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        <title><![CDATA[Stories by stella maris on Medium]]></title>
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            <title>Stories by stella maris on Medium</title>
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            <title><![CDATA[Batimentos]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[stella maris]]></dc:creator>
            <pubDate>Tue, 31 Mar 2026 17:08:27 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2026-03-31T17:08:27.770Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Eu tenho dois corações; um deles não bate mais. Meu pequeno feijãozinho, com seus dezesseis milímetros, um corpinho minúsculo que ocupa todo o meu ser. Ele se foi, deixando só o que a medicina descreveu como um corpo lúteo, um embrião.</p><p>É muito difícil desfazer esse espaço que foi criado só para ele. O corpo, a mente, a alma, tudo quer se manter agarrado (mentalmente eu recito, eu te libero, porque eu te amo). O tempo corre contra, limitado num dizer adeus que nunca vai ter fim. É difícil ter que escolher entre acabar com tudo de uma vez, uma invasão abrasiva com chances de consequências duradouras, e ter que esperar. O medo de ter que esperar e no final ainda ter que adicionar mais um processo de cicatrização numa ferida que vai ficar marcada pra sempre. Será que é possível superar? Só existe uma forma de descobrir…</p><p>Em outras perdas foi fácil descrever que algo morreu dentro de mim, que fui deixada em pedaços jogados fora. Pensar que agora isso é literal, eu jamais imaginaria. Pensar que até pouco tempo, eu não sentia nada além a paz que era carregar tanto amor dentro de mim.</p><p>Meu pequeno, tão pequenininho…</p><p>Eu tenho dois corações, mas um deles não bate mais.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=89c853add8e7" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Do bloco de notas; 6]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[stella maris]]></dc:creator>
            <pubDate>Tue, 10 Feb 2026 22:55:22 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2026-02-10T22:55:22.758Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Isso passa tempo demais na minha mente sem que eu perceba. Tenho vontade de gritar. Ao invés disso, me pego sorrindo, mas logo contorço os lábios para disfarçar.</p><p>Digo para mim mesma que não me importo mais.</p><p>Quando eu acordo, parece que tudo sumiu da minha mente. Com o tempo, as imagens voltam, tanto as cenas reais — que a essa altura já devem ser parte das fabricações — quanto as imaginadas.</p><p>Queria sentir algum tipo de raiva, mas encontro apenas uma folha de decepção tímida no meio de uma cama de pétalas de carinho. Eu me perguntava se o inverso era possível, se eu era a única que sentia qualquer tipo de saudade… Até que um dia, com um gesto que eu nunca me importei, descobri que sim. Também descobri que, estranhamente, é o suficiente.</p><p><em>[</em><strong>Do bloco de notas</strong><em> é uma coletânea de publicações curtas e sem títulos de textos pouco desenvolvidos e quase esquecidos.]</em></p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=8d5261dc7575" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Do bloco de notas; 5]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[stella maris]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 03 Oct 2025 15:56:56 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-10-03T15:56:56.174Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Primeiro pensei que me sinto sozinha, mas não é isso. Não é solidão, não é a falta de alguém. A analogia mais próxima que consigo chegar é a de um quebra-cabeças recém montado que teve metade da imagem desfeita porque alguém tombou a superfície. As peças estão todas por ali, espalhadas no chão, nenhuma faltando. O quebra-cabeças foi completado e sabemos qual é a imagem final, mas no momento ele está <em>arruinado</em> pela circunstância. É preciso montar tudo de novo, mas quem quer pegar todos os pedaços e colocar de novo na mesa para depois encontrar os encaixes corretos? Quem sabe mais tarde, quem sabe amanhã.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=5f5335118d3e" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Outra espiral]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[stella maris]]></dc:creator>
            <pubDate>Tue, 30 Sep 2025 19:29:35 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-09-30T20:33:11.837Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Caralho.</p><p>Qualquer coisa que começa assim não vai ter uma resolução feliz. Se for isso o que está esperando, pode parar de ler aqui.</p><p>Foda-se também.</p><p>A escrita tem me frustrado, desenhar!? nem se fala, entre outras questões fervendo no meu peito e esse vapor vai dificultando minha capacidade de pensar. Por que minha mão não funciona? Por que as ideias não se alinham e encontram uma porra de um desfecho? Por que eu não consigo me expressar em poucas palavras numa droga de conversa casual? Essas voltas – eu me sinto tonta. Passei dias olhando meu progresso, minhas conquistas, tentando ser mais generosa com essa trajetória infinita, só que uma hora parece que tudo o que aconteceu de bom só está ali para rir da minha cara. Só para dizer “melhor que isso você não fica. Daqui pra frente é só ladeira abaixo”.</p><p>Não sei se eu choro, se eu grito, se eu quebro a mão de vez na parede já que ela tem sido inútil. Já nem sei mais os acordes do teclado e esse abandono me consome até hoje. Tá lá, juntando pó.</p><p>Que merda.</p><p>Eu tento acolher minhas emoções mesmo quando elas são um pouco devastadoras, mas quando a ansiedade vem de mãos dadas com a vergonha, tudo vira fracasso. É a porra do loop: de repente presa numa espiral que diz que estou velha demais para aprender algo novo, para melhorar em qualquer coisa, para ter ambições, para tratar traumas, para engravidar. É, é, eu quero colocar uma criança nesse mundo horrível destinado a acabar em fogo, já ouvi, já sei, enfia seu discursinho idiota no cu. Não quero ouvir. Me deixa em paz.</p><p>Essa decepção comigo mesma vai se desenrolando em um monte de besteira que eu sei que não tem nada a ver, uma mentirinha qualquer que meu cérebro decidiu insistir porque dormir bem aparentemente ficou chato. Nada melhor para a insônia do que esse aperto no peito. Tudo o que eu falo e falei para qualquer pessoa que eu me importo está errado. O que eu não falei é ainda pior. Eu sou um monstro horrível que toma lugares que não me cabem, uma idiota que se diminui para acomodar os outros, um cachorro que late e não morde de morais questionáveis. Nem eu sei direito definir minhas perversões. Puta que pariu, nem escrever direito eu sei mais. <em>Io non ci sto.</em></p><p>Gramática, ortografia, tudo tem me fugido. Construção de rostos, anatomia básica, noção de luz e sombra, volume, que diabo. Eu achava que sabia tanta coisa, mas não hoje. Hoje o tempo não passa nem fodendo, amanhã nunca chega para ser um dia melhor, essa porra de menstruação nunca acaba, essa merda de sono não vem.</p><p>É temporário, eu tô sabendo. Pena que as coisas fantásticas estão reservadas para alguma eu do futuro; a de hoje se sente vencida, querendo desistir, me abandonei a minha própria miséria.</p><p>Patético.</p><p>Tem um estágio que eu considero pior, mas não cheguei lá. Aliás, espero nunca mais voltar. O abismo da pena é o mais difícil de sair. Toda essa reclamação pode até parecer, mas a diferença está na culpa. Não acho que a vida é injusta, acho que eu me desperdicei. Então deixo a raiva do auto ódio fazer o que tem que fazer. A Torre é essa lembrança de que tudo se desmorona com o tempo, e ela toma um grande espaço do meu torso do lado esquerdo.</p><p>Será que eu fiquei chata?</p><p>De novo essa idiotice de ser desinteressante?</p><p>É tão estressante ficar voltando nesses lugares que um monte de gente já me disse que não é o caso. Qual foi? Já não tinha superado essas inseguranças?</p><p>De novo a vontade de não fazer nada. O tédio prelúdio da depressão. Não queria colocar essa energia em um monte de negatividade, mas se não sair daqui de alguma forma eu vou me envenenar. Olha aí o clichê de dizer que o pior veneno é aquele que a gente escolhe tomar. Nem para ser original no sofrimento. Pois é, a cobrança vem até aqui. Nem dá para ficar mal em paz, a excelência precisa estar em todos os lugares. As difamações não acabam, os problemas do presente não são o suficiente, tem que vir de brinde todos os arrependimentos de uma adolescente, das escolhas burras de jovem adulto, porque claro que era preciso ter nascido sabendo os próprios limites e todas as regras de como ser uma boa moça em sociedade.</p><p>Um absurdo. Poucos dias atrás eu estava tão contente, mas parece tão longe. Essa intensidade da percepção distorcida me mata. Preciso ficar contando nos dedos os dias para não ser sugada por esse buraco negro do tudo ou nada. Cansa.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=25dcc61e7921" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Mais uma noite]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[stella maris]]></dc:creator>
            <pubDate>Sat, 22 Mar 2025 03:23:29 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-03-22T03:23:29.237Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Passo horas acordada ouvindo você ranger os dentes, sentindo seus espasmos, apurando meus ouvidos para saber se, de repente, sua respiração parou, ou mudou de ritmo. Passo horas tentando entender o que o seu corpo fala e que você ainda não quer me contar, ou que talvez nem saiba que precisa colocar para fora.</p><p>As voltas que suas palavras dão, confusas espirais desenhadas numa folha qualquer, sem começo, sem fim, que então param abruptamente, me deixam sem sono no final do dia. Não sei quando comecei a absorver para mim aquilo que escorre das suas rachaduras, só sei que é tarde demais para reforçar minhas barreiras e me salvar desse papel de Atlas que eu mesma me coloquei por nós dois. Todas as tardes, quando você está mais ausente, eu tento me lembrar disso. Você nunca me colocou nessa posição, mas eu não sei para onde ir, não sei qual outro papel representar.</p><p>Eu seguro sua mandíbula e acaricio seu peito, te abraço, sussurro que te amo, que estou aqui para você, na esperança que seu inconsciente me escute e te coloque num estado de relaxamento que nunca vem, nem no final de semana, nem nas férias. Como pode alguém dormir tão pesado, tão rápido, tão profundo, e tão tenso?</p><p>Todas as noites eu me pergunto se por um acaso isso é culpa minha. Se eu fiz algum comentário que te deixou inseguro, que te irritou, talvez eu não tenha sido uma boa ouvinte enquanto você falava sobre o trabalho, sobre suas frustrações, sobre seu pai. Eu estou sempre aqui, eu sou o fator comum, tem que ser minha culpa. Não tem?</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=13527c314676" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
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            <title><![CDATA[Rascunho:]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[stella maris]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 10 Feb 2025 15:59:41 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-02-10T15:59:41.229Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<h4>Mensagem não enviada.</h4><p>Quando eu digo que sinto sua falta, eu quero dizer que queria te perguntar se você comeu pipoca no dia seguinte. Queria saber se ainda está tomando o café que eu te dei de presente, se toma todos os dias ou se intercala com outros — queria saber se sua mãe experimentou. Queria saber o que você achou do chocolate. Queria pedir, aleatoriamente, uma foto de um momento do seu dia. Queria receber uma mensagem sua me dizendo para olhar a lua hoje, ou saber quantas vezes você viu as horas iguais no dia. Quando eu digo que sinto sua falta, é porque queria mandar um monte de mensagem trivial sobre aquela série que eu só assisti porque você recomendou. Queria que você respondesse com suas próprias impressões e momentos preferidos. Queria te perguntar se sua planta está melhorando ou se continua adoecendo. Queria te mandar fotos do meu café e da galáxia e receber fotos da sua caneca de volta. Queria te dar bom dia e boa noite. Queria que você me contasse coisas aparentemente não importantes do seu dia, simplesmente para manter a conversa comigo. Queria saber se você começou a ler o livro.</p><p>Quando eu digo que sinto sua falta, é porque não sei se você está distante porque está distraído ou se suas paredes agora também me mantêm do lado de fora.</p><p>Eu sinto sua falta. Sinto falta do seu cheiro e do seu abraço. Sinto falta do seu sorriso de lado quando algo é irônico. Sinto falta da sua voz, da forma como você fala meu nome. Sinto falta do seu enorme cuidado com tudo — e comigo — e eu queria retribuir, retribuir, retribuir. Queria te trazer leveza. Queria te cultivar.</p><p>Quando eu digo que sinto sua falta, é porque sinto sua falta todos os dias.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*b1F4FGyU7dEips9qM7mGnQ.jpeg" /><figcaption>15 de fevereiro de 2023.</figcaption></figure><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=b2ea113ebec0" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
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            <title><![CDATA[Filtro]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[stella maris]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 20 Jan 2025 17:28:22 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-01-20T17:28:22.204Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Acordei um dia e percebi que não era tão interessante assim. Parece um baque, chegar nesse tipo de conclusão, mas foi como receber uma notícia pouco importante e um pouco irritante, como se uma lâmpada tivesse sido queimada. Não tem muito o que fazer além de ir e trocar, e pelo menos existe essa opção, descartar uma por outra. Um dos poucos lugares que eu ainda navego na internet é o Pinterest, e por guardar algumas listas de organização e de dicas de planejamento, eventualmente minha página inicial começou a mandar outros tipos de listas, algumas com o título “Be your best version” e coisas do tipo, outras com “Enter your villain era”, o que deve fazer sentido com todos os filmes que a Disney tem feito que mostram seus vilões antes de se tornarem… maus? Bom, não sei, a verdade é que assisti apenas um e não lembro de nada. A premissa é que você vai sumir por mais ou menos um mês, cuidar da aparência, aprimorar seus hobbies, todas as coisas que são impossíveis de se fazer em um mês se você precisa limpar a própria casa e trabalhar e fazer comida todos os dias, e enfim voltar à sociedade (que eu imagino que seja o Instagram ou algo do tipo) melhor do que nunca, sabendo “impor seus limites” e cortando pessoas que “não agregam nada”. Aquelas cenas de filme que nunca vão acontecer na vida real para ninguém, de entrar em um lugar e absolutamente todos pararem para te observar, prendem a respiração, o crush que te esnobou caindo aos seus pés, mas você perdeu o interesse. Quer dizer, uma vingança pessoal. Todos vão ver o quão bem você está e irão te invejar.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/765/1*t3ipf8pXVc_fbbm7zoq1xg.jpeg" /><figcaption>autorretrato um.</figcaption></figure><p>Eu não pretendo entrar na minha “villain era”. Meu desaparecimento de certos lugares tem a ver com cansaço, com não gostar de pegar Uber para casa (ou qualquer lugar), e o clássico financeiro limitado. Meu desaparecimento das redes é esgotamento. Não vou voltar com stories mostrando o quão bem eu estou, corpo dos sonhos, negócios dando certo, viagens para a praia e para a Europa, até porque nada disso aconteceu. Eu me sinto apenas melhor do que antes, tanto faz se os outros percebem ou não, porque eu continuo me sentindo insegura às vezes, ainda tenho minhas vergonhas do passado, e ainda reclamo bastante. Não perdi a empatia, mas me sinto apática, e aí descobri que não sou tão interessante assim. As frases que eu posso soltar que me fazem parecer uma pessoa incrível e manter o interesse de alguém por três meses me parecem completamente distantes da realidade. Nem é pelo fato de me importar se alguém liga ou não para minha formação e quantos livros eu já li e qual a minha opinião sobre guerras no Oriente Médio e as novas regras de declaração de imposto, é que eu mesma não me importo. Acho que me encontro num verdadeiro momento introspectivo. Posso até ter uma história para contar de um café que fui tomar com um amigo, de algo ultrajante que aconteceu no final do ano, de pérolas e pequenos desentendimentos no meu relacionamento, mas tem um exercício que eu tenho feito, pelo menos pessoalmente: eu até posso começar a falar, mas a outra pessoa não está ouvindo completamente, e em algum momento ela vai sacar o celular e ignorar por completo tudo o que está sendo dito, e o pior é que não é na maldade. Claro que eu já fui culpada desse crime, às vezes ainda sou, ninguém está isento desse novo padrão de comportamento. E aí temos as conversas online, que são cansativas por demandarem uma atenção que pede que todo o resto seja ignorado. Um exemplo disso é estar no meio de uma discussão ou uma fofoca, porém você está fazendo almoço e precisa prestar atenção na panela, ou está no trabalho e tem uma entrega antes de uma reunião daqui duas horas. É completamente diferente de estar com uma pessoa do lado falando com você, pois você pode apenas ouvir, não precisa das mãos para digitar ou apertar o botão de play, nem de enviar áudio. Eu falo tudo isso como uma pessoa que fazia todas essas coisas. Parava no meio de uma série de abdominais porque o celular vibrou. Hoje essas coisas mudaram um pouco, e parece que as pessoas entendem melhor que não é possível dar essa atenção toda online (algumas). Mas aí são conversas que começam num dia, são retomadas daqui uma semana, e no final das contas ninguém lembra o que era o assunto de verdade, e ou você esquece de responder ou fica num vácuo.</p><p>Perceber que não há nada de interessante sobre mim também é um alívio. Quer dizer que eu sinto menos pressão da expectativa alheia. E daí que eu gosto de ler? Ninguém vai perguntar, e mesmo que eu ache alguém que também leu o mesmo livro, há muito que eu não tenho uma conversa significativa além de “nossa, muito bom, né?”, e aí o assunto muda para alguma outra coisa. Ah, é verdade, um dos motivos para não me achar mais interessante é que eu percebi que tenho muita dificuldade em sustentar uma conversa. Silêncios desconfortáveis e prolongados são comigo mesmo. Não, eu não vi essa série, não vi aquele filme, e pela milésima vez, eu não faço ideia de qual meme você está falando.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/763/1*QT9bLd3hohkoaGKrl0D-_w.jpeg" /><figcaption>autorretrato dois.</figcaption></figure><p>O que eu mais queria era escrever um livro, ou pelo menos escrever uma história em qualquer formato. Um quadrinho, uma animação de trinta segundos, ou ter uma história tão boa que eu consigo contá-la numa roda e ainda sim prender a atenção das pessoas. É o único momento que eu gostaria que prestassem atenção em mim.</p><p>Quando eu era mais nova, alguma coisa entre nove e doze anos, eu acho, eu gostava muito de “ficar no computador”. Nessa época eu sabia um pouco de HTML e gostava de fazer templates para blogs, e claro que eu tinha um (não faço ideia do que eu postava, acho que eu só ficava trocando o layout sempre que fazia um novo), achava um máximo a existência do Photoshop, e perdia um bom tempo em páginas de <em>groups msn</em> (para quem não teve essa experiência, era um tipo de comunidade que você criava que tinha páginas com conteúdo do assunto geral e chats, e para ser membro de uma você precisava ser aceito). E Dolls. Eu AMAVA Dolls. Por causa dessas bonecas virtuais, eu também passava muito tempo no Paint Brush, que achava mais fácil para fazer esse tipo de desenho do que o Photoshop. Eu era muito curiosa sobre o que envolvia internet e comunicação, eu sonhava em criar (sim, criar), alguma simulação em 3D que fizesse aquilo tudo ser ainda mais vivo… e aí eu me mudei para um lugar que tinham outras crianças, e meninas que não eram tão femininas quanto as outras que eu conhecia, que pareciam não ligar para o que os outros achavam, ouviam Blink-182 e usavam calças largas. Naquela idade, outra coisa que eu almejava muito era ser uma perfeita patricinha, uma dessas menininhas de filme que parecem perfeitas. Risada controlada, sabem comer sem parecer que estão comendo, sempre muito fashion. Minha mãe eventualmente me deixou fazer luzes no cabelo, um cabelo repicado <em>à la</em> Hilary Duff, que não durou muito. É, pois é, pois é. Era um esforço muito grande, cheio de leituras e listas de “como ser”, que nem aquelas que eu mencionei no começo. A única coisa que eu realmente gostava daquele mundo feminino era o balé, porque sim, eu queria ser bailarina. E eu queria parecer interessante, comportada. Porém minha risada sempre foi escandalosa, e depois que eu aprendi meu primeiro palavrão, bem, digamos que eu nunca mais tirei o caralho da boca, porra.</p><p>Nada disso é interessante, no máximo é uma grande revelação inesperada para quem me conhece como a pessoa boca suja, que mal usa maquiagem e só usa preto, que teve o cabelo curto e preto (natural) por dez anos e no momento está sofrendo para deixar crescer por causa de uma promessa que, honestamente, não sei porque eu resolvi fazer uma coisa dessas já que nem católica eu sou. São informações assim que eu vou soltando aos poucos para o meu marido, que ele dá risada e diz que nem imaginava, mas que de alguma forma fazem algum sentido. São historinhas que eu mesma dou risada quando eu lembro, porque agora está distante demais para eu ter alguma vergonha, diferente das coisas que eu fiz 3 anos atrás por estar muito bêbada e ainda me odeio por cada uma delas. E não são histórias interessantes, são embrulhos no estômago. Ainda não superei tudo da época da faculdade também, apesar de fazer quase dez anos que me formei.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/768/1*d_XL7R86TswEo03fGS-c1g.jpeg" /><figcaption>autorretrato três.</figcaption></figure><p>Sabe o que é engraçado? Acho que todos os textos que eu já publiquei, incluindo meu livro, são sobre mim. Relato ou fantasia, é tudo sobre mim. Desde que eu decidi, com mais ou menos seis anos, que eu seria escritora, o que eu queria era escrever fantasia. Alguma coisa tipo Diários da Princesa, que é ficção, mas depois de ler Harry Potter e Alice no País das Maravilhas, eu queria escrever algo assim. Devo ter começado algumas histórias dessa forma, mas nunca terminei. Houve uma época que eu inventava para minha amigas que eu tinha tido um sonho muito legal e criava uma super historinha com as celebridades que a gente gostava (se uma de vocês estiver lendo isso, desculpa, mas claramente o sonho era inventado, nenhum sonho é tão longo e tão linear assim). Um desses ‘sonhos’ acabou virando uma novela oral, especialmente criada para minha melhor amiga da época. Todo dia eu criava um novo episódio, mas aí já não era mais sonho e ela sabia. Porém ela me ouvia com olhos brilhando, com risadas e exclamações, e querendo ou não, era pura ficção. Lembrar disso me deu saudades dela, mas nossa amizade não é mais possível. Não nos falamos há anos e viramos pessoas completamente diferentes. De certa forma, acho que nos detestamos, mas não de forma obsessiva. É raro pensar nela. Enfim, me distraí um pouco. O importante é, eu queria escrever sobre <em>qualquer outra coisa que não fosse eu</em>. Eu queria tanto distanciar minha pessoa das histórias que outra das minhas ambições era criar todas essas histórias com um pseudônimo. Sim, a pessoa de nome registrado no nascimento como Stella Maris, que alguns já acham ser algum nome artístico que eu inventei, queria empregar alguma outra coisa ali, assinar algo como Yasmin (não pergunte), ou James, ou Charles (sim, Dickens), e algum sobrenome estranho que soasse inglês o suficiente para ninguém me achar. Mas, mesmo com minha curiosidade e minhas leituras, as histórias que minhas amigas contam (que eu adorar apropriar e apenas mudar os nomes), minhas observações na rua do cotidiano de breves acontecimentos improváveis, adivinha qual o único assunto que eu sempre consegui lidar e escrever até o fim… Pois é.</p><p>Entre 2011 e (acho que) 2021, eu escrevia sempre. Não sei dizer a frequência, mas não passava um mês sem escrever que nem agora. E quando não escrevia um texto com a pretensão de publicar, escrevia num caderno pessoal, um diário, ou abria o bloco de notas e escrevia uma premissa de uma história que eu jamais voltei para lapidar. Sou muito apegada nesses textos, e até nos cadernos, apesar de saber que nem eu e nem ninguém jamais vamos ler o conteúdo deles. Sinto que perdi essa capacidade até de contar minhas histórias. Uma época cheguei a pensar que não queria mais escrever sobre o que acontecia comigo ou meus sentimentos porque já fazia isso na terapia, porém não é e nunca vai ser a mesma coisa. Simplesmente perdi. É como se me sentisse culpada por fazer registros. Nunca fui muito de citar nomes, mas isso tem ficado pior com o tempo, parece cada vez mais perigoso existir. Eu sei que o tempo que eu passei no Instagram, tumblr. e Facebook tiveram uma influência muito grande em todo meu processo. De repente minhas histórias, mesmo sendo minhas, tinham que seguir uma regra para serem politicamente corretas, ainda que ninguém fosse ler. Por si só já dá para ver a problemática disso, não é? É uma autocensura, que muita gente tem aderido, pelo medo de ser cancelado. Se isso tem algum impacto em pessoas que já são estabelecidas, imagina para quem mal está começando ficar preso na ideia de que vai ser sufocado logo no começo, porque uma personagem foi ofensiva com outra de maneira racista, homofóbica, machista, etc. Eu queria perder completamente esses medos, principalmente o medo da exposição. Meus livros preferidos entram e saem de listas proibidas o tempo todo: Lolita, A Redoma de Vidro, O Apanhador no Campo de Centeio. E eu só vou citar estes porque os outros eu não sei o título em português e não vou procurar.</p><p>Eu quero terminar esse texto, já cheguei em 2.166 palavras, quem precisa disso tudo? Não é um livro. Toda essa reflexão me fez perceber que a questão não é que eu não seja interessante, mas que no fundo eu sou uma grande covarde. Tenho medo de ser imprópria e de ofender, tenho medo de machucar, tenho medo de atenção, tenho medo de contar uma piada que ninguém vai rir, tenho medo de parecer mentirosa, e até de contar uma mentira. Tenho medo de dizer algo que eu acho que é verdade e não é, de espalhar desinformação, ou mesmo de ser mal entendida. Instalei um filtro em mim mesma que tudo o que eu queria era que ele parasse de funcionar, ou fosse trocado por algo mais adequado, algo que não me impedisse de escrever, nem de falar.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=db77ce369dcb" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Fonte seca]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[stella maris]]></dc:creator>
            <pubDate>Sun, 01 Dec 2024 00:58:00 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2024-12-01T00:58:00.432Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Não encontro as palavras para escrever ou descrever o que preciso. As lágrimas não escorrem, as pregas vocais estão arranhadas por gritos sufocados. A dor de garganta do que não é dito, a dor no estômago dos amargos engolidos. Um quebra-cabeças espalhado por tantos cômodos que ele deixa de fazer sentido. Toda a raiva que não esconde uma tristeza se torna indiferença, e esta não precisa dialogar; não quer ouvir, não consegue sentir.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=707477bb6b01" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Oi, Cami]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[stella maris]]></dc:creator>
            <pubDate>Tue, 23 Jul 2024 20:31:34 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2024-07-23T20:31:34.538Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Hoje saiu o trailer de Joker: Folie à deux. Eu tenho uma lembrança de quando anunciaram que a Arlequina seria interpretada pela Lady Gaga, você me mandou mensagem em caixa alta e eu ouvi sua voz, fininha, e me veio a mente seus olhos arregalados, um sorriso enorme, anunciando o quanto você estava excitada pela notícia. Também lembro que eu não sei se concordava com a sua opinião, mas seria muito presunçoso da minha parte dizer que eu estraguei esse momento para você, seria impossível. Era seu momento. Hoje saiu o trailer e, quando Lady Gaga apareceu, você apareceu junto. Você, seus olhos arregalados, os berros dizendo como ela está perfeita no papel, provavelmente você até diria que está muiiito melhor que a Arlequina da Margot Robbie. Talvez você até dissesse que iríamos assistir junto no cinema, mesmo que nossos planos de sair dessem mais errado do que certo. E quando davam certo, bem, aquela vez que você voltou chateada para casa me marcou muito. Mas talvez seja um exagero. Foi só aquela vez.</p><p>Se eu soubesse o que estava se passando na sua cabeça, talvez eu fizesse as mesmas observações bestas que eu nem sei se faziam diferença, como “mas se você morrer hoje você vai perder o álbum novo da Lana Del Rey e você está contando os dias pro lançamento!”. Talvez eu falasse justamente desse filme. Com certeza eu iria te perguntar, em caixa alta, JÁ ASSISTIU O TRAILER???</p><p>Mas hoje você não está aqui.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=bbaeba60bd41" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Do bloco de notas; 4]]></title>
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            <category><![CDATA[decepção]]></category>
            <category><![CDATA[prosa]]></category>
            <category><![CDATA[sentimentos]]></category>
            <category><![CDATA[arte]]></category>
            <category><![CDATA[rascunho]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[stella maris]]></dc:creator>
            <pubDate>Wed, 29 May 2024 13:22:24 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2024-05-29T13:22:24.636Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Enquanto meu corpo estava quente e meu coração acelerado, não pensei mais naquele mal entendido. A medida que o frio foi tomando conta e senti meus músculos enrijecerem, bem, minha mente também enfriou. Não querendo mais olhar para frente, para o celular ou continuar minha leitura, cruzei os braços. Pela primeira vez a tatuagem não fez sentido, não alegrou meu coração com esperanças de um dia melhor. Lembrei o motivo de me restringir de tatuar o corpo com significados. Não senti um arrependimento, nem vontade de cobrir, mas foi algo novo que eu ainda nem sei como descrever.</p><p>O que mais me machuca é ser vista de forma quase vil por alguém que despiu minha alma mesmo antes que eu tivesse a chance de dizer qualquer coisa. Seja qual for a beleza encontrada naquele magnetismo descrito uma vez, agora é um vaso de rosas murchas e ervas daninhas. Não consigo entender.</p><p>Já faz meses, mas o tempo não é cronológico para mim. Conversamos quase todos os dias nos meus pensamentos, enquanto eu tento transformar aquela admiração e carinho em alguma coisa que faça sentido com esse abismo, algo frio e sem amor, sem vida. Minha inconformação e senso de injustiça não conseguiram dar conta do recado.</p><p>A revelação veio de forma inusitada, num dia que eu achei que a raiva poderia ter vencido e tomado conta de tudo o que eu sentia, a máscara foi se derretendo. Primeiro a tristeza. Tentei tanto me transformar em alguém que não sou só para acatar uma ideia mentirosa de quem disseram que eu era. Ah, quanta agressividade, como se eu realmente tivesse alguma influência nas suas mentes maliciosas. O amor não aprisiona, ele liberta, e quem quer se fazer livre não destrói, cria! A Arte enfim me abraçou, prometendo curar todas as marcas profundas que deixaram na minha carne. Só não posso deixar de ser quem sou.</p><p><em>[</em><strong>Do bloco de notas</strong><em> é uma coletânea de publicações curtas e sem títulos de textos pouco desenvolvidos e quase esquecidos.]</em></p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=2a08c8282235" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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