I
Era uma manhã modesta. P. abriu a porta de casa e sentiu a pouca brisa que pairava. Num gesto, desviou as moscas que rapidamente se apoderaram do cheio a podre que emanava. Nos seus olhos já se havia avistado a sentença à muito tempo. P. cheirava a morte. Deu alguns passos em direcção ao tanque cinza que se encontrava perto da porta. Lavou as mãos na amostra de água tépida que lá existia. Suspirou. Olhou para o seu peito e verificou que lhe faltava um botão na camisa suja. O esforço da noite anterior justificava esta ausência. Voltou a olhar em frente e reflectiu nos tais eventos ocorridos antes do sol nascer. P. nunca se arrependera de nada em toda a sua vida. Sentia agora o sangue seco entre os seus dedos. Olhou para o sol, franziu a testa e sorriu. P. gostava da vida que levava longe da cidade. Apenas na noite anterior havia sentido a falta de tacto alheio. Voltou-se em direcção à porta de casa. Coçou a barba áspera com a mão esquerda, e voltou para dentro. Para P., era agora tempo de enterrar o corpo da jovem que havia morto à umas horas.
II
Ao arrastar o corpo da jovem pela cave, sentiu-se curioso. Não lhe havia perguntado o nome. P. nunca fora de grandes palavras. Tudo o que sabe aprendeu na infância, e baseava-se apenas em sobrevivência. O resto não constava de uma necessidade. Era agora tempo de subir as escadas. P. repara nos solavancos que o corpo da rapariga faz ao embater nos degraus. Posteriormente repara na tez da sua pele. O roxo escuro havia roubado a anterior palidez da jovem. Ao chegar ao rés-do-chão da casa, faz uma pausa para descansar. Limita-se agora a olhar para a jovem. A sua blusa tem um rasgo, que permite visualizar um dos seios. P. olha fixamente para o mesmo. Nunca tinha estado intimamente com uma mulher.
III
Terra húmida a ver pela primeira vez a luz do dia. “Um funeral ingrato”, pensou P., enquanto cavava uma vala junto à cerca. A viagem do corpo da jovem até ao fundo do buraco. O embate seco. A primeira mão cheia de terra em cima da cara. P. sentia bastante calor. Ao limpar o liquido que lhe escorria pela testa, pensou pela primeira vez na jovem sem rosto cujo corpo entregava à natureza. Antes de terminar de colocar toda a terra, aproveitou para lançar umas sementes ao chão. “De certo que não se importaria”, pensou P. no cume da ingenuidade.
IV
Meses passaram. As rosas floriram. O barulho de um ou outro carro ao longo. Pessoas a pé, nem vê-las. Dois a três cães vadios em busca do cheiro a uma refeição caseira. P. continuava sozinho, olhando para o único pedaço de cor que jazia no seu jardim. Todas as tardes visitava a sua roseira. Para P. esta era toda a companhia de que precisava para se sentir vivo.
V
Passos. P. sentiu uma presença atrás de si. Uma mulher junto à cerca. “O que quer de mim?”, perguntou P. “Desculpe a intromissão, mas é a única pessoa que vejo em quilómetros. O meu marido, o meu marido está no carro à minha espera. A estrada não vai até à sua porta…”. P. sentiu os seus músculos a contrair. Toda esta conversa fez com que o seu coração batesse mais rápido. Não entendia. “A minha filha…”, disse a mulher. P. continuou a escutar, embora para ele fosse claro o que viria a ser dito a seguir. “A minha filha, desapareceu há meses. A policia não quis continuar as buscas. Mas eu não desisto.”. A partir desde momento, P. tornou-se surdo. O que quer que foi digo nos minutos seguintes, foi silêncio para ele. Na sua cabeça surgiam imagens nítidas, pela primeira vez na sua vida. Recordava o passado, a sua infância. Talvez durante esses minutos a mulher fez uma descrição da filha. Talvez perguntou se P. a tinha visto. Talvez perguntou se P. sabia onde ela estava. Talvez. O único instinto de P. foi negar. Negar o que quer que fosse. “São lindas.”. Neste momento, P. voltou a ouvir. “São lindas, as rosas.”, disse a mulher, com uma esperança plantada no olhar. P. tirou uma faca do bolso esquerdo. A mulher deu um passo atrás e fechou os olhos por uns segundos. “Tome.”. P. estendeu o braço. A mulher abriu os olhos e viu uma rosa vermelha. “Obrigada, e uma boa tarde para si.”. P. viu a mulher afastar-se. Guardou a faca quando já não a via. Contemplou de novo as suas rosas.
V
No resto da sua curta vida, P. nunca mais conseguiu manter nenhuma flor. As suas rosas nasciam e morriam a uma velocidade impressionante. Naquele quintal, morreram para sempre flores. E um dia , morrera também uma menina.



