Uma Questão de Química, Legalmente Loira e The Marvelous Mrs. Maisel falam da mesma coisa, mas a partir de mulheres que, à primeira vista, parecem ocupar lugares opostos. Mas todas são geniais e você vai se identificar com elas. Sim. Deixe a síndrome de impostora pra fora dessa leitura, agora. Eu estou banindo ela. Ok. Respira fundo e vem comigo (se você não assistiu nenhuma das séries eu recomendo fortemente…..e obviamente tem um pouco de spoiler, mas isso não vai te atrapalhar em nadica).
Sobre as séries e filme e suas protagonistas:
Uma não vê sentido em se arrumar, em performar feminilidade, em cumprir o papel esperado.

Outra ama o rosa, ama o cuidado com a aparência, gosta de ocupar o lugar do feminino clássico.

A outra começa tentando ser a esposa perfeita, a mulher impecável, aquela que faz tudo certo.

E ainda assim, nenhuma delas escapa. Sim, de ser mulher. De ser diminuída e tratada como um objeto.
Não importa se você está dentro ou fora do padrão.
Não importa se você rejeita ou incorpora o feminino esperado.
Em algum momento, todas essas mulheres, todas nós, batemos no mesmo muro.
São vários muros na real.
O muro do abuso.
Da importunação sexual.
Do corpo tratado como objeto disponível.
Da inteligência questionada.
Da piada que diminui.
Do olhar que supõe menos capacidade, menos graça, menos potência, só porque é mulher.
Existe uma fantasia social de que seguir o sistema protege. Não protege. Existe outra fantasia de que sair do sistema resolve. Também não resolve.
O que essas histórias escancaram é que o problema não é o modo como cada uma performa o feminino, o problema é a estrutura que já decidiu que mulher é menor, é menos.
E aí vem a pergunta que atravessa todas elas:
se esse não é o lugar que nos dão, que lugar sobra para ocupar?
Parece que não sobra nenhum.
Parece que, se não aceitamos o lugar pequeno, estamos invadindo. Atrapalhando. Incomodando. Meu Deus, como eu escuto essa palavra nos meus atendimentos.
Como se não tivéssemos o direito básico de ocupar, de escolher onde cabemos.
E é aqui que algo muito importante acontece nessas narrativas, algo que não é romântico, é político e psíquico ao mesmo tempo.
Elas aprendem. Tomam consciência (a duras penas)
Elas se informam. Pegam livros, prestam atenção, buscam.
Elas dominam o campo. Assumem seus lugares.
A química, o direito, a palavra, o humor, o conhecimento do próprio corpo, tudo isso vira ferramenta de ampliação de espaço.
Não é só sobre carreira.
É sobre tamanho.

Quando uma mulher entende como algo funciona, o sistema jurídico, a ciência, o próprio corpo, ela não precisa mais pedir licença para existir ali. Ela passa a ocupar com propriedade.
Isso se conecta diretamente com o que eu vivi na humanização do parto, quando trabalhava como doula e quando comecei o movimento de humanização ao parto onde morava.
O que faltava ali não era coragem, nem desejo, nem força. Faltava informação real. Faltava saber como o corpo da mulher funciona, quais são os processos, quais são os direitos.
Não era intuição vaga, não era achismo, era informação real sobre o corpo da mulher, sobre o processo do parto, sobre direitos. E essa informação devolve algo que sempre foi nosso, a possibilidade de escolha. Escolher, que palavra poderosa. E saber nos permite isso.
Saber dá poder. Saber tira a mulher do lugar infantilizado. Saber nos permite assumir nossas escolhas, nossa vida, nós mesmas.
E tem mais um fio importante: essas mulheres não crescem sozinhas.
Elas se encontram. Elas se apoiam. Elas se espelham em outras mulheres. Elas compartilham o saber. Ao contrário do que sempre incentivam, de que estamos aqui competindo. Mulher, eu quero te ver ganhar sim, vou comemorar com vc!
No fundo, essas histórias falam da mesma dor antiga que ainda está viva. E as duas series que se passam nos anos 50-60, pioram a impressão de que nada mudou de lá pra cá. A ferida segue aberta.

A crença de que mulher pode menos. Mesmo quando o tempo passa. Mesmo quando o cenário muda. Mesmo quando a roupa é outra.
E talvez por isso elas toquem tanto. Porque mostram que não se trata de vencer o sistema sendo exceção, mas de abrir caminho para que outras mulheres também possam ocupar, com saber, com escolha e com verdade, o lugar que desejarem.
E isso, conversa diretamente com o meu trabalho.
Aprender sobre si.
Aprender sobre o corpo.
Aprender sobre emoções, sentimentos, vínculos, histórias.
Informação como ato de libertação, não como acúmulo, mas como possibilidade de vida.
No fim, não é sobre provar que somos capazes.
É sobre parar de aceitar um mundo que insiste em esquecer disso. É sobre parar de achar que somos menos, que somos bobas, que somos menininhas, que não podemos ter orgulho de assumir nosso poder, nossa inteligência, nosso lugar. Um mundo que está sempre nutrindo a síndrome da impostora. Sempre.
Hoje, o que mais me inspira nessas narrativas é isso, aprender, questionar, não me conformar com o que me diminui. Não aceitar tudo. Não aguentar tudo. Não agradecer pelo que me machuca. Cansada, sabe?
Questionar não é ingratidão. É cuidado. É dignidade. É um gesto profundo de amor por si. E talvez o caminho seja esse, reaprender a perguntar.
Reaprender a estranhar.
Reaprender a confiar no incômodo como bússola.
Porque nós somos capazes de muito mais.











