Eu não vou mentir, tenho pensado diversas vezes ao longo dos anos, de encerrar meus capítulos, escrever a última linha num misto de poesia e decisão pelos meus próprios termos, não por um ou outro motivo, mas o aglomerado de frustrações, privações, ausências, danos e principalmente humilhações que causam-me dores, dores até físicas. Esse sentimento não é novo e há ainda quem diga que a culpa é minha, mas o fato de apontar culpado já me faz duvidar se essa pessoa tem ideia do que a palavra culpa significa, do que eu sofro e tenho passado e quão infeliz é esse apontamento.
Este é de fato o primeiro post em tempos aonde reúno-me de volta ao meu muro das lamentações, para sussurrar meus prantos, minhas indignações, ás vezes meus sucessos, mas em grande parte minhas perdas. Eu sinto a dor latente, e ela não vai embora.
Eu tenho um misto de sentimentos aprisionados em mim escapando quando estou transbordado, e me fez pensar sobre algumas coisas, principalmente como as coisas poderiam ser diferentes, ainda que não seja um pensamento saudável alimentar esses “poréns” e “e se”. Inargumentavelmente sei que sou um pouco perfeccionista e arquiteto, talvez muito menos do que já fui antes, mas formalizei perguntas que eu me faço desde cedo, bom… há muitas datas ai, mas mais da metade da minha vida, e eu inclusive gostaria de que elas não fossem apenas minhas perguntas, não por mera comparação, mas como aviso, que sejam lidas, pensadas com toda a atenção que merecem, caso contrário apenas validamos pensamentos nielistas e vazios, e o fim do mundo seria muito bem vindo e apenas seria um outro capítulo, um ponto final num mal chamado humanidade.
“O que você deseja na vida, já alcançou ou ao menos sabe oque é?”
Dentre meus anos de indecisão e confusão mental, eu creio que tenho “carreiras” que gostaria de seguir, coisas que para o meu entendimento de mundo saciam minhas necessidades e as da sociedade, ser produtivo, trabalhar. Mas há tantas outras que não envolvem “dinheiro” ou “sucesso” ao olhos do comum, e que são exatamente as que mais me trazem calor ao coração, porém estou extremamente afastado delas. Já desejei pertencer à um casal feliz que comemoraria bodas de ouro. Sonho em ter filhos, não meramente largá-los no mundo como se vê por ai tão comumente. Quero ser emocionalmente livre de “metas” que não dependem exclusivamente de mim, mas o prazer e sensação de segurança de si, e a compleição de ver outra pessoa se realizar e saber que você fez parte disso, é forte e lindo. Eu posso ser egoísta com meus objetivos como falei antes, música, carros, tecnologia… minhas paixões. Mas dividir essas alegrias é tão significante quanto o ato em si.
“Quais os objetivos que você mais desejou e não pode ou não sabe se vai conseguir alcançá-los?”
Enquanto eu ainda viver, todos meus objetivos podem ser que vão por àgua a baixo, é uma insegurança viver, é sofrido não saber, sejam pela ausência material, física, psicológica ou de espírito, traçar um novo plano, uma nova rota, outro objetivo… muito ainda está por ser decidido, e eu sei de alguns planos em que não mais faço parte, mas que eu também tenho que mudá-los. A mudança é certa, as vezes dolorosa mas é proporcional ao tempo que esteve estática e sedimentada. Ainda que toda mudança possa ser boa, nem toda rotina é ruim. E alguns objetivos envolvem a rotina… como uma rotina de anos. Conhecer alguém nunca é uma tarefa com data de conclusão, e ter uma pessoa por muito tempo ao seu lado, é uma tarefa árdua e constante, porquê um dia tudo muda.
“Se seu tempo de vida estivesse limitado, você estaria satisfeito com oque viveu até agora?”
Sofro do mal que vejo não apenas em minha falecida mãe, como em outros poucos. O ato de se preparar, se privar para um momento melhor, o ato de beneficiar uma ou outra coisa em prol de algo mais a frente, esse planejamento me remete a todas as coisas que poderia ter feito, que me arrependo de não ter feito, muito mais da que fiz e não deveria. Eu não consigo me permitir desatar os nós da inconsequência apesar de tudo que ela traz, porque não são apenas as coisas ruins, mas perder o medo é uma coisa boa. E fatalmente, quando o destino é selado e nos vemos na linha final, ele vai embora. Estou ciente que estou agindo errado, e meu tempo não é suficiente.
“Você sente sua vida escorrendo entre os dedos ao ponto de não se sentir mais relacionado a nada da sua era?”
Seja pelo anacronismo, independente da relatividade de tempo, eu sempre tentei colher o melhor de mim, e o melhor que cada “era” me pode ensinar. Nasci num tempo aonde ainda cavalheirismo era um sinal bom, e não interpretado erroneamente. Vivi a vida em função da liberdade que tive, e ela me foi uma bênção em certos momentos, mas um peso quando não se ter um propósito te instiga à qualquer coisa. Sou o último romântico, o mais antigo cavalheiro, finado de propósito num mundo cruel e alienado. Eu não existo em um mundo aonde a capacidade de empatia, de boa vontade e gratidão não existem. Eu não pertenço a este mundo faz tempo, ainda assim estou aqui.
“Se fosse seu ultimo dia de vida, como e com quem gostaria de passar ele?”
Eu gostaria que fosse como num romance, aonde eu citaria o nome do meu grande amor, e a vida seria leve pelo significado que tudo isso traz para mim; mas não funciona assim. Eu constantemente me relembro do Clip de Enigma – Return to Inocence, que me traz lágrimas toda vez que vejo, assim como o Clipe de Sentenced – No One There, são ambos os exatos pontos opostos e entre si mistos de sentimentos que despertam em mim. Em uma realidade alternativa, gostaria de ter meus filhos por perto, o dia todo, se possível minha cara metade, apenas passar tempo conversando, relembrando, tudo que passamos. Bom ou Ruim, contanto que não houvessem mágoas. Em meus últimos instantes, gostaria de pensar como estão, se estão, meus parentes, mesmo os falecidos… pois adoraria ser acompanhado por duas senhoras que amo tanto, minha mãe e minha avó. Chaplin nunca esteve tão certo sobre como as coisas deveriam ser.
“Qual legado você aspira deixar?”
Isso é a nota de rodapé que eu jamais vou escrever, bom nunca por completo, pois depois de tanto sofrer, me esforçar para deixar algo bom, e constantemente ser desmerecido, há de se descansar sobre isso e deixar apenas fluir ainda que seja uma tarefa árdua para mim. Eu me sinto humilhado, por diversas vezes, por tudo que fiz focando o bem maior ou o bem de outro, e sou feito de chacota ou tratado como ignorante. Dizem, “O mundo é dos espertos” mas na nota esquecem que ninguém vive sozinho, e é bom que você viva plenamente e fiel aos ideais, que esses sejam puros pois mesmo o mais esperto, dependeu de alguém alguma vez na vida. Se algo de bom pudesse vir de mim, me orgulharia de passar valores para meus filhos, e vê-los serem pessoas maravilhosas, me daria orgulho e além.
Analisando tudo que escrevi e me remetendo a infância, comparando-me, me sinto mais leve de compartilhar, mas nem um pouco menos ansioso pois tudo aqui ainda são palavras, os sentimentos são legítimos e existem, mas estarei em paz de verdade comigo apenas quando as palavras forem concretizadas. Não é uma despedida, é um pedido desesperado de socorro e uma tentativa de atenuar a ansiedade de quem está perdido, desorientado e quebrado. Quem já aguentou muito por muito pouco e precisa continuar para que talvez um dia a vida deixe de se tornar uma tortura, e passe a ser o que se sonha, o que se prega, o que se deseja de fato. Não preciso de muito, mas quero muito o todo.
Think of your lifetime as one day,
It’s fading away,
The shadows are growing long.
Think of existence as a flame,
And death as rain.
Storm clouds there right along.
At life’s eve our flames will cease,
Eternally, unavoidably.
Eventually all paths will lead to the cemetery.
We are but falling leaves in the air, hovering down.
Unaware we are spinning around.
Scattered fragments of time,
Like blinks of an eye.
We are, that’s all we are.
Think of your lifetime as one year,
Look, autumn is here.
Getting colder, the winter’s impending.
Your conclusion’s drawing near,
Certain, austere.
Yes, only the circle’s unending.
At life’s eve our flames will cease,
Eternally, unavoidably.
Eventually all paths will lead to the cemetery.
To the prior deceased.
We are but falling leaves in the air, hovering down.
Unaware we will hit the ground
Scattered fragments of time,
Like blinks of an eye.
We are, just when we realize that we are alive, we die.