Pra jogar fora isso aqui.” E mostrei o objeto mastigado, babado, cinzento. “Eca. Quê isso?” “A carne do seu amigo.” “Não parece carne.” “Mas é. É uma carne má.” “E quê que tem a carne má?” “Dura! Não dá pra engolir.” “Você não costuma comer carne em churrasco...” “Ele me obrigou.” “Onde você vai jogar isso?” “Tenho planos. Precisamos criar a Sociedade da Carne, em que cada um carrega o fardo um pouco.” “E como funciona a Sociedade da Carne?” “Você fica na fila do banheiro e eu fico aqui. Aí você entra no banheiro, eu te passo a carne pela janela e você joga fora.” “Eu não vou pegar nessa coisa.” “Tá bom. Você entra no banheiro e me passa um papel higiênico pela janela. Eu enrolo a carne no papel higiênico e te passo de volta. Pode ser?” “Pode.” “Ótimo.” “Por quê que você não fica na fila do banheiro?” “Com a carne na mão? E se eu tiver que cumprimentar alguém?” “Tá bom. Eu vou.” E saiu. Enquanto esperava que ela entrasse no banheiro, passei a carne de uma mão para a outra. Na ausência de cachorro, procurei uma galinha. Não achei galinha. Acendi outro cigarro. Pensei no anfitrião e decidi que não gostava mais dele. Eu estava bem, eu estava quietinho comendo a minha castanha de caju antes de tudo acontecer. Mas sempre tem o cara da carne. “Prova.” Você diz “não, obrigado”. E ele insiste. “Anda, prova aí.” Eu detesto o “anda, prova aí”. Detesto especialmente o “anda”, porque parece que, além de provar, eu tenho que andar rápido. --- Súbito, a descarga do banheiro – sob cuja janela eu me escondo – é acionada. Tremo de apreensão e fico atento aos mínimos ruídos. Descubro que a pessoa que está lá dentro lava as mãos rápido demais e que, portanto, é indesejável à convivência. “Depois pergunto pra Joana quem saiu do banheiro antes dela entrar.” O ranger da porta se abrindo coloca-me em posição de alerta máximo. Ouço a voz da Joana e penso comigo: “é agora.” (Continua) terça-feira, maio 10, 2005
ANTIPATIA CIRCUNSTANCIAL Raramente antipatizo com alguém. Pessoas estúpidas dificilmente me incomodam. A burrice, como o sabem todos, é fonte inesgotável de inspiração para poetas, políticos e, especialmente, comerciantes. Pelos chatos, cultivo certa compaixão. Chatos nascem chatos, e criticá-los é como reclamar da pessoa que tem uma pinta cabeluda no braço. Quanto aos feios, bom, aí também não. Tem limite pra tudo. Dá pra conviver com uma pessoa feia, mas não com uma muito, muito feia. O mesmo vale para os bonitos. Beleza demais é esquisitice e, portanto, é insuportável. O fato é que desgosto de muito poucas pessoas. O que não significa que eu queira dividir a minha mesa de bar com quase todo mundo. Não. Não é isso. Mas divago, como de costume. Procrastino desimpedido e feliz, como exige minha natureza diletante. O que quero dizer é que não detesto ninguém por suas ações. São, antes, as “circunstâncias” de uma pessoa que me levam a detestá-la. Não há nada de errado no ato de comer mexericas, por exemplo; mas se entro num elevador e tem alguém comendo mexerica, passo a odiar a pessoa. Ninguém tem culpa de estar à minha frente na fila, mas sempre acabo com o mesmo raciocínio interior: “Que nuca ridícula. Que bunda ridícula. Essa pessoa é toda ridícula por trás. Tenho pena dessa pessoa. Ela é horrível.” Nunca houve e jamais haverá, em qualquer sala de espera – seja de médico, dentista ou cromoterapeuta – um ser humano simpático. Pessoas sentadas no ônibus lotado são igualmente péssimas, ainda que tentem disfarçar o espírito vil oferecendo ajuda para segurar as coisas dos que estão de pé. Os clientes que são atendidos antes de mim no restaurante, não resta dúvida, deviam ser queimados vivos. E quem quer que esteja a menos de dois metros da minha cadeira no cinema ou no teatro é um idiota irremediável, sendo sua idiotice proporcional ao tamanho do saco de pipocas que tem no colo. Em suma, e acho que me faço claro, as inimizades e as antipatias são fruto do acaso besta e não de posicionamentos divergentes acerca das grandes questões da humanidade. Este o motivo pelo qual sempre me pego no mesmo diálogo. “Não gosto de Fulano.” “Que estranho. Fulano é tão legal.” “Fulano é legal mesmo. Odeio ele com todas as minhas forças.” “Mas por que?” “Não sei. Só quero que ele tenha um enfarto agora e morra.” quarta-feira, abril 13, 2005
EM FAVOR DA SOCIEDADE DIVIDIDA A seriedade estraga as pessoas. No último fim de semana, eu tive umas cinco piadas avacalhadas por uma moça. Tudo nela era sério. Os pés dela eram sérios, o joelho dela era sério, a cintura era absolutamente irredutível. Minha sorte foi a manga comprida. Um sovaco austero teria me tirado a tranqüilidade necessária para fazer qualquer comentário razoável durante a noite. Pois bem, a moça era séria e, o que é pior, levava tudo a sério. Rigorosamente tudo. Cada vez que eu abria a boca ela já me olhava ansiosa, louca para poder discutir o que eu ia dizer. “Esse comentário é machista.” “Conclusão muito preconceituosa.” “Elitista! Elitista!” E enquanto eu ouvia aqueles berros, dava outro gole na minha latinha e pensava na quantidade de gente que cai no conto do vigário. Que conto do vigário?, você pergunta. Ora, o maior conto do vigário que existe. O único, soberano e seriíssimo conto do vigário da sociedade bonitinha, que faz milhões de pessoas, de ongueiros a vegetarianos, acreditarem na possibilidade da coletividade sem preconceitos, pacífica e harmoniosa. Onde já se viu? Imagine um mundinho onde os pretinhos vivem em harmonia com os branquinhos, que tomam chá com os viadinhos, que por sua vez discutem pacificamente uns pontos de vista com os amarelinhos, que gostam sobremaneira dos velhinhos e velhinhas – todos na perfeita integração cosmopolita de São Sebastião. Imagine isso! Vai contra tudo que me parece razoável. A segregação, de acordo com as minhas análises mais minuciosas, seria um caminho muito mais lógico. Eu não teria que conviver com a mulher barbada, por exemplo, que me dá nojo. Nem tampouco com a Miss Brasil, cuja simples existência já me faz infeliz. A Miss Brasil está para mim assim como o frango assado da padaria está para o faminto. Você olha praquilo. Você se aproxima. Se tiver sorte, você até conversa com aquilo. Aí chega uma hora em que você tem a ilusão de que aquilo nem é tão diferente assim de você. E quando diz que quer comprar, surge um Alexandre Frota da cozinha e arremessa você na calçada, pela janela da padaria. A segregação significaria uma vida com menos sofrimento. Estou errado? Ao nascer, seu primo bem dotado seria logo enviado ao MIT, e lá ficaria, ao invés de encher a sua orelha com considerações estratégicas acerca de um complicadíssimo jogo chinês que você não entende. Isso sem falar no País da Lentidão, que nacionalizaria todos os que transformam as coisas simples do cotidiano em eventos tediosos e demorados. O telefone toca. Eu atendo. “Alô?” “Alô. Fulano está?” “Não.” “Pô, eu achei que estivesse.” Mas, meu deus, pra quê esse último comentário? Qual é o problema do simples e prático “obrigado e tchau”? “Pois é. Ao contrário do que você previu, Fulano não está. A propósito, eu tenho em mãos uma passagem de avião pra você. Sabe pra onde?” Ah, não. Não dá pra conviver com gente assim. Não dá pra conviver com quem é muito diferente. Sabe, eu até gosto dos diferentes. Mas é que eu não combino com eles. A menina do joelho sério acredita numa sociedade aberta. Numa sociedade em que o meu bom humor tenha que conviver gostosamente com todos os argumentos engajados dela. É como se ela dissesse, apontando com aquele indicador de Tio Sam em época de guerra: “Eu quero você na minha comunidade.” E isso não é certo. Não é. Isso definitivamente não é justo. Segregação já! terça-feira, abril 05, 2005
NAÇÃO DE IDIOTAS O que o brasileiro quer? O brasileiro quer estar junto. Nenhum outro povo assimilou tão bem a idéia do “novo associativismo” como o nosso. Nós nos juntamos para fazer qualquer coisa: para invadir propriedades de terceiros, para ver acidentes de trânsito que espalham corpos mutilados pelo asfalto, para gritar “pula! pula! pula!”, para eleger o Lula e para outras tantas saudáveis atividades. Mais recentemente, descobrimos uma nova e excelente maneira de nos juntarmos. Somos, simplesmente, 66,4% dos associados do Orkut. Ou dois terços. Atrás de nós, estão alguns povos igualmente associativos, como os da Índia, do Paquistão e do Irã. O caso é que nós, ao contrário deles, não nos contentamos em “estar” no Orkut. Nosso associativismo é assombroso. 95% das comunidades foram criadas por nós. Nós não queremos apenas “juntar”, nós queremos “pertencer”. Pertencer a um grupo maior, de preferência a um grupo majoritário. Nosso sonho é participar de um gigante grupo cósmico, que a todos envolve. Um grupo de cujo campo gravitacional nada e nem ninguém escapa. Para isso, criamos as comunidades óbvias. Aquelas que fazem o internauta pensar assim: “ Eu também odeio ficar preso no elevador. Eu tenho que participar dessa comunidade!” Há milhares delas, dentre as quais eu posso citar, de memória: “Odeio sentir saudades”. “Odeio barulho de obra”. “Odeio ônibus lotado”. “Eu amo beijar na boca”. E já que eu também sou associativo, além de extremamente brasileiro, pensei em algumas comunidades óbvias que poderiam auxiliar na consecução de nossos mais honrosos propósitos de pertencimento. Eis. “Odeio lamber chão de banheiro”. “Adoro coisa boa”. “Não quero matar a minha filha”. Outras comunidades pelas quais nos interessamos são aquelas de rotina. Aquelas cujo título relaciona-se com nossos afazeres corriqueiros, cotidianos. Elas são criadas da seguinte maneira: imagine que eu fique empolgado e queira criar comunidades de rotina no Orkut. Aí eu compro um caderninho e escolho um dia, sei lá, segunda-feira, para inventar comunidades. Na segunda em questão, eu acordo às nove. E anoto. “Eu acordo às 9”. Minha mãe me oferece um meio mamão no café da manhã. E eu anoto mais duas: “Odeio mamão no café da manhã”; “Minha mãe sempre me oferece mamão no café da manhã”. Saio de casa atrasado para o trabalho. “Sempre tenho que correr pra chegar no trabalho sem atrasar”; “Odeio ter que bater ponto”. Chegando lá, meu chefe me dá um esporro. “Meu chefe odeia que eu chegue atrasado”; “Meu chefe tem TPM”. E assim vai. Calma que eu ainda não acabei. Investigativo que sou, além de essencialmente associativo e muito brasileiro mesmo, consegui identificar ainda outro tipo de comunidade. As comunidades vaidosas. “Eu tenho olhos azuis”; “Sou mulher de peito”; “Adoro meu sobrenome”. E aqui também tenho sugestões a serem consideradas, tais como “Não tenho a perna torta”; “Meu mamilo é rosado”. Para não me estender muito, e dado que este é apenas um estudo preliminar, finalizarei mencionando as comunidades psicológicas. São as melhores. Denunciam os problemas mais sérios de uma pessoa. Outro dia, achei uma formosa rapariga catarinense no Orkut. E então entrei em suas comunidades para ter uma idéia de suas obviedades, de sua rotina e de suas vaidades. Lá pelas tantas, percebi que duas das comunidades dela não eram congruentes. Uma estava no começo da lista, a outra no final. E liam assim: “Durmo com o celular do lado” e “Odeio acordar com telefone!”. Que tipo de pessoa odeia acordar com telefone e dorme com um celular debaixo do travesseiro? Conclusão: nunca fiz contato com a catarinense. Ou seja, o Orkut, por mais que o maldigam, tem lá a sua utilidade. Aliás, o Orkut é excelente nisso de escancarar contradições. A comunidade “Odeio gente lerda”, por exemplo, conta hoje com mais de 82 mil adeptos. E 82 mil adeptos, de qualquer coisa que seja, não podem ser exatamente espertos. Nota final sobre o Brasil, para não fugirmos do tema central do brasileiro, é sobre o Programa da Hebe de ontem. Não que a Hebe não seja surreal normalmente – tente entender o programa só com os close captions e vai finalmente compreender o que é dadaísmo. Mas ontem foi demais. Estavam lá a Valéria Valensa – que a Hebe insistia em chamar de Valéria Ualensa, talvez por causa do “w” que não existe no nome da moça –, o filho da Valéria Ualensa, uma outra mulata-atriz-qualquer e o Ratinho. Eles conversavam animadamente. Sobre um tema banal qualquer? Não, sobre o Papa. A Hebe, o Ratinho, a mulata, o filho da mulata e a outra mulata conversavam sobre o Papa. Lá pelas tantas, toca uma música do nada e todos começam a dançar dança de salão. O programa vai para o comercial e depois eles voltam ao ar, e novamente põem-se a discutir a questão da sucessão do Papa. Enfim, parece-me que Hebe e Orkut são bem representativos das nossas brasileiras preferências. E dá-lhe nós! quarta-feira, março 30, 2005
DAS COISAS QUE SÓ A CAIXA FAZ POR VOCÊ “Tem que pegar senha?” “Não, é por ordem de chegada mesmo.” Caixa Econômica Federal. Savassi. Olho para as cinco fileiras de sete cadeiras. Quase todas ocupadas. “Como vou saber quem chegou antes de mim?” “Pode sentar nessa cadeira aqui, senhor”, e me aponta uma cadeira na última fileira. Sento-me. A dúvida me consome. Como vou saber quando é a minha vez? Devo intuir quem está na minha frente? Ou simplesmente espero o próximo a chegar e concluo que estou na frente dele? Penso. Fico com preguiça de pensar. Espero. De repente, alguém sai do caixa e acontece o que eu menos imaginava – a dança das cadeiras. Acredite ou não, a fila na Caixa Econômica da Savassi funciona assim: quando um caixa fica disponível, a pessoa da primeira cadeira à esquerda levanta-se para ser atendida. E aí, todo mundo pula uma cadeira. Você vai pulando, de cadeira em cadeira, no sentido sinistro. Se a sua fileira acaba, você passa para a fileira da frente e começa a pular no sentido contrário. Ou seja, para ser atendido na Caixa Econômica Federal da Savassi é obrigatório sentar em todas as cadeiras da fila. Ingenuamente, achei que a esquisitice acabava aí. Lá pelas tantas, um camarada pediu que guardassem o seu lugar e saiu da agência. E então ficou uma cadeira vazia mudando de lugar. Ou, por outra, um vazio mudando de cadeira. Fiquei com inveja da menina que estava atrás daquele espaço vazio. Ela sempre pegava a cadeira fresquinha, ao contrário de mim, que sempre herdava o caldeirão deixado pelo obeso cidadão à minha frente. De fato, ir à Caixa Econômica Federal já era uma experiência singular. Agora, é também uma diversão sensorial. Uma verdadeira interação social. Dá pra identificar exatamente quem tem a bunda quente e quem não tem. E isso, meus amigos, isso eu SEMPRE quis saber. Adoro a Caixa. sexta-feira, fevereiro 25, 2005
DA ALEGRIA DE ROLAR E AMONTOAR Desculpem. Não tenho visitado esta casa regularmente. Falta qualquer mobília aqui. A verdade é que tenho jogado muito videogame. Estou viciado em videogame, sempre fui. Mas agora a ponta do meu dedo polegar esquerdo já está toda preta e cheia de calos. A recaída recente tem um responsável: a preciosidade chamada Katamari Damacy. Desde os tempos de Atari e Nintendinho eu não via algo tão fabulosamente criativo. Não se trata de um “jogo”, e sim de uma “experiência”. Mas, enfim, o que é Katamari Damacy? É o fruto muitíssimo bem acabado de uma idéia simplérrima. É a coisa mais alegre e engraçada do universo. É um carinha de cinco centímetros que empurra uma bolinha. A bolinha é pegajosa e os objetos grudam nela. Quanto maior a bolinha, maiores os objetos que grudam nela. Parece imbecil? Bem, é imbecil. Mas é genial. Você começa dentro de casa, pegando alfinetes. Gatos te atacam e avacalham a sua bolinha, fazendo desgrudar dela um punhado de objetos. Mas quando a sua esfera de quinquilharia fica grande o suficiente pra pegar um gato, aí sim, você quer vingança. No meio do caminho, você gruda pessoas, que gritam desesperadas ou caem na gargalhada com essa idéia histérica. E tudo termina no meio de um oceano, onde se pode abocanhar ilhas, transatlânticos, vulcões, polvos gigantes, arco-íris. Não consigo descrever satisfação maior do que a proporcionada por arrancar casas, arranha-céus e rodas gigantes dos seus lugares. E existe, no meio de tudo, um grande truque: a sua bola nunca fica totalmente redonda; um objeto muito longo e fino faz com que ela role de forma peculiar. Nem vou falar da trilha sonora, digna do título de melhor da história mundial, universal e sobrenatural dos videogames. Katamari Damacy é, enfim, melhor do que qualquer filme em cartaz no cinema; melhor do que qualquer CD; qualquer peça de teatro; qualquer parque de diversões. Pela originalidade, é o melhor jogo lançado na última década. Ok, talvez não seja, mas fiquei uma década sem ter um console porque não havia nada que me tentasse tão absurdamente a comprar um. Katamari Damacy conseguiu isso. E não tenho como esconder a euforia. A vida fica bem mais divertida quando você começa a olhar pras coisas e a pensar em como elas ficariam no meio de uma bola enorme, que rola e engole coisas ainda mais enormes. Joguem, comprem, peçam, tenham. Rolem, rolem, rolem, rolem. segunda-feira, fevereiro 14, 2005
CURTINHA “Mas você vai ter que mudar pra gente funcionar junto.” E depois de oito meses e meio: “Você não era assim quando começamos. Não te reconheço mais.” -- quarta-feira, janeiro 26, 2005
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