[sobreventos]

O vento se dispersa pela sua rapidez ou é apenas sua característica?

[reflexões em “ré” menor, 27 de agosto de 2020]

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Tomada 1

Percepções vindas da análise sobre violência sexual infantil, minhas próprias.

A observância do interno me fez pensar que:

a) sim, havia prazer e eu desejava;

b) sim, havia dor e eu o odiava;

A observação externa me fez pensar que:

a1) não tenho direito a sentir aquele prazer;

a2) não tenho direito à sentir desejo por ele;

b1) havia desejo

Havia fascinio

Havia flerte pela liberdade

Eu queria me libertar da primeira pessoa que me violentou (não sexualmente, mas com intensidade igual ou superior): minha mãe, que suponho que tenha sido violentada também (e o peso de falar? antes, melhor, em sua opinião, guardar pra si).

Havia morbidez

Havia sujeira

Havia de esconder

Havia…

Written by Marcos Corrêa [Kiambu]

[15, julho | 2021] at [4:14 am]

Publicado em [brisas leves]

[em transe, não publicado em janeiro de 2020]

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Este texto nasce hoje, após a análise.

Ele é trazido também a partir de uma longa sensação de fracasso, que já acompanha meu mergulho na análise desde antes. Mas definitivamente está associado a um acontecimento recente, ocorrido ontem no Inzo. Manifestei fisicamente um transe em Nvunji.

Não entraria aqui em valores associados às críticas externas (de qualquer fonte) sobre o fato, mas a sensação de sentir isso de perto foi absolutamente prazerosa. E é flertando com isso que me motivou a escrever hoje, resgatando pensamentos de ao menos 2 semanas. 

Na esteira desse processo, uma sensação muito longa de incompletude. Um pensamento insistente na ideia que também tomou forma hoje: “o ser humano é um ser dotado de consciência de si e age unica e exclusivamente pra satisfazer seu prazer” (elaborado mais ou  menos assim).

Ruby, the drag queen

Sensação de pai, paternar.

Written by Marcos Corrêa [Kiambu]

[15, julho | 2021] at [4:10 am]

Publicado em [brisas leves]

[descuidos, não publicado em 31 de agosto de 2018]

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Este pobre blog é o próprio descuido… Reflete um pouco o descuido do seu criador.

Sua idealização, num momento de grande angústia pessoal, é fruto do relacionamento do seu dono com o mundo e com as coisas que o angustiava desde 2006. Passo do tempo, das dinâmicas que a vida impõe, foi sendo jogado para segundo plano. Doze anos se passam desde sua primeira publicação e pareceu-me necessário retomar você hoje, num sobressalto da madrugada, fruto da angústia que agora dá sinais de existir.

Em 2006, junto às angústias pessoais históricas (que hoje são temáticas terapêuticas), um relacionamento desgastado pelo tempo e pela mania de calar-me, saltava como temática deste espaço. Uma das metáforas mais bonitas para me referir ao relacionamento foi a de um barco de aço fendendo mares calmos e eu, enquanto tempestade, dissipando a calmaria….

———————-

Atualizado, em noite insone de julho de 2021.

Acrescentaria ainda à reflexão sobre a mania de calar-me na voz, que essa “preferência” agora dá sinais no corpo em forma de ansiedade.

Written by Marcos Corrêa [Kiambu]

[15, julho | 2021] at [4:07 am]

Publicado em [brisas leves]

[o palhaço e o psicanalista]

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Sobre a arte de ouvir, ou não, o outro!

O palhaço e o psicanalista: Como escutar os outros pode transformar vidas |  Amazon.com.br

Written by Marcos Corrêa [Kiambu]

[13, janeiro | 2021] at [1:24 pm]

[F…]

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Alguém que não tem parada pq tem como missão aprender e ensinar coisas novas pelos caminhos por onde passa. É próspero, mas mantém uma casa simples na fronteira de muitos povos. É nela que recarrega suas energias e reencontra amigos, companheiros e pessoas que ajudou e deu guarida.

Não sabe ler ou escrever, mas escuta e ensina com o coração, misturando às suas as histórias que colhe por onde passa. Não usa roupas e se cobre apenas de palhas e dos pelos do seu próprio corpo, estratégia que também usa para se camuflar dos perigos que encontra. Com um toque do seu cajado no chão, faz cair chuva para brotar o verde da terra; por isso em cada local recebe um nome diferente, sendo por vezes tratado por gêneros distintos.

Ficheiro:Pombero.jpg – Wikipédia, a enciclopédia livre

Written by Marcos Corrêa [Kiambu]

[20, novembro | 2020] at [12:12 am]

[sobre ‘nós’ e a ‘reunião’]

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Miguel Paiva. Fonte: Brasil 247.

O QUE DIZER DA REUNIÃO?

Nem sei se eu efetivamente queria “dizer” algo, mas…, sim, vou citar Felipe Neto (o branco padrão autorizado da vez): “quem se cala perante o fascismo é fascista”. Tento não ser, então…

Acho melhor falar daquilo que me pareceu “menos” aparente na reunião! Porque falar sobre os ‘palavrões’, as tentativas de passar reformas ‘infra-legais’, a cara do Teich ou as indicações de ‘prisões’ de prefeitos e governadores feitos pela demente da Damares, seria “chover no molhado”, para usar uma expressão nacional bastante comum e que nos atravessa.

Não tenho dúvidas que a “pornochanchada de terror“, sobre a qual desenha o cartunista Miguel Paiva, ainda será aplaudida de pé por MUITO brasileiros. As frases seriam como : “um homem autêntico, cheio de vigor, um líder nato” (sic)! Certamente, como brasileiro nato que se revelou (atravessado por tantos ‘valores’ nacionais, como família, propriedade, bens, honradez…), ainda irão aplaudi-lo e desejar vê-lo no próximo “Oscar Eleitoral Brasileiro”. Os dados, como diria Mallarmé, estão lançados; mas o acaso está também na jogada.

Mas não é sobre o ‘elenão’ (não ouso escrever seu nome) que a reunião me incomoda. Ele já está. Ele já é! Pronto!!! Mas Ele nada mais é que o reflexo de NÓS MESMOS! Reflete exatamente nossa índole; só que vista em lentes macros. O vídeo da “reunião ministerial” (eu na verdade chamaria de papo de macho escroto) não me incomoda pelo que tem, mas pelo que é! Ele é um reflexo de nós mesmos!

Pense, e seja sincero consigo mesmo, se muito do que foi dito na reunião ministerial não aparece em coisas pequenas do nosso cotidiano, em inocentes (ou deliberadas) mentiras, em traços de uma ligeira (ou forte) esperteza, em adorar ver o patrão se estrepar? E para não correr o risco de ser “arrogante”, esse texto fala de mim mesmo! Se te cabe, sinto muito.

Sejamos honesto, nós adoramos quando a “sinhá briga com o sinhô” e a CASA CAI. Está na nossa índole, na nossa história, na nossa memória coletiva. E nós nunca enfrentamos e superamos isso. NUNCA! E da parte do ‘sinhô’, há um prazer em poder transgredir sem medo de ser pego. Nós nos moldamos como sociedade em um caldo de poder e prazer individual.

A CIVILIDADE MÉDIA BRASILEIRA É TREMENDAMENTE BOÇAL!

Nós, TODOS NÓS (brancos, pretos ou amarelos), nunca superaremos a Casa Grande e a Senzala. E a menos que eu desconsidere senzala como uma “casa”, não há a menor dúvida de que nós ainda moramos nela e continuamos a aplaudir a desgraça alheia. Ou seja, nós nem temos casa para cair. A casa é e sempre foi do outro! Aliás, constatações à parte, a “Casa Grande”, aquela de Brasília, continua sendo ocupada por “sinhozinhos”. Nós, da senzala, só limpamos a mesa e servimos o café. Como o BATISTA!

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Todo mundo falou do Teich, do Salles (com dois “l”, porque é nome de rico, não é não um simples ‘silva’), do Moro, da Damares etc. mas ninguém falou do BATISTA! Então foi com o Batista que eu me importei na reunião, não com os demais! Porque da história do vínculo do Salles com o agronegócio, do Teich com as empresas privadas de saúde, da Damares com parcela significativa de um eleitorado religioso nefasto, dos “demais”, só um perfeito brasileiro tolo poderia alegar absoluta ignorância! O que, convenhamos, não é o caso do brasileiro comum, o mesmo que deu “voz” a esses personagens, e que em essência sintetizam nossa própria postura diante do mundo. E nós sabemos (e sempre soubemos) quem é (e quem foi) o verdadeiro ‘sinhozinho’. Não é o Batista! E até aposto que ele sabia disso ao servir água aos “ilustres” membros da reunião de 22 de abril! Ou será que ele não percebeu que era o único negro na reunião e que não havia nenhum negro sentado nas mais importantes cadeiras do país? Aliás, cabe, uma observação, quantos “falo”, não?

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Extraída do vídeo da reunião ministerial de 22 de abril/2020, disponível no Youtube.

De todos os presentes, para os quais ‘postura ética’ e ‘respeito’ pelo cargo que ocupam deveria ser o mote central, somente o Batista agia de forma ética e responsável, fazendo com muita atenção o papel que lhe cabia na reunião: servir aos brancos da mesa!

É o Batista que eu queria conhecer mais. Em quem será que ele votou? Teria sido nos mesmo homens brancos sentados naquela mesa que ele serve com tanto zelo? O que pensa o Batista sobre os ‘impropérios’ que ouviu ali? Será os considerava ‘impróprios’ para aquele encontro? Seria o Batista evangélico, de matriz africana, católico, agnóstico, ayahuasqueiros? Já teria cometido algum pequeno delito no IR, se escondeu de cobradores, passou adiante nota falsa que recebeu na mercearia? Teria mentido pra mulher e ido ao mercado pra comprar chocolate escondido? Mora no plano piloto ou em uma cidade satélite? Com quem se alinha?

O Batista seria, sim, um brasileiro perfeitamente comum a ocupar ao menos uma das cadeiras da reunião de 22 de abril. Mas… Será que, atravessado por tantas características que nos tornam brasileiros comuns, ele pensaria de modo diferente dos presentes? OU estaria conduzindo a reunião com a mesma “cordialidade” com que servia água aos ilustres representantes da ‘nação’?

E foi somente aí, querendo saber sobre o Batista, que me atentei para o dia da reunião: 22 DE ABRIL!. Uma data que por muitos séculos foi instituída como o dia do “descobrimento” do Brasil (ao menos me lembro de estudar isso nos livros da escola).

NOSSO MITO DO DESCOBRIMENTO foi a realidade do APAGAMENTO DO BATISTA, que hoje, no brasil de 2020, mais de quinhentos anos depois, continua servindo água ao “sinhozinho” que chegou de fora. Que civilização!!! E é para ela que eu quero voltar se esse tormento do Covid um dia passar? Para essa mesma sociedade excludente, hipócrita, homofóbica, misógina, egoísta, consumista ao extremo, MAS que é também nosso próprio espelho? Já se perguntou honestamente para onde você gostaria de ir como civilização?

E O BATISTA?

PARA ONDE FOI APÓS 22 DE ABRIL?

Written by Marcos Corrêa [Kiambu]

[23, maio | 2020] at [1:43 pm]

[ainda somos os mesmos…?]

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Um amigo, ex colega de trabalho, manda mensagem.

Inicialmente, achei que fosse algo do tipo: “oi, tudo bem… quero seu corpo quando isso acabar”. Até foi, mas veio em meio a um “não queria dizer, não tenho nada a ver com isso, mas…”. Foi engraçado, pois proporcionou olhar para algo que preferia manter sempre “escondido”; motivo do vídeo abaixo.

Tentei cria um perfil “adulto” no Twitter, usando o celular etc… Resultado, ao criar, todos, TODOS os inscritos no Twitter devem ter recebido alguma notificação de “perfil novo dos seus contatos”. Não que me arrependa, talvez falasse, como estou fazendo agora, pra quem perguntasse.

O fato é que, ao esconder algo (do qual resulta boa parte das minhas frustrações, crises e temas com os quais devo trabalhar muito em análise), imaginava que o tornava ausente da ‘vida real’. Mas é o contrário! E meu amigo hoje me ajudou a ver isso (porque melhorar, mudar, já é algo que não busco com a ansiedade impiedosa de sempre).

Written by Marcos Corrêa [Kiambu]

[21, maio | 2020] at [7:28 am]

[o não-lugar]

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E quando você percebe que todos aqueles grandes feitos de sua vida foram apanas para colocar “algo” no em um lugar inexistente, não para viver apenas por você mesmo?

Como lydar?

Que lugar é esse que eu percebo como ausência, que não sei onde é, e que ainda tenho que alimentar?

************************

And when you realize that all those great deeds of our your life were only to put “something” in a nonexit place, not to live only for your yourself?

How to explain that?

What is that place, where I feel myself as absence, I don’t know where it is, and I still have to feed?

Written by Marcos Corrêa [Kiambu]

[9, maio | 2020] at [8:05 pm]

[do pesar da escolha e da aceitação do cetro]

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[fruto da leitura de “lembranças encobridoras”, da discussão com o grupo de estudos, do olhar interno]
[texto inciado em 29 de abril de 2020 às 21:49:39]
[revisão final em 1º de maio de 2020 às 21:28:57]

 

Uma das memórias mais fortes que tenho de infância é a seguinte:

Em uma rua qualquer, sou acudido pela minha irmã que aos berros grita no meio da rua para que alguém ajudasse seu “irmãozinho, bonitinho, engraçadinho e pequenininho”. O local parecer ser uma dessas ruas de subúrbio carioca, notadamente minha lembrança me leva para as proximidades da casa da minha tia-avó, Erotildes (tia Fia); algo como um muro de arrimo, casas acima, escadarias construídas de pedra “pome”, cimento e pedras de construção.

Não sei o contexto, mas é como se eu estivesse ferido, sem saber exatamente o local ou a causa aparente; ao menos agora enquanto escrevo e relembro da cena, ela não é completamente clara. Havia, no entanto, a sensação de vergonha daquela cena, dos gritos emitidos pela minha irmã; como se o desespero fosse desnecessário ou exagerado para a proporção da ferida que sequer sabia onde estava, mas que era o motivo daquele “escândalo”.

Há na minha cabeça uma certa pressão de imagem por sangue, como se houvesse um corte. Mas não há imagem de sangue, faca ou algo que tenha promovido a ferida imaginada.

Há também uma certa lembrança associada a essa primeira que me leva a um quarto, aparentemente de hotel, meio ocre, dentro do qual eu seguro com a ponta dos dedos um saco plástico de leite, e sou cortado por uma faca que vem de alguém mais alto que eu. Tenho uma leve sensação da dor, como um corte de papel nos dedos; algo que me vem agora. Tenho também a sensação de ser minha mãe quem está na cena, com mais outras pessoas, talvez sua tia. A cidade, não sei por qual motivo, era Presidente Prudente; talvez por um dos inúmeros relatos e pequenas memórias que tenho de minha mãe precisar viajar para lá para fazer provas de um curso superior a distância. Essa lembrança não faz parte da inicial, mas não sei o motivo dela estar justaposta neste momento à lembrança do grito da minha irmã.

É o que tenho de mais fiel dessa lembrança. Mesmo revendo-as hoje, no instante em que escrevo este texto.

Deveria investigar mais somente em minhas próprias lembranças e associações, mas como no texto do próprio Freud,vou me aventurar a investigar sobre seu passado, revirando lembranças também de familiares. Neste caso, pedi para minha mãe e irmã, apelando para que uma não contasse para a outra antes de terem me enviado o texto. Pedi para que escrevessem e enviassem por aplicativo de mensagem, WhatsApp. Dos pedidos, apenas a minha irmã me encaminhou sua versão do fato. O relato segue abaixo, com pequenas modificações para uma melhor compreensão, pois fora escrito em APP, sem recursos de correção textual:

IRMÃ, 40 anos.

Lembro que nós estávamos indo não sei onde, estávamos perto de um trilho, de trem, com aquele idiota do Elenir [namorado na época de criança, algo em torno de 7 anos] e mamãe. Vc caiu, não me lembro se correu e tropeçou, só sei que qdo te vi, seu rosto estava com sangue e eu me assustei. Fiquei achando que vc iria morrer, ninguém me disse que era um dente seu que havia caído. Sua mãe só disse q vc estava bem. Só sei que fiquei chorando um bom tempo.

Depois, não me lembro mais de nada.

Eu insisti onde essa cena havia acontecido e ela me respondeu:

São Paulo.

Efetivamente há algo conflitante na versão que tenho desse fato e a dela. Não me recordo da cena ter acontecido em São Paulo. Menos ainda de ela ter ocorrido por conta de um dente, o que vendo agora, me parece significativamente simbólico; falarei sobre isso maia adiante. Mas me parecia inicialmente que a mágica dos dentes caídos havia ficado no antigo casarão do centro da cidade no qual morávamos em Cuiabá (no fundo há uma confusão entre outras lembranças de telhados e dentes que também remetem a nova casa para a qual mudaríamos em breve, em um bairro afastado do centro da cidade). Pensava que meus dentes haviam sido trocados por novos e resistentes, nas promessas realizadas ao “ratão” e pelo pagamento antecipado do dentre no telhado da casa. Mas certamente me deixei levar pela observação da minha irmã. Seu apontamento cirúrgico (não participando das minhas análises pessoais) fez com que as minhas percepções sobre a lembrança do episódio do seu choro direcionasse minhas análises para questões mais profundas sobre nossos relacionamento familiar e minha construção pessoal de personalidade etc.

Não estou atrás da verdade do acontecimento, mas daquilo que fez dele uma lembrança tão significativa que também marou a lembrança da minha irmã, dois anos mais nova. Assim, a primeira percepção analítica que tenho sobre essa lembrança é a de que ela não existe hoje em meu repertório mental por conta de minha queda, do dente caído, ou de uma dor causada pelo tombo descrito pela minha irmã. Minha lembrança principal desse episódio é a do seu choro desesperado e de um certo ‘constrangimento’ que senti por conta do volume de sua voz. Sim, estávamos na rua, como ela descreve. Mas em minha lembrança o local é mais próximo ao subúrbio carioca, como apontei acima. Certamente essa imagem permanece em minha mente porque nós tínhamos, nesse período de minha infância, mais o hábito de frequentar os subúrbios da cidade do Rio de Janeiro que da capital paulista; lá sim a proximidade com trilhos de trem é mais precisa tanto para minha quanto para a lembrança da minha irmã. Pelo que me recordo, nunca frequentamos proximidades de trilhos de trem em São Paulo enquanto criança; aliás, nós só viríamos a conhecer a cidade quando o “idiota” do Elenir se mudou para ela, fugindo do ‘apontado’ estupro que realizou em minha irmã, conforme descrição dela dada em outros momentos e, como não seria diferente, desacreditado pela minha mãe ainda hoje! O meu estupro, talvez nem tanto, mas o da minha irmã, não é de todo certo para minha mãe!

Não cabe aqui uma observação mais aprofundada sobre o estupro de minha irmã, pois não tenho dados sobre isso, não ouso fazê-lo e parece-me que o fardo do evento parece ainda pesar com significativa importância para ela, dada a sua inferência no uso de um pronome demonstrativo (aquele) e por um adjetivo (idiota) para se referir ao Elenir. Sobre meu estupro, já falei antes, em outros textos e postagens, mas há uma referência a ele no final deste texto.

O fato, no entanto, é o de que a observação da minha irmã sobre o período e o local não coincidem com o meu, menos ainda com a referência que ela faz ao Elenir e sua conexão com a cidade de São Paulo. Não viajávamos para a cidade nessa época e minhas primeiras lembranças de viagens não são na capital paulista, e sim do Rio de Janeiro. Meu palpite é a de que ela tenha associado a capital paulista em sua lembrança (que efetivamente não frequentávamos na época) por conta do impacto do evento do estupro e da mudança repentina (lembro-me hoje que foi de modo inesperado) do Elenir para São Paulo; lembro-me de não entender a mudança repentina para a cidade, ainda enquanto morávamos em Cuiabá, no antigo casarão construído pelos meu bisavô. Apesar de não estar presente em minha lembrança, acho que pela recordação de minha irmã, cabe um pequeno apontamento sobre a importância de Elenir em minha vida; ao menos como a recordo hoje.

Além de ser um homem lindo (como me recordo), ele era o tipo cativante; meio canalha, mas cativante e bom papo (ao molde do que foram os poucos namorados que minha mãe teve, e que eu me recorde, e de todos os ex-maridos de minha irmã). Elenir sempre me pareceu uma pessoa tranquila, zen, carinhosa. Ele tinha um carro marrom (um Corcel 2, LDO), que ficava estacionado em nossa garagem, sob um frondoso pé de abacate. Ele cuidava do carro com esmerado zelo.

Como roupas, costumava usava umas calças sociais apertadas, geralmente de cor escura, e carregava quase sempre uma espécie de carteira de mão bem grande. Mantinha o cabelo com um penteado impecável e as camisas sempre muito alinhadas. Não me lembro de vê-lo sem camisa ou mesmo de shorts. E só, sobre sua personalidade a atividade, talvez! Sabia que era bancário e lidava com números. Não sei se tinha estudado, etc. Só era enrolado (ex mulheres, filhos etc); algo que parece ter se tornado uma constante em todos os relacionamentos que elas tiveram em suas vidas até o momento.

Uns dias antes, revirava uma caixa de pandora e encontro um registro escolar meu, com a indicação do seu nome como pai (abaixo). O documento foi preenchido certamente por outra pessoa, talvez um funcionário da escola, pois além de inconstante, meu nome está sem o acento circunflexo na letra “e” do meu sobrenome; um detalhe que não passaria despercebido se preenchido pela minha mãe. Também não reconheço no documento a letra dela, que conheço bem, talvez em uma ou outra palavra; mas mesmo assim elas me parecem inconstantes e reforço a ideia de que não foi minha mãe quem a preencheu, pois há estilos distintos entre elas. Se preenchido por outra pessoa, tendo como declarante minha própria mãe (certamente minha avó, analfabeta, não realizaria a tarefa de matricular o neto em uma escola tão conceituada como era o Liceu Salesiano naquele período), foi de sua boca que saiu a declaração de Elenir em minha filiação paterna.

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Também já cheguei a encontrar em algum documento meu, escrito com minha própria letra, meu sobrenome acrescido do sobrenome dele. Lembro-me de um certo sentimento de “orgulho’, “alívio”, “desejo”, “grito de socorro”, no uso do sobrenome. Acredito que preenchia lacunas sobre meu pai.

Não posso dizer que ao longo da minha primeira infância eu tenha ouvido alguma “boa fala” sobre meu pai (não entrarei nesse campo, aqui, mas já o fiz em outro material). Mas o que me parece hoje, olhando para essa janela, é a de que eu pareço ter encontrado no uso do sobrenome de Elenir uma resposta moral às dúvidas, não esclarecimentos e chacotas que sempre ouvia sobre meu pai (vindo tanto dos novos amigos do Liceu, quanto de familiares próximos); uma vez que nem a minha mãe se ocupou em falar sobre ele.

Apesar da sua inexistência em minha lembrança do grito de minha irmã, a recordação de Elenir por ela diz bastante sobre a relação deles, mas também da minha. Mas não consigo ir muito além; talvez esta reflexão suscite novas abordagens no futuro. Menos ainda tenho condições de falar sobre os sentimentos de minha irmã. Mas abro nessa lacuna a minha segunda percepção analítica da lembrança do choro da minha irmã que é a consagração de nossa posição na disputa que nos foi imposta pela atenção de nossa mãe; ou do que acredito tenha sido essa busca por reconhecimento.

Em sua lembrança, minha irmã descreve um certo desespero ao imaginar que eu “iria morrer”. Percebo (estaria sendo arrogante nesta interpretação?) isso pela afirmação de que ela ficou “chorando um bom tempo”. Destaque também percebo na afirmação de que viu que meu “rosto estava com sangue”. Aparentemente essa imagem deve ter sido chocante para ela, já que minimamente a conservou até o momento em que me enviou seu relato. Mas para mim, o destaque da lembrança foi o fato de tê-la ouvido gritar e de uma certa vergonha que senti.

Não tenho lembranças claras da minha mãe no episódio do choro de minha irmã, menos ainda de sua acolhida ao meu suposto tombo. A imagem do tombo (ou de qualquer outra situação que tenha feito emergir o desespero de minha irmã) foi apagada por uma imediatamente posterior, a reação da minha irmã. Mas não estaria ela escondendo mais alguma outra coisa? Um outro evento que tenha ocorrido antes ou depois dessa lembrança? Acredito que sim e me aventuro a tentar entender essa relação.

Dado o histórico de nossas relações familiares, é possível que eu tenha tido cuidados de adultos próximos (possivelmente minha própria mãe), mas que minha irmã tenha sido negligenciada em seu desespero; afinal, na cabeça cartesiana da nossa mãe, como posso ler sobre ela ainda hoje, minha irmã deveria estar chorando de “frescura” (como já ouvi muitas vezes antes). Mas minha irmã afirma em seu texto que nossa mãe havia dito que eu “estava bem”; mas encerra a frase dizendo que ficou “chorando um bom tempo”. Não duvido que o prolongamento do seu choro se deva a certa inaptidão emocional daqueles adultos em lidar com a situação. Menos ainda deixo de acreditar que possivelmente deva ter existido algum tio de chacota ou escárnio vindo de nossa mãe ou de familiares próximos. Minha irmã encerra o seu texto se referindo a nossa mãe como “sua mãe”, e aqui um apontamento é absolutamente necessário.

Lembro-me de, como ela, usar a expressão “sua mãe” por longos anos, especialmente após eu ter saído de casa aos 18 anos em razão do exercício de minha sexualidade, motivado por sua não compreensão da minha condição (certamente marcando uma projeção sobre minha homossexualidade de todas as suas dolorosas experiências afetivas). Seja como for, por quase duas décadas eu a chamei por seu nome próprio ou por “sua mãe”; do mesmo modo que a minha irmã o fez em seu texto.

Hoje (já pensei sobre isso mais de uma vez), a reação por chamar minha mãe por outro nome que não “mãe” me parece ser resultado de uma decisão inconsciente de afastamento (julgo ser a mesma ideia contida na expressão usada por minha irmã em seu texto, mesmo distante décadas). Apesar da dor, sempre quis estar distante dela, pois seu abraço era terrivelmente sufocante. E sinto que a primeira vez que senti esse abraço foi nessa lembrança aqui descrita. Ou seja, encontrei um caminho de me permitir ser abraçado e nisso prospectar certa atenção ou certo protagonismo familiar.

Veja, este destaque é importante, abraços pra nossa família nunca foram deliciosos de se dar (exceto em minha avó, cuja memória julgo ser uma das mais doces de minha infância). Mas foi graças a esse abraço, e seus resultados, que eu tive condições de me afastar da personalidade dominante de minha mãe durante a adolescência, pois já havia sido fortalecido por sua proteção. Já minha irmã, parece-me, não agiu de mesma forma e acabou se enrolando em novelos que ambas construíram para sua conflituosa relação.

Em resumo, entendo hoje que o episódio consolidou a preferência de minha mãe por mim, o meu alinhamento por sobrevivência à sua personalidade. Miticamente, nas memórias familiares, comentava-se sobre o suposto “aborto” que minha mãe teria cometido para retirar minha irmã. Uma de suas irmãs conta a história de que nossa mãe estava grávida de um “cisto”. Lembro-me da expressão dessa parente, ao dizer “aí o resultado do cisto”, apontando pra minha irmã. Essa ‘sensação” é meio que secundária na lembrança aqui descrita e não tenho a sensação de que ela tenha interferido diretamente na construção de minha lembrança, mas certamente poderia estar latente em uma desmedida vergonha que eu sentia da minha irmã, também em uma raiva estranha que tinha de sua companhia e que me parece ser a sensação que tenho quando relembro da relação de infância com minha irmã.

Não… Minha irmã nunca foi uma pessoa próxima a mim. Não era uma pessoa que merecia de mim total confiança ou na qual eu depositasse todas as minhas fichas. Nunca tivemos essa proximidade e certamente nunca teremos; apesar dos meus esforços atuais em tentar reparar feridas que não tive a intenção de causar.

Sinto muito.

Me perdoe.

Eu te amo

Sou grato (meditação havaiana Ho’oponopono)

Ainda sem buscar uma conclusão específica, quero retomar algumas pontas dessa minha lembrança. Uma delas, não associada diretamente à memória, é o papel do Elenir; como já defini anteriormente. A outra é o “segredo” do cisto da minha mãe, revelada por nossa parente.

O papel de Elenir, para minha lembrança, aparentemente não possui relevância direta. Talvez exita como lembrança outra, e certamente reside no fato de que ele era o meu pai, não o dela. Como nunca sofri nenhuma violação dele (ao que me lembre), ele ainda se mantinha num patamar de referência de figuras da minha infância. O uso de seu sobrenome associado ao meu deve ter resolvido os meus anseios. Não tenho recordações de minha irmã usando o sobrenome dele. Julgo que pelo fato de que no período o seu processo de alfabetização ainda não havia sido finalizado, mas não tenho certeza sobre isso.

O fato é que minha mãe e Elenir não eram casados, mas de certo, como já apontei anteriormente, havia certa ansiedade por parte dela de que seu relacionamento “funcionasse”. Além da ansiedade, acredito ter herdado dela também certa resiliência e necessidade de violação pessoal para fazer com que as coisas funcionem, mas sempre com débito direto em sua própria autoestima. Mas sobre o Elenir, eu também parecia querê-lo como pai; não unicamente pela solução das minhas questões imediatas de referência paterna, mas para que minha mãe também ficasse bem.

A importância que estou dando a esse fato e personagem (que nem fazem parte da minha lembrança inicial do choro de minha irmã) pode parecer irrelevante neste momento, mas o acontecimento dialoga diretamente com a vergonha que eu senti de minha irmã em minha lembrança infantil. E certamente porque também a lembrança aqui descrita já está contaminada com o olhar dela. Então, impossível ficar apenas com a minha lembrança inicial (e até a finalização desse texto, três dias depois de ter solicitado para ambas, somente minha irmã havia encaminhado sua lembrança); e no momento em que eu decidi escrever sobre a lembrança, eu já dialogava também com sua lembrança.

Bom, mas o fato é que a lembrança da minha irmã me proporcionou novas conexões, como o que advém do fato de ela também ter sido preterida por minha madrinha. Em uma outra lembrança, me recordo da minha irmã pedir para a minha madrinha se ela não poderia também ser sua afilhada. Essa é a parente que dizia em claro e bom som que minha irmã era fruto de um cisto e que minha mãe havia iao ao hospital não para ter uma criança, mas para retirar um cisto. Além dessa fenomenal demonstração de empatia familiar, essa parente também era a que gozava de maior recursos financeiros. Lembro-me de ser grato pelo fato de ela ter dinheiro, ser minha madrinha, e poder me dar bons presentes; somente porque havia me amadrinhado. E recordando hoje, a sensação era a de certa inveja e ameça vindo do pedido da minha irmã. E não nego certa satisfação ao perceber que o possível amadrinhamento não aconteceria.

Assim, Elenir, minha madrinha, ou as pessoas que tiraram chacota da dor de minha irmã, protagonizam momentos nos quais eu me lembro de primeiro senti vergonha dela. Assim, associados à lembrança inicial aqui apresentada (o “escândalo” na rua ao ver meu rosto com sangue), acrescente ainda: o escândalo na praia ao se deparar com um caranguejo branco em Botafogo (acho que no mesmo período em que a primeira lembrança ocorreu); e a vergonha que dela sentia porque ela era a irmã que minha mãe não queria e de quem minha madrinha afirmava realmente ser indesejada. E, ainda acrescento, eu não entendia porque ela havia sobrevivido (não sei como consegui escrever isso), já que quase levou a óbito minha mãe, que ficou na UTI após a cesariana.

Então, relembrando hoje, parece que fui o único que minimamente sentiu a dor da minha irmã naquele dia. Mas de sua expressão eu tive vergonha (não sei se efetivamente uma vergonha minha, mas de todo modo exercida por mim). Acredito ter me associado à vergonha que também presumi que minha mãe estivesse sentido daquele momento. E que, hoje, imagino que não tenha origem apenas nele, mas talvez na não resolução de um aborto, que não era um aborto, mas que era um cisto e que no fim das contas era uma criança. E foi nesse caldo que eu acabei me “dando bem” e aparecido como o preferido, pois resiliente e próximo à personalidade de minha mãe. 

Não foi difícil então realizar que a minha vergonha nada mais era do que um “caçoar diferente”, mas não muito diferente daquele que sempre aparecia nos relatos familiares que envolviam esse episódio. Eu sempre era entendido como vítima e a minha irmã como a descontrolada, afinal, como minha própria irmã escreve, ninguém havia dito para ela que se tratava apenas de um dente: “ninguém me disse que era um dente seu que havia caído”. E encerra seu texto dizendo: “Sua mãe só disse q vc estava bem”. Ou seja, que o que ela sentia era frescura, já que eu estava bem. Talvez eu tenha gostado! E então, presumo, devo ter resolvido caçoar da minha irmã, diminuí-la para crescer para alguém que deveria, na verdade, coibir aquela minha perversidade infantil.

Como reflexão atual, eu penso que hoje eu espero punição por essa atitude. E que também por esse motivo eu não valorize as sensações das pessoas próximas, de meus relacionamentos? Uma leitura bem possível. Afinal, como aprendi, o que o outro sente, perante aquilo que eu já vivi na minha vida, não tem importância; eu sou o herói da história e minha dor é maior e mais importante que a sua.

Outra reflexão? Que essa lembrança me liga diretamente à necessidade de aprovação de todos para minhas atitudes. E que também quero o protagonismo a todo custo? Mas que pelas minhas lacunas preenchidas com o que tinha no momento nunca me sinto completo ou preparado para seguir caminhando contando apenas comigo mesmo? Também é um caminho possível!

Aliás, analisando a importância da minha própria irmã em minha vida, percebo seu pouco protagonismo. Cabe apontar que ficamos anos sem nos falar, exatamente por conta dos jogos que minha mãe fazia e que eu decidia entrar e acatar. Nossa amizade nunca foi intensa desde a infância, mas certamente foi piorada quando adultos e eu não pude perceber isso em tempo de nos aproximarmos mais. Talvez hoje, com novos olhares, essa perspectiva possa se concretizar. Mas olhando apenas para essa minha lembrança, arrisco dizer que eu devo ter impactado a vida dela nesse episódio de forma muito negativa. Para mim, no entanto, apesar dos caminhos tortuosos percorridos na minha infância, ela parece ter sido uma escada que posteriormente lancei fora para que ninguém abalasse o patamar que eu havia conquistado.

Por fim, só queria retomar a imagem do “dente”. Ela não aparece em minha lembrança, somente na da minha irmã. E para compreendê-la, somente sob a perspectiva de porque não aparece em minha lembrança, dei um “google” para, minimamente, entender o que sonhar com dente poderia significar.

Senso comum, sonhar com dente caindo (não sei se seus próprios dentes ou de outras pessoas) pode significar: a) um abalo significativo, já que simbolicamente os dentes são comparados a ossos, elemento que compõe a estrutura de suporte físico do ser humano; b) renascimento, uma vez que o velho daria lugar ao novo, trazendo uma nova fase na vida do indivíduo; c) autoestima, já que organizam o “cartão de visita” do homem e aparelho pelo qual uma significativa parte da interação humana ocorre; d) incapacidade de assimilar a realidade à sua volta.

Fiquei imaginando o motivo de eu não ter associado à minha lembrança a imagem do dente que ficou de forma tão evidente plasmada na recordação da minha irmã. Penso que um “abalo significativo” nessa lembrança que compartilhamos tenha ocorrido a minha irmã por dois motivos: a) a perda do irmão mais velho, com o “rosto com sangue” (já havia visto alguém com sangue no rosto antes?), e que ela já havia entendia como o preferido da sua mãe; b) a dupla perda da referência paterna (ocorrida antes: era um cisto de um pai que havia abandonado a mãe; e depois dessa lembrança: havia sido violada pelo padastro, o mesmo que eu copiava o sobrenome) e, por fim; c) a projeção em mim de uma possível referência masculina, já frustrada no pai e no padrasto, e a percepção de que estaria me perdendo naquele momento. Imagino que o excesso dessas informações tenha causado a imagem de desespero que ficou gravada em minha lembrança e não no dela! Talvez resida aí minha percepção de um certo exagero seu no uso das palavras “irmãozinho”, “pequenininho”, “engaçadinho”, “ajuda ele”, utilizadas por ela na ocasião.

Hoje, no entanto, me parece que a lembrança dessa voz é muito mais a da minha mãe a reproduzindo do que efetivamente a da minha irmã. Ou mesmo que dela, com lembrança de sua voz já adulta. Teria sido uma memória forjada por minha mãe? Não que ela a tenha criado com claro propósito persecutório, mas como mecanismo de compensar: a) sua percepção de incompetência como mulher (não casou, não tem marido); b) sua fragilidade como ser humano (ficou na UTI quando foi verificar o “cisto” que tinha; c) o susto e o fardo da criança, que vem ainda muito diferente dela; d) seu despreparo para ser mãe; e) sua vida de policial, nos anos 1980, solteira, numa cidade machista como Cuiabá e tendo como parentes pessoas que apontavam pelas costas seus defeitos (o que possivelmente fosse basicamente um chumbo trocado, relembrando antigos hábitos familiares).

Pra complicar a situação, a nossa mãe ainda vivia às turras com sua irmã, numa disputa por visibilidade que ainda hoje não entendi se o motivo estava ligado à diferença financeira entre ambas, ou a informação que rolava na boca pequena da família de que havia um desejo de minha mãe pelo seu cunhado; o homem bem sucedido com o qual minha madrinha havia se casado e que era tido como referência de bom pai, praça, amigo e genro.

De “renascimento“, não havia nada que justificasse a associação da minha lembrança com qualquer episódio em que eu e minha irmã estaríamos passando naquele momento. Talvez eu, se não me engano, estivesse passando pelos primeiros momentos do longo estupro que sofri de um tio agregado. Mas para mim essa lembrança não está associada à do choro de minha irmã. Nem consigo estabelecer qualquer conexão de “renascimento” com esse momento trazido pela lembrança, tanto pra mim, quanto para ela.

Há ainda a possibilidade do dente na lembrança da minha irmã estar associado a “autoestima“, ou sua perda. Há aqui uma possibilidade de entender a autoestima dela como potencialmente arrasada e a minha, para o episódio, como a inflada. E na minha lembrança o dente funcionaria como um mecanismo de modificação de “status”, ou de elevação de autoestima: eu havia sido o escolhido, não ela! Talvez o dente em sua lembrança estivesse associado diretamente à perda de sua autoestima, ainda que o dente caído fosse meu! Reconheço aqui que pode ter sido o ponto no qual eu passaria a perceber que tinha a primazia como filho preferido, sobre o qual se projetariam as mais altas esperanças. Sobre o que fazer com a outra, restariam apenas suportar o peso da sua existência, que não estava nem planejada e que ainda assim quase causou a morte da própria mãe! É de sempre que eu me lembro da existência de um clima tenso entre as duas!

Há, por fim, a interpretação que associa dente à “incapacidade de assimilar a realidade à sua volta“. Sobre essa percepção não me arriscaria dizer quem, entre nós três (mãe, filho e filha), teve mais ou menos capacidade de assimilar a realidade que nos cercava. Nós três temos a mesma lembrança, com cores distintas, desse momento. Aparentemente todos foram impactados por essa lembrança comum, ou seja, assimilamos algo daquela realidade, que hoje se apresenta na forma de uma lembrança aparentemente inocente.

O que arrisco a dizer, tentando ser empático com as diferentes histórias por trás da minha lembrança, é que a forma como minha irmã se refere à pouca atenção dada pela minha mãe a ela nesse episódio (“Fiquei achando que vc iria morrer, ninguém me disse que era um dente seu que havia caído. Sua mãe só disse q vc estava bem. Só sei que fiquei chorando um bom tempo”) me indica que ela não foi acolhida em sua dor; aquela mesma que eu havia percebido e ficado envergonhado, e que permaneceu como uma lembrança superior às demais para nós três. Talvez o episódio tenha descortinado para a minha irmã os invisíveis indícios de que ela sempre foi a filha não esperada (afinal, sabemos que esse “tema” sempre povoou nosso imaginário de infância). E essa constatação me leva à percepção natural sobre a dificuldade foi para nós a absorção de uma realidade muito pouco afetuosa.

Talvez devesse ter sido o desespero de minha irmã o foco de atenção de minha lembrança infantil (não que eu esteja certo em minha análise sobre essa lembrança, mas para mim o impacto maior não foi meu dente, mas seu desespero). Como questionamento, pergunto se talvez não fosse sua desmedida reação (nunca mais me lembraria de nada parecido ao longo de nossas vidas) um sinal advindo de suas violências (mãe, apontamento, abandono paterno, estupro do padrasto, estupro do tio agradado, sabe-se lá mais o que) e que acabaram plasmadas nessa nossa lembrança em comum.

A permanência dessa lembrança em minha mente (sob a perspectiva de que eu não tivera a capacidade de absorver a realidade que se descortinava na minha frente) talvez resida no fato de que possivelmente tenha sido o momento no qual a fragilidade trazida pelo meu estupro pôde se transmutar em um mecanismo de oportunidade e de busca de estratégias de proteção e sobrevivência. Ou talvez eu esteja aqui simplesmente encontrando justificativas para justapor o que ocorreu com minha irmã e comigo, minhas interações, escolhas e benefícios. Eu havia me tornado o preferido. Ou será que eu havia compreendido dessa forma, não havendo efetivamente essa interação com a nossa mãe e que tanto valorizei aqui nesta leitura da lembrança, e tenha sido somente minha incapacidade de ler o mundo ao meu redor? Não sei responder, só tenho a sensação e o questionamento. 

Seja como for, a imagem do dente me incomodou, e por isso alonguei o texto até aqui. Talvez tenha sido porque neste momento eu esteja consertando os meus (coloquei aparelho, prótese, clareamento, resina e facetas). Num momento meu de transformação pessoal (Oxalá realmente seja isso e não piração minha apenas), a preocupação com a estética dos dentes apareceu sem avisar ou dar sinal. Masco muito mal hoje e não posso ir ao dentista por conta do Covid. Sinto dores, mas o que posso fazer, continuo comendo e sentido dores.

E só para terminar, até esta linha, não recebi a leitura da lembrança de minha mãe.

Written by Marcos Corrêa [Kiambu]

[1, maio | 2020] at [5:15 pm]

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[tudo bem ficar triste!]

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[autobiográfico]
[sobre a Covid e você]
[ou apenas uma contribuição arrogante]
 
Não precisa se obrigar a sair dessa bem. Como se você fosse impelido a usar esse tempo de crise apenas para algo produtivo na carreira, no emprego, numa suposta espiritualidade ou no novo futuro da humanidade.
 
Você já tinha essas cobranças antes. Só está se deparando com outras que você esqueceu! Estava preocupado demais em dar conta das anteriores. Aquelas que te levavam sempre para mais distante de você mesmo, das suas dores, dos seus prazeres, das suas suas verdadeiras angústias.
 
E tudo bem também relativizar o peso dessas preocupações agora. Faz parte do processo de compreender seus limites. Especialmente quando você constata que só tem a você mesmo como limite!
 
Há algo sendo dito nessa pandemia de Covid. E quem disse que precisa ser sempre positiva para a humanidade? Somos apenas uma espécie entre tantas espécies que existem nesse planeta, que vive perfeitamente sem mim!
 
Ficar mal também faz parte!
Faz parte do processo de autoconhecimento.
Só sinta isso…
Perceba…
 
É o instante…
 
Nós só temos ele!
Não temos o passado…
Não temos o futuro…
Só temos ele!
 
VIVA-O!
 
Se prepare para viver o próximo instante…
Porque foi bom demais ter vivido apenas um único!
Mas não se esqueça de vivê-lo!
Oxalá tivesse vivido todos os instantes anteriores! Mas não tê-los vivido me fez dar muito mais valor a este, o deste instante!
 
Acho que se cada um vivesse apenas o seu, nosso tempo seria bem outro…
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Written by Marcos Corrêa [Kiambu]

[25, abril | 2020] at [2:04 pm]

[constatação em hi-fi]

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Não… Eu nunca nem tentei!

Fato é!!!

Written by Marcos Corrêa [Kiambu]

[23, abril | 2020] at [9:15 pm]

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[escola do crime]

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Estou tentando criar um canal. Estou com muito tempo livre, queria fazer testes, estar mais presente neste universo digital. Então, criei a [escola do crime], uma frase da Vovó Juju, personagem do seriado Irmão do Jorel, dirigido por Juliano Enrico e atualmente exibido no Cartoon Network.

XÔ COVID!

Written by Marcos Corrêa [Kiambu]

[5, abril | 2020] at [12:33 pm]

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[humano, 20%]

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Written by Marcos Corrêa [Kiambu]

[3, abril | 2020] at [7:42 pm]

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[os cinco agregados, monja cohen]

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Abaixo, representação gráfica da última palestra da Monja Coen via Canal Despertar Zen (Google PodCasts).

5_agregados_budismo

COEN, Monja. Celebração de Ano Novo 2020. Canal Despertar Zen. Disponível em: (LINK). Acessado em 19 de fevereiro de 2020.

Written by Marcos Corrêa [Kiambu]

[7, março | 2020] at [3:09 pm]

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[lana, nova paixão?]

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(…)

Sometimes love is not enough and the road gets tough, I don’t know why
Keep making me laugh
Let’s go get high
The road is long, we carry on, try to have fun in the meantime

Come and take a walk on the wild side
Let me kiss you hard in the pouring rain
You like your girls insane
Choose your last words, this is the last time
‘Cause you and I, we were born to die
We were born to die

(…)

DEL REY, Lana. Born to die. Lust for life, 2017. Disponível em: http://www.deezer.com/track/383962061. Acessado em: 21 de fevereiro de 2020.

Written by Marcos Corrêa [Kiambu]

[21, fevereiro | 2020] at [10:22 am]

[sobre verdades contadas – monja coen]

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Porque a gente acaba acreditando naquilo que você repete muito

COEN, Monja. Celebração de Ano Novo 2020. Canal Despertar Zen. Disponível em: (LINK). Acessado em 19 de fevereiro de 2020.

Written by Marcos Corrêa [Kiambu]

[12, fevereiro | 2020] at [8:57 pm]

[monja coen – compaixão]

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Em seu podcast “Celebração de Ano Novo 2020” do canal Despertar Zen, publicado em 11 de fevereiro, através do APP Podcasts (da Google), a Monja Coen comentava sobre um homem que havia sido torturado e depois de liberto encontra com sua santidade Dalai-lama. No encontro o antigo mestre pergunta – meu filho, o que foi mais difícil para você?

Mestre, por um instante, por um breve instante, quase deixei de sentir compaixão por quem me torturava. Disso eu tive medo. De perder a capacidade de sentir compaixão pela pessoa perversa.

Written by Marcos Corrêa [Kiambu]

[12, fevereiro | 2020] at [8:43 pm]

[novamente, de “Orange…”]

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Confrontada por Alex, Piper recebe a seguinte devolutiva.

“Sempre achei que era uma possibilidade porque quando o bicho pega, é mais fácil pra você cair fora. Não seria inédito Pipes”

 

Written by Marcos Corrêa [Kiambu]

[9, fevereiro | 2020] at [11:42 pm]

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[vindo de “orange is the new black”]

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A fala é para a ex-esposa de Vause lhe diz sobre sua personalidade:

“Você tem tanto medo de perder o controle que estraga tudo antes que te magoem, como já te magoaram

O sublinhado final é meu, não pertence a fala do personagem.

Reflexões! Auto Desculpas!

Written by Marcos Corrêa [Kiambu]

[9, fevereiro | 2020] at [8:52 pm]

[4th – expose – perdão]

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Written by Marcos Corrêa [Kiambu]

[9, fevereiro | 2020] at [5:43 pm]

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