Frameworks são corrimãos, e corrimãos não foram feitos para quem quer voar.
Eu sou fã de frameworks e playbooks. Nos últimos anos, tenho construído diversos, como, por exemplo, na edição mais recente da DealflowBR, falei bastante sobre o meu Playbook de Product-Market Fit ou, nos links recomendados, compartilhei o Playbook do Claude para PMF. No dia a dia, uso frameworks para avaliar oportunidades, mapear mercados, estruturar processos. São ferramentas que escalam o conselho e reduzem o custo de reaprender o que outros já aprenderam.
Mas, sendo honesto, eu mudei minha percepção sobre o uso de frameworks quando o objetivo é algo realmente grande.
Para explicar o que é um framework e sua utilidade no dia a dia, a melhor analogia que conheço é a do corrimão de uma escada. Segurar o corrimão reduz o risco de cair. Você segue um caminho testado, mais seguro, evitando os desníveis, para chegar do outro lado sem problema. Frameworks funcionam assim, sintetizando longas experiências e testes em uma estrutura que você pode usar, sem passar anos aprendendo. Reduzem o custo cognitivo. E, para quem desenvolve, escalam a transmissão de um conselho ou treinamento.
Mas o corrimão te protege do risco, isso é bom para não cair, mas se quiser tentar fazer algo mais arriscado ou mais veloz, como em um Parkour, você não deve usar o corrimão como recomendado.
Em 2016, Kenneth Stanley e Joel Lehman escreveram Why Greatness Cannot Be Planned, um livro que me provocou bastante, e que compartilhei na edição de livros de 2025. O argumento central é direto e confrontou com minha visão até então de frameworks e playbooks no early-stage. Seguir objetivos fixos é um péssimo método para chegar a lugares realmente novos. O progresso em inovação acontece saltando de uma ideia interessante para outra, colecionando stepping stones que, isolados, não se parecem com nada grandioso, mas que juntos levam a algo que ninguém havia imaginado.
O exemplo mais claro é a NVIDIA. Nos anos 90, o objetivo era fazer jogos de tiro parecerem mais realistas. Ninguém estava tentando construir a infraestrutura para inteligência artificial. Mas a matemática necessária para renderizar gráficos 3D, multiplicação de matrizes em paralelo, acabou sendo exatamente a matemática necessária para treinar redes neurais profundas. Não havia playbook para isso. Havia curiosidade, e um mercado estranho que ainda não fazia sentido.
No ambiente de VC, onde devemos buscar retornos assimétricos e oportunidades que serão outliers em dez anos, olhando para trás. Queremos encontrar a oportunidade perfeita, mas o que mais tem são anomalias, imperfeições e arbitragens. Às vezes é difícil encontrar uma explicação, e é preciso estimular o desacordo.
Frameworks são ótimas ferramentas para reduzir risco e complexidade em processos conhecidos. Se você quer descer a escada sem cair, segure o corrimão. Mas quando o prêmio está em território desconhecido, o corrimão te prende ao caminho que outros já percorreram. E caminho já percorrido, por definição, não leva a lugar nenhum novo.
Se você quer construir algo realmente diferente, uma empresa com posicionamento único, um processo que gera vantagem competitiva genuína, um produto que não existia antes, você não pode depender de playbooks ou frameworks como bússola principal. Eles vão te levar a algum lugar. Só não será um lugar novo.
A distinção que tenho tentado praticar é usar playbooks para o que já foi descoberto ou para ganhar contexto rapidamente. Mas é preciso usar a sua curiosidade, intuição e autenticidade para buscar o que ainda não tem nome. O Playbook de PMF que compartilhei não é um destino. É uma linguagem compartilhada para um ponto de partida. As unfair advantages estão em playbooks proprietários, com os ingredientes do seu contexto, do seu mercado, da sua intuição acumulada.















