EM QUE CONSISTE A TRH MENOPÁUSICA
A indústria farmacêutica produz alguns tipos de estrógeno e vários tipos de progestina (progesterona sintética) destinados a funcionar como princípio ativo de diversos medicamentos, produtos contraceptivos e produtos de TRH.
No tocante à TRH, qualquer que seja a via de administração empregada (oral, transdérmica etc), ou ela é feita exclusivamente com estrógeno (TRH estrogênica), ou combina estrógeno com progestina, isto é, com progesterona sintética (TRH combinada).
A TRH combinada é usada com a intenção de reduzir, através da adição de progestina, o risco de câncer de endométrio (camada de revestimento do útero), risco esse que é acarretado pelo estrógeno de reposição.
A indústria farmacêutica e os médicos adotaram essa solução de consenso depois que seguidas notificações e denúncias, em revistas especializadas, deram conta de que um número significativo de mulheres que usavam TRH só com estrógeno nos anos 40, 50 e 60 apresentaram tumores cancerosos no seio, mas, principalmente no útero. O princípio no qual se basearam para adotá-la foi que a progesterona reduz in vivo os efeitos proliferativos do estrógeno, reconhecidamente promotores e aceleradores de câncer.
O problema é que a solução funcionou para o endométrio, mas não, para as mamas. Pelo contrário: para grande surpresa dos pesquisadores, descobriu-se que a combinação dos dois hormônios aumenta o risco de câncer nesses órgãos. Alguns cientistas especulam que isso se deva, talvez, a um bloqueio dos receptores de progesterona das células mamárias pela progestina, o que privaria tais células dos efeitos frenadores benéficos da verdadeira progesterona.
Há regimes de TRH que incluem o hormônio masculino testosterona, ou seu precursor, com o objetivo de favorecer a libido feminina. Mas, de acordo com dois estudos epidemiológicos referidos pela conhecida mastologista americana Susan Love, isso pode ser muito perigoso. De qualquer forma, a testosterona é um hormônio masculino que, como sabemos, também é produzido em pequenas quantidades pelo corpo feminino, mesmo na pós-menopausa. Ele assegura a libido na espécie humana até o fim da vida, embora saibamos que crenças culturais condicionam profundamente nossos comportamentos sexuais na idade avançada.
Há terapias menopáusicas que são feitas com tibolona, uma substância que apresenta efeitos progestativos, estrogênicos e androgênicos seletivos. Outras são feitas com raloxifene, uma substância que tem efeitos estrogênicos seletivos que lentificam a perda óssea, prevenindo a osteoporose, e efeitos antiestrogênicos (benéficos) nas células mamárias. Segundo o estudo britânico MWS, “a tibolona (Livial) também aumenta significativamente o risco de câncer de mama, porém menos do que a TRH combinada” (Cf. Boletim n.4, 2003 OMS/Anvisa). Os riscos do raloxifene são de trombose. Pode-se dizer que um e outro são tipos de terapia hormonal (TH), mas não, a rigor, “de reposição” hormonal.
Eis os nomes mais comuns de estrógenos e progestinas que constam de fórmulas ou da combinação de diferentes produtos hormonais:
(a) entre os estrógenos (sinônimo: estrogênios):
cipionato de estradiol, enantato de estradiol, etinilestradiol, mestranol, valerato de estradiol.
(a) entre as progestinas (sinônimos: progestativos, progestágenos, progestogênios, gestágenos, gestógenos, gestagênios etc):
acetato de medroxiprogesterona, acetofenido de algestona ou acetofenido de diidroxiprogesterona, clormadinona, desogestrel, drospirenona, enantato de noretisterona (também denominado enantato de noretindrona), etonogestrel (metabólito ativo do desogestrel), gestodeno, levonorgestrel, linestrenol, noretindrona (também denominado noretisterona), norgestrel.
O uso da TRH evita ou alivia inconvenientes vasomotores (calorões, suores noturnos) e ressecamentos urogenitais relacionados com o período de adaptação menopáusica às mudanças do nosso status hormonal. Fora disso, tudo não passa de efeito placebo e há riscos importantes a serem sopesados, vêm afirmando há muito tempo seus críticos.
A despeito, porém, dos resultados impactantes do estudo Schairer (2000) e do estudo HERS (1998), esse último ironicamente patrocinado pela indústria farmacêutica, só em 2002 foi abalado o dogma da TRH sistemática, instituído havia mais de seis décadas como necessidade de consumo permanente para milhões de mulheres em todo o mundo.
E qual é o nome do autor da façanha?
– WHI.
O QUE É WHI?
É a sigla de Women’s Health Initiative (Iniciativa de Saúde das Mulheres). Trata-se de um estudo cuja qualidade e amplitude o colocam no alto da pirâmide da chamada “medicina baseada em evidências”. Numa palavra, é o que de mais conclusivo se conhece hoje a respeito dos reais benefícios e riscos da TRH menopáusica.
Seus ensaios clínicos randomizados, subestudos e estudos observacionais e de prevenção comunitária incluem 161.000 mulheres menopausadas e 40 centros de observação nos Estados Unidos. Seus principais resultados vem sendo confirmados por outros estudos de porte, entre os quais o britânico One Million Women Study-MWS (Estudo de 1 Milhão de Mulheres).
O WHI deslanchou na década de 90 depois que o Congresso americano, pressionado por grupos de defesa dos direitos da mulher, o encomendou ao poder Executivo. Com previsão de encerramento em 2010, ele vem sendo conduzido por diversas unidades dos Institutos Nacionais de Saúde, entre as quais o Instituto Nacional do Coração, Pulmão e Sangue (NHLBI) e o Instituto Nacional de Câncer (NCI).
Foi interrompido duas vezes por motivo de segurança.
A primeira interrupção se deu em 2002 e foi a que causou o mais forte abalo nas convicções dos defensores da TRH sistemática. Nos Estados Unidos, Canadá, Europa e Austrália, muitas mulheres e médicos a abandonaram e foram à mídia dizer que se sentiam traídos pela medicina.
O que tinha acontecido era o seguinte. As mulheres do grupo que fazia TRH combinada (estrógeno + progestina) foram informadas pelas autoridades de que não poderiam continuar na pesquisa porque, segundo os dirigentes do estudo WHI, ao cabo de cinco anos, os riscos de câncer de mama e acidentes cardiovasculares naquele grupo, quando comparado com o grupo que tomava placebo, haviam ultrapassado “os limites do tolerável”.
A segunda interrupção foi em 2004. Dessa vez, o motivo apresentado pelas autoridades foi que as mulheres que faziam TRH só com estrógeno (por já serem histerectomizadas) estavam correndo riscos “inaceitáveis” de derrame e trombose.
O estrógeno também aumentara o risco de trombose nas pernas das participantes e não se revelara eficiente na prevenção do câncer colorretal como se acreditava até então. Um relatório em separado revela igualmente que o uso de estrógeno por mulheres menopausadas, ao contrário do que se pensava, aumenta os problemas de memória.
BENEFÍCIOS E RISCOS DA TRH
1) O QUE DIZEM O ESTUDO WHI, A OMS E A ANVISA
BENEFÍCIOS:
(a) tratamento de sintomas vasomotores (ondas de calor e suores noturnos), de moderados a graves, associados à menopausa;
(b) tratamento de sintomas de atrofia vulvar e vaginal (ressecamento e irritação), de moderados a graves, associados à menopausa – mas quando esses produtos são prescritos somente para o tratamento de sintomas de atrofia vulvar e vaginal, a OMS e a Anvisa recomendam considerar o uso de produtos vaginais tópicos, isto é, colocados na vagina em forma de gel, cremes ou anéis;
(c) prevenção de osteoporose – mas quando esses produtos são prescritos somente para a prevenção de osteoporose, a OMS e a Anvisa recomendam considerar o uso de tratamentos aprovados que não contenham hormônio feminino.
A agência de pesquisa em câncer da OMS, IARC, informa no release de imprensa nº 167, de 9/07/2005 (em inglês e francês) que não dispõe de nenhuma evidência que lhe permita afirmar que a terapia hormonal menopáusica proteja alguma parte do corpo contra o câncer.
RISCOS:
(a) risco aumentado de cânceres hormonodependentes – mama, útero (na TRH estrogênica) e ovário;
(b) risco aumentado de trombose e outros eventos vasculares e cardíacos.
A IARC/OMS, informa no acima citado release de imprensa nº 167, de 9/07/2005 que:
· “os estudos epidemiológicos mostram de maneira consistente um aumento do risco de câncer de mama nas usuárias de hormonoterapia menopáusica”;
· existe risco aumentado de câncer de endométrio para quem faz TRH só com estrógeno ou contrabalança os efeitos desse hormônio usando progestina menos de 10 dias por mês;
· não se dispõe de nenhuma evidência que lhe permita afirmar que a terapia hormonal menopáusica proteja alguma parte do corpo da mulher contra o câncer;
· as mulheres devem avaliar com seus médicos os benefícios e riscos dos produtos hormonais menopáusicos no caso individual de cada uma, só lançando mão deles se realmente se fizerem necessários e pelo menor espaço de tempo possível.
2) RESUMO DAS PRINCIPAIS EVIDÊNCIAS CIENTÍFICAS DA TRH (ATÉ 2004)
Por Dra. Lenita Wannmacher (*1) e Dra. Jaqueline Neves Lubianca (*2):
“A partir da publicação de ensaios clínicos randomizados de grande porte, caíram por terra as supostas vantagens da terapia de manutenção na prevenção de doença cardiovascular, osteoporose e demência. Ao contrário, estudos surgidos a partir de 2000 apontaram a discreta eficácia ou ineficácia dos hormônios naquelas condições, bem como advertiram para efeitos adversos graves, como câncer de mama, câncer de endométrio (só estrogenoterapia), câncer de ovário, risco de doença coronariana, acidente vascular encefálico, trombose venosa profunda, demência e doença de Alzheimer.” (*3)
Elas também informam que:
“• A indicação de TRH limita-se ao controle de sintomas climatéricos [fase de transição que precede o fim da idade fértil], mesmo assim quando o benefício (alívio dos sintomas vasomotores [ondas de calor e suores noturnos] e melhoria em trofismo e lubrificação da mucosa vaginal) suplantar o risco;
• a TRH deve ser empregada preferencialmente a curto prazo;
• o discreto benefício da TRH na redução de fraturas de quadril por osteoporose pós-menopáusica deve ser cotejado com os riscos associados a essa intervenção, principalmente por se tratar de medida preventiva;
• o resultado do estudo WHI contra-indica o emprego de TRH na prevenção primária de doença cardiovascular;
• TRH é contra-indicada na prevenção secundária de cardiopatia isquêmica [doença no coração causada por deficiência de irrigação sanguínea], pelo maior risco de eventos mórbidos coronarianos encontrado nas mulheres expostas;
• TRH não protege de doença de Alzheimer e demências vasculares;
• mulheres com sintomas vasomotores de moderados a graves apresentam benefício clinicamente significativo na qualidade do sono após um ano de uso de TRH, mas o benefício é temporário;
• TRH combinada aumenta o risco de tromboembolismo venoso [obstrução de veia por um coágulo sanguíneo] e embolia pulmonar [obstrução no pulmão por coágulo sanguíneo];
• terapia de reposição hormonal é fator de risco estabelecido para câncer de mama.” (*3)
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(*1) Farmacóloga, membro do Comitê de Especialistas em Seleção e Uso de Medicamentos Essenciais da OMS no período 2000-2004, consultora da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz – ENSP/FIOCRUZ, escritora.
(*2) Doutora em medicina, especialista em ginecologia.
(*3) (Extraído de Terapia de reposição hormonal na menopausa: evidências atuais, em Uso racional de medicamentos, temas selecionados, vol. 1, nº 6, Brasília, 2004).
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NB: O Instituto Nacional de Câncer dos EUA (NCI), reportando-se a um subestudo do WHI, informa que:
“Uma análise da qualidade de vida de um subgrupo de participantes do WHI com 50 a 79 anos não encontrou nenhuma mudança na saúde geral, vitalidade, saúde mental, sintomas depressivos ou satisfação sexual associada com o uso de estrógeno mais progestina.” (Cit. em Simonin M, Sem Medo do Câncer de Mama, Recife, 2007)
3) OUTRAS INFORMAÇÕES
É incompleta a informação, largamente divulgada, de que bastaria um controle médico-mamográfico, com curtos intervalos de tempo, para se dar à mulher em TRH a certeza de poder flagrar a tempo um câncer de mama. Tal certeza não existe.
Numa carta aberta ao então ministro da Saúde, publicada no Jornal do Commercio de Recife em outubro de 2001, o professor Jaime de Queiroz Lima, membro-conselheiro da Sociedade Brasileira de Mastologia, lançava o seguinte alerta:
“Um dado da maior responsabilidade, e pouco divulgado, é a utilização prolongada e indiscriminada de reposição hormonal hoje dominante no Brasil. É sabido que os hormônios, especialmente os estrógenos, além de induzirem o aparecimento do câncer de mama, estimulam e aceleram o crescimento de lesões subclínicas que fogem ao diagnóstico precoce.”
O estudo WHI confirma as conclusões do estudo PEPI (Postmenopausal Estrogen/Progestin Intervention Trial) e do estudo Schairer (2000) de que a introdução de progestina na TRH aumenta o tecido fibroglandular e com isso a densidade mamária, considerada hoje um fator de risco de câncer de mama. (National Cancer Institute (USA): What you need to know about cancer, Risk Factors <www.cancer.gov>)
Confirma também que essa densidade “compromete o desempenho do diagnóstico de mamografias e biópsias mamárias”.
A pergunta é: se o estrógeno é o hormônio central da TRH, e se a presença da progestina aumenta os riscos de câncer de mama e acidentes cardiovasculares, por que não fazer TRH somente com estrógeno?
Porque, como vimos, o estrógeno é um hormônio proliferativo, necessitando por isso do efeito frenador da progestina para não agir como promotor e acelerador de câncer, em especial no endométrio.
Decisivamente, as notícias não são boas em relação ao uso de progestinas na TRH.
Além de poderem promover câncer de mama quando combinadas com estrógeno (para grande surpresa dos pesquisadores!) e de aumentarem a densidade mamária, há evidências científicas de que elas podem ser a principal causa do aumento de infartos do coração, trombose, derrames e demência entre as mulheres menopausadas que fazem TRH combinada.
Os pesquisadores Tom Thomas e Johannes Rhodin, da University of South Florida, desenvolveram uma técnica através da qual as células sanguíneas de uma fêmea de camundongo viva foram marcadas com uma etiqueta fluorescente, o que lhes permitiu observar em tempo real as células, o fluxo sangüíneo e a estrutura dos vasos sangüíneos desses animais.
Depois de lhes aplicar uma dose de acetato de medroxiprogesterona (a progestina mais usada na TRH e nos contraceptivos orais combinados) o animal sofreu danos visíveis nos vasos sangüíneos do cérebro e periféricos, bem como nos músculos lisos e endoteliais, com inflamação e formação de trombos que impediam o fluxo sanguíneo normal. (Climacteric – Journal of the International Menopause Society, 11/12/2003).
Tipos mais perigosos de progestina:
· progestinas de 3ª geração, como o desogestrel e o gestodeno, havendo, quanto a isso, uma carta de alerta dirigida aos médicos europeus pela EMEA (agência reguladora da União Européia) em 28/09/2001;
· ciproterona – referências ao risco maior de tromboembolia venosa constantes de boletins da OMS, traduzidos e divulgados no Brasil pela Anvisa (para acessá-los, clique em Boletim nº. 1 2003 e Boletim nº. 3, 2003);
· drospirenona – denúncias de risco maior de tromboembolia venosa feitas pela associação francesa de especialistas Mieux Prescrire e a americana Public Citizen.
Para saber mais: Kemmeren Br. Med. J. 2001, 323: 131; e Rosendaal, Frits R., Venous Thrombosis: The Role of Genes, Environment, and Behavior, 2005, The American Society of Hematology (para acessar o texto, clique em Hematology).
NB: o estudo WHI já demonstrou que o uso de estrógeno sem progestina também pode levar a eventos vasculares e cardíacos.
Para Elizabeth Nabel, uma das coordenadoras do estudo WHI, quando a menopausa se faz acompanhar de inconvenientes severos e estes não respondem a outros tratamentos – fato que deve ser visto como exceção e não como regra –, os hormônios da TRH “devem ser usados na menor dose eficaz pelo menor tempo possível”.
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