Eu costumava baixar músicas na internet quando morava no Brasil. Creio que a grande maioria das pessoas que tem acesso a internet o faz. Uns poucos cliques e lá está aquela discografia completa do Dave Mathews Band no seu computador, todinha pra você. Quem resiste?
Por aqui eu cheguei a fazer isso algumas vezes. Mas, assim como no Brasil, nunca fui dessas pessoas que deixam o computador 24 horas conectado baixando, baixando e baixando… Esporadicamente eu queria ouvir alguma coisa específica e dava os cliques necessários para tal. Só que um dia me veio a notícia de que o cerco contra a pirataria aqui estava se fechando. Um grupo de conhecidos chegou a ser pego em flagrante, teve que pagar uma multa por arquivo e responder a processo.
Em busca de informações mais detalhadas, descobri que a Polícia mantem perfis disfarçados nos programas para baixar músicas e, assim, rastrear os criminosos. Sim, pirataria é crime. Aqui e no Brasil também. Nós é que relativizamos, justificamos aqui e ali, ou simplesmente nem refletimos a respeito. Afinal, uns cliques trazem tudo com tanta facilidade até à sua casa, que você nem se dá conta de que alguém trabalhou para aquele arquivo existir. A não ser que você mesmo seja músico. Mas isso é outra discussão, longa, polêmica, complicada e sem respostas definidas.
O que eu queria dizer, na verdade, é que o que inicialmente me fez puxar o freio, deletar os arquivos ilegais do computador (ah, minha coleção do Coldplay…), desinstalar o eMule, tudo por medinho da multa e do processo, por fim também me levou a refletir, especialmente diante das soluções que a internet proporciona hoje em dia. Se antes o argumento de que o preço do CD é alto demais era usado como justificativa para a pirataria, hoje esse argumento praticamente caiu por terra. Amazon, iTunes e similares estão vendendo os arquivos em seus sites por preços absolutamente realistas, que não pesam no bolso. Afinal, você não paga mais pela impressão da mídia, pelo encarte, pelo aluguel da loja e pelo salário do vendedor. Isso sem falar na vantagem de se comprar os arquivos individualmente. Você não precisa mais comprar um CD inteirinho de uma banda só porque você gostou de duas ou três músicas.
Meu repertório de casamento está, desta forma, praticamente todo legalmente baixado por valores considerados módicos. 0,80 cents por música em média. Isso sem falar no fato de que a Amazon costuma montar umas coletâneas exclusivas, como Café Ibiza e lounge music por 5 Euros (30 músicas em média) ou ainda uma coleção completíssima de 99 composições de Beethoven por 2,99 Euros. Isso mesmo! 99 peças clássicas!
Não bastando isso, vale também a reflexão sobre ouvir e ter músicas. Nem toda música que você tem, você ouve. E nem toda música que voce quer ouvir, você precisa ter. Digam com sinceridade: de todas as músicas que você tem, quantas você efetivamente ouve? E quando você quer ouvir, você precisa ter?
A maior parte do tempo que passo ouvindo música, eu tenho o meu computador ligado na internet. Especialmente no trabalho. A conta do last.fm é uma das minhas opções favoritas. Toca o que eu gosto e ainda me apresente coisas novas, aleatoriamente. Creio que praticamente todas as estações de rádio tem uma versão stream tocando online também. Ouço a de música clássica (adoro!) e eventualmente de notícias também. E quando eu quero alguma coisa específica, crio uma playlist no YouTube. Todas essas opções gratuitas, e que não entopem meu HD de arquivos que eu posso até gostar muito de ouvir, mas não preciso necessariamente ter.
Eu sei que a lei de combate a pirataria no Brasil é bem mais branda, especialmente porque no Brasil… bem, as coisas são meio diferentes. Mas será que, ainda assim, não vale a pena refletir sobre o assunto? Se o CD é caro (eu às vezes ainda compro por um bom encarte, coisa de designer), porque não ter o arquivo certinho e legal? Assim valorizamos o trabalho do artista de forma justa. Não? Sem essa de artista ter que ganhar dinheiro com shows, acho isso injusto. Não sou música, mas já me ocupei bastante com o tema, quase fiz dela profissão. E, mesmo não sendo, trabalho com criação. Por isso digo: não tem a menor graça você investir tempo e dinheiro para criar algo, agregar um valor a esse trabalho, estipular um preço que valha o retorno do seu investimento e, de repente, uma galera simplesmente se apropria de todo esse trabalho como se ele tivesse sido criado por geração espontânea, caído do céu, brotado da terra ou coisa parecida.
Democracia na internet é tema bastante complicado. Quanto mais a coisa se desenvolve, mais difícil fica de se controlar o que acontece nela. E mais se faz necessário que se confie no bom senso, na ética e na honestidade das pessoas. Pode parecer utopia, e talvez seja mesmo. Mas o fato é que bons hábitos formam uma boa sociedade. Especialmente os pequenos bons hábitos.
ps. este texto não tem o intuito de julgar ninguém que faz o download de arquivos ilegais de música, e sim propor solucões para aqueles que quiserem fazê-lo de forma legal. A questão da pirataria é longa demais para ser discutida aqui, e já existem incontáveis outros meios, textos, fóruns e discussões na internet a respeito.