apresentação

A II Jornada Ciência, Tecnologia e Sociedade, realizada no âmbito do MALOCA, tem por eixo temático o debate sobre geopolítica do conhecimento, dependência e colonialidade na América Latina.  Em outras palavras, procuraremos aproximar, na Jornada, o Pensamento Latino-Americano em Ciência, Tecnologia e Sociedade (PLACTS) da perspectiva decolonial, por entendê-la como uma expressão teórica feita pelo Sul e para o Sul, especialmente voltada às temáticas mais pertinentes à América Latina.  O pensamento decolonial compreende o mundo através de suas interioridades, de seu espaço geográfico e de seus corpos dissidentes, numa denúncia contundente da modernidade ocidental e sua intrínseca violência colonial, colonialidade do poder e do saber.

Há cerca de quatro décadas, os argentinos Jorge Sábato, Natalio Botana, Amilcar Herrera entre outros deram os primeiros passos para uma reflexão crítica sobre a produção científica e tecnológica latino-americana, constatando o caráter dependente da Ciência e Tecnologias (C&T) locais. A dependência consistia, segundo eles, em reproduzir acriticamente as agendas de pesquisa e de ensino adotadas no Norte Global, mantendo a dependência econômica e política do Sul. Por estes motivos, a agenda latino-americana de C&T deveria ser substituída por uma política científica e tecnológica que atendesse às diversificadas especificidades regionais e às necessidades das maiorias e dos projetos nacional-desenvolvimentistas. Estas ideias que reverberaram em diferentes países latino-americanos inauguraram o que hoje chamamos de Pensamento Latino-Americano em Ciência, Tecnologia e Sociedade.

O bojo da questão levantada pelo PLACTS desde a origem, estava uma questão da geopolítica do conhecimento e a dependência das nações do sul em relação às do norte. O questionamento de Sábato, por exemplo, de alguma maneira anunciava as contribuições contemporâneas a ele que provinham dos teóricos da dependência, em sua grande maioria vinculados à tradição marxista de pensamento, que surgiu entre as décadas de 1960 e 1970, que ofereceu e ainda oferece muitas contribuições para compreender estas relações de subordinação, escancarando a inconsistência da visão etapista ou evolutivo-linear da CEPAL. Sob esta ótica se definiu um suposto “atraso” responsável pelos diferentes desenvolvimentos entre as ditas nações subdesenvolvidas do Sul e as desenvolvidas do Norte, isto é, uma mera questão temporal, necessária para a equiparação das diferenças entre as nações. O determinismo econômico encontrava correlato no pensamento científico e tecnológico, se expressando na crença de que os valores do Norte eram universais e o progresso tecnocientífico era, também, evolutivo-linear e neutro. Todos passaram a ser questionados pelo PLACTS.

Por sua vez, as recentes práticas docentes (aqui entendida no tripé ensino, pesquisa e extensão) dos/as pesquisadores/as integrantes do Maloca – Grupo de Estudos Multidisciplinares em Arquiteturas e Urbanismos do Sul têm sido fortemente embasadas pelo pensamento decolonial. O giro decolonial é bastante pertinente aos auspícios da UNILA, uma universidade pública pautada pela integração solidária dos povos do subcontinente, cujas demandas e estratégias devem ser necessariamente desenvolvidas com, para e a partir do Sul.

Nesse sentido, o diagnóstico de um desajuste da produção científica também é verificado entre os/as pensadores/as decoloniais. Boaventura de Sousa Santos aponta que a universalidade e pretensa neutralidade da ciência a configuram como um dos grandes instrumentos epistemicidas da modernidade, quando esta deliberadamente arrasa, marginaliza ou descredibiliza todos os conhecimentos não científicos que lhe são alternativos. A capacidade da ciência na construção de regimes de verdade e o privilégio epistemológico a que se arrogou nos últimos séculos construiu ou colaborou para aquilo que o autor designa por “monocultura do saber”. Para o sociólogo, esta é uma das formas mais poderosas de produção da não-existência, ou seja, tudo aquilo que está fora dos critérios de verdade da ciência moderna, é desqualificado, desprezado e invisibilizado de modo irreversível.

Se por um lado Boaventura de Sousa Santos nos ajuda a situar a produção científica dentro dos paradigmas da modernidade ocidental, Edgardo Lander demonstra a inserção política da ciência e da tecnologia e o Buen Vivir nos apontam caminhos interessantes para o necessário giro epistemológico. De outro lado, o debate pautado pelas tecnologias sociais, dentro do marco conceitual adotado pela Rede de Tecnologia Social – RTS apontam caminhos para aquilo que podemos designar de “virada tecnológica”.

Jorge Jover, a partir do PLACTS, tem defendido em seu trabalho o uso da expressão “tecnociência” para se referir à relação contemporânea inédita que se estabeleceu entre ciência e tecnologia. A ciência contemporânea se orienta cada vez mais a objetos práticos, a fomentar o desenvolvimento tecnológico e a inovação (no seio do mesmo modelo produtivo). A sociedade tecnológica tem colocado boa parte da ciência em função de suas prioridades.

Uma vez que a modernidade elegeu com exclusividade a Universidade como produtora de ciência, vale lembrar, nos 100 anos da Reforma de Córdoba, o quão distante estamos da democratização do ensino superior e suas instituições, da descolonização cultural, da autonomia e da popularização do conhecimento, pautas protagonizadas pelo movimento estudantil argentino em 1918. No caso específico do Brasil, os últimos cinquenta anos foram tensionados pelos constantes ataques à educação pública, gratuita e de qualidade, cujo marco do retrocesso remonta à Reforma Universitária de 1968, imposta pela ditadura militar, acirradas com a privatização da educação em avanço nos últimos anos. As perspectivas kantianas da razão e humboltianas da cultura têm sido rapidamente substituídas por preceitos basilares à eficácia de mercado. Neste sentido, as humanidades perdem verbas e espaço em detrimento dos saberes das ciências exatas, nomeadamente as engenharias e as novas tecnologias. O saber científico supostamente objetivo e neutro subsidia a formação de técnicos/as mais voltados/as ao aumento da eficiência e da eficácia, segundo padrões de medidas da produtividade capitalista, e cada vez menos aptos/as à reflexão crítica destes próprios padrões. O novo Marco Legal das Ciências, Tecnologias e Inovação (Lei 13.243) aprovado em 2016 acirra ainda mais este cenário, alterando drasticamente a forma de produzir e socializar conhecimento.

Este saber científico muitas vezes assume  uma visão determinista mesmo entre o pensamento de boa parte da esquerda, para o qual a questão tecnológica permanece pouco compreendida. Infelizmente, ainda hoje se verifica em terras latino-americanas esta produção científica-tecnológica mimética, servindo majoritariamente aos interesses do Norte e de empresas multinacionais. A crítica e questões formuladas pelo PLACTS permanecem atuais e convergentes, ao nosso ver, com o pensamento decolonial, o que justifica o fortalecimento desta perspectiva no bojo do PLACTS.

Defendemos, então, em diálogo entre o pensamento decolonial e o PLACTS, na mesma de direção que Andrew Feenberg, uma necessária filosofia da tecnologia, posto que os rumos da tecnologia e da ciência serão decisivos para o futuro da humanidade, momento em que as questões éticas e políticas tornam-se cada vez mais relevantes. Dito de outra forma, é fundamental uma revisão cognitiva da tecnologia e a promoção da democratização tecnológica e do seu ensino, um dos principais objetivos do debate proposto pela II Jornada Ciência, Tecnologia e Sociedade, alinhavados no subtema Geopolítica do Conhecimento, Dependência e Colonialidade na América Latina.