Não Levantes a Mão aos Meus sonhos.

Não levantes a mão aos meus sonhos, não lhes ensines a linguagem da dor. Já dormem debaixo dos céus medonhos, já crescem sem água, sem terra, sem flor. Não sabes que os fiz do que em mim foi ruína, do pouco que resta depois de perder, que cada esperança que em mim germina é um morto que eu nego deixar morrer. Há sonhos que nascem de um ventre ferido, de bocas fechadas, de gritos sem voz, há futuros inteiros num peito esquecido, há mundos que morrem antes de serem nós. ...

6 de novembro de 2026

Nunca desaprendi.

nunca desaprendi a abrir as minhas próprias portas, nem a encontrar caminhos nas estradas tortas, nunca desaprendi a pedir o que é meu, nem a reconhecer-me quando o mundo se perdeu. nunca desaprendi a amar-me, só porque tu também o fazias, nem deixei de encontrar-me só porque tu me encontrarias. foste luz a entrar pela janela, foste abrigo, foste primavera, mas não eras a casa, nem a morada, nem a razão de eu ser amada. ...

6 de novembro de 2026

Lend me something

lend me something I haven’t heard, a softer truth, a kinder word, a place to rest, a sky to keep, a dream that doesn’t lose its sleep. or let me leave, let me lose what I can’t keep, let me unlearn the shape of you, and all the things I thought were true. lend me something, or let me leave. I cannot keep on borrowing what was never mine to keep.

6 de novembro de 2026

Poesia Contemporânea

o que é poesia contemporânea? é o que dizes? e o que digo? é a palavra que te entrego ou o silêncio que não divido? é aquilo que escrevo ou aquilo que me escreve? é a verdade que escondo ou a mentira que me conhece? será poesia dar nome às coisas ou perceber que nunca soubemos nomeá-las? será encontrar respostas ou aprender a não procurá-las? é escrever sobre o amor sem nunca o ter compreendido, é falar sobre a ausência como quem nunca foi esquecido. ...

6 de novembro de 2026

Dependência de Aspeto

há qualquer coisa de muito errado na geometria desta sala. as linhas deixam de ser linhas quando o teu corpo as atravessa. o chão, que antes era chão, por ti suspende a gravidade, e o tempo, tão certo nos relógios, contigo perde a autoridade. não sei se é movimento ou uma forma de permanência, se és tu que atravessas a música ou a música que te inventa. há ângulos que não te favorecem, dizem, como se a luz não te escolhesse, como se a beleza fosse matéria de perspetiva e não de existência. ...

6 de novembro de 2026

Água mole em pedra dura

“água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.” há coisas que não cedem à primeira palavra. nem à segunda. há portas que aprendem a ficar fechadas só porque ninguém insistiu. mas a água não discute com a pedra. continua. gota atrás de gota, sem força suficiente para parecer força, até que um dia a pedra já não é a mesma.

16 de outubro de 2026

A Arte de Não Pedir

(ficção)

16 de outubro de 2026

Reds that burn

reds that burn blues that heal yellows that glow in ways you can feel but i look at myself and nothing stays every shade fades every hue strays i try them on like borrowed skin but they don’t settle they don’t sink in

16 de outubro de 2026

A stutter in casualty

I imagine free will the way I imagine fog thinking it invented the road. It moves forward, convinced the world is appearing because of it, unaware that the asphalt was always there, patient, waiting to be seen. Inside me, decisions don’t arrive as moments, they seep like mold in old walls, you only notice when something turns black. I say I chose, but what I mean is the accumulation finally tipped. The body already knew. The nerves had voted long before the mouth announced the result. ...

16 de outubro de 2026

i forget

i forget what follows forgetting. the moment after the blank doesn’t announce itself; it just arrives already present, like a stranger who claims to have always lived in my house. when i forget, i do not lose. i become rearranged. the absence finds a shape inside me, and i walk around carrying it, heavy as silence, soft as moss. i forget what follows forgetting. maybe its remembering, but bent, distorted, growing sideways like a plant in a dark room. maybe its another forgetting, a chain of vanishings that pulls me further inward, until even the idea of “i” is another misplaced thing. ...

16 de outubro de 2026