SETENTA ANOS DEPOIS

7 de Outubro de 1953. Quarta-feira.

A manhã correu depressa. A minha mãe preparou tudo para o primeiro dia de escola, naquele edifício onde, também ela, em 1928, dera entrada para a primeira classe, e o meu pai quatro anos antes.

Depois de almoçarmos, foi tempo de vestir a bata branca e voltar a ver o que já estava na mala de cartão e correia ao ombro: um caderno de duas linhas, um lápis, uma borracha, uma caneta de molhar, uma pedra de ardósia e a pena, também de ardósia, para nela escrever.

Descemos pelo carreiro do costume, seco, a areia seixosa a fazer-me escorregar, até chegar à regueira do brasileiro, depois a subidinha onde ouvia o canto dos rouxinóis, o pinhal, o olival, a curva e a quinta das “Rebelas”, o ribeiro, o pombal e a rua onde ficava a escola.

Esperámos. Outros rapazes, outras mães, rostos desconhecidos, vozes novas, conversas alegres, elas numa algazarra, até que veio a senhora professora, de bata branca, radiosa, e estava aberta a porta para o início da mais encantadora fase da minha vida de criança.

Naquele dia, passam hoje 70 anos, a entrada num mundo novo, rumo ao futuro, cuja base primeira e decisiva começou a construir-se nesse inesquecível dia que a memória me traz, felizmente, com regularidade.

Na primeira fotografia, “à la minuta”, lá estou eu, na fila de baixo, o segundo a contar da direita, mais os outros da primeira classe (nomes, rostos e vozes que me surgem, de imediato: Orlando, José Mendes, Inocêncio, Marcelo, Garcês, Rui Sá, Joaquim Júlio, Figueiras, Isaac, Formiga, João, Armando, Prazeres, Reinaldo, Caeiro, Celestino, Manuel João “Negro”, Chiquinho “do Correio”, Ângelo Carvalho), e os da terceira (Manuel “Jeirinhas”, Vítor “Bolas”, Chico “Abiça”, Avilez, “Martelo”, José Leirião, Sebastião, António Abreu, José Ricardo, Pedro Cristiano, Mário Vieira, Ângelo “Sardanico”, Manuel João Libório”) e outros mais, cujos nomes a memória já não guarda, e que a professora, Dona Augusta, de Almeirim, dirigia com o seu imenso saber, com um sorriso na voz, o carinho a comandar a autoridade.

Como hei-de, sem resquícios de passadismos estéreis, deixar de me emocionar ao lembrar esse tempo, da minha vida?… De modo que, serenamente, com o olhar de hoje, agradeço que a memória me presenteie com as imagens desse tempo único, que procurei deixar descrito no livrinho que disso fala, lançado em 2018.

Às raparigas e rapazes do nosso tempo (e já tantas e tantos partiram) um fraterno abraço.

Manuel João Sá, em 7 Outubro 2023.

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Edifício da Escola Aristides Graça, do Vale de Santarém,
inaugurada em 1915. No 1º andar funcionava a escola para raparigas, no r/chão funcionava
a escola para rapazes.
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Alunos da 1ª e da 3ª classes, da Escola Aristides Graça do Vale de Santarém,
ano lectivo de 1953/1954
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Publicado em 2018
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