Margens do Inconsciente

Escritos do entre-mundos

  • Pare de fingir

    Uma Questão de Química, Legalmente Loira e The Marvelous Mrs. Maisel falam da mesma coisa, mas a partir de mulheres que, à primeira vista, parecem ocupar lugares opostos. Mas todas são geniais e você vai se identificar com elas. Sim. Deixe a síndrome de impostora pra fora dessa leitura, agora. Eu estou banindo ela. Ok. Respira fundo e vem comigo (se você não assistiu nenhuma das séries eu recomendo fortemente…..e obviamente tem um pouco de spoiler, mas isso não vai te atrapalhar em nadica).

    Sobre as séries e filme e suas protagonistas:

    Uma não vê sentido em se arrumar, em performar feminilidade, em cumprir o papel esperado.

    Outra ama o rosa, ama o cuidado com a aparência, gosta de ocupar o lugar do feminino clássico.

    A outra começa tentando ser a esposa perfeita, a mulher impecável, aquela que faz tudo certo.

    E ainda assim, nenhuma delas escapa. Sim, de ser mulher. De ser diminuída e tratada como um objeto.

    Não importa se você está dentro ou fora do padrão.

    Não importa se você rejeita ou incorpora o feminino esperado.

    Em algum momento, todas essas mulheres, todas nós, batemos no mesmo muro.

    São vários muros na real.

    O muro do abuso.

    Da importunação sexual.

    Do corpo tratado como objeto disponível.

    Da inteligência questionada.

    Da piada que diminui.

    Do olhar que supõe menos capacidade, menos graça, menos potência, só porque é mulher.

    Existe uma fantasia social de que seguir o sistema protege. Não protege. Existe outra fantasia de que sair do sistema resolve. Também não resolve.

    O que essas histórias escancaram é que o problema não é o modo como cada uma performa o feminino, o problema é a estrutura que já decidiu que mulher é menor, é menos.

    E aí vem a pergunta que atravessa todas elas:

    se esse não é o lugar que nos dão, que lugar sobra para ocupar?

    Parece que não sobra nenhum.

    Parece que, se não aceitamos o lugar pequeno, estamos invadindo. Atrapalhando. Incomodando. Meu Deus, como eu escuto essa palavra nos meus atendimentos.

    Como se não tivéssemos o direito básico de ocupar, de escolher onde cabemos.

    E é aqui que algo muito importante acontece nessas narrativas, algo que não é romântico, é político e psíquico ao mesmo tempo.

    Elas aprendem. Tomam consciência (a duras penas)

    Elas se informam. Pegam livros, prestam atenção, buscam.

    Elas dominam o campo. Assumem seus lugares.

    A química, o direito, a palavra, o humor, o conhecimento do próprio corpo, tudo isso vira ferramenta de ampliação de espaço.

    Não é só sobre carreira.

    É sobre tamanho.

    Quando uma mulher entende como algo funciona, o sistema jurídico, a ciência, o próprio corpo, ela não precisa mais pedir licença para existir ali. Ela passa a ocupar com propriedade.

    Isso se conecta diretamente com o que eu vivi na humanização do parto, quando trabalhava como doula e quando comecei o movimento de humanização ao parto onde morava.

    O que faltava ali não era coragem, nem desejo, nem força. Faltava informação real. Faltava saber como o corpo da mulher funciona, quais são os processos, quais são os direitos.

    Não era intuição vaga, não era achismo, era informação real sobre o corpo da mulher, sobre o processo do parto, sobre direitos. E essa informação devolve algo que sempre foi nosso, a possibilidade de escolha. Escolher, que palavra poderosa. E saber nos permite isso.

    Saber dá poder. Saber tira a mulher do lugar infantilizado. Saber nos permite assumir nossas escolhas, nossa vida, nós mesmas.

    E tem mais um fio importante: essas mulheres não crescem sozinhas.

    Elas se encontram. Elas se apoiam. Elas se espelham em outras mulheres. Elas compartilham o saber. Ao contrário do que sempre incentivam, de que estamos aqui competindo. Mulher, eu quero te ver ganhar sim, vou comemorar com vc!

    No fundo, essas histórias falam da mesma dor antiga que ainda está viva. E as duas series que se passam nos anos 50-60, pioram a impressão de que nada mudou de lá pra cá. A ferida segue aberta.

    A crença de que mulher pode menos. Mesmo quando o tempo passa. Mesmo quando o cenário muda. Mesmo quando a roupa é outra.

    E talvez por isso elas toquem tanto. Porque mostram que não se trata de vencer o sistema sendo exceção, mas de abrir caminho para que outras mulheres também possam ocupar, com saber, com escolha e com verdade, o lugar que desejarem.

    E isso, conversa diretamente com o meu trabalho.

    Aprender sobre si.

    Aprender sobre o corpo.

    Aprender sobre emoções, sentimentos, vínculos, histórias.

    Informação como ato de libertação, não como acúmulo, mas como possibilidade de vida.

    No fim, não é sobre provar que somos capazes.

    É sobre parar de aceitar um mundo que insiste em esquecer disso. É sobre parar de achar que somos menos, que somos bobas, que somos menininhas, que não podemos ter orgulho de assumir nosso poder, nossa inteligência, nosso lugar. Um mundo que está sempre nutrindo a síndrome da impostora. Sempre.

    Hoje, o que mais me inspira nessas narrativas é isso, aprender, questionar, não me conformar com o que me diminui. Não aceitar tudo. Não aguentar tudo. Não agradecer pelo que me machuca. Cansada, sabe?

    Questionar não é ingratidão. É cuidado. É dignidade. É um gesto profundo de amor por si. E talvez o caminho seja esse, reaprender a perguntar.

    Reaprender a estranhar.

    Reaprender a confiar no incômodo como bússola.

    Porque nós somos capazes de muito mais.

  • (cuidado, contém spoiler da 1ª temporada da série Fleabag)

    A 1ª temporada de Fleabag inicialmente se apresenta como uma comédia rápida, irônica e marcada pela inteligência da protagonista. A série utiliza o recurso de quebra da quarta parede, quando um personagem olha diretamente para a câmera e cria um espaço de intimidade com o espectador. Esse recurso não é apenas uma escolha estilística, mas um movimento essencial para aproximar o público da vida psíquica da personagem. Ela (a protagonista) nos envolve na vida dela com esse olhar e rapidamente somos pegos.
    A cada episódio, entramos mais e mais em seus afetos, pensamentos confusos, tentativas de fuga e impulsos contraditórios. A narrativa começa leve, mas logo revela camadas densas de dor, perda e descontrole emocional que não aparecem de forma clara, mas atravessam silenciosamente todo o enredo. O humor funciona como defesa, enquanto o luto permanece à espreita, não nomeado, não reconhecido, não acolhido.

    A protagonista usa a sexualidade como mecanismo de fuga, envolvendo-se em encontros que funcionam mais como distrações do que como vínculos. Há uma dificuldade evidente de aprofundar relações, expressar emoções e sustentar qualquer tipo de intimidade real. Essa dinâmica revela uma instabilidade emocional marcada pela impulsividade, pela carência e por uma sensação constante de desconexão consigo mesma. Algo curioso, o recurso da quebra da quarta parede intensifica essa ambiguidade. Aquilo que ela não diz aos personagens é confidenciado ao espectador, num jogo de exposição e ocultamento que reforça sua dificuldade de colocar em palavras o que sente.

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    O olhar para a câmera não é casual. Ele cria um espaço onde ela ensaia fragmentos de verdade que não consegue sustentar no mundo real. É nesse intervalo que o espectador é convocado a ocupar o lugar daquele que vê o que ela tenta desesperadamente esconder.

    O luto ocupa lugar central nessa temporada, ainda que nunca apareça como tema explicitamente abordado. Ele surge em flashes que revelam a morte da amiga Boo, sempre envolta em, novamente, ambiguidade, silêncio e confusão. Aos poucos, o enredo sugere diferentes possibilidades, como acidente, suicídio, culpa ou falha ética. A verdade, revelada apenas no episódio final, transforma toda a narrativa: Boo se matou após descobrir a traição do namorado e essa traição havia acontecido com a própria protagonista. A temporada inteira, portanto, é atravessada por um luto contaminado pela culpa, por uma dor que não pode ser dita e por uma responsabilidade silenciosa que corrói sua capacidade de contato consigo e com os outros.

    Fleabag encarna uma forma particular de angústia que nasce da experiência de escolher sem realmente saber como existir. A personagem se move num território de impulsos e repetições que se tornam círculos intermináveis. Suas escolhas carregam marcas de autossabotagem, não por falta de consciência, mas por permanecer presa a um funcionamento emocional que não encontra espaço para se reorganizar. As relações que constrói oscilam entre desejo e repulsa, entrega e recuo, numa tentativa contínua de preencher um vazio que nunca se deixa tocar.

    Ela busca algo no corpo, nos excessos, no humor cortante, em gestos impulsivos, como se qualquer sensação imediata fosse melhor do que encarar a dor profunda que a acompanha. Nada disso promove elaboração psíquica. Produz apenas movimento, deslocamento, fuga. É como correr em círculos dentro de si mesma.

    O luto, portanto, não encontra lugar. Manifesta-se como sombra, como acontecimento insistente que não encontra linguagem, espaço ou reconhecimento. Ele está presente em todos os episódios, costurando silenciosamente cada fuga, cada relação interrompida e cada olhar desesperado para a câmera. Por não ser verbalizado, o luto se transforma em fantasma, infiltrando-se na culpa, no humor, na impulsividade e nos silêncios. A protagonista tenta seguir, mas carrega um peso que não se integra e não se dissolve.

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    Além do luto por Boo, há o luto pela mãe, tratado de maneira igualmente disfuncional. A presença da madrasta, que ocupa o lugar da amiga da mãe e agora o lugar da esposa do pai, cria uma dinâmica desconfortável. O jantar em homenagem à mãe morta, por exemplo, é atravessado por tensões soterradas e silêncios densos. Nada é falado abertamente, e a ausência de diálogo transforma cada interação em algo truncado, deslocado e emocionalmente inabitável. A escultura da madrasta, uma mulher nua e sem cabeça, roubada pela protagonista no começo da temporada, torna-se símbolo central. Seu reaparecimento constante revela muito mais do que humor. A imagem da mulher sem cabeça reflete a própria condição interna da protagonista, frequentemente reduzida ao corpo, ao desejo que provoca e ao papel que ocupa para o outro. Sua cabeça, isto é, sua identidade e sentido, parecem ausentes, deslocadas ou desconectadas.

    Essa temática do silêncio é aprofundada no episódio em que a protagonista e a irmã participam de um retiro de silêncio, inscritas pelo pai. O retiro deveria promover introspecção, mas na verdade escancara a incapacidade daquela família de se comunicar. O silêncio funciona como metáfora explícita do que sempre existiu entre eles. Não é uma prática meditativa, é a repetição de um padrão. Ali, o silêncio não cura. Ele apenas torna visível o abismo que separa aquelas pessoas e a ausência quase absoluta de diálogo verdadeiro.

    No terreno ao lado, ocorre simultaneamente um retiro para homens marcados por ressentimentos silenciosos em relação às mulheres. A justaposição entre os dois espaços evidencia tensões profundas entre os gêneros e as feridas que cada um carrega. Ao atravessar o limite e ser expulsa, a protagonista reencontra o avaliador financeiro que havia conhecido no primeiro episódio, quando buscava um empréstimo para salvar o café. Naquele episódio inicial, uma cena tragicômica ocorre quando ela levanta a blusa, num gesto impulsivo que a coloca momentaneamente de sutiã, e ele a expulsa por interpretar aquilo como uma tentativa de suborno. Esse primeiro encontro já revelava fragilidades quanto aos papéis de homem e mulher, seus limites confusos entre vulnerabilidade, poder, desejo e medo.

    No retiro, porém, os dois conseguem conversar verdadeiramente. A conversa não conserta nada, mas abre um espaço. Falam brevemente sobre vergonha, limites, equívocos e sobre como cada um tenta lidar com seus papéis sociais. Há algo de reconciliação ali, não apenas entre os dois, mas entre masculino e feminino num nível mais simbólico. No último episódio, quando ela está em crise no exato local onde Boo morreu, ele aparece novamente. Eles conversam, ele conhece o café e tentam um novo acordo. Esse reencontro sugere a possibilidade de uma relação com o masculino que não seja regida apenas por culpa, medo ou desejo caótico. Aponta para um encontro mais concreto, menos abstrato, menos defensivo.

    Essa reflexão se intensifica na sexibition da madrasta, uma exposição artística sobre sua vida sexual. O espaço vazio da escultura roubada é apresentado como a mulher roubada, com alusões críticas aos abusos sofridos por mulheres, enquanto uma sala repleta de pênis esculpidos transforma a sexualidade em espetáculo. Quando a madrasta pergunta à protagonista se ela reconhece o pênis do próprio pai, a cena alcança um nível de desconforto que revela o quanto aquela família usa o sexo para evitar falar de afeto, dor e verdade. A sexualidade ali funciona como cortina de fumaça que esconde tudo que realmente importa. Fala-se de sexo para não falar de si.

    A partir da Psicologia Humanista, esses movimentos revelam um profundo afastamento do self real. A protagonista vive em constante incongruência entre o que sente, o que mostra e o que acredita que deveria ser. Sua impulsividade e sua dificuldade de contato emergem como respostas à falta de um ambiente emocional facilitador. Em vez de encontrar espaço para experienciar seus afetos de maneira autêntica, ela se move dentro de um campo marcado por julgamentos, ironias e silêncios. A ausência de aceitação, empatia e autenticidade em suas relações impede o florescimento de sua tendência atualizante. Ela não é desestruturada. É impedida de florescer. Pequenos lampejos de vulnerabilidade aparecem, mas não encontram solo fértil para se expandir. O luto não elaborado, a culpa não nomeada e os vínculos interrompidos revelam a carência de um ambiente emocional seguro, fundamental para qualquer um que tente se reorganizar e reencontrar a própria dignidade psíquica.

    A temporada termina sem resolução, mas com a sensação de que, pela primeira vez, a dor foi vista. Para a Psicologia Humanista, esse reconhecimento inicial é o primeiro passo para qualquer transformação. Mesmo sem cura, há ali um começo. Uma fresta. Um olhar possível.

    No conjunto, a 1ª temporada de Fleabag oferece um retrato potente dos lutos não reconhecidos, da culpa silenciosa, das fugas emocionais e da dificuldade de construir vínculos verdadeiros quando a própria subjetividade está despedaçada. A narrativa provoca porque não resolve. Mostra, tensiona, ironiza, mas não cura. E exatamente por isso se torna tão significativa para estudos sobre saúde mental, luto, vínculos e mecanismos de defesa. Fleabag encarna um modo de existir em que a dor se infiltra por entre piadas, performances e excessos até que se torna impossível continuar evitando o encontro consigo mesma.

  • Bem-vinda ao meu espaço.

    Este é o começo de algo que pulsa em mim há tempos: um lugar para escrever, registrar e compartilhar, longe do ritmo apressado das redes sociais, onde tudo parece girar em torno de vender algo ou conquistar atenção. Aqui, a proposta é outra. É criar um refúgio. Um espaço em que eu, mulher de muitas histórias e vivências, possa deixar palavras ganharem vida sem a obrigação de cumprir um papel no mercado.

    Na verdade, esse impulso de escrever e partilhar não é novo. Lá em 2001, quando eu estava no cursinho, comecei a escrever em blogs. Era um jeito de organizar os pensamentos e dar forma ao que fervilhava dentro de mim, enquanto o mundo parecia tão incerto. Escrevi por muitos anos, e até hoje guardo o endereço desse tempo como um retrato de quem eu era e das trocas que vivi por lá. HTTP://agrandegaia.wordpress.com é o endereço.

    Esse espaço aqui carrega um pouco daquela essência, mas agora com outra maturidade, com outros olhares.

    Escrever para mim sempre foi mais do que um ato solitário – é a busca pela troca, pelo diálogo, mesmo quando as respostas vêm no silêncio do outro lado. Eu sou uma mulher que já viu muito, que carrega histórias profundas, marcas e aprendizados que dançam entre as memórias e o presente. Sempre tive esse impulso de partilhar, de conectar, de trocar. E isso não mudou. Só o formato, o espaço. Aqui, eu posso criar sem pressa, com a leveza e a profundidade que o instante pede.

    Se você chegou até aqui, saiba que está entrando em um lugar que não quer vender nada, mas oferecer algo: pensamentos, sensações, inquietações. Um lugar que convida você a desacelerar junto comigo.

    Vamos construir este espaço juntos? Ele é um começo. Um convite.

    Com amor,

    Nathalie.

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    Escrito em 14 de janeiro de 2025

  • Escrito em uma lua cheia em câncer.

    Nos últimos dias, uma série de sincronicidades me fez refletir sobre a importância de acolher a nossa história em sua totalidade. Tudo começou de forma curiosa: assistindo ao filme Sonic 3 com meus filhos. Uma frase do filme me tocou profundamente: “Quando uma estrela se apaga, ela continua brilhando”. Logo depois, decidi rever Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, um filme que há anos costumava me deixar triste, mas que hoje me trouxe uma nova percepção. E, entre essas experiências, lembrei também de Dr. Who, com suas histórias sobre as infinitas possibilidades que surgem quando algo em nossas vidas é diferente.

    Essas histórias se conectam em algo maior, que sempre me fascinou: o tempo. Viagens no tempo, narrativas mágicas sobre o que o tempo é e pode ser, têm essa capacidade de nos fazer refletir sobre nossas próprias vidas. Olhar para as estrelas, por exemplo, carrega essa magia. Estamos observando algo que talvez nem exista mais, mas cujo brilho continua chegando até nós. Isso me faz pensar no título Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças. Existe uma beleza paradoxal nesse conceito: o brilho que persiste, mesmo quando tentamos apagar ou esquecer.

    E aqui entra um ponto fundamental: o quanto se lembrar é poderoso. Nietzsche escreveu: “Abençoados sejam os esquecidos, pois tiram maior proveito dos equívocos”. Embora essa frase toque em um desejo humano de alívio, acredito exatamente o contrário. Lembrar, embora doloroso, é essencial.

    Já vivi situações em que quis esquecer, porque doía demais lidar com aquilo que passei. Mas se eu tivesse esquecido, não teria aprendido a estabelecer os limites que me protegem hoje. Não teria compreendido o que precisava mudar para sair de ciclos repetitivos. Lembrar é o que nos permite sair da “rodinha do hamster”, aquele lugar onde repetimos os mesmos padrões porque não conseguimos enxergar o que nos prende a eles.

    Esse é um dos aspectos mais transformadores do trabalho terapêutico e também das leituras de registros akáshicos. Ambos trazem à tona memórias — conscientes ou inconscientes — para que possamos olhar para elas com novos olhos. A memória é como uma chave: nos dá acesso às histórias que moldaram quem somos e, ao mesmo tempo, oferece a possibilidade de ressignificar essas histórias, ampliando nossa compreensão.

    Lembrar não é só reviver o passado. É estabelecer um ponto de encontro com o que vivemos, compreender as marcas que carregamos e escolher como queremos caminhar daqui em diante. Isso nos dá força para criar limites claros, aprender com os erros e, finalmente, sair de padrões que já não nos servem.

    A integração dessas memórias é como acessar um brilho eterno: não apenas o que foi bonito, mas também a sabedoria e a força que emergem das experiências difíceis. Assim como uma estrela que parece apagada, mas cujo brilho ainda chega até nós, nossas histórias — boas e difíceis — continuam a iluminar quem somos, se permitirmos.

    Se lembrar é um ato de coragem e poder. É reconhecer que as linhas de nossa história, mesmo as mais dolorosas, estão entrelaçadas com beleza e propósito. Quando aprendemos a honrar nossas memórias, deixamos de ser prisioneiros do passado e nos tornamos criadores do presente. Porque, no fim, não são apenas as estrelas que carregam um brilho eterno, mas também as nossas histórias, que continuam vivas e nos guiam em direção ao que podemos ser.

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    Escrito em 14 de janeiro de 2025

  • Tinta azul e lilás. Tinta respingada no chão e nas mãos. Viro uma obra de arte abstrata. Me sinto um quadro, daqueles coloridos, cheios de vida e inspiração.
    Mel, iogurte e granola. Se misturam às cores e acrescentam sabor e aroma.

    Creio estar, neste exato momento, no paraíso.

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    Escrito dia 23/03/2012


  • Naquele dia, o sol nascera forte e laranja. Fui para meu último dia de estágio no hospital do Carandiru, como aux. de enfermagem. Sim, fiz estágio lá no ano de 2001, no hospital, não nos pavilhões.
    A rotina era bem simples: ser revistada, entrar naqueles corredores em forma de encruzilhada, separar os medicamentos, ir para as celas, limpar os quartos e dar os remédios. Eram 3 tipos de corredores com celas: a feminina, a masculina e a solitária, esta última reservada para casos “especiais”. Nós cuidávamos da solitária.
    Era estágio de doenças infecto contagiosas, mas vi e aprendi coisas para muit além de tais doenças. Usava, obrigatóriamente, roupa branca com calça comprida, jaleco, luvas e máscara. Cem por cento dos que estavam ali, tinha HIV e tomavam os piores coquetéis para tal, aqueles primeiros a surgir, com vários efeitos colaterais e recuperação dolorosa e lenta. Se houvesse a recuperação. Se quisessem a mesma.
    Eu estava lá como enfermeira, para cuidar e pronto. Mas maioria das pessoas não são assim, se contaminam pelo orgulho e se acham no direito da humilhação por achar que são  melhores que os presos que estavam ali como pacientes, terminais, diga-se de passagem.
    Quem sou eu para julgar alguém? Se minha função lá era cuidar, o faria, da melhor maneira possível.
    A rotina era tensa, com olhares e sensações estranhas, coisas que eu sinto de maneira anormal, levando em conta o quanto sou sensitiva. Mas nunca me aconteceu nada. Não diretamente.

    Eu olhava curiosa para todos, disfarçando um pouco para que eu não houvesse nenhum problema. E mesmo não tendo acesso aos prontuários dos pacientes (fato este, incomum em meus estágios, mas comum num sistema carcerário) eu me pegava pensando na vida que aquela pessoa teve e como tudo o levou a estar ali, vivendo numa cama de hospital presidiário, com poucos movimentos e olhares, cheio de dor, solitário e quase nenhum conforto. Um deles, tinha olhos de um azul coral que eu nunca vira e tatuagens “de cadeia” por todo o peito. Descobri dias depois que ele era estuprador. Um arrepio me subiu a espinha, mas tentei me acalmar e dar-lhe seus remédios. Quaisquer que fossem seus horrendos crimes, sei  que o universo se encarrega bem deles.
    Naquele último dia, as coisas caminhavam na rotina: limpar o quarto, colocar o paciente numa cadeira de rodas com assento, ligar a ducha, arrumar sua cama e lhe dar os remédios e seu café da manhã.  
    O terceiro paciente era o senhor dos olhos de coral. Ao colocá-lo na cadeira de rodas, ele começou a tossir e sequer se aguentava na cadeira. Chamei as enfermeiras e a professora de estágio. Elas o colocaram de volta no leito enquanto que eu e minha companheira de estágio eramos escoltadas até a porta. Mas na parede tinha uma espécie de janela de vidro, fechada e ficamos observando a cena.
    Ele tossia quase sem ar e as enfermeiras procuravam uma veia para colocar soro. Eu olhava atônita para minha amiga, perguntando onde estava a massagem cardíaca e o carrinho de parada, aquele senhor estava agonizando e implorando por sua vida, enquanto duas enfermeiras papeavam sobre a novela enquanto furavam o braço. Em seguida, veio o médico. Fingiu uma massagem cardíaca (pois eu estudava bem a ponto de saber, exatamente, como era a manobra) e, enquanto o senhor morria, continuava a conversa com as enfermeiras, algo do tipo, puxa, será que vai chover hoje?
    Minha vontade era de gritar, de xingar o médico e de buscar o carrinho de parada. Mas não podia. Minha professora, que estava ao meu lado, me segurou e disse que eu não podia fazer nada. Aqui não temos carrinho de parada, minha querida aluna. Não usamos, dizia ela.
    Em 20 intermináveis minutos, ele morreu. Todos saíram do quarto e o corpo ficou la.  Sem pano por cima, sem nada. Sem rituais que vemos no cinema. Sem ninguém se importar. Só um paciente a menos.
    Me lembrei que ainda tinha um paciente para cuidar. Fui à enfermaria, peguei seus remédios e voltei ao corredor, o último paciente estava na última cela, no fim do corredor.

    Naquele dia, todos os presos que podiam andar, tinham ido pro pátio, pois o padre estava rezando uma missa.
    O corredor vazio. Luzes em diagonal entrando pelas janelas. O corpo do estuprador de olhos cor de coral. E meus passos. O corredor nunca parecera tão longo e os segundos tão eternos e etéreos. Tudo parecia em câmera lenta. Irreal.

    E eu ouvia a  ironia e a poesia do momento me desejando feliz aniversário.

    Escrito dia 22/03/2012 – Estou recuperando textos perdidos de outros blogs

  • Eu sempre adorei passear por aquela extensa e aberta avenida, sempre com seus carros rápidos e com pessoas de vários estilos. Sempre apressados, sempre muito urbanos. Ao mesmo tempo, por gostar muito de história, eu ficava imaginando como era a mesma avenida há 100 anos atrás, com suas charretes e lama, as pessoas, casarões…

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    Apesar desta imensa avenida, movimentada e cheia, sempre me refugiei no parque trianon. Ele, com suas formosas arvores, com as copas altas, formando quase um mundo à parte. Ao passar pelos portões, sempre me senti entrando numa outra dimensão, num outro sentido de vida. Era um ar mais suave, com cheiro de barro e flores, com barulhos de pássaros e insetinhos, com fontes de água com cara de leão.
    Na última vez que o visitei, descobri árvores de quase 400 anos.  Cheguei perto dela, olhei para a sua extensão, que quase se perdia no céu. Encostei em seu grosso tronco e tentei sentir os anos passando por mim. Seu cheiro já perfumou tantas gerações, sua sombra já viu tantas coisas. Imagine as histórias incríveis que ela tem pra me contar. Mas, vivemos em uma dimensão onde o tempo passa muito rápido, diferente do dela, o mais provável é que ela esteja, de fato, nos contando algo. Mas, nossos ouvidos nunca decifrarão tais palavras, expiradas de maneira lenta e longa.

    Esta noite, sonhei que haviam devastado o parque do Trianon. Cortado cada árvore. Cada arbusto. Cada suspiro. E, não me era permitido sofrer com meu luto, chorar ou reclamar, só ficar estática. Como ? eu perguntava. A sensação era de uma chacina, daquelas que você não pode apontar para os culpados pois se não, a próxima a ser cortada, seria você.
    Chorei em silêncio. Por tantos séculos.

    Escrito em 12/03/2012 – estou recuperando textos antigos de outros blogs

  • As Deusas Gregas como espelho de quem?

    ” Entre aquilo que se foi e o que será , ha sempre um hiato , uma brecha , propicia ao inesperado , à contingência da qual podemos fazer uso para que o sujeito não faça das condições de sua origem o seu destino . ” Francoise Ansermet

    Uma das questões que venho pensando muito sobre, é sobre nossa base, nossa ancestralidade, nossa história. Naquele sentido de, como chegamos até aqui? Quais as bases do meu pensamento? Quais são minhas raízes? Primeiro pensando de uma forma bem familiar.

    Vejam, eu sou brasileira, filha de uma mulher carioca e de um homem francês. Minha mãe é filha de uma baiana ruiva dos olhos claros, costureira, nascida no interior da Bahia, e de um português, vindo para trabalhar no brasil, tinha uma gráfica no rio. Meu pai, é filho de uma mulher típica francesa, de família nobre e de um romeno, escritor, jornalista e de família judia. Este foi pra França para arranjar emprego, fez parte da resistência francesa na segunda guerra mundial (sendo inclusive preso) e depois, ainda morou, com a família toda (esposa e seus 6 filhos) na Etiópia por 10 anos. Nunca conheci esses homens, meus avôs, morreram antes de eu nascer. Mas as mulheres eu conheci, fui criada pela avó baiana.


    Bom, seguindo, em termos de crenças e religiões, fui criada por mulheres em sua maioria: minha mãe, artista plástica, sempre estudando e conhecendo novas culturas, ja foi budista, me levava ao centro satya sai baba, me apresentou ao tarô mitológico, a astrólogos amigos, a geomancia e as artes. Minha tia e avó maternas sempre foram super carolas, católicas praticantes, rezavam todo dia às 6h e às 18h, tinham altar, iam a igreja de domingo, rezavam ajoelhadas, me batizaram sem o consentimento dos meus pais, e uma das grandes frustrações delas é porque eu não quis fazer a primeira comunhão.

    Meu pai, ateu graças a deus, sendo avô paterno rabino e pai “livre pensador”, apesar disso tudo, sempre acreditou em anjos e astrologia, afinal ele é pisciano. E a esposa dele, mulher indígena, me levava a centro espiritas e de umbanda, e sempre ficava curiosa pelas garrafadas que ela tinha cheias de arruda, mas que ela nunca falava o que era. Ah sim, estudei em escola francesa grande parte da vida. Sou branca, pobre grande parte da vida, mas com acesso a estudos.
    Assim eu fui criada. Qual a base? Muitas ! Como definir uma base ancestral no meio disso tudo? Acredito que meus estudos em espiritualidade e cultura também vem nesse sentido, é múltiplo.

    O tarô mitológico, que foi o primeiro oráculo que aprendi, tem como base a mitológica grega. Esta que serve como uma das grandes bases da nosso cultura ocidental. Embora ultimamente eu busque ampliar meu olhar e horizontes, lendo e aprendendo sobre pensamentos e cultura fora da colonial, acredito que é importante compreender nossas bases, para então desconstruí-la.

    A base colonial euro centrada é limitada, racista, misógina e carrega grande parte das chagas femininas . Sim, disso já sabemos. Mas essa parte precisa ser compreendida, olhada, ela que nos moldou de muitas formas. Eu não me considero cristã, mas carrego várias crenças dessa religião por uma questão cultural e familiar, como curar isso se eu não aceitar e reconhecer primeiro?

    Então, como base de estudos: os mitos gregos (pelo menos a parte que nos contam hoje, que não é completa) e também estudos de diversos teóricos com base Junguiana, e inclusive o próprio Jung, seguimos.
    Jung foi o primeiro a considerar a ideia do arquétipo de mãe que transcende a imagem materna individual. E também explora em seus estudos como os outros arquétipos femininos foram apresentados.
    Seguimos aqui através de livros relacionados aos estudos da psique feminina, de Jung, da alquimia, do tarô mitológico e da mitologia grega e também através da minha experiência pessoal e pratica terapêutica feminina.

    Que possamos olhar para essas deusas e reconhecer nossa identidade, mesmo que diluída, afim de concentrá-la novamente e poder transcender, transformar e curar. Solve e coagula.
    Qual a sua história? Quais as bases culturais e religiosas que te moldaram até aqui?


    PS- O livro ” A deusa interior. Um guia sobre os eternos mitos femininos que moldam nossas vidas” de Jennifer Barker Woolger e Roger J. Woolger servem de base inicial para o estudo das deusas.

  • ✨o Tarot Mitológico ✨ Amado e odiado entre os tarólogos. Eu, no caso, tenho uma relação familiar com ele, então amo mesmo, mas descobri que não é assim para todos.
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    Vamos ao básico para começarmos
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    Ele é um oráculo, com uma estrutura clássica de tarot. São 78 cartas distribuídas entre 22 arcanos maiores e 56 arcanos menores. Os arcanos menores se dividem em realeza, sendo 16 cartas e os naipes numerados, que são 40.
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    Os arcanos maiores são representados pelos DEUSES gregos. Então trazem uma esfera superior de consciência, que estão além do nosso domínio ou visão. Cada carta é um rito de passagem. São estágios e processos dinâmicos. Assim como os outros tarots, apresenta a jornada do herói em cada passo, como descrito por Joseph Campbell.
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    As cartas da realeza são os heróis, ou seja, a dimensão humana elevada. Cada carta conta a história de um herói, do início ao fim, como se mostrasse aquela pessoa e sua forma de lidar e ver o mundo. Existe também uma associação que não está explícita nos livros mas bem presente nas imagens, cada um representa um signo astrológico, os reis são os signos cardeais, as rainhas os signos fixos e os cavaleiros os signos mutáveis. Os pajens são a expressão pura e infantil do naipe ou elemento (ar, fogo, terra e água).
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    As cartas dos naipes numerados contam histórias de personagens bem humanos, com todas as nuances necessárias para a gente se identificar. Com deuses, heróis, erros, maldições, paixões e redenção. É um beabá de como lidar com cada área da nossa vida. Trazendo uma história para ilustrar a nossa própria caminhada, muitas vezes miserável, nesta terra. A cada número um movimento. E diferente da realeza, aqui é uma lição de vida em 10 passos e não uma carta sobre aquele herói em específico.
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    Ufa!
    Por hoje é isso. Gostou?
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  • O sopro inicial

    Começo este blog no propósito de compartilhar visões através do verbo. De contar histórias, de compartilhar reflexões e de abrir caminhos, mentes, visões e corações. Este propósito se dá por sentir, na minha própria jornada, o quanto é importante acessar mundos e voltar para contar.

    Eu já parei de fugir de mim mesma.

    Assumo: sou uma mensageira, trabalho com a transmissão de preciosidades que acesso nas minhas longas caminhadas entre os mundos. E são muitos mundos. Sempre disposta a mudar de caminho ou seguir por longos anos em um só. Sempre disposta a aprender, a ouvir, a cantar. Através do meu canto, incendeio ou encanto. Meio dragonesa, meio sereia. O sopro inicial que permite que o invisível se faça visível.

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